(Artista desconhecido)
Sussurros e
preces ecoam pelo escuro. Valentim caminha totalmente nu pela misteriosa
congregação do subterrâneo. De repente cultistas com capuzes vermelhos e corpos
formosos se aproximam; Valentim reconhece mulheres. Elas o vestem com um
exótico manto marrom, cujo tecido lembravam penas.
Há um altar
adiante. Valentim enxerga uma mesa, provavelmente erigida ali para os
sacrifícios. Ele se impressiona ao ver pedras preciosas adornando seu contorno,
com ouro, esmeraldas, safiras e rubis. De tão larga, ele pensa ser uma cama,
mas não consegue ter certeza devido à fumaça dos incensos.
Diante do altar,
um sacerdote o aguarda. Ele vestia um belíssimo manto púrpura, que reluzia como
a capa dos reis. Em suas mãos haviam anéis de preciosas joias. Em seu pescoço
Valentim vê um distinto colar, que pendurava um talismã mágico de brilho
profano. A face do sacerdote era muito pálida, tão branca quanto a neve. A
coloração era tão anormal que ele parecia ter lepra.
O sacerdote se
apresenta:
- Saudações,
senhor Valentim. Bem-vindo ao templo de Exúvia.
Valentim inquire
incisivamente:
- O que vocês
querem de mim?
- Reencarnação. –
responde o sacerdote, de imediato – O retorno de Exúvia, o nosso deus.
Valentim se
confunde.
- Exúvia...?
Sorrindo, o
sacerdote calmamente responde:
- Exúvia é um
deus elementar e natural cujas raízes se perdem nas brumas do próprio tempo.
Seu culto se manteve vivo no paganismo de nossa província, apesar dos esforços
da Igreja de tentar erradica-lo. Desejamos reencarnar o nosso deus, e para isso
precisamos da sua ajuda.
- Minha ajuda?
- A hora da
reencarnação se aproxima; mais uma de muitas ao longo das incontáveis eras. Nós
preparamos a terra para o seu retorno, abrindo as portas do tenebroso abismo. O
Plasma sobe das profundezas e encharca a terra, infectando-a como o miasma dos
cadáveres. Com o abismo aberto, a própria realidade se curva, mesclando os
mundos, confundindo as mentes e tornando a fantasia real.
Então Valentim percebe.
De fato, o Plasma era alucinógeno e provocava alucinações, como Tobias disse.
Os cultistas abriram os portões do abismo e, com isso, trouxeram os espíritos
das profundezas. Assim muitas aparições eram monstros reais, como a Succubus
nos telhados, Caronte no Rio Liublianica e a mulher-lobo no Bosque das Espatódeas.
O sacerdote
continua:
- Liubliana é o
berço de Exúvia, e o Plasma o maravilhoso líquido que o alimenta no útero.
Valentim se
indigna.
- Maravilhoso?!
Essa substância maldita amaldiçoou a cidade, mergulhando-a em um poço de
sofrimento e violência!
- Um presságio do
que virá. – responde ele, sem se importar – Exúvia é uma divindade de vingança
e rigor, e virá para cobrar o que a humanidade tem feito com sua substância
sagrada. A violência é só o começo.
- Então vocês
realmente são os responsáveis pela onda de crime lá em cima. Tobias estava
certo.
- Exúvia pretende
reencarnar, e voltar do sono profundo da morte. Nós, seus fiéis servos, viemos
tentando reencarná-lo desde então. Nós usamos o robô dos ingleses, reanimando-o
com o Plasma e usando a Cabala judaica no processo. Mas nossa tentativa
fracassou.
Valentim se
lembra. O Golem robô foi descartado e abandonado nas ruas após o fracasso. E
assim ele causou dor e sofrimento para os judeus.
- Eu tentei
reencarná-lo no útero de uma meretriz londrina, realizando a profecia da
Prostituta da Babilônia descrita no livro das Revelações. Mas tu e teu amigo
inspetor frustraram os meus planos.
O sacerdote se
referia a ex-prostituta Madelaine Smith, escolhida por aquele sacrílego culto
para gerar o deus Exúvia.
- Por último, nós
tentamos reencarná-lo em nós mesmos, oferecendo nossos corpos para possessão ou
sacrifício, mas nenhum de nós era digno de abrigar sua fulminante presença
divina.
O sacerdote gesticula,
pedindo-o para olhar ao redor. Valentim percebe que todos eles, inclusive os
penitentes nas máquinas de tortura, tinham a aparência mórbida de leprosos. Os
cultistas foram possuídos por Exúvia, e todos acabaram drenados pelo deus. Após
definharem e morrerem, eles se tornaram seus escravos para sempre.
- No passado,
Exúvia foi o lendário dragão que hoje repousa sobre a ponte. Porém hoje ele não
é mais o dragão. Hoje ele é as corujas. – revela ele.
“As corujas...?”,
pensa Valentim. Nesse momento lhe ocorre que as corujas são um presságio de
morte. Segundo a crença popular, se a pessoa avistar uma coruja, algum
conhecido seu morrerá. Para o assombro de Valentim, ele vem avistando corujas
desde o desaparecimento de Danica. Como um mal agouro, elas vêm perseguindo-o
desde então.
O sacerdote diz:
- As corujas devem
gerar um filho. Mas para tanto, a coruja marrom deve se alinhar aos segredos
negros da noite. Só assim ela poderá gerar o filho, cuja concepção usurpa a
natureza de Deus. Tu, Valentim, és a coruja marrom.
Apontando para o
seu manto, o sacerdote lhe revela o seu destino. Então Valentim entende por que
eles o despiram e o vestiram com aquela roupa.
- Entretanto... –
continua ele – É necessário a coruja branca para que a cópula seja completa. Tua
esposa, Valentim, é a encarnação da coruja branca.
Então o fogo e a
fumaça se dissipam e Valentim reconhece uma mulher deitada na mesa sacrificial.
Imediatamente ele se desespera. Era Danica.
- Danica!
Valentim não
consegue acreditar nos seus olhos. Sua esposa estava bem ali, deitada à sua
frente. Ele treme e se confunde. Após meses procurando, ele nunca perdeu a
esperança de encontrá-la, nem que a encontrasse morta. Mas ela estava bem ali,
diante de seus olhos. Ofegante, ele não sabe o que fazer.
O marido se
intriga. Danica estava seminua, vestindo apenas um leve vestido branco e
deitada sobre a mesa. Estranhamente ela parecia estar sonolenta e entorpecida.
Então ele brada:
- Desgraçados! O
que vocês fizeram a ela?!
Valentim tenta
socorrer sua esposa. O sacerdote, porém, o proíbe.
- Detenham-no! –
então dezenas de cultistas aparecem no ar, cercando Valentim e segurando os
seus braços.
- Me soltem!
- O senhor não é
digno de toca-la! E tampouco será tua a honra de concebê-la! O senhor fracassou
em hospedar o deus! – acusa ele – Sendo assim, Exúvia não habitará o seu corpo,
mas depois se servirá de sua carcaça!
Então ele ouve
uma voz familiar atrás de si. Valentim se vira e, surpreso, reconhece o guarda
Davud no meio da congregação. A visão torna-se confusa e ele pensa ter ouvido um
pedido de ajuda. Mas naquele momento nada podia ser feito.
Os cultistas
entoam um tenebroso cântico e o som abafa a voz de Davud. Mas já era tarde demais
para o jovem guarda. Com sua esposa em perigo à sua frente, nada faria Valentim
parar.
O ritual supremo
começa. Enquanto Valentim luta bravamente para se desvencilhar dos cultistas, o
sacerdote se dirige à mesa sacrificial. O sacerdote se despe e se põe entre as
pernas de Danica, preparando-se para copular com ela.
Perante sua esposa,
o sacerdote acaricia seu corpo e seus os seios. Valentim se enche de ódio e desespero.
Ele grita, brada e vocifera, mas nada conseguia fazer detido pelos cultistas.
Então algo
acontece.
Uma fúria mística
cresce no corpo do marido e se expele de seus flamejantes olhos. O sangue ferve
e percorre seus braços, tão quente que poderia derreter as próprias veias. Seu
ódio era tão grande que ele sente que podia quebrar correntes com as próprias
mãos. Mas não eram correntes que ele queria quebrar; eram os ossos daquele
homem.
A magnífica força
sobe por seus braços e ele se solta dos cultistas, empurrando-os para longe. Ele
corre em direção à mesa e encontra uma pedra no chão. O reverberar do cântico
era infernal; os cultistas se extasiavam enquanto prosseguia o ritual macabro.
Valentim não se distrai; a iminência de assistir sua esposa ser violada por um
estranho lhe era intolerável.
Pegando a pedra,
ele se lança sobre a mesa e agarra o pescoço do sacerdote. O homem estava sobre
Danica e prestes a consuma-la. Então o golpe atinge o seu crânio e abre um
enorme buraco. O sacerdote cai ao lado de Danica, mas Valentim não está
satisfeito. Ele bate de novo, e de novo, e de novo, até sua cabeça se
assemelhar a um saco de couro molhado.
Valentim bramava
como um leão. O sangue do sacerdote jorrava pela mesa, se escorrendo por
pequenos entalhes místicos e formando desenhos. Os caminhos são preenchidos e
então algo se ativa, acendendo a mesa como se ela fosse energizada por Plasma.
Os cultistas
mudam o cântico e parecem comemorar algo. Tardiamente Valentim percebe. O
sacerdote não intentava consumar Danica; aquilo era um ardil para Valentim
mata-lo e realizar o sacrifício que alimentaria o deus com seu sangue. O
sacerdote era a oferenda.
Aquela luz brilha
e muda de aspecto. Passando do verde para o branco, a mesa sacrificial o ofusca
por alguns instantes e então algo inacreditável acontece. Valentim olha para
sua esposa e se espanta. Ela havia ficado vinte anos mais jovem.
Enquanto
contempla o corpo de Danica rejuvenescido à sua frente, o espírito de Exúvia surge
e possui o corpo de Valentim. Agora cheio de vigor divino, o marido olha para a
mesa e encontra o olhar sensual e cheio de desejo de sua esposa, convidando-o para
copular. Como um animal, ele se lança sobre Danica, que o recebe com a
intensidade de uma pantera selvagem. Em meio a arranhões, mordidas e muita
saliva, os dois copulam sobre a mesa sacrificial do templo.
Os cultistas entoam seus cânticos. As chamas
se atiçam, dançando sobre os castiçais e produzindo um clarão. A enorme estátua
da coruja parece ganhar vida, pois os encara com olhares assustadores.
Após um amor
intenso e um violento pulsar, a cópula finalmente se encerra. Valentim cai ao
lado da esposa e ofega constantemente, suando em exaustão. Atrás deles a congregação
rejubilava; mesmo os penitentes nas máquinas de tortura se arrastavam para o
altar, oferecendo-se para servi-los. Os cultistas sabem do que se trata. O
ritual havia sido consumado.
Danica concebe e um filho é gerado em seu ventre.
Era a reencarnação do deus Exúvia.

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