Nathan caminha
pelos porões do bunker. Os runners estão felizes e comemoram a nova aliança entre
a 4 de Julho e o Submundo. Eles sabem que, quanto mais forte for seu poderio
militar, mais rápido acabará a rebelião. Eles
parabenizam o rapaz, que sorri e bebe alegremente o champanhe com seus
companheiros.
Enquanto
comemora, Nathan vê ao longe Laura vestindo seu uniforme. Ela veste suas botas
e deixa o salão, dirigindo-se a um quarto particular. Afastando-se, o rapaz
deixa a festa e discretamente a segue pelos corredores.
Parando em frente
à porta, ele a encontra amarrando sua bolsa de perna. Um pouco sem jeito,
Nathan pergunta:
- Vai a algum
lugar?
Laura então vê o
rapaz parado ali. Com seu jeito frio e indiferente, ela responde:
- Sim.
O rapaz nota a
frieza da garota. Inexperiente com as mulheres, ele sempre fracassa ao tentar
uma aproximação com Laura, pois nunca sabia como iniciar uma conversação.
- Ok. – responde
ele – Você ficou sabendo? A 4 de Julho aceitou uma aliança com o Submundo.
O rapaz é
persistente. Fazendo-o um olhar de que era óbvio o que ele dizia, ela responde:
- Estão todos
falando disso, Nathan.
Outro fracasso. O rapaz se lamenta por dentro.
- Você acha que a
rebelião terminará mais cedo com a aliança?
Nathan apela para
uma conversa tática e logística, tentando fazê-la se interessar.
- Talvez.
Então ela emudece
novamente, continuando a se vestir. Sem se desanimar, o rapaz tem outra ideia.
- Gostaria que a
rebelião terminasse logo. Muitas famílias estão sofrendo com isso.
- É verdade.
Laura não comenta
nada, o apelo emocional não funcionou. Dessa vez, Nathan tenta uma abordagem
mais pessoal.
- Você sabe... Eu
gosto muito da sua personalidade. Séria e objetiva, tão diferente dos outros
runners brincalhões que eu encontro aqui.
O rapaz sorri,
tentando parecer amigável. A garota responde:
- Obrigado.
Pensando rápido,
ele faz uma pergunta aleatória.
- Qual é o seu
signo?
A garota parece
estranhar a pergunta.
- Aquário. –
responde ela.
-Hmm... uma
aquariana? O meu é...
Prevendo que ele
ia responder sem tê-lo perguntado, Laura o interrompe dizendo:
- Desculpe, Nathan,
mas eu tenho que ir.
O rapaz abaixa
sua cabeça, respondendo:
- É claro.
Laura pega mais
alguns objetos e dirige-se até a porta. Ainda de cabeça baixa, Nathan se encosta
no batente e lhe abre passagem. Ele não parecia que ia falar algo, mas a
interrompe mais uma vez:
- Quando eu era
criança, eu costumava jogar um vídeo game no orfanato. Era um desses games
antigos e pixelados em que você passava de fase e, no final, enfrentava o chefão.
De fato, era um game muito cativante e divertido. Entretanto, havia algo no
protagonista que me chamava a atenção. Enquanto o herói avançava pelas fases,
seu rosto fazia uma expressão de tristeza, mas não havia nenhum motivo para ele se sentir. Sua saúde não estava baixa, não havia nenhuma armadilha, ele
simplesmente... Se entristecia. Nunca soube por que os programadores colocaram
isso, mas sempre tentei compreender por que, tão ocasionalmente, ele sofria. –
suspirando, o rapaz continua – Eu tentava compreender a sua dor. Minha
imaginação, embora infantil, chegou a uma conclusão a respeito. O herói
combatia os inimigos, enfrentava o perigo e derrotava o vilão, mas a luta, o
heroísmo e a glória de salvar o mundo não lhe dava satisfação. O herói
estava triste porque era sua obrigação lutar. Ele estava triste por que não
tinha outra escolha. Naquele mundo cheio de violência e perigos, essa era a sua
função. Matar ou morrer, atirar ou ser morto... Em lamentação o herói percebe que
o cano de sua arma jamais se esfriaria.
Pensando que o
rapaz havia terminado, a garota não sabia o que responder. Então ele continua:
- É assim que eu
me vejo hoje, Laura. O herói de uma multidão que
não tem outra opção senão lutar. E essa luta, essa violência extrema que
consome tantas vidas, só vai parar se o herói continuar a sua luta, mesmo que a
tristeza o acompanhe pelo caminho.
Nathan então se
cala. Um pouco intrigada, a garota pergunta:
- Por que está me
dizendo isso?
- Para te relembrar
das motivações do Submundo. Eu sei que você é independente e não compartilha de
nossa causa, mas lhe revelando como eu me sinto, talvez você reconsidere e se
lembre de que as pessoas lá em cima precisam de nós.
Surpreendendo-se,
Laura pergunta:
- Então é por
isso que fez todo esse discurso? Para eu me juntar ao Submundo?
- Não, Laura. –
responde ele, de imediato – Foi para ficar comigo.
Com a inesperada
resposta, a garota arregala os olhos. Nathan olha fixamente para ela,
totalmente certo e seguro do que queria. Laura, porém, lhe dá as costas e vai
embora, deixando o bunker.
Ao ver o amor de
sua vida novamente partir, o coração de Nathan sente dor.
§
Na noite
seguinte, Laura está sentada no terraço de seu prédio observando a superfície
lá embaixo. Aquele era um local importante para ela, pois ali ela se reunia com
seu grande amigo Vertigo. Enquanto bebiam vinho, ambos conversavam ali por horas.
“Vertigo”, pensa
ela. “De hacker brilhante a um rebelde violento. Como o tempo muda as
pessoas”. Refletindo sobre aquela conturbada semana, a garota percebe que nunca terá sua amizade de volta. Vertigo era um homem obstinado e convicto de
suas crenças malucas. Ele jamais abriria mão de contribuir com algo
que comprovasse suas teorias da conspiração.
Enquanto
amadurecia, a garota amargamente reconhecia que as inclinações e escolhas
separavam as pessoas. Dali por diante, a presença do fantasma da solidão em sua vida seria
constante.
“E quanto a
Nathan?”, pensa ela. “O Inimigo de Estado”. Laura não entende por que ele tanto
a corteja, mas ela não quer entender. Incapaz de lidar com algo tão complexo
como os sentimentos, ela prefere evita-los ao máximo e, sempre que possível, fugir. E afastando o rapaz de seus pensamentos, ela fugia mais uma vez.
A hora de trabalhar
se aproxima. Laura se levanta e sobe para os níveis superiores.
Três horas
depois, a garota chega ao distrito Crystal, Setor Q. Database queria algo
fácil, o serviço envolvia uma simples busca de documentos das mãos de um
contato infiltrado na corporação Hoverdrive. Seu chefe desconfiava que a
corporação estava desenvolvendo uma nova aeronave de combate, mais avançada e
versátil, capaz de se infiltrar nos sinuosos ambientes da superfície.
Qualquer runner
poderia realizar aquele serviço, mas Database escolheu Laura. Talvez ele só
confie nela agora. Vertigo era mais confiável, mas se deixou levar
por seu delírio conspiracionista.
Escondido em um
túnel de serviço, o contato avista a garota e acena. Ele veste um capuz,
escondendo seu rosto, mas Laura pode ver que seus olhos são cibernéticos. Sem
dizer uma palavra, ele lhe entrega uma pasta, que Laura
rapidamente guarda em sua mochila. Finado o encontro relâmpago, o contato olha
para ela e diz:
- Até breve.
E então ele lhe dá
as costas e vai embora, caminhando apressado pelas poças d’água e pelo vapor.
Voltando à
superfície, Laura caminha pelo Submundo. Em sua sala particular, o chefe
averigua alguns papéis quando a garota chega. Cumprimentando-o, Database
pergunta:
- Você trouxe os
documentos?
A garota não
responde. Após tantos anos trabalhando juntos, era óbvio que sim.
A pasta continha
um selo corporativo. Database a abre e folheia os arquivos minuciosamente.
Satisfeito, ele abre uma gaveta e lhe entrega um envelope de
dinheiro.
- Aqui está.
Obrigado pelo serviço, Lótus.
- Laura. –
corrige ela.
A porta do bunker
se abre de repente. Assustados, os dois correm até a entrada para ver. Um
runner todo sujo e ensanguentado suspira de exaustão e dor. Vendo Database, ele
informa:
- Chefe, os
Trans-humanistas... Eles capturaram o Inimigo de Estado!
Database não
consegue acreditar no que ouve.
- O que você
disse?
- Nathan... Eles
o pegaram!
- Como isso
aconteceu? – pergunta ele.
- Estávamos na
sede dos Trans-humanistas. A negociação fracassou, nunca era para ter uma
negociação. Aquilo foi uma armadilha!
Lamentando-se,
Database pergunta:
- Nathan está
bem? Eles o feriram?
- Eu não sei.
Apenas eu consegui fugir. Todos os outros foram capturados...
- Todos?! –
surpreende-se ele.
Lembrando-se de
seu amigo, Laura então pergunta:
- Inclusive
Vertigo?
Tossindo, o
runner responde:
- Sim...
Ainda planejando
como irá reagir, Database olha para a garota e pergunta:
- Ei, Laura!
Aonde você vai?
Caminhando até a
porta, ela responde sem olhar para trás:
- Vou buscar o
meu amigo.

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