(Arte de Michel Stoquart)
Yang descansa.
Sentado na cama,
ele passa a mão nos olhos e enxuga o suor de sua testa. A invasão estava
desgastando-o. Olhando ao redor, ele observa o pequeno compartimento em que se
encontra; era um dormitório muito confortável, reservado à alta patente. O piloto
não era de alta patente, mas naquele momento toda a tripulação lhe era grata aos
seus esforços.
Vestindo seu
capacete, ele diz:
- Li Fen, pode me
ouvir?
Alguns segundos
depois, a garota responde:
“Afirmativo”.
- Como está a
missão? O Alto Comando foi informado sobre a situação em Tiangong?
“Sim. O almirante
Yaping nos enviou um relatório descrevendo a situação atual. O Alto Comando
está satisfeito. Peço que aguarde por novas instruções”.
Li Fen falava em
tom formal com ele, sem demonstrar amizade ou preocupação. Ele ainda estava
ressentido com o que ela dissera horas atrás; sua assistente o culpa por coisas
além de seu alcance. Mas, afastando esses pensamentos, ele decide deixá-la em paz.
Um barulho é
ouvido. Caminhando pelos corredores, ele se dirige ao
laboratório de Pesquisa e Desenvolvimento.
Engenheiros
vestidos com luvas e toucas brancas trabalham na câmara de testes. Yang vê um
protótipo sobre a mesa. Ele se aproxima para ver melhor e então alguém atrás
dele diz:
- É melhor se
afastar.
Virando-se, ele
vê o almirante Yaping.
Levando-o para
uma barreira de proteção, Yaping pede para ele observar.
Yang nota que é
um canhão leve, de pequeno porte, conectado por tubos e cabos elétricos, parecido com um motor dos obsoletos carros a combustão. Em seguida um laser
amarelo é disparado, avançando em um raio concentrado e direto. O piloto já viu
aquela coloração antes; era o do próprio Yu Huang. O laser atinge alvos de aço
e plástico na parede e os fulmina, carbonizando-os em um piscar de olhos. Os
engenheiros sorriem, satisfeitos.
Em seguida o
canhão é levado pela câmara de testes. Yang se reencontra com o Shenzhou Wénzi;
sua nave estava sendo restaurada, tendo seus reparos feitos pelos técnicos e
engenheiros de Tiangong. As soldas dos técnicos soltam faíscas e toda a
fuselagem é restaurada. Os engenheiros acoplam a tecnologia nova no bordo inferior
do Wénzi e conectam seus fios ao sistema de navegação do Navcom.
Yaping diz:
- Tendo 15 vezes
a mais a potência do laser Estrela da Manhã, o mini canhão Yu Huang será muito útil
para combater os enxames. Mas lembre-se de seu tempo de resfriamento para não
superaquecer o canhão. – alerta ele – Use-o para conter a invasão, se é que ela
ainda pode ser contida.
O piloto nota a
falta de fé no almirante, mas não diz nada.
Uma hora depois,
os reparos no Wénzi chegam ao fim. O acoplamento do mini canhão já está
concluído e os engenheiros estão na cabine, eles estão configurando o software que
reconhecerá a presença do novo laser no Navcom.
A ameaça dos
sistemas de segurança foi neutralizada. Agora as torretas combatiam os enxames lá fora. O setor de Pesquisa e Desenvolvimento estava fortemente protegido
e, desta maneira, Yang se sente em segurança.
Distraído, Yang
apenas deixa o tempo passar.
Mas de repente
algo acontece.
Um tremor fortíssimo
percorre toda a estação, apagando as luzes e fazendo-o se desequilibrar.
Alertas soam pelo setor. Apreensivos, Yang e os cientistas se
abaixam, tentando se proteger.
Contatando o
setor de comunicações, o almirante pergunta:
- Mas o que foi
isso?!
“Transmitindo as
imagens de segurança, senhor”.
Monitores se
acendem e todos podem ver.
Explosões partem
o casco e uma ruptura é feita no exterior de Tiangong. Da fumaça, a ponta de
uma aeronave gigante atravessa o casco. Então todos veem, paralisados, a
chegada de cruzadores espaciais idênticos aos da invasão de Shangai.
Após o primeiro, mais e mais cruzadores invadem. Com a ruptura no casco, nada podia ser feito para repeli-los.
Em seguida os cruzadores liberam uma onda incontável de enxames. De tão numerosas, era como se eles estivessem vendo nuvens negras pelo espaço. O inimigo então segue para pulverizar as zonas habitacionais abaixo. Estava iniciado o extermínio.
Outro tremor é
sentido, reverberando pela estação. Desta vez não foi uma ruptura no casco,
mas algo pior.
O gerador de
gravidade artificial é afetado, e de repente eles flutuam no ar. Os braços perpendiculares
que atravessam o eixo da estação, produzindo a centrifugação, deixam de girar.
As plataformas que percorrem o eixo também cessam o funcionamento, parando pela
trajetória.
O almirante não
sabe o que fazer. A frota espacial chinesa já estava esgotada com a primeira invasão.
Com a segunda onda, ela seria dizimada em minutos. Vendo os enxames voando por
toda parte, Yaping pensa ver uma praga de gafanhotos. Nem mesmo as torretas conseguiam impor resistência. Os pilotos eram gradualmente abatidos.
Estava selado o seu destino.
Tiangong
mergulhava no caos.
- Senhor, temos
que ir!
Yaping olha para
o lado e vê um soldado falando com ele.
- O quê?! Eu não
posso deixar Tiangong. Eu sou o almirante!
Como um capitão,
o almirante se recusa a deixar o seu navio.
- Ordens do Alto
Comando, senhor!
Contrariado, ele é forçado a acatar.
Yang está confuso
e também não sabe o que fazer. Então uma voz em seu comunicador diz:
“Piloto Haisheng,
aqui é Li Fen. O Alto Comando ordenou que você deixe Tiangong. Eu repito, deixe
Tiangong agora”.
O piloto
responde:
- Não! Eu vou
ficar e defender a estação!
Sua assistente
não lhe dá resposta.
Procurando o
Wénzi, ele o encontra próximo ao hangar. A nave estava com a cabine aberta; os
engenheiros haviam fugido. Ele então tateia pela gravidade zero e adentra a
nave.
O Wénzi havia
sido consertado e os painéis estavam funcionais; os engenheiros haviam
concluído o serviço. Apertando um botão, a cabine começa a se fechar.
- Piloto
Haisheng! O que está fazendo?
O almirante
falava com ele no lado de fora.
- Vou combater os
enxames, senhor!
- Eles são
muitos! Nós devemos deixar Tiangong! Ordens do Alto Comando!
- Mas, senhor...
- Eu sei! –
interrompe ele – Eu sei...!
Ambos lançam
olhares pesarosos um ao outro. Eles eram soldados, bons soldados, e fiéis à sua
nação. Mas naquele momento a insubordinação percorria seus espíritos.
Yang e a Ponte de
Comando são obrigados a fugir. A tripulação adentra as naves de fuga e Yang conduz
o Wénzi para fora do hangar.
Mas outra coisa acontece.
O canhão Yu Huang
se ativa sozinho; os alienígenas ainda combatiam pela cyber warfare. Apesar dos danos, o reator se regenerara e estava
operacional. O canhão se carrega 100%. O desespero domina os técnicos e
engenheiros; ele não podia ser desligado.
E então o laser é
disparado. Para o horror de todos, ele aponta para Shangai.
§
Do espaço, Yang e
a tripulação da Ponte de Comando conseguem ver.
A cidade é
devastada lá embaixo. O poderoso laser a fulmina, com uma potência semelhante a
3 megatons.
Em lágrimas, Yang
percebe. Sua cidade natal não existia mais.
De repente mais
explosões são vistas do espaço. Ogivas nucleares são detonadas na superfície,
provocando um forte clarão. A detonação é tão poderosa que arrasam cidades
inteiras, dando a Yang a impressão de sentir o planeta todo tremer.
Ao todo, cerca de
vinte detonações ocorrem na China. O Alto Comando liberou o lançamento dos
mísseis balísticos Dongfeng, como retaliação ao ataque alienígena. Milhões
morreram. De fato, os políticos do Zhongananhai
não estavam blefando.
O piloto tenta se
convencer de que, com o avanço sem resistência do inimigo, esse número
vertiginoso de vítimas seria inevitável. O governo apenas escolheu o menor dos
males.
Mais tarde, a
tripulação de Tiangong se junta à frota do Alto Comando.
Na sala de
guerra, todos se reúnem. O almirante Yaping se apresenta ao ministro da defesa,
o almirante da marinha, o marechal do exército e o almirante da aeronáutica. O
presidente os observa na outra ponta da mesa. Yang e Li Fen também estavam
presentes, mas em locais discretos e longe da vista.
Yaping relata a
situação. Tiangong já estava sendo tomada pelos enxames muito antes da chegada
do Shenzhou Wénzi. Com um vírus nas redes, eles foram isolados de se
comunicarem com a Terra.
Mais tarde, o
casco da estação foi rompido e cruzadores a invadiram. Com a liberação dos
enxames, tudo se perdeu.
- Mesmo se o Alto
Comando não ordenasse, nós seríamos obrigados a deixar Tiangong. – conclui ele.
- E quanto ao Yu
Huang? Como aquilo foi acontecer? – pergunta o presidente.
- Aquilo foi um
efeito colateral e esperado da própria invasão. O inimigo já estava tentando
ativá-lo desde a sua chegada. Com a estação sob seu controle, eles finalmente
conseguiram ativar o armamento.
Os militares
ponderam.
Prosseguindo, os
operadores exibem as imagens da invasão.
A invasão atinge
escala interplanetária. Não apenas a Terra era atacada; colônias e planetas também
eram atacados por todo o Sistema Solar.
Ainda na Terra,
aliados chineses também caíam sob o inimigo. Países como Irã, Coreia do Norte e
Rússia eram conquistados sucessivamente. O continente africano caiu sem
resistência alguma. Na sala de guerra, todos viam suas esperanças se
desfalecerem. As chances da China vencer eram quase nulas.
O almirante da
Marinha sugere:
- Nós podíamos
resistir a partir do mar, com ataques de navios e submarinos.
- Não. O inimigo
também pode mergulhar suas aeronaves na água, e emergi-las novamente no céu.
Nem mesmo os submarinos nucleares poderiam se esconder. Não teríamos chance. –
discorda o ministro.
- E quanto ao
Exército? Nós temos o maior exército do mundo. Eles não podem combater o
inimigo em terra? – pergunta o presidente.
- O Exército está
esgotado e tem pouquíssima eficácia contra o inimigo aéreo. Os enxames são
rápidos e disparam bombas em diferentes trajetórias. Tanques e canhões
antiaéreos são lentos demais para combatê-los.
- E quanto a
Força Aérea?
O almirante da
Força Aérea é o mais realista de todos.
- Nossos pilotos
e aeronaves foram absolutamente humilhados. A aeronave mais avançada não é
párea para eles. Drones também não. Todos foram abatidos no ar. Esquadrilhas e
brigadas inteiras foram dizimadas. Eu não tenho mais aviões lá embaixo. Na
verdade, eu estou considerando uma rendição.
Ao falar aquilo,
todos se espantam. Então eles começam a murmurar essa hipótese. Todos falam o
que já sabem. Aquilo não era mais uma invasão, era uma conquista.
- Como pode
considerar isso? – interrompe o presidente – O destino da China está em jogo
aqui! Se a China cair, toda a ordem mundial chinesa se desfalecerá!
O presidente se preocupa.
Ao proporem rendição, ele temia por sua própria vida.
O ministro da
defesa diz:
- A Marinha não
tem vantagem contra o inimigo. O Exército não tem eficácia. A Força Aérea caiu.
Inclusive a Frota Espacial se perdeu. – conclui ele, olhando para Yaping – Não
tenho mais nada. Todos os recursos disponíveis se foram.
O presidente
tenta forçar uma solução.
- O senhor é o
Ministro da Defesa da República Popular da China! A segurança nacional está em
suas mãos! O senhor tem que ter algo!
Pesaroso, o
ministro abre as mãos e pergunta:
- Senhor
presidente, e o que mais eu posso ter?!
- Tenha fé!
O Alto Comando se
assusta. Todos se entreolham, procurando o autor daquela voz.
Para a surpresa
dos dirigentes, quem falara era Yang.
- O que foi que
disse?
- O senhor
ministro deve ter fé. – reitera ele – Quantas vezes no passado a China caiu?
Contra os mongóis, contra os ingleses, contra os japoneses, contra os próprios
chineses durante as guerras civis...? – pergunta ele, referindo-se ao período
republicano e a revolução maoísta – E não nos reerguemos novamente, mais fortes
do que nunca?
O alto escalão reflete
a respeito, concordando com ele.
O piloto
continua:
- Sim, as Forças
Armadas caíram, mas talvez as nossas armas não fossem as mais adequadas para
combater o inimigo. Ele veio do espaço, de outro planeta ou galáxia, ainda não
podemos dizer. Sua tecnologia é alienígena. Nossas armas foram feitas para combater
inimigos humanos, da própria Terra. Se quisermos combater os alienígenas, precisamos
pensar como os alienígenas.
- O que você quer
dizer?
- Precisamos de
armas eficazes contra o inimigo, e também de veículos semelhantes aos dos
inimigos. – e então ele estufa o peito e conclui – Proponho a produção em larga
escala do Shenzhou Wénzi.
Todos arregalam
os olhos.
Um silêncio
incômodo se levanta no ambiente.
Um dos conselheiros do presidente sussurra
algo em seu ouvido. Então ele diz:
- Nossos parques
industriais foram tomados pelos enxames. Nas colônias interplanetárias é
inviável sua produção por falta de obra prima. O que propõe não pode ser
realizado.
- Talvez haja
outra solução, senhor.
Desta vez todos
olham para outra pessoa. Era Yaping.
- E qual seria,
almirante?
- Agentes do Guójiā Ānquán Bù[1]nos
enviaram um relatório recentemente. Eles informaram que há um novo armamento
sendo desenvolvido em Marte. Ele encontra-se na colônia interplanetária de Israel,
um kibutz marciano nos arredores da base chinesa. – revela ele – Talvez o
armamento seja eficaz contra os enxames.
O ministro da
defesa complementa:
- Exato. Não
apenas os israelenses, mas várias outras colônias têm armamentos em
desenvolvimento pelo Sistema Solar. Reconheço que não conseguimos produzir mais
espaçonaves, mas podemos adquirir para ela mais armas.
O presidente pensa
um pouco. Mas em seguida ele ri.
- Estão dizendo
que pretendem armar apenas uma nave, uma minúscula nave, para conter uma
invasão alienígena inteira no Sistema Solar?
O ministro
responde:
- Senhor
presidente, o Shenzhou Wénzi combateu nos céus de Shangai, no subterrâneo de
Pequim e em órbita em Tiangong. A nave superou as expectativas, comprovando o
seu valor. E ela não fez isso sozinha, pois o experiente piloto Yang Haisheng a
pilotou. Eles nunca falharam em sua missão.
O presidente se
intriga.
- Então nossas
esperanças estão em um protótipo e em um jogador de tênis de mesa?
Yang se ofende. Então
ele ousadamente responde:
- Não em um
simples jogador de tênis de mesa, senhor. Mas em um campeão olímpico. Sim, a
China me deu todos os meios para eu treinar e me tornar um jogador, mas o
torneio quem venceu foi apenas eu. Ninguém segurava a raquete comigo. E se eu
sozinho pude vencer os melhores jogadores do mundo, então por que não esse
inimigo?
Todos admiram a
corajosa resposta de Yang. Atrás dele, Li fen se emciona com sua ousadia.
O presidente
finalmente aceita.
- Pois façam como
quiserem. O que mais temos a perder?
A reunião prossegue.
Primeiramente o Alto Comando decide deixar o presidente em segurança. Sob a
orientação de Yaping, eles optam por deixa-lo na colônia de Mercúrio.
O Alto Comando decide
coletar as novas tecnologias pelo Sistema Solar. Os armamentos serão úteis ao
Wénzi.
Por fim, Yang já tem
seu novo destino e sua nova missão.
E então estava
encerrada a reunião.
§
Horas mais tarde,
todos se preparam para partir.
Separando-se do
Alto Comando, uma pequena frota acompanha a nave presidencial para a colônia de
Mercúrio, onde ele ficará em segurança.
O presidente
parte para a colônia e o Alto Comando se dirige para Marte.
Yang veste seu
uniforme e coloca seu capacete. Checando seu equipamento, ele conecta seu
cinto. Estava tudo pronto.
Ele partiria na
frente, em velocidade máxima rumo à colônia marciana. Não havia tempo a perder.
Cada minuto perdido era pago com vidas humanas.
O piloto então
parte para sua nova missão, adquirir o armamento israelense em Marte.
[1]
“Ministério de Segurança do Estado” em chinês mandarim. É a principal agência
de segurança da República Popular da China, responsável pela Inteligência,
contraespionagem e a segurança política do Partido Comunista Chinês.

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