(Artista desconhecido)
Valentim acorda
em um susto.
Olhando ao redor,
ele se vê em seu quarto. O gato Orfeu dormia aos seus pés, o que o deixa muito
irritado. Ao lado de sua cama, o guarda Davud cochilava em uma cadeira.
Davud abre os
olhos e nota que Valentim havia acordado. Feliz pela recuperação de seu
companheiro, ele sorri.
- Senhor
Valentim, o senhor está bem?
- Davud...! –
exclama ele – O que aconteceu?
O guarda
responde:
- Na noite
passada o senhor foi atacado pela Wraith,
desmaiando e não acordando mais em seguida. Eu consegui salva-lo, mas Tobias e
eu tivemos de tira-lo dali.
Assentindo, ele
faz outra pergunta:
- O que aconteceu
com a Wraith?
- Ela se foi. –
revela ele – Semelhante aos djinns, ela se mantinha neste mundo através de um
objeto pessoal; um espelho com moldura e entalhes místicos. Eu consegui bani-la
lançando o espelho no chão e quebrando-o em centenas de pedaços!
O jovem guarda
sorri, esperando congratulações de Valentim. Davud o admirava muito e esperava
dele um afeto quase paternal. Mas Valentim sente pena dele, pois apesar do
guarda ter menos da metade de sua idade, ele jamais poderia ama-lo como um
filho.
- E quanto ao
dinheiro? Nós recebemos o pagamento daqueles porcos burgueses?
Davud ri.
- Não se
preocupe. Os “porcos burgueses” nos pagaram, certamente.
Valentim respira,
satisfeito.
O guarda
continuava com seu olhar alegre, demonstrando-lhe admiração e servidão. A
inexperiência, e até a carência do jovem, eram evidentes.
Por fim, ele diz:
- Obrigado,
guarda. Bom trabalho.
Davud sorri.
Aquilo foi muito importante para ele.
- De nada, senhor
Valentim! Estou à disposição, se quiser minha ajuda.
Mas Valentim
queria apenas se livrar dele. Ele responde:
- Não precisa; eu
estou bem. Pode ir agora.
O guarda assente
e se levanta. Antes de sair, ele diz:
- O Inspetor
Hessler me pediu para cuidar do senhor durante o dia; ele está na Gendarmerie
agora fazendo o relatório. Ele também me proibiu de trata-lo com remédios à
base de Plasma. – e então ele conclui – Estarei lá em baixo, se precisar de
mim.
Então o guarda se
vira e deixa o quarto.
Apesar de ter
dormido pela metade do dia, Valentim ainda se sentia fraco e cansado. Ele não
se lembra bem do dia anterior, mas se lembra que a aparição drenou suas
energias. Sua vida se esvaía lentamente, seus ossos secavam. O encantamento o
teria matado se Davud não intervisse. Aliviando-se, ele agradece a Deus pelo
jovem guarda por, mais uma vez, ter salvado a sua vida.
§
Valentim acorda
no meio da noite.
Ruídos o
incomodam. Ao olhar para o piso, Orfeu se ouriçava com algo na janela. Então
Valentim se levanta e inspeciona o que o incomodava tanto. Sua visão se ajusta
à escassa luz e, ao avistar a casa da frente, ele sente seu sangue gelar.
Valentim vê uma
mulher monstruosa sobre o telhado. Ela tinha garras de pássaros, uma cauda de
serpente, pequenos chifres na testa e longas asas de morcego. Enquanto a
observa, Valentim pode notar que pelos de cabra cobriam suas partes íntimas. Mas
apesar de tamanha deformidade, seu corpo era extremamente sensual.
Valentim está
imóvel, perplexo com a cena. A mulher se levanta e bate as asas, mostrando a
extensão de seu corpo. Ele jamais a havia visto antes. Ela o encara com um
olhar frio e, ao mesmo tempo, sedutor.
Ele não sabe de
quem se trata, mas ele se deparava com uma Succubus.
O termo vem de dois termos em latim: succuba,
que quer dizer amante, e succubare, que
quer dizer “deitar-se embaixo”, referindo-se à posição sexual. De maneira
aproximada, Succubus significaria “deitar-se com uma amante”.
E então Valentim
se lembra de sua amante naquele momento.
“Irena”, pensa
ele. “Ela se parece tanto com Irena...!”.
Historicamente,
Succubus está atrelada a várias culturas e folclores. Na tradição judaica, ela
seria Lilith, a primeira esposa de Adão. Na mitologia grega, ela é confundida
com as sereias e ninfas. Na mitologia árabe, qarinah é um espírito similar a Succubus, sendo conhecida por
dormir com as pessoas e, com elas, ter relações sexuais em seus sonhos. E, finalmente, para os celtas, elas seriam as
famosas fadas.
O equivalente
masculino para as Succubus são os Incubus. Semelhante às fêmeas, os Incubus
drenam a energia de suas vítimas durante o sonho erótico. No livro Malleus
Maleficarum, escrito por Heinrich Kramer, as Succubus coletam o sêmen dos
homens e os Incubus os usam para engravidar mulheres humanas. Desta maneira,
crianças deformadas e suscetíveis a influências paranormais são geradas.
A Succubus se
vira e bate suas asas. Então corujas aparecem, como se estivessem aninhadas a
seus pés. A mulher olha para trás e, ao se certificar de que Valentim a olhava,
ela toma impulso e voa pela noite, seguida pelas corujas.
Valentim entende
o recado; ela estava chamando-o.
Vestindo suas
roupas, ele passa por Orfeu e desce as escadas. Davud dormia tranquilamente em
sua poltrona. Passando silenciosamente pelo guarda, ele se dirige à porta. De
repente ele encontra algo na soleira. Intrigado, ele se abaixa e pega uma
brilhante moeda de ouro. Na moeda havia a efígie de uma entidade estranha, da
qual ele nunca vira antes.
Valentim guarda a
moeda em seu bolso e então deixa a casa.
A rua estava fria
e escura; nas esquinas ele só ouve o silêncio sepulcral. Sob o prateado luar da
lua crescente, ele corre pelos centenários ladrilhos de pedra.
Os telhados altos
e gélidos estavam vazios. Confuso, ele para e olha ao redor, procurando pela
mulher-monstro.
De repente um
vulto negro cruza o céu e o assusta. Era ela.
Valentim corre
novamente, tentando alcança-la. A Succubus sobrevoava silenciosamente os
telhados como um fantasma e uma dúzia de corujas a acompanhavam. Abaixo, Valentim
a seguia, correndo pela cerração verde e desviando-se das carruagens pelo
caminho.
Os prédios ficam
para trás. Valentim se embrenha em um matagal molhado; a Succubus o havia
levado às margens do Rio Liublianica. A escuridão da noite colocava um véu
sobre seus olhos e ele não podia enxergar mais. Lutando para não perde-la de
vista, ele tem a impressão de vê-la pousar perto da água.
Valentim afasta o
capim alto e chega às margens do rio. Então ele vê algo que o arrepia.
À beira do rio
havia um barco com um sinistro barqueiro na proa. Ele vestia trapos velhos e
rasgados que, com o balançar do vento, espalhavam doenças. Sua pele era
cinzenta e ressecada, como se fosse um cadáver fora da cova. Seu rosto era
pálido e Valentim pode notar que sua pele fora esfolada pela morte, pois os
ossos de seu crânio eram visíveis. E seus olhos amarelos, como fulgurosas
fornalhas, lhe causavam pavor.
Naquele momento
Valentim percebe; aquele barqueiro era o Caronte.
Pendurada na
proa, uma lanterna balançava com o vento. Sua chama era púrpura e parecia não
ser deste mundo.
Antes que
Valentim pudesse dizer alguma coisa, Caronte lhe estende a mão. Os vermes
passeando em seus braço o enojam.
Valentim enfia a
mão no bolso e pega a misteriosa moeda. Se ele pudesse ler grego, saberia que
aquilo é um dracma. Oferecendo-a, Caronte a pega e o permite embarcar.
O barco tinha
madeiras podres e cheirava a sangue. Valentim tenta se aconchegar, mas isso não
era possível; pregos e farpas torturavam que ali se assentava. Caronte pega seu
remo e afasta o barco da margem, começando a remar em seguida.
Algo estranho
acontece com Valentim. Ele se sente zonzo, como se estivesse sofrendo algum
tipo de envenenamento. Sua mente se revira, causando-lhe náusea. Ele olha para
a água e a vê mudando de cor. O Liublianica ficava verde.
Caronte remava em
movimentos fantasmagóricos. Valentim põe as mãos nos olhos e tenta se
concentrar. Ao olhar novamente para o rio, algo havia mudado. Não era mais água
que ele via; era Plasma.
Ao ritmo das
remadas, o Liublianica se tornava o Rio Aqueronte.
Sobre o terrível
rio do Submundo da mitologia grega, urros e gemidos agonizantes gelam o seu
sangue. Valentim olha para a água e vê algo surgindo nas profundezas. Braços se
emergem e Valentim vê centenas de pessoas esticando-os para chama-lo,
desesperadamente pedindo por salvação. Ele se espanta; o Rio Aqueronte estava
repleto de almas atormentadas, pálidas e nuas, clamando por misericórdia e
parecendo sentir muita dor. O Plasma as queimava como o ácido, mas suas carnes
jamais se dissolviam. Agora, depois de mortos, eles eram eternas almas,
regenerantes e imortais. Ele pensa em ajuda-los, mas desiste da ideia, pois
teme ser puxado para baixo e desaparecer para sempre nas profundezas do rio.
Caronte, por sua
vez, as ignorava. Como se não as ouvisse, ele continuava remando normalmente.
O barco se
aproximava do centro da cidade. Ao passar pela ponte dos dragões, ele olha para
a água e se estarrece. Ele via a alma de seu pai.
Seu pai gritava e
se debatia dolorosamente, parecendo sofrer grande agonia. Ao ver seu filho, o
pai lhe estende as mãos e lhe pede socorro. Valentim sente compaixão, afinal
era seu pai sendo torturado ali.
Mas então ele se
lembra.
Foi devido ao seu
pai que sua esposa, Danica, perdeu o bebê. Quando os dois ainda eram um jovem
casal, o pai de Valentim a agrediu, fazendo-a cair e perder o bebê. O impacto
foi tão forte que Danica se feriu permanentemente, ficando estéril, pois nunca
mais conseguiu engravidar.
Valentim se
lembra o quanto sua esposa queria um filho. No momento Danica sonhava em ser
mãe e estava com poucos meses de gravidez. Essa era o seu maior sonho, dar a
Valentim um filho e ter uma família feliz. Mas seu pai o tirou isso e ele
jamais irá esquecer.
Com as mãos ainda
estendidas, seu pai lhe pede socorro. Endurecendo o seu coração, Valentim se
recusa ajuda-lo. Em rancor, o filho se vira e o ignora, deixando-o apodrecer no
caldeirão do inferno.
E assim ele vai
embora, sendo carregado pelo barco de Caronte.
O barco avança
pelo rio. As almas cozinhavam na borbulhante água e Valentim vê outros rostos
familiares. Ele vê almas vestidas em armaduras arruinadas; eram os nobres
caçadores ingleses. Uma alma se debatia, mas não devido ao fervente Plasma, mas
ao ser torturado pelas almas de dezenas de mulheres. Ali ele reconhecia o
assassino da galeria de cadáveres.
Mais e mais
condenados emergiam das águas. Valentim vê almas com cortes de faca,
perfurações profundas e buracos de bala. E então ele percebe; aqueles eram os
cidadãos mortos durante a recente onda de violência em Liubliana.
As mulheres
uivavam do fundo do rio. Valentim se compadece. Se ele ver Danica ali, ele não
pensará duas vezes em pular do barco para socorrê-la.
§
A cidade fica
para trás. Olhando ao redor, Valentim se vê em um imenso e escuro pântano. Ele
reconhece o local; era o pântano ao sul de Liubliana, que no momento estava
inundado pelo verdejante Plasma. As almas também desaparecem. Valentim se alivia,
pois os gritos dos condenados finalmente o deixam em paz.
Ao longe ele vê a
estação de bombeamento inglesa. Fileiras de tubos atravessavam a região e
levavam o Plasma puro para ser refinado nas refinarias. As máquinas o bombeavam
e liberavam a fumaça de suas chaminés. Valentim se lamenta que tanta poluição
gerada contaminará sua cidade para sempre.
Algo estranho se
revela no pântano negro. Valentim vê uma luz emergindo no meio da inundação.
Caronte para o barco em um píer de pescadores e estende seu braço; ele lhe
indicava que a jornada chegava ao fim. Um pouco confuso, Valentim se levanta e deixa
o barco.
Sobre o píer,
Valentim vê Caronte remando pelo Plasma até misteriosamente sumir na escuridão.
O grasnar de
corujas é ouvido ao longe. Recobrando a atenção, Valentim olha para trás e vê a
Succubus sobre uma velha árvore retorcida. De repente ela abre as asas e voa, passando
sobre ele como um morcego gigante.
A Succubus desce
pela aquela luz no meio do pântano. Valentim rapidamente a segue, ávido para
encontrar respostas.
Aproximando-se da
luz, ele se estarrece. No meio do pântano havia uma enorme caverna subterrânea.
O verdejante Plasma caía pela cratera, formando belíssimas cachoeiras
brilhantes. Sem pensar duas vezes, Valentim desce pelas rochas molhadas.
Um rio se formara
lá embaixo, avançando pelo subsolo. Ele vê estalactites em seu entorno e se
fascina. Valentim já ouviu falar das colossais cavernas subterrâneas em
Carníola e nas províncias vizinhas; Postojnska, Skocjan, Vilenica, Pekel e
Predjama vêm à sua mente. Mas ele jamais imaginou algo parecido na própria
Liubliana.
Valentim se
intriga. Ele acha muito improvável que aquela caverna tenha sido descoberta ali
após o dreno do Plasma; era como se ela simplesmente tivesse aparecido. Um
fosso tão extenso e profundo não passaria despercebido pelos pescadores por
muito tempo. Então ele se pergunta se aquela caverna sempre esteve ali, oculta sob
os pés dos liublianenses por milhares e milhares de anos.
A cada passo ele
teme estar cruzando uma fenda dimensional entre os mundos. Então algo místico
se revela.
Nas profundezas
da caverna, Valentim encontra um misterioso templo pagão. Figuras encapuzadas
guardavam sua entrada, vestindo mantos vermelhos e pretos decorados com símbolos
místicos. Ele se intriga.
“Estes não são o
estranho culto que Tobias está decidido a encontrar?”, pergunta-se ele.
De repente uma
enorme sombra sobrevoa sua cabeça e continua descendo para o fundo; era a
Succubus. A criatura olha para ele e parece chama-lo com o olhar. Passando por
uma abertura no paredão de pedra, a Succubus adentra o templo. Sem pensar duas
vezes, Valentim a segue.
Os guardas
encapuzados permaneciam na entrada. Imóveis, de cabeça baixa e com os rostos
ocultos, eles sinistramente pareciam não respirar. Intrépido como um leão,
Valentim se aproxima. Nada iria parar sua férrea determinação.
Os guardas
levantam suas cabeças e Valentim se espanta; seus rostos eram pálidos como o de
cadáveres. Inesperadamente um deles diz:
- Saudações,
senhor Valentim. Estávamos esperando pelo senhor.
Valentim se
espanta.
- Quem são vocês?
- Somos o culto
de Exúvia.
Então ele se
estarrece. Durante meses Tobias esteve procurando por este misterioso culto.
Paralelo à onda de violência e os eventos sobrenaturais pela cidade, este estranho
culto esteve perturbando Liubliana. Coisas estranhas aconteciam e, nos relatos
dos cidadãos, o culto sempre esteve presente, antes ou depois do ocorrido.
Corujas o
observam na fachada do templo. Valentim nota que aquelas não eram corujas
comuns; aquelas eram sujas e seus olhares eram extremamente medonhos, como se
almas perdidas as tivessem possuído e agora as usassem para praguejar contra o
mundo dos vivos.
Uma sensação
inquietante o domina. O desespero aflige o seu peito. Sua alma ouvia um pedido
desesperado de ajuda que parecia vir de dentro do templo. Valentim sente que
algo muito ruim está para acontecer e, se se demorasse muito, seria tarde
demais.
- Eu preciso
entrar neste templo. – diz ele, sem perguntar ou pedir permissão, mas
ousadamente afirmando.
- Como desejar. –
responde o cadavérico guarda.
Valentim se
prontifica e dá o primeiro passo, mas então o guarda diz:
- Mas antes
precisamos de algo do senhor.
Fazendo um olhar
agressivo, Valentim se prepara para a violência. Nada iria impedi-lo de entrar ali
e, se preciso, ele estava disposto a mandar aquele guarda de volta para o
túmulo de onde ele havia saído.
- O que vocês
querem?
O guarda
simplesmente responde:
- A sua nudez.
Valentim arregala
os olhos.
- O quê?!
Figuras
encapuzadas se materializam ao seu redor, cercando-o. Valentim não pôde vê-los,
mas eles estavam em toda parte, observando-o o tempo todo. Sabendo que aquela
era uma batalha perdida, Valentim não vê outra opção. O amoroso marido fará de
tudo para encontrar sua esposa.
Respirando fundo,
ele desabotoa sua camisa e a tira. Em seguida ele se descalça e tira os sapatos.
Por último, ele abaixa as calças e também as tira. E assim ele se despe perante
os guardas do templo.
Totalmente nu,
ele se exibe aos encapuzados. O frio da caverna arrepia seus pelos grisalhos e
a brisa retorce as rugas de sua pele envelhecida. Ele não é mais tão forte
quanto antes; a idade veio e levou o vigor de sua juventude. O tempo foi cruel,
como o é a todos os homens. Mas ele se recusa a sentir pena de si mesmo; isto
ele jamais irá permitir.
Recusando-se a ocultar-se,
ele se mantém de braços abertos diante dos desconhecidos. Valentim jamais se
mostraria fraco ou assustado a ninguém. Pois, para encontrar a sua esposa, ele
fará de tudo.
Sem toca-lo, os
encapuzados lentamente lhe abrem passagem. Então o corajoso Valentim avança e
entra no misterioso templo.

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