domingo, 1 de agosto de 2021

Sonata - 04 - Táxi!

 


(Imagem do game Flashback remake)

Nathan deixa a câmara holográfica e caminha para fora do recinto. Vendo as demais câmaras no corredor, ele ouve os outros clientes lá dentro se divertindo. Aquelas pessoas – sobretudo homens – pagam para ter suas fantasias sexuais realizadas pela ilusão holográfica. O rapaz se difere delas, pois apesar de frequentar aquele ambiente tão obsceno, ele não se compara àqueles pervertidos. 

Saindo pelo túnel, ele vê cafetões e prostitutas pela calçada. Um deles, vendo que Nathan acabara de sair de uma casa de hologramas, se aproxima e diz:

- Ei, garoto, você parece desanimado. Os hologramas não conseguiram te satisfazer?

Sem olha-lo nos olhos, o rapaz responde:

- Não foi para isso que eu vim.

- Não seja igual a esses perdedores, cara. Venha para a minha casa noturna, ela está no 54° andar dessa mesma megatorre. Lá você encontrará as melhores mulheres – ou homens, se preferir – que você já viu. E, principalmente, todos de verdade igual eu e você.

- Não estou interessado.

Ao dizer isso, outro cafetão ouve sua resposta e vem promover seus serviços também.

- Eu já entendi, você tem gostos peculiares, não é? Ou é demasiado inseguro ao se relacionar com uma mulher? O que aconteceu? Sua mãe te bateu muito quando era criança?

Então Nathan se irrita.

- Me deixe em paz.

- Não precisa ser tímido. O tipo de mulher que você gosta está entre a real e a holográfica. Eu tenho o que você precisa: androides! – exclama ele, como se fizesse uma tremenda descoberta – Elas são demais! Não reclamam, não têm dor de cabeça, não pedem filhos, não confiscam salários, não te dão um chute no saco ao se fazer uma investida... Minha casa noturna está no 49°. Eu te levo lá, você vai gostar do que vai ver.

O túnel inteiro tinha esses profissionais do prazer, cada um com uma propaganda mais indiscreta que a outra. Haviam mais cafetões promovendo serviços na entrada do aerometrô. Prevendo que sua viagem de volta seria muito desagradável, ele desiste de pegar o trem e decide chamar um táxi.

Desviando-se do seu caminho, ele deixa aquela parte do distrito Skyline e entra em uma cabine telefônica. Ao digitar o número, a tela do vidphone se acende. Um homem aparece olhando para frente enquanto dirige.

- Taxista, pode me pegar no Skyline, por favor?

O homem então olha para a tela e responde:

- É claro, amigo. Encontre-me no ponto de aero-ônibus à beira da megatorre.

Encerrando a chamada, a tela se escurece.

Na plataforma ao lado da megatorre, ele espera pelo táxi. Pessoas se aglomeram na plataforma, esperando para pegar os aero-ônibus que passavam ali. Os aerocarros voam de um lado ao outro, em diferentes níveis sem nunca perderem o senso de direção. De repente um aerocarro amarelo surge e buzina para a plataforma. Nathan rapidamente adentra o veículo, sentando-se no banco de trás. Ele ia dizer o destino quando vê outro homem sentado ao seu lado.

- O que é isso? – pergunta ele – Eu estou no táxi errado?

- Desculpe-me, senhor. Estamos com poucos aerocarros no trânsito. Com esses atentados terroristas, muitos estão com medo de trabalhar.

Guardando para si o incômodo, ele assente e então diz:

- Leve-me ao distrito residencial Verdun, ao lado de Autremont.

- Sim, senhor. Mas antes deixarei esse cidadão no distrito industrial Phalanx, se não se incomodar.

Nathan responde:

- Não pode me deixar primeiro?

- Desculpe-me, senhor. Esse passageiro estava aqui antes.

Não existe mais privacidade em Sonata, não existe mais paz. Os que se isolam ficam em seus apartamentos, escondidos e a salvo do mundo caótico lá fora.

O táxi se movimenta e se alinha às vias virtuais do espaço aéreo urbano. Contrariado, Nathan se cala e pretende ficar em silêncio o tempo todo. Então o outro passageiro pergunta:

- Você trabalha nas corporações?

O rapaz olha para o homem. Ele tem um rosto pálido e bem barbeado. Seus olhos são negros, como se demonstrassem vigilância. Estranhamente, ele veste um casaco volumoso demais para um dia quente como aquele.

- Sim.

- Bio Prótesis...?

- Electro Core.

Assentindo, ele faz outra pergunta:

- Sua escolaridade é de nível superior?

- Sim.

- Meus parabéns. Nem todos têm condições para estudar em uma faculdade hoje em dia. E esses que não conseguem, como posso chamá-los... Inaptos e desafortunados... Acabam trabalhando o resto de suas vidas em serviços braçais pesados, obrigados a implantarem biopróteses em seus corpos, braço por braço, perna por perna, até sua verdadeira essência orgânica desaparecer em degradantes linhas industriais de produção, corroídos pelo estresse e pela dor até o dia em que morrerem.

Com a estranha reposta Nathan vira sua cabeça, terminando a conversa.

- Muito prazer. – diz o homem, estendendo sua mão.

Nathan estende a sua, exibindo seu braço biomecânico. O homem o vê e faz uma expressão de repugnância.

- Você é jovem e, por trabalhar nas corporações, devo deduzir que é inteligente também. A organização da qual faço parte se beneficiaria muito de novos recrutas como você.

- Recruta? De que organização está falando?

- Nossa organização acredita que o uso prolongado de próteses e implantes causam um efeito neural nocivo no usuário, lhe enfraquecendo a razão. Esses chips destroem o usuário. O corpo e a mente se acostumam com sua presença cada vez mais fundamental. O organismo não mais os rejeita, ao contrário, os aceita. É um processo simbiótico lento e silencioso, muito mais forte do que qualquer droga.

- Está dizendo que implantes bioprotéticos que curam pessoas e salvam vidas são... Simbióticos...?

- A fusão fisiológica funciona melhor se o usuário acreditar que, de fato, os implantes possam ajudá-lo. Desse modo, a manipulação será completa.

- Cegos enxergarem, surdos ouvirem e cadeirantes andarem é prejudicial para sua organização?

- A escravidão é um preço justo a se pagar?

- Somos escravos?

- Você trabalha em uma corporação, não trabalha?

Então Nathan se cala.

O táxi voa pela metrópole, até as bonitas torres urbanas mudarem para as robustas tubulações industriais.

- Você conhece o distrito industrial Phalanx do qual estou indo?

- Não.

O rapaz conhece. Fica no Setor K, ao lado do famoso muro de Contenção que rodeia a metrópole.

- Nesse setor estão alguns daqueles que te falei, os trabalhadores braçais robóticos, meio humano, meio máquina, condenados a morrer aqui.

- Acho que você está exagerando.

- E também estão... – prossegue ele, ignorando o rapaz – Aqueles manipulados, expostos demais à lavagem cerebral dos implantes. Graças à destruição de uma antena da Cybersys instalada recentemente, o acesso corporativo foi liberado e conseguimos rastrear o local onde eles se escondem. Eles são a escória, o câncer do novo mundo, a última ameaça que deve ser destruída.

- Destruir os trabalhadores? Essa discriminação realmente lhe faz sentido?

- Ah não, meu jovem. Acho que não fui claro. O trabalho deles não é produzir para essa podre sociedade corporativa. Eles não veem o dano que os implantes cibernéticos causam... Eles o defendem.

Então o homem abre seu casaco e retira uma pistola de sua cintura. Nathan se apavora. O homem tem um cinturão de bombas ao redor de seu corpo.

Apontando a arma para a cabeça do motorista, ele diz:

- Desça o aerocarro ao galpão dos Trans-humanistas!

Assustado, o motorista responde:

- O quê?! Que galpão dos Trans-humanistas? Eu não sei do que está falando!

- Então eu mesmo dirijo até lá... – o homem destrava sua arma.

- Espere! Está bem, eu faço o que você quiser, mas não atire!

O motorista conduz o aerocarro pelas tubulações e chaminés. Há alguns galpões nas estruturas de concreto, mas o motorista não fazia ideia aonde estava indo.

- Depressa! – grita o homem.

Nathan está paralisado. Agora ele consegue ver bem o terrorista. O homem não tem nenhum membro bioprotético, era como se seu corpo fosse puramente feito de carne e ossos, uma raridade hoje em dia. É então que Nathan percebe. Definitivamente o homem era membro de uma facção radical e violenta de Sonata, a sanguinária Resistência Purista.

O motorista vira bruscamente o volante, fazendo o terrorista se desequilibrar. Em um piscar de olhos, o motorista o ataca e tenta arduamente desarmá-lo. Nathan está apavorado e não sabe o que fazer. O aerocarro está desgovernado e voa perigosamente entre as vias e os prédios próximos. A arma do homem dispara, fazendo vários buracos na lataria do veículo. Como se tudo aquilo fosse um pesadelo ou um filme ruim, o motorista agarra as mãos do terrorista e tenta apontar a arma para o seu queixo. O aerocarro bate em alguma coisa e o desconcentra. Agora o terrorista força suas mãos e tenta mirá-la de volta ao motorista.

O aerocarro bate novamente. Nathan ouve um disparo. O motorista é baleado no peito e cai no banco da frente. O terrorista se inclina sobre o banco e tenta pegar o volante. As bombas em sua cintura balançam, Nathan vê que são dezenas de granadas de mão. Sangue escorre para os pés do rapaz quando ele ouve:

- Ei, babaca.

O terrorista olha para baixo e vê o motorista segurando um pino. O homem se desespera. Enquanto está distraído, Nathan aperta um botão no painel e as portas se abrem. Em um momento muito improvável de coragem de quem quer sobreviver, Nathan empurra o terrorista com os pés, chutando-o para fora do veículo. O homem é lançado para fora, mas consegue se segurar na abertura da porta. Nathan se surpreende, os segundos antes da explosão estavam demorando demais!

Reunindo suas forças, o motorista se levanta e pisa na mão do homem, esmagando seus dedos. O terrorista grita e se solta, caindo descontroladamente pelo elevado céu de Sonata. Nathan olha para fora e vê o homem caindo, estranhamente ele parece sorrir. De repente vem a explosão, reverberando o ar e desmembrando seu corpo “puro e imaculado pela simbiose das máquinas” em milhares de pedaços.

Respirando aliviado, ele sente algo incomodar seu joelho. Nathan olha para o banco e vê outra granada, e o pino estava ausente. Pulando para o banco do motorista, ele grita:

- Proteja-se!

O impacto da explosão é fascinante, quase alucinógeno. O rapaz perde a audição, o tempo parece desacelerar-se. Entre longos e confusos segundos, ele vê o fogo queimar o estofado e parte da lataria se soltar do resto do veículo. E, paradoxalmente, tudo isso parece tão... Pacífico.

A audição e o tempo voltam lentamente ao normal, acompanhados de uma terrível dor física. Nathan olha para o que sobrou do para-brisa e vê o colossal muro de Contenção se aproximando. No muro está escrito: “Limite da cidade. Volte”. Puxando firmemente o volante, o aerocarro começa a subir, aproxima-se perigosamente da muralha. Nathan tem a impressão de estar escalando a barragem de uma usina hidroelétrica, algo extinto nos dias atuais.

O aerocarro chega ao topo, mas, esgotado após o esforço, começa a cair novamente, desta vez no outro lado da Conteção. Acima do muro ele vê uma avenida estreita e deserta, com arame farpado em seu entorno. Nathan treme. Seu corpo está inundado de adrenalina e surpresa, o que ele vê diante de seus olhos é inacreditável!

“O mundo exterior é real!”, empolga-se ele.

A fronteira entre mundos, o abismo entre a vida e a morte, Nathan se sente um deus vendo o inferno abaixo de si, sentado em seu trono flutuante no Paraíso. A cidade cinzenta, arruinada e morta, os restos da antiga metrópole que pulsava vida séculos atrás. A mesma cidade rica e populosa que hoje abriga na escuridão memórias amargas de um passado glorioso.

O aerocarro desce rapidamente. A paisagem vai se definindo quando ele vê prédios arruinados envolvidos por uma fina camada de neblina. Nathan sente medo ao ver que todos os lugares são escuros e vazios, nada convidativo naquele lugar tão inóspito.

Caindo em uma rua, ele bate sua cabeça com o impacto, desmaiando imediatamente em seguida.

 

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