sábado, 21 de agosto de 2021

Sonata - 41 - Conspiração Contra os Conspiradores

 


De volta ao Submundo, Nathan e Vertigo conversam com Database. Olhando para o monitor, o rapaz vê o líder da 4 de Julho, o General Washington, agradece-los pelo pagamento. O general pergunta:
“Espero que meus canhões tenham funcionado bem”.
Database responde:
- Eles funcionaram. O templo da Bushido ficou em ruínas.
Sorrindo, o general diz:
“Ótimo. Fico feliz em saber que meu equipamento fez Tokugawa sofrer”.
- Os canhões não te farão falta no futuro, general?
“Não”, responde ele. “Os samurais precisavam desse pequeno acerto de contas depois do que nos fizeram há um ano. Estou muito satisfeito”.
- Agradeço sua cooperação. Até a próxima.
“Até a próxima, Database. Foi um prazer fazer negócios com você”.
Nathan se felicita. O plano deu certo, os samurais caíram na armadilha. Utilizando o equipamento dos americanos, eles secretamente instalaram canhões no território da Bushido. Dirigindo viaturas roubadas e vestindo-se de policiais, os runners os enganaram perfeitamente. Obtendo o sucesso, os samurais se aliaram ao Submundo, juntando-se à sua causa.
Database os parabeniza. Animado, ele os oferece seu refinado uísque.
- Tiveram problemas para convence-los? – pergunta ele.
- Não... – responde Nathan, sarcasticamente – Eu quase perdi a cabeça, mas fora isso, foi tudo bem.
- Sabíamos do risco. Como você mesmo disse, precisamos do apoio da Bushido. Sem eles, a rebelião se prolongará.
- Eu quase fui decapitado.
- Pensei que já estivesse acostumado a arriscar a sua vida... “Salvador de Sonata”. – diz ele, referindo-se a sua irresponsável ida para a Cúpula Corporativa.
Vertigo comenta:
- Os samurais se aliaram a nós. Com eles, agora poderemos montar uma melhor estratégia.
- Falando em estratégia, como você convenceu os Trans-humanistas a se aliarem a nós, Vertigo?
Confuso, o hacker responde:
- Convencer? Eu não os convenci, eles decidiram se aliar por si mesmos.
- Simples assim?   
O chefe não acredita nele, não importa o que ele diga.
- Sim.
- Mesmo após a explosão de uma bomba em seu território, destruindo o terraço inteiro de uma megatorre, ainda assim eles decidiram se aliar?
Desta vez, é Vertigo quem desconfia.
- Foi você quem detonou a bomba, Database?
- Não. – responde ele – É claro que não. Os mecanicistas já têm inimigos o suficiente para fazer isso.
Então a desconfiança se torna mútua. O hacker diz:
- Vocês querem saber o que isso me parece? Que nessa teia de esquemas e favores, segredos e mentiras, nos assemelhamos ao nosso inimigo. Que atrás dessa cortina de ideais revolucionários e causas ideológicas, abandonamos nossos princípios e valores pelo único objetivo de vencer. É claro, as corporações têm um plano hediondo, mas nós também adotamos seus métodos, agindo da mesma maneira obscura e egoísta. Concluindo, entre nós mesmos tramamos conspirações, para ultimamente combater os conspiradores.  
As palavras de Vertigo são verdadeiras e os fazem refletir. Entretanto, Nathan interrompe a reflexão para dizer:
- Eu não me importo quem conspire desde que a rebelião termine.

§

Após a reunião, Nathan deixa o Submundo. Sentado em uma plataforma entre os prédios, ele bebe seu refrigerante. As ruas lá embaixo fazem barulho, irritando seus ouvidos. Aquela era mais uma noite típica na superfície.
Ocupado em seus pensamentos, ele ouve alguém se aproximar. Incomodado, ele não se dá ao trabalho de virar sua cabeça para ver quem era. Naquele momento ele não queria ver ninguém. Mas, para sua surpresa, não era qualquer pessoa que se aproximava.
- Laura...?! – espanta-se ele.
Sentando-se ao seu lado, a garota responde:
- Olá, Nathan.
De todos as pessoas, dos níveis superiores à superfície, Laura era a última que ele esperava receber pessoalmente.
- Laura... Por que você está aqui?
- Não por um bom motivo, eu devo dizer. – adianta-se ela.
- Você sabe que eu estive te procurando por todo esse tempo, não é? Por que você não respondeu às minhas ligações? Por onde você esteve?
A garota sorri. Em seu olhar ela diz: “você realmente acha que eu vou lhe dizer?”.
Mudando de assunto, ela pergunta:
- O que ouvi dizer sobre você é verdade?
Nathan se confunde.
- O que, exatamente?
- Quando esteve com os Clérigos do Recomeço, você realmente cometeu um atentado terrorista?
Pego desprevenido, o rapaz responde:
- Não! Não verdade, eu não sei. Eu fui enganado, me persuadiram a participar.
- Está dizendo que eles te persuadiram a participar de um atentado terrorista covarde, detonando uma bomba em um hospital cheio de inocentes? – pergunta ela, acusando-o.
- Mais ou menos. Quero dizer, não foi isso o que me disseram a princípio.
Mas quanto mais Nathan se explicava, mais ele se complicava em suas respostas. Laura, porém, era implacável em acusa-lo.
- Então te disseram que você iria detonar uma bomba, mas não onde?
- Algo assim.
- Não consigo acreditar que você fez isso, Nathan. Logo você, com seus discursos filantropos e altruístas, cometendo um atentado terrorista?
- Eu já disse que fui enganado! Eu não tinha a intenção de detonar bomba alguma.
- Tinha sim, você só não sabia onde os clérigos a detonariam.
Então o rapaz se cala. Laura continua:
- Até onde você está disposto a ir para acabar com a rebelião, Nathan? Você realmente quebrará todas as regras para trazer a paz, adotando as táticas sujas das facções terroristas?
Irritando-se, o rapaz responde:
- Espere um pouco! Eu não sou nenhum terrorista imoral!
- Mas você traiu seus valores e princípios. Na verdade, sua única conduta agora é aquela que o ajuda a vencer a rebelião.
Nathan estava se cansando. Não foi daquele jeito que ele esperava reencontrar Laura. Entretanto, apesar de todos os acontecimentos, o rapaz ainda se justificava em prol da salvação de Sonata. Ele se defende dizendo:
- Mas, antes de mim, você também se aliou à Resistência Purista. Na verdade, achei muito suspeito uma bomba explodir no território dos mecanicistas após eles sequestrarem o Vertigo.
Insinuando que Laura tivesse algo a ver com aquilo, ela responde:
- Por acaso está insinuando que eu explodi uma bomba no território deles?
- Você se aliou aos puristas para salvar o seu amigo, lembra-se? Após o sequestro de Vertigo você falhou em encontra-lo. E, de repente, uma bomba se explode no território de seus arqui-inimigos. Eu disse que achei isso muito suspeito, mas não a acusei de nada. Isso quem faz é você.
Então Laura se irrita também.
- Você é muito patético se pensa que vai me enganar com suas suposições, Nathan. Você é irresponsável em tudo o que você faz. Primeiro o Vertigo é sequestrado, depois você comete um atentado e agora você retorna de uma incursão suicida na Cúpula Corporativa no meio de uma manifestação violenta. Eu tenho pena de você.
O rapaz retruca:
- Tenha de si mesma com sua limitadíssima visão sobre tudo. Além de você, o Vertigo também fez uma aliança obscura com os facciosos. Vá lá e pergunte a ele como ele conseguiu convencer os Trans-humanistas a se aliarem a nós depois de terem sua base invadida e seu território explodido. Duvido que ele vá responder.
Agora Nathan insinua desconfiar de Vertigo. Sem querer admitir, ela compartilha dessa sensação também.
Após um minuto de desconfortável silêncio, a garota finalmente pergunta:
- Você detonou aquela bomba sim ou não?
Pesaroso, o rapaz responde:
- Sim.
- Isso é tudo o que eu queria ouvir.
Laura, então, se vira e vai embora. Nathan não vai atrás dela, ao invés ele diz:
- Eu fiz de tudo por você, Laura. Me humilhei, me arrastei e até sangrei para você gostar de mim. Mas você nunca me deu valor. – com lágrimas em seu rosto, ele conclui – Pode ir, fique em paz, não precisa se esconder dessa vez. Eu não irei mais em sua casa procurar por você.
As palavras machucam a garota, mas, orgulhosa demais para se virar, ela continua seu caminho. Nathan fica ali, sentado e chorando sozinho. Vendo a lata de refrigerante ao seu lado, ele a joga furiosamente no beco abaixo, triste por ver o amor de sua vida partir.
Escondida em uma plataforma mais adiante, a garota olha para trás procurando por Nathan. Ao vê-lo chorando à distância, lágrimas se formam e ela chora pelo rapaz também.

  

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