sábado, 18 de fevereiro de 2023

Liubliana - 29 - O Adeus de Cristo

 


O sol matinal dissipa a cerração verde, mas ela ainda se arrastava pelo campo. Valentim olha ao redor e não reconhece a paisagem. De repente ele ouve uma voz familiar e, ao longe, ele vê Danica correndo em um campo de margaridas. Seus olhos se arregalam.

Valentim se aproxima, não conseguindo acreditar em seus olhos. Danica estava tão jovem e alegre; ele tenta chama-la, mas seu peito se enfraquece e as palavras morrem em sua garganta. Sua esposa corria alegremente, tocando as lindas pétalas das flores. Valentim nota como ela sorria docemente, parecendo estar muito feliz. O marido se lembra como ela sempre foi muito meiga. Sua fascinante beleza o hipnotizava. 

Vendo o seu marido parado ali, a esposa sorri. E então ela corre em sua direção e o abraça, fazendo Valentim girá-la no ar. Em seguida suas bocas colidem e eles apaixonadamente se beijam, provocando um impacto. Danica sorria carinhosamente, meiga como uma menina. Então o marido se emociona e chora, molhando as roupas de sua amorosa esposa.

- Danica...! – sussurra ele – Eu senti tanto a sua falta...!

A mulher não responde, mas Valentim não se importa; no momento ele se perdia em seu abraço. O marido jamais se esqueceu de seus lábios e de seu cheiro.

Mas de repente algo acontece.

Em um piscar de olhos, Danica se desvanecia de suas mãos. Valentim, que chorava de olhos bem fechados, sente que ela havia desaparecido e se confunde.

O campo de margaridas também havia sumido. A cerração verde retorna e se move, revelando outra paisagem. Valentim vê cruzes, lápides e mausoléus; agora ela estava em um vasto cemitério.

Ao longe, ele ouve uma melancólica prece. Passando pelas lápides, Valentim vê um grupo de pessoas ao redor de uma cova. As pessoas vestiam longas vestes roxas e negras com capuzes. O padre vestia uma batina envelhecida e ministrava o funeral. Estranhamente corujas repousavam sobre a lápide de pedra, como se também estivessem participando do enterro. Coveiros seguravam o caixão com cordas e se preparavam para descê-lo à cova. Valentim nota que o caixão era bem simples e estima que o defunto devia ser alguém muito pobre. E então o caixão desce e, nesse momento, Valentim pode ouvir o padre dizer:

- Descanse em paz, Danica.

O marido se espanta e, lendo o nome na lápide de pedra, ele o reconhece: “Danica”. Apesar de analfabeto, ele aprendeu o seu nome e o de sua esposa. 

Correndo para o funeral, ele se atira sobre o caixão e o impede de ser enterrado. Os golpes de pás na terra se interrompem.

 Com suas fortes mãos, Valentim segura a tampa e a puxa. Os pregos se soltam, estralando e trincando a madeira podre. E então ele tem uma tremenda surpresa. O caixão estava vazio.

O marido não entende; ele pensa que devia haver algo errado.

De repente a terra começa a tremer. Enquanto está espantado olhando para o caixão vazio, Valentim não percebe a hecatombe se formar ao seu redor. Todo o cemitério era arrasado por um tremor sobrenatural.

Nuvens negras se formam no céu. Raios poderosos caem nas árvores e as incendeiam. As cruzes se quebram e as lápides são partidas ao meio, rompendo-se sozinhas por forças invisíveis. Além da cerração verde, edifícios pegam fogo e desabam; pessoas nas ruas gritavam e se feriam, desesperadas pelo colapso da sociedade. Liubliana, a “mais amada”, era assolada pelo fogo atroz.

Em seguida o céu se revira e se abre como um pergaminho. No meio das nuvens, uma luz brilha mais forte que o sol e um varão surge lá no alto, revestido da mais alta glória. Era Jesus Cristo, o Senhor dos Senhores, Rei dos Reis.

Eis que era chegado o Dia do Juízo Final. Cristo finalmente retornou. Ele vestia um manto púrpura dos reis e, em sua cabeça, uma coroa de pedras preciosas. Ao seu redor haviam hostes angelicais tocando trombetas e também harpas.

Voando pela Terra, os anjos anunciavam a volta do Senhor. Seu segundo advento causa prantos nos seres humanos, alguns se alegrando e outros correndo, apavorados, na vã tentativa de se esconder da face daquele que se assentava no trono branco.

Ao lado de Valentim, a terra se fendia e os túmulos se abriam, irrompendo os caixões. As tampas se abrem e o mortos ressuscitam, libertando-se dos grilhões malditos da Morte. Os redimidos, ou seja, aqueles salvos pela fé, sobem ao céu como anjos e vão em direção ao seu Senhor e Salvador.

Mas nem todos eram salvos. Aqueles que negaram e desprezaram a fé ficam para trás, entregues à inevitável perdição. Espíritos negros emergem das sombras e eles os reconhecem; eram os pavorosos demônios. Os demônios perseguiam e apanhavam os condenados, em seguida precipitando-os em tenebrosos abismos.

E assim o mundo pranteava, ajoelhado diante do grande Apocalipse.

Alheio ao supremo evento, Valentim continuava na cova; ele ainda lamuriava o desaparecimento de sua esposa. Então uma voz forte como um trovão reverbera pelas montanhas, chamando o seu nome.

- Valentim.

Valentim se vira e ergue os seus olhos. Vendo o Rei dos Reis glorificado e exaltado lá em cima, ele cai com o rosto em terra.

- Eis me aqui, Senhor!

- Servo fiel, foste fiel no pouco e te porei no muito. Vinde. Entre agora na alegria do teu Senhor.

Cristo o convidava para as bodas do Cordeiro. Ele se alegra, pois fora digno de receber o prêmio máximo da Salvação.

Mas ele não podia ir.

Olhando para o caixão, uma dor ainda o atormenta. Ele se lembrara que ainda não havia encontrado Danica. Seu semblante cai.

- Eu não posso. – responde ele.

- Não pode? – intriga-se Cristo.

- Eu ainda não encontrei a minha esposa, ó Senhor dos Senhores e Rei dos Reis. Ela ainda está desaparecida aqui na Terra. Eu a amo mais que tudo; ela é a pessoa mais importante da minha vida e minha razão de viver. – explica ele – Rogo que me deixe e que me permita encontrá-la. É tudo o que peço.

Ao ouvi-lo, Cristo se comove. De fato, o amor é o maior dos sentimentos humanos. Lágrimas se escorrem de seus olhos e Ele as enxuga com suas mãos perfuradas por pregos e golpes de martelo.

Após uma breve deliberação, Cristo pergunta:

- Tens certeza?

Ainda abatido, o marido responde:

- Sim, meu Senhor.

- Então que assim seja. – dando-lhe as costas, Ele diz – Adeus, Valentim.

Em seguida Jesus se vira e vai embora. Consequentemente, os anjos e os salvos se viram e vão embora também, deixando aquele mundo condenado para trás. Lentamente o céu se escurece e se fecha, abandonando-os à Grande Tribulação.

Demônios perseguem os ímpios pelas nações; gritos espavoridos de horror precedem a desgraça. Ouvindo as tragédias soprando no horizonte, Valentim percebe: estava inaugurado o Reino de Satanás na Terra.

Levantando-se, Valentim olha para o caixão vazio e diz:

- Eu prometo te encontrar, Danica. Eu juro que vou te encontrar. E nem que você já esteja morta, eu estarei lá para segurar o seu corpo sem vida... Não importa o quão fria você esteja.

 

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