(Artista desconhecido)
Valentim e sua
família vivem em Vukojebina, uma região rural próxima a Bosansko Grahovo, no
oeste da Bósnia. É uma região afastada e insignificante, da qual os habitantes
a chamavam pejorativamente de “o local onde os lobos vão para acasalar”.
Bogdan, o filho
do casal, agora é uma criança animada e brincalhona. Danica o ama profundamente
e o educa para ser tão instruído quanto ela. Naquela região escolas são escassas
e distantes, e geralmente frequentada por cristão ortodoxos. Sendo de fé católica
em uma região habitada por cristãos ortodoxos, a mãe teme a discriminação,
então ela prefere preveni-lo disso.
Valentim trabalha
em vários ofícios para sustentar sua família. Ora ele era ferreiro, ora
agricultor. Cheio de energia como era, ele enfrentava as dificuldades com
formidável disposição.
Enquanto Bogdan
cresce, o pai lhe ensina seus ofícios. Valentim se preocupa, pois tudo o que
sabe foi substituído pela força das máquinas. Por outro lado, ele também sabe que
não pode mais voltar para a sua cidade para dar uma educação decente para o seu
filho; o culto de Exúvia o perseguiria novamente.
Além disso, algo
incomodava o dedicado pai.
À noite, quando
estão dormindo, o filho aparecia na porta do quarto para ficar observando-os.
Valentim acordava assustado ao ver Bogdan parado sinistramente ali. Isso ocorre
por várias noites. Ao informar Danica do ocorrido, ela pensa que o menino é
sonâmbulo, mas Valentim sabe que ele não tinha nada disso.
Algumas vezes os
olhos de Bogdan brilhavam, emitindo um hipnótico verde. Em seguida o menino se
virava e caminhava de volta para o seu quarto na escuridão. Valentim sabe do
que se trata. Aquilo era Plasma.
Anos se passam.
Bogdan agora é um pré-adolescente. Sua personalidade brincalhona logo é
substituída por um comportamento distante e obscuro. O menino não se
interessava por esportes ou amizades. Ele se ausentava durante o dia passando
todo o tempo na floresta. Danica se preocupava, pois a região era habitada por
lobos. O menino, porém, parecia não se importar.
Coisas estranhas
começaram a acontecer. Caçadores retornam da floresta relatando mortes
estranhas. Animais morriam de um modo incomum a qualquer predador na área. Os
caçadores descreviam esquartejamentos e mutilações, e o posicionamento em
lugares específicos dos pedaços, como em um ritual. O agressor comia a carne
das vítimas, mas o mais bizarro era que todo o sangue era drenado de seus corpos.
As mortes se
tornam mais frequentes; agora os caçadores têm medo de ir à floresta. Eles
temem que ela tenha se tornado assombrada.
Algumas vezes, Danica
ia ao vilarejo com o seu filho. Mas pelo caminho cães latiam para ele sem
parar. Sob suas unhas parecia haver sangue. Mesmo entre os seus dentes haviam
pedaços de um alimento desconhecido. Ao perguntar o que era aquilo, ele nunca
dizia.
Dias mais tarde
os mesmos cachorros que latiam para o menino são encontrados mortos.
Estranhamente eles foram esfolados e pendurados nos galhos das árvores ainda
vivos. A suspeita de ataque de lobos é descartada; eles encontraram lobos
esquartejados e mortos também. Nem uma gota de sangue era visível na
carcaça.
Desta maneira, as
pessoas e as outras crianças passaram a evitar Bogdan.
As mortes se
tornam frequentes. Alguns bósnios muçulmanos passam pelo local e, ao ouvir
sobre o ocorrido, contam a lenda árabe dos Ghuls.
Na Arábia
pré-islâmica, ghuls eram humanoides monstruosos que viviam em cemitérios e
comiam carne humana. Há origens para o termo no idioma árabe, mas o mais
provável é que venha do extinto acadiano, falado na antiga Mesopotâmia. “Gallu”
significava “demônios do submundo”.
No folclore
árabe, Ghul é uma criatura que vive em cemitérios e lugares abandonados,
semelhantes ao djinns. O ghul pode assumir a aparência de pessoas e animais
para atrair suas vítimas e devora-las. Após consumi-las, o ghul então assume a
aparência da própria vítima. O monstro também caça crianças para devora-las e
beber o seu sangue.
Na teologia
islâmica, os Ghuls não são mencionados no Corão, mas nos haddiths. Neles contam
que os ghuls eram demônios que subiam ao Céu para olvidar conhecimentos
celestiais e repassa-los para os adivinhos na Terra. Quando Maomé nasceu, eles
foram proibidos de subir novamente. Os marids,
uma espécie mais poderosa de demônios rebeldes, continuou a subir e, como
castigo, foram queimados por cometas. Aqueles que não se queimaram até a morte
se deformaram e enlouqueceram, caindo nos desertos e sendo condenados a vagar
pela terra como ghuls.
Um Ghul pode
aparecer em forma feminina ou masculina, e atrai suas vítimas, a maioria
viajantes, para mata-los e devora-los. De acordo com Maomé, ghuls são djinns-demônios
que prejudicam os humanos ferindo-os, estragando sua comida e assustando-os
quando eles estão em locais desertos.
Valentim não
conhecia essa lenda, mas após experienciar tantas experiências sobrenaturais em
Liubliana, ele não descarta tal hipótese.
Danica se recusa
a acreditar que seu filho era um monstro. Ao invés, ela sugere que a culpa das
mortes era dos lobos. Mas ao explicar-lhe que mesmo os lobos estavam morrendo,
ela se recusa a ouvir.
§
Ocupada desde
1878, a Bósnia é finalmente anexada pelo Império Austro-húngaro em 1908. Os
países vizinhos protestam, exigindo dos austro-húngaros indenização. Assim as
tensões aumentam na já frágil província.
O casal está
idoso. Danica está senil e perdeu a fala, passando seus dias presenciando os
horrores que seu filho praticava. Valentim cuida dela, mas suas formidável
força se vai e ele também sofre para prosseguir.
Bogdan agora é um
adulto de 24 anos. Seus velhos hábitos não se vão; eles apenas pioram. Ele não
devora mais animais; agora ele devora camponeses e assume suas aparências. Muitos
habitantes se confundem ao verem seus parentes vivos, para logo depois
encontrarem suas carcaças apodrecidas já há muitos dias. Cansado e fragilizado
pela idade, Valentim sabe dos hábitos de seu filho, mas não pode fazer nada para
pará-lo.
Enquanto
contempla o monstro que Bogdan está se tornando, Valentim pensa. Ele sente
saudades de Liubliana. No centro de sua cidade, havia a ponte tripla adornada
com estátuas de dragões. Valentim se lamenta. Se os liublianenses soubessem da
origem daquele dragão, eles destruiriam aquelas estátuas e a baniriam para
sempre.
Ainda pensativo,
ele se lembra do tempo em sua cidade quando era só ele e Danica contra o mundo.
Lágrimas se escorrem de seus olhos cansados e ele reconhece. A vida era dura,
mas pelo menos os dois eram felizes.
§
O ano é 1909. A
Bósnia está em crise. Devido a anexação dos austro-húngaros, protestos se
alastram pelo sul da Europa. Ao mesmo tempo, as relações diplomáticas com os
alemães se fortalecem. Amigáveis aos seus aliados, os alemães se comprometem a
defender a honra da Áustria-Hungria em caso de guerra.
Valentim e sua
esposa perdem as forças. Danica não se levanta mais da cama e fica desperta por
poucas horas do dia. O marido ainda se esforça para cuidar da esposa;
apaixonado como era, ele sabe que não conseguiria viver sem ela.
Bogdan se
ausentava durante o dia. Ele havia feito amizade com um grupo de ativistas
políticos e passava a maior parte do tempo com eles. Os vizinhos pensam que ele
é um insensível diante da necessidade dos pais, mas Valentim prefere assim; ele
não quer aquele mostro em sua casa.
Certa noite,
Valentim acorda com um ruído na janela. Ao olhar, algo se mexe e bate as asas.
Ele imediatamente reconhece; era uma coruja pousando ali.
- Olá, papai.
Valentim se
assusta. Ao olhar para a porta, havia alguém parado no escuro; apenas o verde
hipnótico de seus olhos visíveis.
- Quem está aí?!
O desconhecido
faz um gesto e, de repente, todas as velas do quarto se acendem magicamente.
- Sou eu. –
responde ele – Bogdan. Seu filho.
Bogdan se
aproxima. Então Valentim nota que o rapaz tinha as roupas imundas de lama. Seus
antebraços estavam encobertos de sangue e sua boca ainda gotejava o líquido escarlate.
- Meu filho...! O
que você fez...?!
- Me alimentei. –
responde ele, sorrindo – Preciso de alimento para o meu plano. O meu propósito
neste mundo.
Valentim não
entende.
- Do que está
falando?
- No passado, eu
ateei fogo em Liubliana. – revela ele – Agora eu quero ver o mundo queimar.
Bogdan se referia
à lenda do dragão no topo do castelo de Liubliana. Mas, estranhamente, ele não
se referia à lenda; ele referia-se a si mesmo.
Temendo o mal
ancestral à sua frente, Valentim pergunta temerosamente:
- Quem é você?
- Eu acho que o
senhor sabe quem eu sou.
O pai, então,
sussurra em prantos.
- Exúvia...
Então milhares de
corujas grasnam no telhado, emitindo seu agudo som.
Em Valentim lhe
faltava vigor, mas ainda lhe abundava a coragem.
- Demônio
maldito! Volte para o inferno!
Exúvia ri.
- Mas eu não vim
do inferno. Eu vim de um belíssimo jardim, como o Éden de sua religião, mas ao
contrário. De lá eu alimentei a sede de sangue dos tiranos. Condessa Bathory,
Vlad, o Impalador, Átila, o Huno... Todos eles foram saciados pelo meu Plasma.
– explica ele – Eu posso mostrá-lo, se quiser.
O deus se
aproxima.
- Fique longe de
mim!
- Não se
preocupe, papai. Apenas veja.
Em seguida um gás
esverdeado sobe pelo quarto; Valentim sente o cheiro de Plasma. Sem poder
resistir, sua visão se contorce em um vórtice descontrolado de imagens e ele
perde a consciência.
Um minuto depois,
Valentim se vê voando. Ele olha ao redor e contempla um céu púrpura de nuvens
negras. Abaixo, ele vê o que parecem ser plantas vivas, movendo-se como
insidiosas serpentes. Um enxame de insetos enormes, do tamanho de pombos,
perseguem os réprobos, atormentando-os em seu sofrimento eterno.
O coro dos
malditos era ensurdecedor; homens e mulheres penavam lá embaixo, emitindo
gritos esganiçados e espavoridos sem parar. Então outro som chama a sua
atenção.
Uma coruja
gigante o levava em suas garras. Valentim se apavora. A coruja tinha asas
imundas e empesteadas de doenças. Sua terrível face lembrava a própria morte. A
ave grasnava, proferindo maldições e blasfêmias. Apavorado, Valentim se mexe e
tenta se desvencilhar daquele monstro.
A coruja o solta
e Valentim cai pelos ares. Sua alma devia ser mais leve no mundo espiritual,
pois sua queda é suave e lenta. Ele pode ver que, na verdade, aquele lugar se
assemelhava a um vasto jardim, mas um jardim arruinado e amaldiçoado para sempre.
Enquanto cai,
Valentim vê o que parece ser uma fonte de água antiga e lodosa. Mas de repente
ela se abre e revela ser não uma fonte, mas a boca de uma terrível besta. Dentes
longos e afiados se revelam e logo recebem a alma de Valentim. Pranteando, ele
tem seus ossos esmagados e sua carne dilacerada enquanto é mastigado por aquela
coisa. E assim ele morre, sufocando em seu sangue e perdendo a consciência.
Um segundo
depois, Valentim acorda novamente. Ele se vê reavivado nas garras da coruja
gigante. Então ela o solta e o lança em outra parte daquele jardim de
abominações.
Valentim cai no
meio de um enxame de insetos. Eram insetos negros e gigantes, semelhantes a
cigarras ou vespas. Seu zunido o amedronta e ele corre, tentando fugir
desesperadamente dali. Uma delas o pica e ele grita, caindo no solo lamacento.
O veneno sobe em sua mente e ele tem agoniantes convulsões. Em seguida os
insetos pousam em seu corpo retorcido e lhe abrem feridas, infestando-o de
ovos.
Novamente
Valentim acorda nas garras da coruja. Ele sente que, naquele jardim, ele
morreria infinitas vezes, mas retornaria para reviver novamente. Para sua
desolação, todas as mortes seriam horríveis.
Antes que pudesse
pensar mais a respeito, a coruja o solta e ele volta ao pavoroso jardim.
Ao se levantar, Valentim
se vê em meio a enormes plantas. Ele se espanta ao ver que seus ramos eram longas
serpentes. De repente Valentim é atacado pelos insetos e ele luta para espanta-los.
Enquanto se
distrai, uma serpente o ataca e o morde, cravando seus dentes exatamente na
parte de trás de seu pescoço. Valentim se contorce, sentindo ao mesmo tempo dor
e uma excruciante cócega. Essa sensação dupla o atormenta, pois ele se sente de
braços amarrados e sem poder se defender. E assim ele se encurvava,
contorcendo-se até suas costas dobrarem.
Valentim acorda
um minuto depois, contorcendo-se na cama como se ainda tivesse a serpente em
seu pescoço. Ele abre os olhos e rapidamente mexe os braços, libertando-se de
um perigo que não estava ali.
Passado o momento
de penúria, ele respira fundo e fecha os olhos, agradecendo a Deus por
liberta-lo do sofrimento.
- Obrigado, meu
Deus... Obrigado...
O rapaz ri.
- Qual deus?
Valentim se vira
e encontra os olhar verde e brilhante de Exúvia.
- Por favor, eu
imploro...! Me deixe longe daquele lugar...! Me deixe longe daquele jardim de abominações...!
Exúvia o ignora.
Ao invés, ele responde em tom obscuro:
- Agora o senhor
sabe de onde eu venho.
Valentim abaixa a
cabeça, profundamente abatido.
Em seguida o deus
se vira e vai embora, partindo em meio as trevas da noite.

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