Dias se passam.
Chegando a data esperada, Gunther se dirige ao local de reunião da DFD, próximo
à Avenida Alexanderplatz. Ele se depara com um prédio reconstruído, um daqueles
revitalizados pela retilínea arquitetura socialista.
Adentrando-o, ele
sobe as escadas até encontrar um cartaz colado em uma das portas. Nele está
escrito: “Reunião da Liga das Mulheres Democráticas Alemãs. Visitantes são
benvindos”. Ao abrir a porta, ele vê um vasto andar cheio de cadeiras e, mais a
frente, uma mesa larga onde as membras do DFD discutem suas pautas e proferem
seus discursos.
Procurando uma
cadeira perto das líderes do movimento, ele se desvia dos visitantes e
discretamente se senta. As janelas à sua direita são bem grandes e a luz do dia
ilumina o local. Apesar das cortinas balançarem suavemente com o vento, ele
nota os ventiladores ligados nas paredes.
Atrás da mesa
principal, ele vê retratos de mulheres na parede. Gunther reconhece duas, pois na escola estudou sobre os criadores da Alemanha socialista e alguns de seus
movimentos de massa. Tratavam-se de Else Lüders, co-fundadora da DFD e Elli
Schimidt, sua primeira presidente.
Algum tempo
depois, a reunião se inicia. Primeiramente, as líderes reiteram suas posições
políticas, falando de sua importância e seu comprometimento. A DFD lutava pela
remoção total das ideias fascistas, pela educação para as mulheres, pelos
direitos iguais, pelas condições de vida mais justas, pela educação infantil no
espírito do humanismo e da paz, e pela cooperação com o movimento internacional
das mulheres. Gunther conhecia seus objetivos, pois os havia lido no panfleto
entregue à ele no parque.
Enquanto as
membras discursavam sobre as questões atuais, mais visitantes chegavam. O rapaz
olhava atentamente para eles, esperando encontrar aquela linda garota que
roubou seu coração. Mas ela não estava lá, nem entre os visitantes
ou entre as membras. Gunther se frustra.
Na reunião, a
presidente exalta a bravura de sua primeira presidente, Elli Schimidt, a
antecessora de todas. Schimidt ingressou na Associação Comunista da Juventude
Alemã em 1927 e, na década de 30, participou da temida Internacional Comunista.
Revolucionária dedicada, Schimidt foi, de 1935 a 46, a única mulher integrante
do Partido Comunista Alemão. Finada a guerra, ela retorna à Alemanha em 1945,
tornando-se membra do comitê central e, de 46 a 49, chefia as mulheres filiadas ao
Partido Unificado da Alemanha Socialista. Em 1949 ela torna-se a
primeira presidente do DFD e de 1950 a 54, elege-se ao Volkskammer.
A atual
presidente relembra os demais quanto à firme postura de Schimidt. Ela teve
coragem ao criticar o próprio partido governante e seu primeiro secretário,
Walter Ulbricht. Entretanto, tamanha ousadia teve punição e ela acabou sendo expulsa
do comitê central. Devido à sua incansável luta social, Schimidt recebeu três
condecorações: a Ordem Patriótica do Mérito, em 1965, o fecho honorário da
Ordem Patriótica do Ouro, em 1968 e a Ordem Karl Marx uma década depois em
1978.
“Que mulher!”, admira-se
Gunther.
As palestrantes
discursavam e alguns visitantes participavam fazendo perguntas. As ativistas
discursavam sobre a importância da emancipação das mulheres alemãs e de sua
fundamental contribuição não somente à economia, mas ao lado oriental.
Uma hora se
passa. As pessoas falavam de questões gerais relacionadas à sociedade
socialista e seus objetivos defendidos pela DFD. Política não era seu forte e assistir
à uma reunião de ativistas defendendo um sistema ideológico não lhe atraía
nenhuma atenção, especialmente quando ele não estava ali para participar daquilo. Preparando-se para ir embora, de repente ele ouve a porta se abrir.
Passando pela
porta, a garota de cabelos castanhos entra na sala. Os olhos de Gunther se
arregalam. Passando tranquilamente pelos visitantes, seus
olhos seguem aquela que faz seu coração disparar na mais sublime euforia que
apenas os apaixonados podem sentir. Anneliese se veste com muito recato e seus
passos transmitem uma imponência que o faz se hipnotizar. Era como se desde a
última vez que se viram ela estivesse mil vezes mais linda.
Ficando três
fileiras à frente, a garota segura sua saia e finalmente se senta. De costas
para Gunther, ela não nota que ele novamente a observa, irresistivelmente como
uma criança bávara diante de uma loja de chocolates.
Então as
palestrantes da mesa a apresentam, dizendo:
- Esta é
Anneliese, de nosso escritório na cidade de Dresden. – a garota sorri e se
levanta – Ela é responsável pela militância política em defesa da igualdade e dos
direitos das mulheres saxônicas.
Os presentes a
aplaudem, fazendo-a acenar e sorrir para todos. O rapaz sente seu coração
saltar.
- Anneliese,
venha aqui à frente, por favor.
A presidente das
palestrantes a convida a discursar. A garota caminha até a mesa e, agradecendo,
olha para os visitantes e diz:
- Boa tarde. Eu
muito tenho lutado politicamente pela educação das mulheres e sua emancipação
familiar. Todos sabemos que nosso país sofre constantemente ameaças do
imperialismo fascista ocidental. Atraídos pelo materialismo burguês e pelo
consumismo desenfreado das chamadas sociedades capitalistas, nossos irmãos
alemães têm desertado para além da Cortina de Ferro, decrescendo drasticamente
nossa população e prejudicando principalmente a nós, as mulheres.
Gunther se intriga,
não encontrando relação nas palavras da garota.
- Vejam as
mulheres alemãs do outro lado do muro. Foram esvaziadas intelectualmente pelas
benesses luxuosas e tóxicas do capitalismo, tornando-se irrelevantes e inócuas,
importando-se apenas com joias e roupas da moda. Foram cegadas por seus
senhores patriarcais burgueses, desconhecendo e afastando-se mais e mais de sua
fundamental posição social na Alemanha. Nosso movimento, por outro lado, valoriza
as mulheres de verdade. Apesar de nossa carência na estética e no
entretenimento, nós, as alemãs orientais, temos nossa conscientização política
para nos orgulharmos.
Então o rapaz se
consterna com as palavras de Anneliese. “Essas mulheres pensam que a
politização compensa a divertida e atraente indústria da moda do ocidente”,
pensa ele.
- O êxodo
populacional prejudicou nosso país, levando inclusive nossas mulheres que
contribuem para a existência de nosso povo. Desta forma, para sustentar nossa
economia, temos apelado para que as donas de casa abandonem seu jugo
matrimonial, tão patriarcal e obsoleto, e assumam sua posição de vanguarda na
alfabetização, na qualificação e na força de trabalho, tão necessários ao nosso
sistema e nosso futuro.
As alemãs vêm
ouvindo esse discurso desde muito antes de seu nascimento. Gunther sabe que a
qualificação profissional de sua mãe foi viabilizada graças a ativistas
políticas como as da DFD.
- Para combater o
veneno ocidental e refrear a deserção em massa, faremos manifestações populares
para arregimentar as alemãs e trazê-las para a posição de destaque que elas
merecem. Obrigado.
Então a garota
agradece e todos aplaudem. A presidente se levanta e, pegando um documento, diz
ao público:
- Aqui está nosso
agendamento. As manifestações ocorrerão ainda esta semana, lideradas
por mim, nossas mesárias e por Anneliese. Contamos com a presença de todos.
Os visitantes
novamente aplaudem. Gunther se alegra, agora ele sabia que Anneliese
continuaria em Berlim. Entusiasmado, ele se empolga em aplaudir também.
Ao final da
reunião, todos se levantam e o rapaz se apressa em direção da garota.
Abordando-a, ele a cumprimenta, dizendo:
- Olá, Anneliese.
A garota olha para
ele e, sem dar muita importância, sorri, respondendo:
- Olá, camarada.
Obrigado por ter vindo.
- Você...
Então vários
outros visitantes também aparecem e começam a conversar com ela. Na garganta do
rapaz ficam as outras palavras, o restante de sua frase: “se lembra de mim...?”.
Alguém a chama e, virando-se, ela vai embora. Gunther não se importa, pois assim
como antes, ele a reencontraria de novo. Anotando as datas e horários, ele
guarda a agenda da DFD e deixa a reunião.
§
Nas semanas
posteriores, Gunther passa frequentar as manifestações da DFD. As ativistas
gostavam de falar que eram manifestações populares espontâneas, mas todos
sabiam que eram sob permissão direta do Comitê Central do Partido Socialista.
A cada
manifestação, as mulheres marchavam por diferentes bairros de Berlim. A
primeira ocorre no distrito de Mitte, a segunda em Prenzlauer Berg e a terceira
em Friedrichshain. As mulheres marchavam à frente, carregando longas faixas e
gritando frases de ordem, geralmente enaltecendo a RDA e a Revolução. O rapaz
seguia logo atrás, infiltrado entre os demais simpatizantes.
Gunther não
entende. A DFD lutava pelo direito das mulheres, mas em suas faixas e cartazes
pareciam haver mais propaganda ideológica do que a defesa de seus objetivos. “Talvez
estejam conectados”, pensa ele. “Talvez, para atingir seus objetivos de
igualdade e emancipação das mulheres, seja necessária a defesa e a manutenção
do socialismo”.
Afastando esses
pensamentos, ele não se importa. O que lhe interessava naquele momento era
estar sempre perto de sua amada. Procurando-a com os olhos, ele a avista à
frente da manifestação, carregando a faixa junto das outras mulheres.
Além das
manifestações, Gunther também passa a frequentar as reuniões da DFD. Ele faz
amizade com várias pessoas e, apesar da interessante rotina entre as ativistas
ideológicas, ele começa a ter uma vida “normal”. Anneliese geralmente
comparecia às reuniões, mas apesar de nunca ter coragem de falar com ela novamente, simplesmente vê-la era o bastante para motivá-lo a ir.
Ao voltar para
casa, ele até se esquece do telefone. Na verdade, era como se ele nunca tivesse
existido. Ao sair de seu apartamento, ele se apressava a comparecer nas
reuniões. Às vezes ele parecia ouvir o telefone tocando pouco antes de fechar a
porta, mas desinteressado demais para atende-lo, ele simplesmente o ignorava.
A quarta
manifestação ocorre no bairro de Lichtenberg. Ela arregimenta vários
simpatizantes que, assim como Gunther, comparecem para segui-las pelas ruas de
Berlim. Mas mal sabiam eles que o rapaz estava ali por outro motivo.
Enquanto marchava,
alguém se aproxima dele e pergunta:
- Ei, o que esse
movimento defende?
- Defende a
remoção das ideias fascistas e... – ele hesita, esforçando-se para se lembrar –
E a cooperação com o movimento internacional das mulheres.
- Quais?
O rapaz se
intriga.
- Quais o quê?
- Quais
movimentos, oras. – responde o interpelador.
Gunther não sabe
o que responder.
- Bem... o
movimento de...
Então uma
ativista da DFD aparece e se coloca na conversa. Os dois começam a conversar e
ele nota que a mulher tinha total domínio no assunto. Aproveitando a
oportunidade, Gunther se retira.
Em outra reunião
no prédio próximo à Alexanderplatz, o rapaz perde a noção do tempo e fica até o
anoitecer. Escutando sons de trovão no lado de fora, ele finalmente decide que
era hora de partir. Despedindo-se de algumas pessoas que ali compareciam, ele
dá uma última olhada em Anneliese. Ela conversa tranquilamente e, ao notar que
era observada pelo rapaz, ela inexplicavelmente sorri. Os olhos de Gunther se
arregalam. Acanhado, ele abaixa sua cabeça e rapidamente deixa a sala.
Ao sair do
prédio, era noite e chovia em Berlim. Mas para Gunther era como se o sol ainda
brilhasse. Segurando seu velho guarda-chuva, ele se recusa a abri-lo e caminha
alegremente pelas ruas molhadas. Como se estivesse dançando, ele pendura-se em
um poste e respira fundo, estufando seu peito com o mais profundo sentimento de
amor.
“Cantando na
chuva!”, admira-se ele, recordando da icônica cena do filme de 1952. Enquanto
avança pelas ruas, a chuva muda radicalmente de aspecto, mas o rapaz,
totalmente tomado pelo amor, sequer nota a abrupta mutação da realidade.
As gotas d’água
se tornam milhares e milhares de mortíferos projéteis, caindo sobre a cidade e
pulverizando os prédios. Eles eram disparados pelas artilharias soviéticas no
famoso cerco de Berlim. Então dois homens, vestindo os negros uniformes
nazistas com a braçadeira da SS, aparecem atrás dele e, vendo um cidadão
inocentemente passando ali, o agarram, dizendo:
- Você está preso
por cantar uma degenerante canção judia! Vamos mandá-lo para um campo de
concentração!
O homem resiste e
grita, argumentando que tal canção ainda não existe.
Em seguida a
chuva torna-se ácida e nociva, transformando o ambiente em um purgatório esverdeado
e cinzento. Acima, Gunther consegue ver o enorme e monstruoso cogumelo de fumaça
elevando-se pelo céu, oriundo da explosão nuclear. Então, atrás dele, aparecem
dois homens vestindo fardas cinzas e quepes com o símbolo da Alemanha Oriental.
Avistando outro cidadão, que também passava ocasionalmente por ali, eles o agarram,
dizendo:
- Você está preso
por cantar a uma música burguesa, antirrevolucionária e capitalista! Vamos manda-lo
para o Gulag!
O outro homem
grita, resistindo e tentando se desvencilhar inutilmente.
Avançando pelas
ruas enquanto dança distraidamente pelas poças d’água, Gunther para em frente a
uma loja com uma bela vitrine em sua fachada. De repente a vitrine se estoura
em centenas de pedaços, apedrejada por vários garotos loiros vestindo uniformes
marrons da Sturmabteilung, a infame SA. Em seguida os garotos a vandalizam,
escrevendo na parede a palavra “Jude”[1],
revivendo o lamentáveis momentos da Kristallnacht[2].
Passando por
outra vitrine, comissários soviéticos expulsam um comerciante e sua família de
uma loja. Sob os protestos desesperados de seus antigos donos, os soviéticos os
acusam de colaboração com os imperialistas do ocidente, argumentando que a
propriedade privada era um conceito burguês e reacionário. Por esta razão, eles
seriam expropriados e mandados para o Gulag.
Alheio a estes
trágicos acontecimentos, ele continua caminhando todo ensopado para casa.
Gunther está
feliz, ele sorri alegremente e seu coração bate forte em seu peito. Parando em
frente à sua porta, ele procura pela chave quando percebe que o telefone tocava
incessantemente lá dentro. Por alguma razão, ele sente medo ao entrar.
Ao abrir a porta,
ele encontra seu apartamento todo escuro. O telefone ainda toca, com seu som
vindo da escuridão. Ligando a luz, ele pendura suas roupas molhadas ao lado da
porta e caminha temerosamente pelo lugar.
Entrando em seu
quarto, ele está prestes a ligar a luz quando a luz do holofote passa por sua
janela. Ao atravessar a persiana, ele tem a impressão de ver alguém parado ali,
sozinho e olhando para ele. Gunther grita, assustando-se. Ligando rapidamente a
luz, seu corpo trêmulo e arrepiado se alivia. Não havia ninguém.
Estendendo seu
braço, ele atendo o telefone.
- Alô?
- Anneliese.
Gunther não
entende. No telefone, não era a voz de uma mulher falando com ele, ao
contrário, era a voz de um homem aparentemente mais velho. Tentando encontrar
algo racional para chamar aquela voz, ele pergunta:
- “Moça”... é
você?
Mas ninguém
responde e ele só ouve estática. Confuso, ele se senta na cama e tenta relaxar
um pouco. É nesse momento que uma voz surge ao seu lado e, sussurrando em seu
ouvido, lhe diz:
“Anneliese”.
[1]
Judeu em alemão
[2]
Noite dos Cristais

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