domingo, 8 de agosto de 2021

Sonata - 20 - Antivírus

 


A transição de governos em uma sociedade causa mudanças significativas no espaço geográfico. Com o novo governo, vem suas novas formas de manter a ordem e, principalmente, o poder. A opressão é a principal ferramenta de consolidação, principalmente se os cidadãos do governo anterior estavam acostumados a serem livres. Em Sonata, a opressão tem um nome: Polícia Corporativa.

Diferente das instituições de segurança pública do século 20, a Polícia Corporativa é uma instituição privada que age exclusivamente sob os interesses corporativos. É composta de diferentes batalhões de mercenários, forças particulares e tropas de choque. A segurança pública é posta em segundo plano enquanto que a segurança patrimonial é sua prioridade. Se as corporações são as bases da nova metrópole, a polícia são seus braços que a tudo alcançam.

Leis são um detalhe jurídico feito para os cidadãos comuns. Abuso e arbitrariedade são comuns sob o pretexto da manutenção da ordem.

Em uma sociedade onde a tecnologia finalmente atravessou as fronteiras da biologia humana, o sistema social é o Sistema Operacional e a Polícia Corporativa é seu Antivírus. As fábricas e comércios são softwares, e os trabalhadores e clientes são dados que – à medida em que envelhecem – transformam-se de bytes em Kbytes, de Kbytes em Megabytes e de Megabytes em Gigabytes, obedecendo à natural tendência de evoluir. Em uma cadeia incontável de servidores e discos rígidos, esses “dados” são inspecionados pelo Antivírus.

A função do Antivírus é prevenir, detectar e destruir os programas que ameaçam o sistema. Mas quem em Sonata questionaria a confiabilidade da polícia, o principal instrumento corporativo da metrópole? Se o Antivírus caça os vírus para eliminá-los, assim procede a polícia ao caçar as ameaças, agindo diretamente em seu foco antes que se tornem problemas maiores. Tudo está sob vigilância.

Na plataforma virtual chamada de Ciberespaço, os habilidosos hackers driblam as mais complexas barreiras – os firewalls – e disseminam seus vírus nas redes corporativas. Se adolescentes desocupados são capazes de ameaçar a rede metropolitana, quanto mais os insatisfeitos, os oprimidos e os sonhadores, ousados o bastante para ameaçarem a ordem com seu ativismo.

Talvez haja esperança para os ativistas, mas seu sonho poderá nunca se realizar se a Polícia, agindo como um Antivírus social, aparecer de repente e eliminá-los da metrópole como um mero vírus de computador.

 

§

 

O vídeo de Nathan está há três dias reproduzindo-se no ciberespaço. Database foi genial, ele hackeou todas as redes de notícias, suspendeu o sinal corporativo e transferiu o relato de Nathan, reproduzindo-o 24 horas por dia em um interminável loop.

O resultado foi o caos geral. As massas se rebelaram, os ataques terroristas se multiplicaram, as repreensões se intensificaram, mas, como todo governo parasítico que se recusa a deixar o poder, as corporações permaneceram intactas, sem o risco de perderem sua hegemonia.

A rebelião, a despeito do que as facções pensaram, não conseguiu depor o governo. Ela serviu apenas para extravasar a ira dos explorados, dos descontentes e dos ignorados. A ameaça do Protótipo #8 não foi o suficiente para mobiliza-los em uma única e sólida força contra as corporações.

Mas, ainda assim, muitos aderiram à luta.

Sentado no parapeito de uma megatorre, Vertigo assiste ao vídeo de Nathan sendo exibido pela milésima vez na fachada de um edifício. Laura, então, diz:

- Vertigo, precisamos ir.

Estava amanhecendo na metrópole. O ambiente contagiante e alegre não existia mais. Com o novo dia, os espaços públicos eram ocupados por uma multidão de baderneiros e revoltosos.

No horizonte ainda haviam dezenas de incêndios que insistiam em queimar. A proporção daquela violência era algo totalmente incomum, pois nem mesmo as facções conseguiram alcança-la. De fato, o caos provocado por Nathan havia transformado Sonata em uma zona de guerra.  

Vertigo e Laura se dirigem ao aerometrô. Vendo as paredes pichadas e os vidros quebrados, eles notam que os vândalos destruíram boa parte da estação. Ignorando as propagandas holográficas ao redor, Laura compra as passagens e os dois seguem para a plataforma. Observando-os com olhares frios e cruéis, Vertigo vê muitos policiais ao longe, mas nada acontece.

- Onde vamos descer? – pergunta ela.

- Vamos para o Terminal Cellgenesis, e de lá pegamos outro trem para o Terminal Electro Core.

O trem chega e eles o veem todo vandalizado também. As portas se abrem, mas não muito devido ao mal funcionamento. Então o trem prossegue viagem, passando por mais estações vandalizadas pelo caminho.

Eles descem no Terminal Cellgenesis. Dentro do salão pichado com buracos de bala nas paredes, eles trocam de linha e embarcam no trem para o Terminal Electro Core. No trajeto há distritos comerciais com magníficos prédios espelhados e circulares, o que deixa a paisagem muito agradável. Os runners ficam felizes ao ver que nem tudo foi destruído com a rebelião.

Aquela era uma nova paisagem para um novo mundo, onde as belezas naturais foram substituídas pelas artificiais. De certa forma, era uma compensação uma vez que as belezas naturais foram destruídas pelo próprio Homem.

Os dois desembarcam no Terminal Electro Core. A polícia observa o movimento, mas Vertigo preocupa-se com as metralhadoras acopladas no teto. Elas viram de um lado ao outro, procurando terroristas e criminosos. Se o hacker for detectado, as metralhadoras automaticamente atirarão.

Na plataforma há um painel touchscreen, mas sua tela está toda trincada devido ao vandalismo. O hacker então lê o mapa ferroviário. Percorrendo-o com a ponta de seu dedo, ele encontra o próximo destino.

O trem chega à plataforma e eles o adentram. Avançando pela linha, a paisagem altamente tecnológica é deixada para trás. Mais à frente aparecem as torres residenciais, revelando as consequências da rebelião. Haviam muitos incêndios e aerocarros destruídos, e barricadas bloqueavam a passagem nas passarelas e túneis.

- Laura, você acha que eu fiz certo apoiando o Database?

A garota se intriga.

- Do que está falando?

- Veja essas pessoas. Elas carregam em seus olhares a dor. Você acha que a informação de Nathan poderá, em algum momento, ajuda-las em sua situação?

Sem pensar a respeito, ela responde:

- Talvez. Eu procuro não pensar nisso.

- Mas e se o plano do Database funcionar e realmente houver uma revolução? Você acha que a população se libertará do sofrimento e todos poderão ser, ultimamente, felizes?

- É provável.

- Eu tenho medo de que o plano não funcione, de que estejamos conduzindo toda essa gente a um genocídio.

- Isso vai depender de quem quiser lutar e quem quiser obedecer. – responde ela, friamente.

- O que você acha, Laura?

O hacker insiste, tentando extrair dela um pouco de humanidade. Laura, porém, é incisiva ao responder:

- O que acontece aqui em cima não me interessa. Eu sou uma Runner, Vertigo. Isso é tudo o que eu tenho a dizer.

Desanimado, ele fica em silêncio.

Várias viaturas passam pelo trem. Os policiais estão afoitos, essa foi uma semana difícil para eles. Após a revelação de Nathan, muitos morreram com o alto índice de atentados terroristas pela cidade. Ponderando a respeito, ele comenta:

- Sabe com o que essa cidade se parece? Com um sistema de programas, antivírus e internet. Por serem funcionais, os programas são os cidadãos, o antivírus é a polícia e a internet são as corporações. Um pouco estranho, porém, é que os programas maliciosos, ou seja, os vírus, vêm da própria internet...

Tentando parecer amigável, a runner pergunta:

- O que quer dizer?

- Quero dizer que os Runners, a superfície e as facções são subprodutos das próprias corporações. Um vírus como consequência de sua opressão. Mas – continua ele, falando empolgadamente – com a revelação de Nathan, os jogadores trocaram de papeis, estando nós dispostos a uma nova condição.

Intrigada, a runner pergunta:

- Qual condição?

- Se Sonata é o sistema e as corporações são o vírus, nós – os runners – somos o Antivírus.

Laura ri. O hacker é bastante inteligente e criativo, imaginativo como uma criança. Então, com olhar amigável, ela toca sua mão e responde:

- Vertigo, você deveria escrever um livro.

 

 

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Shenzhou Wénzi - 17 - O Nascimento de Uma Estrela Morta

(Artista desconhecido) Dias se passam. Yang é mantido em um recinto com sofá, mesa e televisão. Não era bem uma cela, mas uma confortável sa...