-
Valentim! – grita Tobias.
A
consciência está em retalhos. A realidade se embaralha em fragmentos aleatórios
e se revira. Apesar de desmaiado, Valentim sente que está embriagado sob o
efeito de um vinho bem forte. Suas roupas estão ensopadas e grudam em seu
corpo. Cacos de vidro caem de sua cabeça. Olhando para o seu peito, ele o vê
molhado por um líquido verde e brilhante.
De
olhos semicerrados, ele vê a possuída gritar e se debater violentamente na
cama. Izak está em pé ao seu lado, aspergindo água benta e recitando preces
exorcistas. Madame Meia-noite segura suas pernas, auxiliando o diácono. Tobias,
por sua vez, está perplexo e não sabe o que fazer.
-
Valentim! – repete ele.
Apesar
dos apelos do inspetor, Valentim não consegue se mexer. Estranhamente ele
parece ver tudo em velocidade reduzida.
Sem
parar o exorcismo, Izak reza:
“Ave, Maria, grátia plena, Dóminus tecum,
benedícta tu in muliéribus, et benedictus fructus ventris tui Jesus. Sancta
Maria, Mater Dei, ora pro nobis peccatóribus, nunc et in hora mortis nostrae.
Amém”.
Valentim
não entende a prece, mas sabe que é um Ave Maria em latim.
Nesse
momento a possuída grita e blasfema incessantemente, proferindo ofensas que nenhum
cristão teria coragem de dizer.
Valentim
pisca e de repente Tobias está agachado ao seu lado, cuidando dele. A possuída
grita e chuta o diácono, ferindo-o. A cafetina tenta socorrê-lo, mas ele a
proíbe, dizendo que o ritual deve continuar. Izak recita mais uma vez o Ave
Maria, desta vez em idioma conhecido.
“Ave
Maria, cheia de graça, o Senhor é convosco, bendita sois vós entre as mulheres
e bendito é o fruto do vosso ventre, Jesus. Santa Maria, Mãe de Deus, rogai por
nós, agora e na hora da nossa morte. Amém”.
Ao encerrar a
prece sagrada, algo acontece.
Acima, no alto da
parede, Valentim vê um quadro de Virgem Maria. Na pintura, ela está de pé sobre
as nuvens e há uma auréola sobre sua cabeça; ela está de braços abertos, como
se estivesse recebendo os devotos em seu amor de mãe. De repente uma luz muito
forte irradia no quarto, ofuscando sua vista e suspendendo-o no tempo. A cama,
o diácono, a cafetina, o inspetor e a possuída, todos desaparecem dali. Ao
olhar bem, mesmo o quarto se desintegra naquela poderosa luz. Assustado,
Valentim teme ter morrido.
Uma neblina
branca e suave passa pelo seu corpo; eram nuvens. Seu corpo se regenera e ele
se sente curado do forte impacto em sua cabeça. Valentim se levanta lentamente.
De repente, alguém aparece diante dele na luz e nas nuvens. A imagem celestial
toma forma e se personifica, revelando uma mulher sagrada e venerada por
milhões.
Valentim arregala
os olhos, tentando ver. A mulher vestia um vestido vermelho e uma capa azul.
Ela usava um lenço branco e havia uma auréola em sua cabeça. Então Valentim a
reconhece; a pessoa à sua frente era a Virgem Maria, Mãe de Deus.
De pernas
trêmulas, ele cai de joelhos e se desaba, perplexo com a cena.
- Mãe...? –
sussurra ele.
Lágrimas se
formam em seus olhos e ele chora, profundamente emocionado. Com o corpo
prostrado e o rosto em terra, ele roga:
- Perdoe-me, Mãe!
Eu suplico! Me perdoe...!
Vozes são ouvidas
ao fundo; dois homens falavam energicamente em algum lugar no tempo.
“Chamem um
médico!”.
Valentim não
podia suportar o encontro com Maria. Ele se sente sujo, indigno de estar em sua
presença. A presença do pecado maculava sua alma, acusando-o com as mais
terríveis injúrias. O arrependimento e o remorso o consomem, fazendo-o suplicar
firmemente pelo seu perdão.
Ao fundo, alguém
incessantemente reza.
“Ave Maria, cheia
de graça, o Senhor é convosco...”.
Valentim se
sentia sujo e mil banhos não poderiam lavá-lo de suas impurezas. De rosto em
terra, ele não tem coragem de ao menos olhar para ela.
- Santa Maria,
mãe de Deus...! Me perdoe...! – suplica ele.
Irresistivelmente
ele chora.
“Ele está
alucinando!”, grita alguém.
Com voz
telepática, Maria se aproxima e o consola. Valentim está prostrado aos seus
pés. Então uma mão invisível acaricia o seu rosto e levanta o seu queixo.
Valentim ergue sua cabeça e lágrimas se escorrem por sua barba. À sua frente,
Maria lhe lançava um olhar bondoso e carinhoso de mãe.
“Bendita sois vós
entre as mulheres e bendito é o fruto do vosso ventre, Jesus...”, reza alguém.
De repente
Valentim vê um bebê diante de si. A criança esperneava e chorava intensamente,
implorando por proteção e cuidado. Os bracinhos e as perninhas finas lhe partem
o coração; ele parecia estar muito cansado e faminto. Uma aflição profunda o
domina, e ele se pergunta como alguém tem coragem de abandonar um bebê assim.
Maria então toma
o bebê em seus braços e o acolhe. Nos braços da suprema Mãe, o frágil bebê se
aninha e se acalma.
“Santa Maria, Mãe
de Deus, rogai por nós, agora e na hora da nossa morte. Amém...”.
Uma outra voz exclama:
“O bebê não está
respirando! Meu Deus! O bebê não está respirando...!”.
Com o bebê em
seus braços, Maria telepaticamente diz para Valentim não desistir de sua busca,
porque o dia de se reencontrar com Danica se aproxima. Então um estupor de
alegria o domina, tendo suas esperanças finalmente renovadas.
Então Maria diz
adeus. Com olhar agradecido, Valentim também se despede. A Santa Mãe é
envolvida por uma ofuscante luz e desaparece, voltando para o Céu. Valentim
novamente desmaia, adormecendo em seguida.
E assim a
epifania se encerra.
§
Ao acordar,
Valentim se vê no quarto da possuída. Tobias e Izak estão de luto e Madame
Meia-noite segura um bebê em seus braços; ele estava morto.
Algo estava
diferente. A mulher não estava mais possuída, agora ela estava acordada e
descansava na cama.
A mulher estava
fraca, mas consciente. O inspetor ouve que Madelaine Smith era o seu nome e se
aproxima para consolá-la. Tobias se senta ao seu lado e irresistivelmente a
admira; a mulher era uma inglesa muito bonita.
Tobias lhe
explica o que aconteceu. Madelaine estava possuída por um demônio, mas Izak
bravamente o expulsou. O inspetor lhe revela que ela infelizmente perdeu o bebê
durante o exorcismo, e ele jazia morto nos braços de sua amiga. Por fim ele conclui:
- Eu lamento
muito.
Madelaine não se
entristece. Ao invés, ela diz:
- Inspetor, eu
sou uma devota de Virgem Maria e serva do Deus Altíssimo. Tudo acontece por uma
razão, desde este trágico acontecimento até o nosso encontro. Se Ele me usou
para revelar o mal que existe no mundo, eu fico feliz de ter sido a escolhida.
Um pouco
envergonhado, o inspetor diz:
- Eu voltarei para
vê-la.
Tobias estava
completamente apaixonado. Percebendo seus sentimentos, Madelaine acaricia seu
rosto e responde:
- Obrigada.
E então ela
repousa na cama.
§
Na manhã
seguinte, Tobias faz o relatório do caso. Na capa da pasta está escrito:
“extraoficial”.
Ao contrário do
que todos pensaram, o bebê de Madelaine não era sobrenatural; alguém entrou em
seu quarto e a engravidou. Como Tobias bem sabe, o Plasma é alucinógeno e a
cerração a entorpeceu, incapacitando-a. O suspeito, provavelmente um dos
próprios cultistas, se aproveitou de que ela estava indefesa e a possuiu.
O inspetor
prometeu procurar o culpado, mas Madame Meia-noite fortemente se opôs; ela não
queria a presença da Gendarmerie no Beco das Meretrizes. Tobias se lamenta ao
estimar que, muito provavelmente, as investigações serão suspensas por falta de
provas e obstruções, fatalmente não dando em nada.
Apoiando-se na
mesa, Tobias se lembra de outra coisa. Valentim relatou seu encontro com a
Virgem Maria. De maneira fantástica, ele afirmou que Maria havia levado a alma
do bebê consigo e que ele estava bem. Pondo a mão nos olhos, o inspetor respira
fundo. Ele não acredita em nenhuma palavra do relato. O Plasma provoca
alucinação e, por isso, Valentim ficou olhando fixamente para um retrato de
Maria na parede enquanto balbuciava e chorava.
Todavia, Tobias
afasta esses pensamentos. Ele se regozija ao vê-lo alegre e esperançoso em
encontrar a esposa, por isso prefere não lhe dizer nada.
A violência
urbana provocada pelo Plasma fez mais uma vítima. O inspetor está decidido a
eliminar esta ameaça, mas para isso precisa de mais provas. Preocupado, ele
sabe que precisará trabalhar bastante, mas se tranquiliza ao saber que, com seu
inexorável assistente ao seu lado, ele terá a força que precisa para
prosseguir.
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