domingo, 14 de maio de 2023

Liubliana - 36 - Ghul

 


(Artista desconhecido)


Valentim e sua família vivem em Vukojebina, uma região rural próxima a Bosansko Grahovo, no oeste da Bósnia. É uma região afastada e insignificante, da qual os habitantes a chamavam pejorativamente de “o local onde os lobos vão para acasalar”.

Bogdan, o filho do casal, agora é uma criança animada e brincalhona. Danica o ama profundamente e o educa para ser tão instruído quanto ela. Naquela região escolas são escassas e distantes, e geralmente frequentada por cristão ortodoxos. Sendo de fé católica em uma região habitada por cristãos ortodoxos, a mãe teme a discriminação, então ela prefere preveni-lo disso.

Valentim trabalha em vários ofícios para sustentar sua família. Ora ele era ferreiro, ora agricultor. Cheio de energia como era, ele enfrentava as dificuldades com formidável disposição.

Enquanto Bogdan cresce, o pai lhe ensina seus ofícios. Valentim se preocupa, pois tudo o que sabe foi substituído pela força das máquinas. Por outro lado, ele também sabe que não pode mais voltar para a sua cidade para dar uma educação decente para o seu filho; o culto de Exúvia o perseguiria novamente.

Além disso, algo incomodava o dedicado pai.

À noite, quando estão dormindo, o filho aparecia na porta do quarto para ficar observando-os. Valentim acordava assustado ao ver Bogdan parado sinistramente ali. Isso ocorre por várias noites. Ao informar Danica do ocorrido, ela pensa que o menino é sonâmbulo, mas Valentim sabe que ele não tinha nada disso.         

Algumas vezes os olhos de Bogdan brilhavam, emitindo um hipnótico verde. Em seguida o menino se virava e caminhava de volta para o seu quarto na escuridão. Valentim sabe do que se trata. Aquilo era Plasma.

Anos se passam. Bogdan agora é um pré-adolescente. Sua personalidade brincalhona logo é substituída por um comportamento distante e obscuro. O menino não se interessava por esportes ou amizades. Ele se ausentava durante o dia passando todo o tempo na floresta. Danica se preocupava, pois a região era habitada por lobos. O menino, porém, parecia não se importar.

Coisas estranhas começaram a acontecer. Caçadores retornam da floresta relatando mortes estranhas. Animais morriam de um modo incomum a qualquer predador na área. Os caçadores descreviam esquartejamentos e mutilações, e o posicionamento em lugares específicos dos pedaços, como em um ritual. O agressor comia a carne das vítimas, mas o mais bizarro era que todo o sangue era drenado de seus corpos.

As mortes se tornam mais frequentes; agora os caçadores têm medo de ir à floresta. Eles temem que ela tenha se tornado assombrada.

Algumas vezes, Danica ia ao vilarejo com o seu filho. Mas pelo caminho cães latiam para ele sem parar. Sob suas unhas parecia haver sangue. Mesmo entre os seus dentes haviam pedaços de um alimento desconhecido. Ao perguntar o que era aquilo, ele nunca dizia.

Dias mais tarde os mesmos cachorros que latiam para o menino são encontrados mortos. Estranhamente eles foram esfolados e pendurados nos galhos das árvores ainda vivos. A suspeita de ataque de lobos é descartada; eles encontraram lobos esquartejados e mortos também. Nem uma gota de sangue era visível na carcaça.    

Desta maneira, as pessoas e as outras crianças passaram a evitar Bogdan.

As mortes se tornam frequentes. Alguns bósnios muçulmanos passam pelo local e, ao ouvir sobre o ocorrido, contam a lenda árabe dos Ghuls.

Na Arábia pré-islâmica, ghuls eram humanoides monstruosos que viviam em cemitérios e comiam carne humana. Há origens para o termo no idioma árabe, mas o mais provável é que venha do extinto acadiano, falado na antiga Mesopotâmia. “Gallu” significava “demônios do submundo”.

No folclore árabe, Ghul é uma criatura que vive em cemitérios e lugares abandonados, semelhantes ao djinns. O ghul pode assumir a aparência de pessoas e animais para atrair suas vítimas e devora-las. Após consumi-las, o ghul então assume a aparência da própria vítima. O monstro também caça crianças para devora-las e beber o seu sangue.   

Na teologia islâmica, os Ghuls não são mencionados no Corão, mas nos haddiths. Neles contam que os ghuls eram demônios que subiam ao Céu para olvidar conhecimentos celestiais e repassa-los para os adivinhos na Terra. Quando Maomé nasceu, eles foram proibidos de subir novamente. Os marids, uma espécie mais poderosa de demônios rebeldes, continuou a subir e, como castigo, foram queimados por cometas. Aqueles que não se queimaram até a morte se deformaram e enlouqueceram, caindo nos desertos e sendo condenados a vagar pela terra como ghuls.

Um Ghul pode aparecer em forma feminina ou masculina, e atrai suas vítimas, a maioria viajantes, para mata-los e devora-los. De acordo com Maomé, ghuls são djinns-demônios que prejudicam os humanos ferindo-os, estragando sua comida e assustando-os quando eles estão em locais desertos.         

Valentim não conhecia essa lenda, mas após experienciar tantas experiências sobrenaturais em Liubliana, ele não descarta tal hipótese.

Danica se recusa a acreditar que seu filho era um monstro. Ao invés, ela sugere que a culpa das mortes era dos lobos. Mas ao explicar-lhe que mesmo os lobos estavam morrendo, ela se recusa a ouvir. 

 

§

 

Ocupada desde 1878, a Bósnia é finalmente anexada pelo Império Austro-húngaro em 1908. Os países vizinhos protestam, exigindo dos austro-húngaros indenização. Assim as tensões aumentam na já frágil província. 

O casal está idoso. Danica está senil e perdeu a fala, passando seus dias presenciando os horrores que seu filho praticava. Valentim cuida dela, mas suas formidável força se vai e ele também sofre para prosseguir.

Bogdan agora é um adulto de 24 anos. Seus velhos hábitos não se vão; eles apenas pioram. Ele não devora mais animais; agora ele devora camponeses e assume suas aparências. Muitos habitantes se confundem ao verem seus parentes vivos, para logo depois encontrarem suas carcaças apodrecidas já há muitos dias. Cansado e fragilizado pela idade, Valentim sabe dos hábitos de seu filho, mas não pode fazer nada para pará-lo.

Enquanto contempla o monstro que Bogdan está se tornando, Valentim pensa. Ele sente saudades de Liubliana. No centro de sua cidade, havia a ponte tripla adornada com estátuas de dragões. Valentim se lamenta. Se os liublianenses soubessem da origem daquele dragão, eles destruiriam aquelas estátuas e a baniriam para sempre.

Ainda pensativo, ele se lembra do tempo em sua cidade quando era só ele e Danica contra o mundo. Lágrimas se escorrem de seus olhos cansados e ele reconhece. A vida era dura, mas pelo menos os dois eram felizes.  

 

§

 

O ano é 1909. A Bósnia está em crise. Devido a anexação dos austro-húngaros, protestos se alastram pelo sul da Europa. Ao mesmo tempo, as relações diplomáticas com os alemães se fortalecem. Amigáveis aos seus aliados, os alemães se comprometem a defender a honra da Áustria-Hungria em caso de guerra.

Valentim e sua esposa perdem as forças. Danica não se levanta mais da cama e fica desperta por poucas horas do dia. O marido ainda se esforça para cuidar da esposa; apaixonado como era, ele sabe que não conseguiria viver sem ela.

Bogdan se ausentava durante o dia. Ele havia feito amizade com um grupo de ativistas políticos e passava a maior parte do tempo com eles. Os vizinhos pensam que ele é um insensível diante da necessidade dos pais, mas Valentim prefere assim; ele não quer aquele mostro em sua casa.

Certa noite, Valentim acorda com um ruído na janela. Ao olhar, algo se mexe e bate as asas. Ele imediatamente reconhece; era uma coruja pousando ali.

- Olá, papai.

Valentim se assusta. Ao olhar para a porta, havia alguém parado no escuro; apenas o verde hipnótico de seus olhos visíveis.

- Quem está aí?!

O desconhecido faz um gesto e, de repente, todas as velas do quarto se acendem magicamente.  

- Sou eu. – responde ele – Bogdan. Seu filho.

Bogdan se aproxima. Então Valentim nota que o rapaz tinha as roupas imundas de lama. Seus antebraços estavam encobertos de sangue e sua boca ainda gotejava o líquido escarlate.

- Meu filho...! O que você fez...?!

- Me alimentei. – responde ele, sorrindo – Preciso de alimento para o meu plano. O meu propósito neste mundo.

Valentim não entende.

- Do que está falando?

- No passado, eu ateei fogo em Liubliana. – revela ele – Agora eu quero ver o mundo queimar.

Bogdan se referia à lenda do dragão no topo do castelo de Liubliana. Mas, estranhamente, ele não se referia à lenda; ele referia-se a si mesmo.

Temendo o mal ancestral à sua frente, Valentim pergunta temerosamente:

- Quem é você?

- Eu acho que o senhor sabe quem eu sou.

O pai, então, sussurra em prantos.

- Exúvia...

Então milhares de corujas grasnam no telhado, emitindo seu agudo som.

Em Valentim lhe faltava vigor, mas ainda lhe abundava a coragem.

- Demônio maldito! Volte para o inferno!

Exúvia ri.

- Mas eu não vim do inferno. Eu vim de um belíssimo jardim, como o Éden de sua religião, mas ao contrário. De lá eu alimentei a sede de sangue dos tiranos. Condessa Bathory, Vlad, o Impalador, Átila, o Huno... Todos eles foram saciados pelo meu Plasma. – explica ele – Eu posso mostrá-lo, se quiser.

O deus se aproxima.

- Fique longe de mim!

- Não se preocupe, papai. Apenas veja.

Em seguida um gás esverdeado sobe pelo quarto; Valentim sente o cheiro de Plasma. Sem poder resistir, sua visão se contorce em um vórtice descontrolado de imagens e ele perde a consciência.

Um minuto depois, Valentim se vê voando. Ele olha ao redor e contempla um céu púrpura de nuvens negras. Abaixo, ele vê o que parecem ser plantas vivas, movendo-se como insidiosas serpentes. Um enxame de insetos enormes, do tamanho de pombos, perseguem os réprobos, atormentando-os em seu sofrimento eterno.

O coro dos malditos era ensurdecedor; homens e mulheres penavam lá embaixo, emitindo gritos esganiçados e espavoridos sem parar. Então outro som chama a sua atenção.

Uma coruja gigante o levava em suas garras. Valentim se apavora. A coruja tinha asas imundas e empesteadas de doenças. Sua terrível face lembrava a própria morte. A ave grasnava, proferindo maldições e blasfêmias. Apavorado, Valentim se mexe e tenta se desvencilhar daquele monstro. 

A coruja o solta e Valentim cai pelos ares. Sua alma devia ser mais leve no mundo espiritual, pois sua queda é suave e lenta. Ele pode ver que, na verdade, aquele lugar se assemelhava a um vasto jardim, mas um jardim arruinado e amaldiçoado para sempre.

Enquanto cai, Valentim vê o que parece ser uma fonte de água antiga e lodosa. Mas de repente ela se abre e revela ser não uma fonte, mas a boca de uma terrível besta. Dentes longos e afiados se revelam e logo recebem a alma de Valentim. Pranteando, ele tem seus ossos esmagados e sua carne dilacerada enquanto é mastigado por aquela coisa. E assim ele morre, sufocando em seu sangue e perdendo a consciência.

Um segundo depois, Valentim acorda novamente. Ele se vê reavivado nas garras da coruja gigante. Então ela o solta e o lança em outra parte daquele jardim de abominações.

Valentim cai no meio de um enxame de insetos. Eram insetos negros e gigantes, semelhantes a cigarras ou vespas. Seu zunido o amedronta e ele corre, tentando fugir desesperadamente dali. Uma delas o pica e ele grita, caindo no solo lamacento. O veneno sobe em sua mente e ele tem agoniantes convulsões. Em seguida os insetos pousam em seu corpo retorcido e lhe abrem feridas, infestando-o de ovos.

Novamente Valentim acorda nas garras da coruja. Ele sente que, naquele jardim, ele morreria infinitas vezes, mas retornaria para reviver novamente. Para sua desolação, todas as mortes seriam horríveis.

Antes que pudesse pensar mais a respeito, a coruja o solta e ele volta ao pavoroso jardim.      

Ao se levantar, Valentim se vê em meio a enormes plantas. Ele se espanta ao ver que seus ramos eram longas serpentes. De repente Valentim é atacado pelos insetos e ele luta para espanta-los.   

Enquanto se distrai, uma serpente o ataca e o morde, cravando seus dentes exatamente na parte de trás de seu pescoço. Valentim se contorce, sentindo ao mesmo tempo dor e uma excruciante cócega. Essa sensação dupla o atormenta, pois ele se sente de braços amarrados e sem poder se defender. E assim ele se encurvava, contorcendo-se até suas costas dobrarem.

Valentim acorda um minuto depois, contorcendo-se na cama como se ainda tivesse a serpente em seu pescoço. Ele abre os olhos e rapidamente mexe os braços, libertando-se de um perigo que não estava ali.

Passado o momento de penúria, ele respira fundo e fecha os olhos, agradecendo a Deus por liberta-lo do sofrimento.   

- Obrigado, meu Deus... Obrigado...

O rapaz ri.

- Qual deus?

Valentim se vira e encontra os olhar verde e brilhante de Exúvia.

- Por favor, eu imploro...! Me deixe longe daquele lugar...! Me deixe longe daquele jardim de abominações...!

Exúvia o ignora. Ao invés, ele responde em tom obscuro:

- Agora o senhor sabe de onde eu venho.

Valentim abaixa a cabeça, profundamente abatido.

Em seguida o deus se vira e vai embora, partindo em meio as trevas da noite.

 

 

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