quarta-feira, 15 de janeiro de 2025

Shenzhou Wénzi - 11 - Fé

 


(Arte de Michel Stoquart)


Yang descansa.

Sentado na cama, ele passa a mão nos olhos e enxuga o suor de sua testa. A invasão estava desgastando-o. Olhando ao redor, ele observa o pequeno compartimento em que se encontra; era um dormitório muito confortável, reservado à alta patente. O piloto não era de alta patente, mas naquele momento toda a tripulação lhe era grata aos seus esforços.

Vestindo seu capacete, ele diz:

- Li Fen, pode me ouvir?

Alguns segundos depois, a garota responde:

“Afirmativo”.

- Como está a missão? O Alto Comando foi informado sobre a situação em Tiangong?

“Sim. O almirante Yaping nos enviou um relatório descrevendo a situação atual. O Alto Comando está satisfeito. Peço que aguarde por novas instruções”.

Li Fen falava em tom formal com ele, sem demonstrar amizade ou preocupação. Ele ainda estava ressentido com o que ela dissera horas atrás; sua assistente o culpa por coisas além de seu alcance. Mas, afastando esses pensamentos, ele decide deixá-la em paz.

Um barulho é ouvido. Caminhando pelos corredores, ele se dirige ao laboratório de Pesquisa e Desenvolvimento.

Engenheiros vestidos com luvas e toucas brancas trabalham na câmara de testes. Yang vê um protótipo sobre a mesa. Ele se aproxima para ver melhor e então alguém atrás dele diz:

- É melhor se afastar.

Virando-se, ele vê o almirante Yaping.

Levando-o para uma barreira de proteção, Yaping pede para ele observar.

Yang nota que é um canhão leve, de pequeno porte, conectado por tubos e cabos elétricos, parecido com um motor dos obsoletos carros a combustão. Em seguida um laser amarelo é disparado, avançando em um raio concentrado e direto. O piloto já viu aquela coloração antes; era o do próprio Yu Huang. O laser atinge alvos de aço e plástico na parede e os fulmina, carbonizando-os em um piscar de olhos. Os engenheiros sorriem, satisfeitos.

Em seguida o canhão é levado pela câmara de testes. Yang se reencontra com o Shenzhou Wénzi; sua nave estava sendo restaurada, tendo seus reparos feitos pelos técnicos e engenheiros de Tiangong. As soldas dos técnicos soltam faíscas e toda a fuselagem é restaurada. Os engenheiros acoplam a tecnologia nova no bordo inferior do Wénzi e conectam seus fios ao sistema de navegação do Navcom.

Yaping diz:

- Tendo 15 vezes a mais a potência do laser Estrela da Manhã, o mini canhão Yu Huang será muito útil para combater os enxames. Mas lembre-se de seu tempo de resfriamento para não superaquecer o canhão. – alerta ele – Use-o para conter a invasão, se é que ela ainda pode ser contida.

O piloto nota a falta de fé no almirante, mas não diz nada.

Uma hora depois, os reparos no Wénzi chegam ao fim. O acoplamento do mini canhão já está concluído e os engenheiros estão na cabine, eles estão configurando o software que reconhecerá a presença do novo laser no Navcom.

A ameaça dos sistemas de segurança foi neutralizada. Agora as torretas combatiam os enxames lá fora. O setor de Pesquisa e Desenvolvimento estava fortemente protegido e, desta maneira, Yang se sente em segurança.

Distraído, Yang apenas deixa o tempo passar.

Mas de repente algo acontece.

Um tremor fortíssimo percorre toda a estação, apagando as luzes e fazendo-o se desequilibrar. Alertas soam pelo setor. Apreensivos, Yang e os cientistas se abaixam, tentando se proteger.

Contatando o setor de comunicações, o almirante pergunta:

- Mas o que foi isso?!

“Transmitindo as imagens de segurança, senhor”.

Monitores se acendem e todos podem ver.

Explosões partem o casco e uma ruptura é feita no exterior de Tiangong. Da fumaça, a ponta de uma aeronave gigante atravessa o casco. Então todos veem, paralisados, a chegada de cruzadores espaciais idênticos aos da invasão de Shangai.    

Após o primeiro, mais e mais cruzadores invadem. Com a ruptura no casco, nada podia ser feito para repeli-los.

Em seguida os cruzadores liberam uma onda incontável de enxames. De tão numerosas, era como se eles estivessem vendo nuvens negras pelo espaço. O inimigo então segue para pulverizar as zonas habitacionais abaixo. Estava iniciado o extermínio.

Outro tremor é sentido, reverberando pela estação. Desta vez não foi uma ruptura no casco, mas algo pior.

O gerador de gravidade artificial é afetado, e de repente eles flutuam no ar. Os braços perpendiculares que atravessam o eixo da estação, produzindo a centrifugação, deixam de girar. As plataformas que percorrem o eixo também cessam o funcionamento, parando pela trajetória.    

O almirante não sabe o que fazer. A frota espacial chinesa já estava esgotada com a primeira invasão. Com a segunda onda, ela seria dizimada em minutos. Vendo os enxames voando por toda parte, Yaping pensa ver uma praga de gafanhotos. Nem mesmo as torretas conseguiam impor resistência. Os pilotos eram gradualmente abatidos. Estava selado o seu destino.

Tiangong mergulhava no caos.

- Senhor, temos que ir!

Yaping olha para o lado e vê um soldado falando com ele.

- O quê?! Eu não posso deixar Tiangong. Eu sou o almirante!

Como um capitão, o almirante se recusa a deixar o seu navio.

- Ordens do Alto Comando, senhor!

 Contrariado, ele é forçado a acatar.

Yang está confuso e também não sabe o que fazer. Então uma voz em seu comunicador diz:

“Piloto Haisheng, aqui é Li Fen. O Alto Comando ordenou que você deixe Tiangong. Eu repito, deixe Tiangong agora”.

O piloto responde:

- Não! Eu vou ficar e defender a estação!

Sua assistente não lhe dá resposta.

Procurando o Wénzi, ele o encontra próximo ao hangar. A nave estava com a cabine aberta; os engenheiros haviam fugido. Ele então tateia pela gravidade zero e adentra a nave.

O Wénzi havia sido consertado e os painéis estavam funcionais; os engenheiros haviam concluído o serviço. Apertando um botão, a cabine começa a se fechar.

- Piloto Haisheng! O que está fazendo?

O almirante falava com ele no lado de fora.

- Vou combater os enxames, senhor!

- Eles são muitos! Nós devemos deixar Tiangong! Ordens do Alto Comando!

- Mas, senhor...

- Eu sei! – interrompe ele – Eu sei...!

Ambos lançam olhares pesarosos um ao outro. Eles eram soldados, bons soldados, e fiéis à sua nação. Mas naquele momento a insubordinação percorria seus espíritos.

Yang e a Ponte de Comando são obrigados a fugir. A tripulação adentra as naves de fuga e Yang conduz o Wénzi para fora do hangar.

Mas outra coisa acontece.

O canhão Yu Huang se ativa sozinho; os alienígenas ainda combatiam pela cyber warfare. Apesar dos danos, o reator se regenerara e estava operacional. O canhão se carrega 100%. O desespero domina os técnicos e engenheiros; ele não podia ser desligado.

E então o laser é disparado. Para o horror de todos, ele aponta para Shangai.

 

§

 

Do espaço, Yang e a tripulação da Ponte de Comando conseguem ver.

A cidade é devastada lá embaixo. O poderoso laser a fulmina, com uma potência semelhante a 3 megatons.

Em lágrimas, Yang percebe. Sua cidade natal não existia mais.

De repente mais explosões são vistas do espaço. Ogivas nucleares são detonadas na superfície, provocando um forte clarão. A detonação é tão poderosa que arrasam cidades inteiras, dando a Yang a impressão de sentir o planeta todo tremer.

Ao todo, cerca de vinte detonações ocorrem na China. O Alto Comando liberou o lançamento dos mísseis balísticos Dongfeng, como retaliação ao ataque alienígena. Milhões morreram. De fato, os políticos do Zhongananhai não estavam blefando.

O piloto tenta se convencer de que, com o avanço sem resistência do inimigo, esse número vertiginoso de vítimas seria inevitável. O governo apenas escolheu o menor dos males.

Mais tarde, a tripulação de Tiangong se junta à frota do Alto Comando.

Na sala de guerra, todos se reúnem. O almirante Yaping se apresenta ao ministro da defesa, o almirante da marinha, o marechal do exército e o almirante da aeronáutica. O presidente os observa na outra ponta da mesa. Yang e Li Fen também estavam presentes, mas em locais discretos e longe da vista.

Yaping relata a situação. Tiangong já estava sendo tomada pelos enxames muito antes da chegada do Shenzhou Wénzi. Com um vírus nas redes, eles foram isolados de se comunicarem com a Terra.

Mais tarde, o casco da estação foi rompido e cruzadores a invadiram. Com a liberação dos enxames, tudo se perdeu.

- Mesmo se o Alto Comando não ordenasse, nós seríamos obrigados a deixar Tiangong. – conclui ele.

- E quanto ao Yu Huang? Como aquilo foi acontecer? – pergunta o presidente.

- Aquilo foi um efeito colateral e esperado da própria invasão. O inimigo já estava tentando ativá-lo desde a sua chegada. Com a estação sob seu controle, eles finalmente conseguiram ativar o armamento.

Os militares ponderam.

Prosseguindo, os operadores exibem as imagens da invasão.

A invasão atinge escala interplanetária. Não apenas a Terra era atacada; colônias e planetas também eram atacados por todo o Sistema Solar.

Ainda na Terra, aliados chineses também caíam sob o inimigo. Países como Irã, Coreia do Norte e Rússia eram conquistados sucessivamente. O continente africano caiu sem resistência alguma. Na sala de guerra, todos viam suas esperanças se desfalecerem. As chances da China vencer eram quase nulas.  

O almirante da Marinha sugere:

- Nós podíamos resistir a partir do mar, com ataques de navios e submarinos.

- Não. O inimigo também pode mergulhar suas aeronaves na água, e emergi-las novamente no céu. Nem mesmo os submarinos nucleares poderiam se esconder. Não teríamos chance. – discorda o ministro.

- E quanto ao Exército? Nós temos o maior exército do mundo. Eles não podem combater o inimigo em terra? – pergunta o presidente.

- O Exército está esgotado e tem pouquíssima eficácia contra o inimigo aéreo. Os enxames são rápidos e disparam bombas em diferentes trajetórias. Tanques e canhões antiaéreos são lentos demais para combatê-los.

- E quanto a Força Aérea?

O almirante da Força Aérea é o mais realista de todos.

- Nossos pilotos e aeronaves foram absolutamente humilhados. A aeronave mais avançada não é párea para eles. Drones também não. Todos foram abatidos no ar. Esquadrilhas e brigadas inteiras foram dizimadas. Eu não tenho mais aviões lá embaixo. Na verdade, eu estou considerando uma rendição.

Ao falar aquilo, todos se espantam. Então eles começam a murmurar essa hipótese. Todos falam o que já sabem. Aquilo não era mais uma invasão, era uma conquista.

- Como pode considerar isso? – interrompe o presidente – O destino da China está em jogo aqui! Se a China cair, toda a ordem mundial chinesa se desfalecerá!

O presidente se preocupa. Ao proporem rendição, ele temia por sua própria vida.

O ministro da defesa diz:

- A Marinha não tem vantagem contra o inimigo. O Exército não tem eficácia. A Força Aérea caiu. Inclusive a Frota Espacial se perdeu. – conclui ele, olhando para Yaping – Não tenho mais nada. Todos os recursos disponíveis se foram.

O presidente tenta forçar uma solução.

- O senhor é o Ministro da Defesa da República Popular da China! A segurança nacional está em suas mãos! O senhor tem que ter algo!

Pesaroso, o ministro abre as mãos e pergunta:

- Senhor presidente, e o que mais eu posso ter?!

- Tenha fé!

O Alto Comando se assusta. Todos se entreolham, procurando o autor daquela voz.

Para a surpresa dos dirigentes, quem falara era Yang.

- O que foi que disse?

- O senhor ministro deve ter fé. – reitera ele – Quantas vezes no passado a China caiu? Contra os mongóis, contra os ingleses, contra os japoneses, contra os próprios chineses durante as guerras civis...? – pergunta ele, referindo-se ao período republicano e a revolução maoísta – E não nos reerguemos novamente, mais fortes do que nunca?

O alto escalão reflete a respeito, concordando com ele.

O piloto continua:

- Sim, as Forças Armadas caíram, mas talvez as nossas armas não fossem as mais adequadas para combater o inimigo. Ele veio do espaço, de outro planeta ou galáxia, ainda não podemos dizer. Sua tecnologia é alienígena. Nossas armas foram feitas para combater inimigos humanos, da própria Terra. Se quisermos combater os alienígenas, precisamos pensar como os alienígenas.

- O que você quer dizer?

- Precisamos de armas eficazes contra o inimigo, e também de veículos semelhantes aos dos inimigos. – e então ele estufa o peito e conclui – Proponho a produção em larga escala do Shenzhou Wénzi.

Todos arregalam os olhos.

Um silêncio incômodo se levanta no ambiente.

 Um dos conselheiros do presidente sussurra algo em seu ouvido. Então ele diz:

- Nossos parques industriais foram tomados pelos enxames. Nas colônias interplanetárias é inviável sua produção por falta de obra prima. O que propõe não pode ser realizado.

- Talvez haja outra solução, senhor.

Desta vez todos olham para outra pessoa. Era Yaping.

- E qual seria, almirante?  

- Agentes do Guójiā Ānquán Bù[1]nos enviaram um relatório recentemente. Eles informaram que há um novo armamento sendo desenvolvido em Marte. Ele encontra-se na colônia interplanetária de Israel, um kibutz marciano nos arredores da base chinesa. – revela ele – Talvez o armamento seja eficaz contra os enxames.

O ministro da defesa complementa:

- Exato. Não apenas os israelenses, mas várias outras colônias têm armamentos em desenvolvimento pelo Sistema Solar. Reconheço que não conseguimos produzir mais espaçonaves, mas podemos adquirir para ela mais armas.

O presidente pensa um pouco. Mas em seguida ele ri.

- Estão dizendo que pretendem armar apenas uma nave, uma minúscula nave, para conter uma invasão alienígena inteira no Sistema Solar?

O ministro responde:

- Senhor presidente, o Shenzhou Wénzi combateu nos céus de Shangai, no subterrâneo de Pequim e em órbita em Tiangong. A nave superou as expectativas, comprovando o seu valor. E ela não fez isso sozinha, pois o experiente piloto Yang Haisheng a pilotou. Eles nunca falharam em sua missão.

O presidente se intriga.

- Então nossas esperanças estão em um protótipo e em um jogador de tênis de mesa?

Yang se ofende. Então ele ousadamente responde:

- Não em um simples jogador de tênis de mesa, senhor. Mas em um campeão olímpico. Sim, a China me deu todos os meios para eu treinar e me tornar um jogador, mas o torneio quem venceu foi apenas eu. Ninguém segurava a raquete comigo. E se eu sozinho pude vencer os melhores jogadores do mundo, então por que não esse inimigo?

Todos admiram a corajosa resposta de Yang. Atrás dele, Li fen se emciona com sua ousadia.

O presidente finalmente aceita.

- Pois façam como quiserem. O que mais temos a perder?

A reunião prossegue. Primeiramente o Alto Comando decide deixar o presidente em segurança. Sob a orientação de Yaping, eles optam por deixa-lo na colônia de Mercúrio.

O Alto Comando decide coletar as novas tecnologias pelo Sistema Solar. Os armamentos serão úteis ao Wénzi.

Por fim, Yang já tem seu novo destino e sua nova missão.

E então estava encerrada a reunião.

 

§

 

Horas mais tarde, todos se preparam para partir.

Separando-se do Alto Comando, uma pequena frota acompanha a nave presidencial para a colônia de Mercúrio, onde ele ficará em segurança.

O presidente parte para a colônia e o Alto Comando se dirige para Marte.

Yang veste seu uniforme e coloca seu capacete. Checando seu equipamento, ele conecta seu cinto. Estava tudo pronto.

Ele partiria na frente, em velocidade máxima rumo à colônia marciana. Não havia tempo a perder. Cada minuto perdido era pago com vidas humanas.

O piloto então parte para sua nova missão, adquirir o armamento israelense em Marte.

 

 



[1] “Ministério de Segurança do Estado” em chinês mandarim. É a principal agência de segurança da República Popular da China, responsável pela Inteligência, contraespionagem e a segurança política do Partido Comunista Chinês.   

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