sábado, 23 de maio de 2020

Tiergarten - 06 - Liga das Mulheres Democráticas Alemãs



Dias se passam. Chegando a data esperada, Gunther se dirige ao local de reunião da DFD, próximo à Avenida Alexanderplatz. Ele se depara com um prédio reconstruído, um daqueles revitalizados pela retilínea arquitetura socialista.
Adentrando-o, ele sobe as escadas até encontrar um cartaz colado em uma das portas. Nele está escrito: “Reunião da Liga das Mulheres Democráticas Alemãs. Visitantes são benvindos”. Ao abrir a porta, ele vê um vasto andar cheio de cadeiras e, mais a frente, uma mesa larga onde as membras do DFD discutem suas pautas e proferem seus discursos.
Procurando uma cadeira perto das líderes do movimento, ele se desvia dos visitantes e discretamente se senta. As janelas à sua direita são bem grandes e a luz do dia ilumina o local. Apesar das cortinas balançarem suavemente com o vento, ele nota os ventiladores ligados nas paredes.
Atrás da mesa principal, ele vê retratos de mulheres na parede. Gunther reconhece duas, pois na escola estudou sobre os criadores da Alemanha socialista e alguns de seus movimentos de massa. Tratavam-se de Else Lüders, co-fundadora da DFD e Elli Schimidt, sua primeira presidente.
Algum tempo depois, a reunião se inicia. Primeiramente, as líderes reiteram suas posições políticas, falando de sua importância e seu comprometimento. A DFD lutava pela remoção total das ideias fascistas, pela educação para as mulheres, pelos direitos iguais, pelas condições de vida mais justas, pela educação infantil no espírito do humanismo e da paz, e pela cooperação com o movimento internacional das mulheres. Gunther conhecia seus objetivos, pois os havia lido no panfleto entregue à ele no parque.
Enquanto as membras discursavam sobre as questões atuais, mais visitantes chegavam. O rapaz olhava atentamente para eles, esperando encontrar aquela linda garota que roubou seu coração. Mas ela não estava lá, nem entre os visitantes ou entre as membras. Gunther se frustra.
Na reunião, a presidente exalta a bravura de sua primeira presidente, Elli Schimidt, a antecessora de todas. Schimidt ingressou na Associação Comunista da Juventude Alemã em 1927 e, na década de 30, participou da temida Internacional Comunista. Revolucionária dedicada, Schimidt foi, de 1935 a 46, a única mulher integrante do Partido Comunista Alemão. Finada a guerra, ela retorna à Alemanha em 1945, tornando-se membra do comitê central e, de 46 a 49, chefia as mulheres filiadas ao Partido Unificado da Alemanha Socialista. Em 1949 ela torna-se a primeira presidente do DFD e de 1950 a 54, elege-se ao Volkskammer.
A atual presidente relembra os demais quanto à firme postura de Schimidt. Ela teve coragem ao criticar o próprio partido governante e seu primeiro secretário, Walter Ulbricht. Entretanto, tamanha ousadia teve punição e ela acabou sendo expulsa do comitê central. Devido à sua incansável luta social, Schimidt recebeu três condecorações: a Ordem Patriótica do Mérito, em 1965, o fecho honorário da Ordem Patriótica do Ouro, em 1968 e a Ordem Karl Marx uma década depois em 1978.
“Que mulher!”, admira-se Gunther.
As palestrantes discursavam e alguns visitantes participavam fazendo perguntas. As ativistas discursavam sobre a importância da emancipação das mulheres alemãs e de sua fundamental contribuição não somente à economia, mas ao lado oriental.
Uma hora se passa. As pessoas falavam de questões gerais relacionadas à sociedade socialista e seus objetivos defendidos pela DFD. Política não era seu forte e assistir à uma reunião de ativistas defendendo um sistema ideológico não lhe atraía nenhuma atenção, especialmente quando ele não estava ali para participar daquilo. Preparando-se para ir embora, de repente ele ouve a porta se abrir.
Passando pela porta, a garota de cabelos castanhos entra na sala. Os olhos de Gunther se arregalam. Passando tranquilamente pelos visitantes, seus olhos seguem aquela que faz seu coração disparar na mais sublime euforia que apenas os apaixonados podem sentir. Anneliese se veste com muito recato e seus passos transmitem uma imponência que o faz se hipnotizar. Era como se desde a última vez que se viram ela estivesse mil vezes mais linda.
Ficando três fileiras à frente, a garota segura sua saia e finalmente se senta. De costas para Gunther, ela não nota que ele novamente a observa, irresistivelmente como uma criança bávara diante de uma loja de chocolates.     
Então as palestrantes da mesa a apresentam, dizendo:
- Esta é Anneliese, de nosso escritório na cidade de Dresden. – a garota sorri e se levanta – Ela é responsável pela militância política em defesa da igualdade e dos direitos das mulheres saxônicas.
Os presentes a aplaudem, fazendo-a acenar e sorrir para todos. O rapaz sente seu coração saltar.
- Anneliese, venha aqui à frente, por favor.
A presidente das palestrantes a convida a discursar. A garota caminha até a mesa e, agradecendo, olha para os visitantes e diz:
- Boa tarde. Eu muito tenho lutado politicamente pela educação das mulheres e sua emancipação familiar. Todos sabemos que nosso país sofre constantemente ameaças do imperialismo fascista ocidental. Atraídos pelo materialismo burguês e pelo consumismo desenfreado das chamadas sociedades capitalistas, nossos irmãos alemães têm desertado para além da Cortina de Ferro, decrescendo drasticamente nossa população e prejudicando principalmente a nós, as mulheres.
Gunther se intriga, não encontrando relação nas palavras da garota.
- Vejam as mulheres alemãs do outro lado do muro. Foram esvaziadas intelectualmente pelas benesses luxuosas e tóxicas do capitalismo, tornando-se irrelevantes e inócuas, importando-se apenas com joias e roupas da moda. Foram cegadas por seus senhores patriarcais burgueses, desconhecendo e afastando-se mais e mais de sua fundamental posição social na Alemanha. Nosso movimento, por outro lado, valoriza as mulheres de verdade. Apesar de nossa carência na estética e no entretenimento, nós, as alemãs orientais, temos nossa conscientização política para nos orgulharmos.
Então o rapaz se consterna com as palavras de Anneliese. “Essas mulheres pensam que a politização compensa a divertida e atraente indústria da moda do ocidente”, pensa ele.
- O êxodo populacional prejudicou nosso país, levando inclusive nossas mulheres que contribuem para a existência de nosso povo. Desta forma, para sustentar nossa economia, temos apelado para que as donas de casa abandonem seu jugo matrimonial, tão patriarcal e obsoleto, e assumam sua posição de vanguarda na alfabetização, na qualificação e na força de trabalho, tão necessários ao nosso sistema e nosso futuro.
As alemãs vêm ouvindo esse discurso desde muito antes de seu nascimento. Gunther sabe que a qualificação profissional de sua mãe foi viabilizada graças a ativistas políticas como as da DFD.
- Para combater o veneno ocidental e refrear a deserção em massa, faremos manifestações populares para arregimentar as alemãs e trazê-las para a posição de destaque que elas merecem. Obrigado.
Então a garota agradece e todos aplaudem. A presidente se levanta e, pegando um documento, diz ao público:
- Aqui está nosso agendamento. As manifestações ocorrerão ainda esta semana, lideradas por mim, nossas mesárias e por Anneliese. Contamos com a presença de todos.
Os visitantes novamente aplaudem. Gunther se alegra, agora ele sabia que Anneliese continuaria em Berlim. Entusiasmado, ele se empolga em aplaudir também.
Ao final da reunião, todos se levantam e o rapaz se apressa em direção da garota. Abordando-a, ele a cumprimenta, dizendo:
- Olá, Anneliese.
A garota olha para ele e, sem dar muita importância, sorri, respondendo:
- Olá, camarada. Obrigado por ter vindo.
- Você...
Então vários outros visitantes também aparecem e começam a conversar com ela. Na garganta do rapaz ficam as outras palavras, o restante de sua frase: “se lembra de mim...?”. Alguém a chama e, virando-se, ela vai embora. Gunther não se importa, pois assim como antes, ele a reencontraria de novo. Anotando as datas e horários, ele guarda a agenda da DFD e deixa a reunião.

§

Nas semanas posteriores, Gunther passa frequentar as manifestações da DFD. As ativistas gostavam de falar que eram manifestações populares espontâneas, mas todos sabiam que eram sob permissão direta do Comitê Central do Partido Socialista.
A cada manifestação, as mulheres marchavam por diferentes bairros de Berlim. A primeira ocorre no distrito de Mitte, a segunda em Prenzlauer Berg e a terceira em Friedrichshain. As mulheres marchavam à frente, carregando longas faixas e gritando frases de ordem, geralmente enaltecendo a RDA e a Revolução. O rapaz seguia logo atrás, infiltrado entre os demais simpatizantes.
Gunther não entende. A DFD lutava pelo direito das mulheres, mas em suas faixas e cartazes pareciam haver mais propaganda ideológica do que a defesa de seus objetivos. “Talvez estejam conectados”, pensa ele. “Talvez, para atingir seus objetivos de igualdade e emancipação das mulheres, seja necessária a defesa e a manutenção do socialismo”.
Afastando esses pensamentos, ele não se importa. O que lhe interessava naquele momento era estar sempre perto de sua amada. Procurando-a com os olhos, ele a avista à frente da manifestação, carregando a faixa junto das outras mulheres.
Além das manifestações, Gunther também passa a frequentar as reuniões da DFD. Ele faz amizade com várias pessoas e, apesar da interessante rotina entre as ativistas ideológicas, ele começa a ter uma vida “normal”. Anneliese geralmente comparecia às reuniões, mas apesar de nunca ter coragem de falar com ela novamente, simplesmente vê-la era o bastante para motivá-lo a ir.  
Ao voltar para casa, ele até se esquece do telefone. Na verdade, era como se ele nunca tivesse existido. Ao sair de seu apartamento, ele se apressava a comparecer nas reuniões. Às vezes ele parecia ouvir o telefone tocando pouco antes de fechar a porta, mas desinteressado demais para atende-lo, ele simplesmente o ignorava.
A quarta manifestação ocorre no bairro de Lichtenberg. Ela arregimenta vários simpatizantes que, assim como Gunther, comparecem para segui-las pelas ruas de Berlim. Mas mal sabiam eles que o rapaz estava ali por outro motivo.    
Enquanto marchava, alguém se aproxima dele e pergunta:
- Ei, o que esse movimento defende?
- Defende a remoção das ideias fascistas e... – ele hesita, esforçando-se para se lembrar – E a cooperação com o movimento internacional das mulheres.
- Quais?
O rapaz se intriga.
- Quais o quê?
- Quais movimentos, oras. – responde o interpelador.
Gunther não sabe o que responder.
- Bem... o movimento de...
Então uma ativista da DFD aparece e se coloca na conversa. Os dois começam a conversar e ele nota que a mulher tinha total domínio no assunto. Aproveitando a oportunidade, Gunther se retira.
Em outra reunião no prédio próximo à Alexanderplatz, o rapaz perde a noção do tempo e fica até o anoitecer. Escutando sons de trovão no lado de fora, ele finalmente decide que era hora de partir. Despedindo-se de algumas pessoas que ali compareciam, ele dá uma última olhada em Anneliese. Ela conversa tranquilamente e, ao notar que era observada pelo rapaz, ela inexplicavelmente sorri. Os olhos de Gunther se arregalam. Acanhado, ele abaixa sua cabeça e rapidamente deixa a sala.         
Ao sair do prédio, era noite e chovia em Berlim. Mas para Gunther era como se o sol ainda brilhasse. Segurando seu velho guarda-chuva, ele se recusa a abri-lo e caminha alegremente pelas ruas molhadas. Como se estivesse dançando, ele pendura-se em um poste e respira fundo, estufando seu peito com o mais profundo sentimento de amor.
“Cantando na chuva!”, admira-se ele, recordando da icônica cena do filme de 1952. Enquanto avança pelas ruas, a chuva muda radicalmente de aspecto, mas o rapaz, totalmente tomado pelo amor, sequer nota a abrupta mutação da realidade.
As gotas d’água se tornam milhares e milhares de mortíferos projéteis, caindo sobre a cidade e pulverizando os prédios. Eles eram disparados pelas artilharias soviéticas no famoso cerco de Berlim. Então dois homens, vestindo os negros uniformes nazistas com a braçadeira da SS, aparecem atrás dele e, vendo um cidadão inocentemente passando ali, o agarram, dizendo:
- Você está preso por cantar uma degenerante canção judia! Vamos mandá-lo para um campo de concentração!
O homem resiste e grita, argumentando que tal canção ainda não existe.
Em seguida a chuva torna-se ácida e nociva, transformando o ambiente em um purgatório esverdeado e cinzento. Acima, Gunther consegue ver o enorme e monstruoso cogumelo de fumaça elevando-se pelo céu, oriundo da explosão nuclear. Então, atrás dele, aparecem dois homens vestindo fardas cinzas e quepes com o símbolo da Alemanha Oriental. Avistando outro cidadão, que também passava ocasionalmente por ali, eles o agarram, dizendo:
- Você está preso por cantar a uma música burguesa, antirrevolucionária e capitalista! Vamos manda-lo para o Gulag!
O outro homem grita, resistindo e tentando se desvencilhar inutilmente.
Avançando pelas ruas enquanto dança distraidamente pelas poças d’água, Gunther para em frente a uma loja com uma bela vitrine em sua fachada. De repente a vitrine se estoura em centenas de pedaços, apedrejada por vários garotos loiros vestindo uniformes marrons da Sturmabteilung, a infame SA. Em seguida os garotos a vandalizam, escrevendo na parede a palavra “Jude”[1], revivendo o lamentáveis momentos da Kristallnacht[2].
Passando por outra vitrine, comissários soviéticos expulsam um comerciante e sua família de uma loja. Sob os protestos desesperados de seus antigos donos, os soviéticos os acusam de colaboração com os imperialistas do ocidente, argumentando que a propriedade privada era um conceito burguês e reacionário. Por esta razão, eles seriam expropriados e mandados para o Gulag.
Alheio a estes trágicos acontecimentos, ele continua caminhando todo ensopado para casa.
Gunther está feliz, ele sorri alegremente e seu coração bate forte em seu peito. Parando em frente à sua porta, ele procura pela chave quando percebe que o telefone tocava incessantemente lá dentro. Por alguma razão, ele sente medo ao entrar.
Ao abrir a porta, ele encontra seu apartamento todo escuro. O telefone ainda toca, com seu som vindo da escuridão. Ligando a luz, ele pendura suas roupas molhadas ao lado da porta e caminha temerosamente pelo lugar.
Entrando em seu quarto, ele está prestes a ligar a luz quando a luz do holofote passa por sua janela. Ao atravessar a persiana, ele tem a impressão de ver alguém parado ali, sozinho e olhando para ele. Gunther grita, assustando-se. Ligando rapidamente a luz, seu corpo trêmulo e arrepiado se alivia. Não havia ninguém.
Estendendo seu braço, ele atendo o telefone.
- Alô?
- Anneliese.
Gunther não entende. No telefone, não era a voz de uma mulher falando com ele, ao contrário, era a voz de um homem aparentemente mais velho. Tentando encontrar algo racional para chamar aquela voz, ele pergunta:
- “Moça”... é você?
Mas ninguém responde e ele só ouve estática. Confuso, ele se senta na cama e tenta relaxar um pouco. É nesse momento que uma voz surge ao seu lado e, sussurrando em seu ouvido, lhe diz:
“Anneliese”.

  


[1] Judeu em alemão
[2] Noite dos Cristais

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