domingo, 26 de março de 2023

Liubliana - 31 - A Jornada Noturna de Davud


(Artista desconhecido) 


Davud dorme. De repente Orfeu sobe em seu colo e ele se assusta. Sentado na poltrona de Valentim, ele pensa ter ouvido a porta se abrir. Ele se levanta e percebe que Valentim havia saído. O guarda se intriga, pois já era tarde da noite.

O guarda abre a porta e se depara com a rua fria e deserta. Não havia nenhuma alma viva naquela noite. Além de suas esquinas, a cidade lúgubre escondia segredos.

Davud olha para longe e vê alguém virando a esquina. Ele pensa:

“Valentim...?”.

O guarda o segue silenciosamente pela cidade. Havia algo estranho no ar; não haviam pessoas e nem carruagens pelas ruas, nenhum trabalhador indo para uma fábrica barulhenta por perto, apenas a solidão severa de um mausoléu esquecido. Era como se Liubliana estivesse em um estado suspenso, reservando aquela noite para os eventos mais místicos.

O desconhecido seguia a frente em passos apressados, porém confusos. Davud pode notar que ele olhava obsessivamente para os telhados. Querendo saber o que havia no topo, o guarda via apenas corujas voando aleatoriamente pela noite.

Estranhamente o desconhecido se dirige a um matagal às margens do Rio Liublianica. Não querendo ser visto, Davud se esgueira no capim alto e vê algo que lhe causa arrepios. Na água havia um barco com um pavoroso barqueiro; ele estava em pé na proa e não se mexia ou se desequilibrava. Era como se o barqueiro fosse uma entidade fantasmagórica e profana.

Uma tocha iluminava o barco, emitindo uma curiosa chama de luz púrpura. A luz ilumina o rosto do desconhecido e o revela: era Valentim. O guarda arregala os olhos e se pergunta o que ele estaria fazendo em um barco com aquele estranho barqueiro.

O barco deixa a margem e Valentim é levado pelo Liublianica.

Temendo perde-los de vista, Davud corre pelo matagal e tenta acompanha-los. Mas seus passos se afundam na lama e o capim se enrola em suas roupas. Sentindo a dificuldade atrasa-lo, ele se desespera. Valentim já navegava longe pelo rio.

Pensando rápido, Davud volta às ruas e procura por um transporte. Naquela solitária noite, ninguém podia ser visto. Ele corre pelo ladrilho e vê algumas carruagens estacionadas; os armazéns tinham alguns cavalos para o transporte de mercadorias. Davud se aproxima dos cochos e encontra uma bela égua de cor bege. O guarda pensa em pedir permissão ao dono para usa-la, mas não havia ninguém. Então ele desamarra as rédeas e a monta, partindo pela noite.

Cavalgando às margens do rio, Davud segue o barqueiro. Então lhe vem um interessante pensamento. Semelhante ao Profeta Maomé em sua viagem rumo ao Al Aqsa[1], o guarda se sente em uma viagem mística pela noite rumo ao desconhecido. Diz a tradição islâmica que Maomé viajou ao lado do arcanjo Gabriel à longínqua Jerusalém, em uma viagem que durou apenas alguns minutos.

Estando na cidade de Meca, Gabriel apareceu ao magnificente Profeta enquanto este descansava próximo à Caaba. O arcanjo trouxe o mitológico animal Al Buraq[2], que o levou em sua companhia ao al-masjid al-haram[3] em Jerusalém. Lá o Profeta rezou no Templo e então ascendeu ao sétimo céu, onde ele se encontrou com Adão, Enoque, Abraão, José, Moisés, Arão e, finalmente, Jesus. Então o Profeta se encontrou com o majestoso trono de Deus. Em sua gloriosa presença, Deus lhe deu instruções para o mais importante mandamento dos muçulmanos: orar cinquenta vezes por dia. Moisés interveio e Maomé o ouviu, persuadindo Deus a reduzir o número a apenas cinco orações diárias. Esta história é conhecida no islã como Isra e Mi’raj[4].

Davud se compara ao Profeta naquele momento. Perseguindo Valentim pela noite, ele se sente montado no mitológico Al Buraq. Na tradição islâmica, o animal é um equino celestial de múltiplas definições. O haddith Sahih al-Bukhari o descreveu como um animal branco, menor que uma mula e maior que um burro, sendo capaz de dar imensos passos. O haddith o complementa dizendo que Al Buraq tinha longas orelhas e asas em suas coxas. Apesar de não estar explícito o sexo do animal, Gabriel se dirigia a Al Buraq como ela sendo uma fêmea, e a tradição diz que ela tinha uma bela face; assim os pintores a retrataram com a cabeça e a face de uma mulher.

Davud se lembra desta história enquanto cavalga. Ele foi muito bem instruído na doutrina e na tradição de sua religião na infância. Com saudades no coração, ele agradece à sua mesquita na Bósnia pela instrução recebida, pois sem ela ele jamais teria sido alfabetizado. Seus pais eram camponeses analfabetos que se esforçaram para dar a Davud a instrução que eles nunca tiveram.   

Beijando a ponta de seus dedos, ele toca a faixa amarrada em sua testa. O guarda sempre a levava a todos os lugares, tendo-a como um amuleto de proteção.

- La ilaha Ilallah Muhammadar Rasululah. – sussurra ele.

A célebre frase que significa “não há Deus senão Allah, e Maomé é seu mensageiro”. Davud acredita que, enquanto tê-la em sua cabeça, nenhum mal poderá toca-lo e ele estará protegido. 

Lágrimas se formam em seus olhos. Com saudades de seus pais, ele promete reencontrá-los um dia.

E assim ele continua sua cavalgada, montado em seu Al Buraq em sua própria Jornada Noturna.

 

§

 

O rio atravessa a cidade e avança em direção ao pântano. As ruas pavimentadas de Liubliana ficam para trás. Davud adentra o pântano com sua égua, mas logo se vê impedido de continuar. A área era muito arriscada para o animal, pois tubos atravessavam o terreno, o solo lamacento afundava seus passos e a escuridão era quase total. Zelando pela integridade do animal, ele a desmonta e a deixa, preferindo percorrer o pântano a pé.

Durante alguns minutos, o guarda ouve apenas o som das bombas de captação ao longe. Felizmente o Plasma brilhava e ele podia ver onde pisava, assim ele não temeria cair em um poço e morrer afogado a qualquer momento. Mas Valentim, por outro lado, não podia ser visto em lugar algum.

Enquanto o procura, suas botas se afundam no solo molhado. Se Valentim ainda estava ali, ele não pôde ter ido muito longe. Davud se desvencilha do matagal e então vê algo. Ao longe a chama púrpura do barco atravessa a cerração verde, até desaparecer lentamente. Davud se intriga.  

O guarda continua sua árdua caminhada. Em alguns momentos ele tem de atravessar a inundação do pântano e se incomoda; a água o afunda e ele se molha até a cintura. Lama se acumulava em suas botas, a água ensopava suas roupas, ele começa a tremer de frio... A situação piorava cada vez naquele lugar.

Adiante, ele reconhece uma velha estrutura de madeira. Aproximando-se, ele encontra um píer. Foi ali que o barqueiro aportou antes de sumir na escuridão. Davud estava no caminho certo.

Enquanto investiga, alguém aparece atrás dele e o assusta. O guarda se vira e imediatamente exclama:

- Capitão?!    

Davud reconhece o capitão Vilko da Gendarmerie. Ele vestia uma capa de chuva e carregava uma lamparina.

- Boa noite, guarda Davud.

Intrigado, ele pergunta:

- O que o senhor está fazendo aqui?

Com semblante sério, o capitão responde:     

- Eu poderia perguntar o mesmo.

- Por que o senhor está vestido assim?

- Estamos em um pântano, não é? Vim preparado para não me molhar.

O guarda assente, acalmando-se.

- Bem, eu estou à procura de Valentim. Acredito que ele esteja aqui em algum lugar.

- É mesmo? – pergunta ele – E por que ele estaria aqui?

- Eu não sei. Ele veio aqui a bordo de um barco. Eu não reconheci o barqueiro, mas foi uma das figuras mais assustadoras que já vi.

Vilko assente.

- Eu conheço bem a região. Se quiser, posso ajudá-lo a encontrar o seu amigo.

Davud concorda alegremente, e então ele diz:

- Obrigado, senhor.

O capitão o vê batendo continência. Sem se importar, ele o guia pelo pântano negro.

Eles viam manchas de água e de Plasma pela inundação; os dois líquidos não se misturavam facilmente. As bombas inglesas sugavam ambos, mas as estações de tratamento separavam o valioso Plasma, devolvendo a água para o ambiente. Infelizmente, a poluição gerada pelas máquinas as tornavam impróprias para o consumo, e assim o custo da água potável foi se tornando mais caro para os liublianenses.

O capitão atravessa o matagal com precisão. Segurando sua lamparina, ele se desvia das partes alagadas e nunca molhava os pés. De fato, ele tinha um vasto conhecimento da região, como ele mesmo o disse.

De repente Davud ouve o som de quedas d’água muito próximas. Confuso, ele olha para os lados e não entende como pode haver cachoeiras ali. Então ele vê algo inesperado. No meio do pântano havia uma enorme cratera, revelando uma caverna profunda. Ele se espanta.

- Capitão, o senhor sabia da existência desta caverna?

- Não, guarda Davud. Estou tão espantado quanto você.

Esgueirando-se, os dois descem pela abertura.

Davud se impressiona com as estalactites e o rio subterrâneo. Ele nunca havia visto nada parecido na Bósnia. As cachoeiras de Plasma iluminam o fosso e eles caminham ao lado do brilhante rio. Tudo ali parecia tão irreal que ele pensa estar em um mundo fantasioso.

Distraído com a paisagem, Davud se assusta ao ser puxado por Vilko. Eles se escondem e o capitão gesticula para ele ficar em silêncio e observar algo adiante.

Ao longe o guarda vê a entrada de um misterioso templo. O templo estava esculpido na pedra e tinha várias corujas na fachada. Então ele vê cultistas guardando sua entrada; eles vestiam longos mantos e pareciam estar falando com alguém. Davud reconhece a Valentim.

Os guardas falam algo e então mais cultistas surgem, se materializando no ar. Valentim olha ao redor e calmamente começa a se despir. Davud se confunde. 

- O que ele está fazendo?!

- Shh! – interrompe o capitão – Espere eles terminarem.

Valentim entra no templo e os cultistas o seguem.

Cansado de esperar, o guarda se levanta e decide segui-los. Ele desce pelas pedras e rapidamente alcança a entrada.

Ao chegar no templo, Davud se intriga; os guardas haviam desaparecido. Vendo a entrada totalmente desguarnecida, ele não perde tempo e adentra o templo.

Semelhante a uma igreja cristã da Idade Média, a escuridão era predominante lá dentro. Então tochas repentinamente se acendem e o Plasma ilumina o interior. Davud vê os cultistas em toda parte; eles estavam de cabeça baixa fazendo profanas orações. Pelas paredes o guarda vê corpos pendurados e acorrentados; eram seres humanos sacrificados a alguma divindade pagã.

Vítimas eram torturadas em máquinas de tortura. As máquinas tinham polias e engrenagens e soltavam vapor de Plasma. Em seu flagelo, as vítimas tinham seus membros amputados e seu sangue coletado pelos algozes. O sangue era então levado até uma pira e lançado. Como se fosse seu alimento, a chama se atiçava violentamente, soltando um cheiro insuportável pelo ar. Davud se horroriza.

Adiante, além da multidão, ele avista a Valentim; ele está diante de um sacrílego altar. O guarda vê a estátua de uma coruja gigante sobreolhando a congregação e um sacerdote de manto púrpura ao lado de uma mesa de pedra. Devido ao número de cultistas presentes, Davud não consegue identificar o que está acontecendo.

Alguém agoniza ao seu lado. Virando-se, o guarda vê um homem tendo suas pernas amputadas pela terrível máquina de tortura. Então os algozes o libertam e a vítima cai no chão, rastejando-se devotamente em direção ao altar em seguida.

Atordoado por tamanho barbarismo, Davud diz:

- Capitão, eu vou informar os gendarmes!

O guarda se vira e se dirige à saída. Então alguém o segura e o apunhala pelas costas. Davud sente a lâmina atravessar sua pele e raspar em suas costelas. Seu grito é tão agudo quanto o de uma criança e, de fato, Davud não era muito mais do que uma. Ele arregala os olhos e lágrimas se formam. A potente dor o subjuga e o paralisa. O guarda se desespera; ele jamais pensou que partiria assim.

Reunindo suas últimas forças, ele grita:

- Valentim!

Ouvindo a voz familiar atrás de si, Valentim se vira. Surpreso, ele reconhece o jovem Davud no meio da congregação maldita. Então os cultistas entoam um tenebroso cântico, tão poderoso que é capaz de estremecer as paredes e abafar o pedido de socorro de seu companheiro.

O ritual supremo começa. Era chegada a hora de Valentim.

 

 



[1] O atual Domo da Rocha em Jerusalém

[2] “O raio” ou “aquele que emite a luz de um raio” em árabe

[3] “O templo sagrado e inviolável” em árabe

[4] “Isra” significa Jornada Noturna e “Mi’raj”, escada em árabe

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