sábado, 14 de agosto de 2021

Sonata - 31 - Retribuição

 

(Imagem do jogo Killzone 4)

Descendo por uma escada, os runners chegam ao andar inferior da catedral. Ali eles veem refeitórios, vestiários, dormitórios e outros espaços adaptados. Assim como a 4 de Julho, o lugar tinha centenas de computadores, cabos e servidores por toda a parte.
Alojando-os em um quarto coletivo, os cardeais se despedem e vão embora. Dez minutos depois, sectárias vestidas de freiras aparecem e lhes servem a refeição. Os runners aceitam alegremente, mas Nathan ainda desconfia de sua hospitalidade. Após quase ter seus olhos arrancados pelos mecanicistas, conviver com outra facção não lhe era fácil.
Na manhã seguinte, Nathan se levanta e caminha pela sede. Eles parecem seguir uma rotina rígida e disciplinar na catedral. Pela manhã eles cantam hinos latinos e melancólicos. Muitos varrem o chão e tiram o pó dos móveis, fazendo a faxina. Alguns estudam a bíblia, não a sua versão original, mas uma adulterada e adaptada ao regime corporativo.  
No refeitório, os fiéis lhe oferecem o café da manhã. Nathan se surpreende com sua generosidade. Após a refeição, um homem se aproxima e se oferece falar de sua religião. O rapaz rapidamente rejeita, irritando-o.
Nathan vê muitos clérigos encapuzados portando fuzis, eles são os soldados rasos da facção. Os homens de armadura, chamados pelo profeta John August de Paladinos, são soldados mais fortes e resistentes, sendo os responsáveis pela segurança da catedral. Os cardeais são a elite militar, pois portam armas maiores e demonstram formidável disciplina para o combate.
O rapaz se surpreende ao ver que o exército dos Clérigos do Recomeço também tem freiras. Com o manto negro em suas cabeças, elas portam duas metralhadoras menores, carregando-as em suas pernas. Suas roupas são negras e apertadas, definindo seus corpos. Ao ver as pernas atléticas e os peitos empinados das jovens mulheres, Nathan se enche de desejo.
Um paladino se aproxima e diz:
- O Profeta John August deseja vê-lo.
Assentindo, ele o acompanha pelos corredores.
O líder o aguarda em seu escritório. Ao entrar, Nathan vê uma extensa coleção de livros, uma longa mesa e robustas cadeiras de madeira. Indicando-lhe o assento, John August diz:
- Espero que sua estadia em nossa catedral tenha sido melhor do que com os Trans-humanistas.
Sorrindo, o rapaz confirma:
- Com certeza.
- Então... – começa ele – você propõe uma aliança entre o Submundo e a nossa facção?
- Exatamente. Mas antes de falar nisso, eu prefiro estar na presença dos runners.
O líder ergue sua sobrancelha. Um paladino se aproxima e sussurra algo em seu ouvido. Verificando as horas, ele olha para Nathan e diz:
- Me foi informado que seus companheiros ainda dormem. É com estas pessoas que você pretende tocar sua rebelião, Nathan? Com irresponsáveis e indolentes?
O rapaz se envergonha. Então ele os defende, dizendo:
- Perdoe sua impostura, Eminência. Os runners costumam trabalhar à noite, por isso descansam a maior parte do dia.
Ainda com olhar de reprovação, John August responde:
- Mesmo sabendo que dias atrás seu líder máximo, o Inimigo de Estado, quase teve seus olhos arrancados por outra facção, esta é a segurança que eles te dão?
Definitivamente Nathan não esperava ouvir aquilo.
- Concordo com sua observação. – admite ele.
- Você tem sorte que os clérigos são caridosos e pacíficos, Inimigo de Estado. Do contrário, nós teríamos feito o mesmo que os mecanicistas e, por irresponsabilidade de seus amigos runners, nada iria nos impedir. – repreende ele.
O rapaz ouve aquilo como se fosse um sermão, mas o líder estava certo, afinal. Cercado de pessoas mais velhas do que ele, ele não podia fazer nada além de acatar em silêncio.
Então... – recomeça ele, voltando ao assunto – Você propõe uma aliança com nossa facção?
- Sim. – responde ele, com menos entusiasmo.
Com sua resposta, John August o encara fixamente. Com o péssimo exemplo de seus companheiros, ele não conseguia mais demostrar segurança.
- Posso te fazer uma pergunta, senhor Nathan?
Ainda desconfortável, o rapaz responde:
- Sim.
- Você tem fé?
Nathan se confunde. Huxley lhe fez uma pergunta semelhante e ele, igualmente, não soube responder.
- Tenho, eu acho.
- Se me permite perguntar novamente, no que o senhor tem fé, exatamente?
- Tenho fé em um deus poderoso e invisível que ouça e, principalmente, atenda às minhas orações.
O rapaz mente. Ele não conhece nenhum deus específico e tampouco faz orações.
- Entendo. Mas, se me permite insistir, esse deus “poderoso e invisível” também é misericordioso e, ultimamente, “bom”?
Improvisando, ele responde:
- Sim, ele é poderoso e bondoso.
- Que bom seria se todos tivessem sua fé, Nathan. E que todos esses deuses avulsos e desconexos que as pessoas acreditam se convergissem no seu deus poderoso e bom.
John August sorri. Ainda confuso, o rapaz sorri de volta. O líder faz outra pergunta:
- Você acredita que a ausência da fé também é uma forma de fé?
- Como assim? 
- Crer na descrença, na inexistência de deus.
Soando como um paradoxo, o rapaz se intriga.
- Não me parece fazer muito sentido.
- Existem pessoas – prossegue ele – que repudiam a fé e, ferozmente, a abominam. E essas pessoas combatem o fideísmo com violência e derramamento de sangue. Mas elas se esquecem de uma coisa: ter fé é um atributo natural da humanidade, e extirpar essa característica humana seria o mesmo que extirpar o próprio Homem. – então John August explica – Crença e descrença são lados opostos da mesma moeda. Crer significa admitir a existência de um deus, com a possibilidade dele não existir, e descrer significa admitir que nada existe, com a probabilidade de que um deus, de fato, exista. Consegue compreender isto?
Achando aquilo muito interessante, Nathan responde:
- Certamente.
- Infelizmente – continua ele – quem combate a fé também combate a nossa organização, e esses arruaceiros e delinquentes nos desprezam, atrapalhando nosso trabalho e nos causando sofrimento. Semelhante às corporações, essas pessoas promovem o materialismo sobre a espiritualidade, mas de maneira terrivelmente mais violenta. De fato, eles são os fantoches do aparato corporativo, combatendo e anulando tudo o que representamos.
O rapaz se assusta com as palavras do líder.
- E quem são essas pessoas, seus mais rigorosos inimigos? – pergunta ele.
Apertando um botão em sua mesa, um monitor na parede se acende. Exibindo imagens de um circuito de segurança, John August apenas diz:
- Observe.
As imagens exibem o que parece ser uma escola. Nathan vê crianças e mulheres, provavelmente as professoras, guindo-as pelo pátio. De repente um clarão aparece, seguido de uma horrível onda de poeira. Um minuto depois, a poeira se dissipa e é possível ver. Arregalando os olhos, Nathan se choca ao ver todos caídos no chão, com suas roupas queimadas e cobertas de sujeira. Algumas pessoas aparecem, correndo ao seu socorro. O rapaz vê os socorredores tentando ressuscitar as crianças fazendo massagem cardíaca. As mulheres que sobreviveram, porém, choram desesperadas e abraçadas aos seus filhos.
A imagem se encerra. Ainda chocado, lágrimas se formam e Nathan chora diante dos clérigos.
- Nosso inimigo – responde August – é a facção conhecida como Frente Ateísta.
Recuperando-se, o rapaz pergunta:
- Por quê? Por que eles fizeram isso?
- Essa escola está localizada em nosso território. Os ateístas acreditam que estamos doutrinando as crianças, recrutando-as desde a infância e arregimentando mais simpatizantes à nossa causa. Eles acreditam que é necessário eliminar a ameaça desde cedo, diminuindo nosso efetivo e poupando-lhes confrontos futuros. São sociopatas, assassinos maquiavélicos convencidos de que os fins justificam os meios.  
- Como eles podem ser tão cruéis?
- É uma tática de guerra, uma estratégia. Eles querem nos desmoralizar, desencorajando-nos através do terror.
Lamentando-se, o rapaz sussurra:
- Eu não acredito...
- Você nos disse que nos propõe uma aliança, não é mesmo? Então me responda uma coisa, senhor Nathan: até onde você iria para acabar com essa rebelião?
Ainda revoltado com o vídeo, Nathan responde:
- Eu faria o que fosse preciso!
Sorrindo, John August lhe faz um olhar satisfeito.
- Nós temos uma bomba plantada no território deles, os ateístas. Esse ataque será nossa resposta, nossa vingança pelas vítimas da escola assassinadas a sangue frio. Responderemos à altura explodindo um ponto estratégico onde eles se encontram. E, como nós sangramos da última vez, desta vez eles sangrarão.
O rapaz protesta.
- Vocês vão se vingar? E quanto a bondade e o perdão? Vocês não ensinam isso sobre o seu deus?
- Nosso deus é amor, mas também é justiça. Não confunda seu caráter quando se tratar de retribuição. – repreende o líder – Se você quiser uma aliança conosco, terá de nos acompanhar quando detonarmos a bomba, não apenas como um espectador, mas para apertar o botão. O que me diz?
Nathan não consegue acreditar no que ouve. Eles estão querendo usá-lo para cometer terrorismo.
- Eu nunca faria isso.
- Pense bem, Inimigo de Estado, pois foi você quem veio nos pedir ajuda. Ademais, sua rebelião mata muito mais gente por dia. E se vingar de uns extremistas que matam crianças em prol de uma ideologia violenta não pode ser visto como moralmente ruim.
John August tinha razão. Indiretamente, Nathan tinha matado mais em sua rebelião. Sem escolha, ele pesarosamente responde:
- Está bem. Eu irei com vocês.
- Ótimo. – comemora o líder. 
Levantando-se, ele chama seus cardeais e diz: 
- Minha equipe irá acompanha-lo agora. Nos vemos depois.

§

Em um furgão com o profeta John August e mais três paladinos, Nathan segue em direção ao Setor F. Os runners seguem em um aerocarro atrás, escoltados por outros clérigos. Segurando o detonador, o objeto cilíndrico pesa em suas mãos.    
Parando o furgão no ar, os paladinos indicam o local da detonação. Pela janela, o rapaz vê uma megatorre interligada por passarelas, nada de incomum. Um paladino diz:
- A bomba está naquele andar. – ele lhe aponta para o edifício abaixo – Ao apertar o botão, ela imediatamente explodirá.
O dia estava movimentado. Transeuntes passavam e aerocarros transitavam intensamente. Hesitante, o rapaz pergunta:
- Quem frequenta aquele andar do edifício?
O paladino simplesmente responde:
- Terroristas.
O rapaz está inseguro de si, suor escorre e suas mãos tremem. Embora sem intenção, ele já matou gente, mas nunca praticando o terrorismo. “Maldita rebelião que me transformou em uma pessoa assim”, pensa ele. Aproximando-se, John August o persuade, dizendo:
- Lembre-se das crianças, Nathan. Lembre-se das vítimas. Seu sangue clama por justiça... e Vingança!
Pressionado, ele fecha seus olhos e respira fundo. Então, tateando o botão, ele finalmente o aperta.    
Ocorre a explosão. As labaredas infernais se expelem das janelas, subindo e se expandindo pelos ares. A onda de choque se alastra pelo céu, estremecendo inclusive o furgão. Aos poucos sobe a fumaça, aterrorizando a paisagem com sua coloração negra. 
Paralisado, Nathan se hipnotiza com as chamas dançantes. As pessoas correm pelas passarelas, os aerocarros desviam de direção e os gritos atormentam o ambiente. Um paladino então diz:
- Temos que ir.
O furgão se movimenta, tirando o rapaz de seu transe. Enquanto sobrevoa ao redor, Nathan tem uma terrível surpresa. No andar em chamas, ele vê um letreiro escrito “hospital”. Arregalando os olhos, ele deixa o detonador cair de suas mãos. Percebendo seu choque, John August sorri, dizendo:
- Parabéns, Nathan. Você se tornou a ira de Deus!
Estarrecido, o rapaz apenas ouve sem conseguir falar nada.
Em um local seguro, o furgão e os aerocarros estacionam. Agora recuperado do evento anterior, Nathan abre a porta do veículo e desce. Mil pensamentos passam por sua cabeça, ele sentia nojo e desprezo de si mesmo. Mas, para sua lamentação, ainda havia um trabalho a ser feito.
- E então? – pergunta ele, olhando para John August – Temos nossa aliança?
Com seriedade e convicção, o líder responde:
- Eu declaro diante de Deus que está formada uma aliança entre a nossa facção e o Submundo.
Nathan tenta agradecer, mas as palavras morrem em sua garganta. Mas, da indignação, outras se formam e, tomando impulso para sair, ele pergunta:
- Responda-me uma coisa, profeta John August. Quem é o seu deus?
Intrigado, o líder sorri.
- O meu deus... – responde ele, antes de fecharem a porta – é o deus dos Clérigos do Recomeço.
E então o furgão levanta voo e eles vão embora.



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