segunda-feira, 15 de maio de 2023

Liubliana - Parte Final - Epílogo

 


(Pintura de Achille Beltrame)


A Europa está à beira de um conflito.

Em 1913, o Reino da Sérvia vence a guerra contra o Império Otomano, fazendo crescer o sentimento de independência nos estados eslávicos do sul. Movimentos separatistas contrários aos austro-húngaros surgem na Bósnia, estes geralmente violentos e revolucionários.

Enquanto caminha pelo mundo, atraído pela maldade e crueldade humana, Exúvia conhece esses movimentos. O primeiro é o Mlada Bosna[1], um grupo multiétnico que buscava se libertar dos austríacos. Após a vitória sérvia, o general austríaco Potiorek, que até então governava a província, teme uma insurreição nacionalista. Por prevenção ele declara estado de emergência na Bósnia, fechando o Parlamento, perseguindo os habitantes de maioria sérvia e fechando agremiações políticas. O segundo que Exúvia conheceu foi o Mão Negra, um grupo sérvio, ultranacionalista e anarquista, responsável pela morte do Rei Alexandre Obrenović em 1903.

Em Belgrado ele conheceu Gavrilo Princip, um anarquista radical de apenas 19 anos. Apresentando-se como Bogdan, ele fez amizade com o jovem. O deus se fascina com o radicalismo político de Princip, um rapaz pequeno, fraco e, por esta razão, ávido para provar o seu valor.

Na eclosão da Primeira Guerra dos Bálcãs em 1912, Princip lhe diz que foi dispensado do exército; o motivo foi a sua fraca constituição física. Princip se sentiu humilhado e, desde então, aguardava o momento para realizar algo excepcionalmente grande.

E esse momento havia chegado.

Ainda em Belgrado, Princip e seus companheiros ficam sabendo que o Arquiduque Franz Ferdinand, herdeiro do trono austro-húngaro, viria para visitar Sarajevo. Princip se empolga; ele finalmente colocaria em prática seu radicalismo político. Então, chamando mais dois companheiros, ele planeja assassinar o arquiduque.

Pretendendo ficar perto do ativista, Bogdan se junta ao Mão Negra. O grupo os fornece armas, munições e frascos de veneno, caso tivessem de cometer suicídio. Eles também conversam sobre matar o General Potiorek, responsável pela opressiva Lei Marcial. Após um curto treinamento em um parque, eles partem para a Bósnia.

Ao cruzarem a fronteira, o grupo se divide. Princip fica com Bogdan, e isto seria a sua ruína.

No meio da floresta, Bogdan se revela, assumindo sua monstruosa aparência mística. Princip grita e tenta fugir, mas o deus o segura pelas pernas e o arrasta de volta. Gritando e chorando, Princip arranhava o solo lodoso tentando escapar. Em desespero, a última vista do rapaz foi o monstro abrindo sua boca e arrancando a tampa de seu crânio.

Exúvia devora Princip, assumindo a sua aparência. A alma do anarquista, porém, fica presa nos domínios místicos do deus, chamado por Valentim de “o jardim das abominações”.

Em Sarajevo, Exúvia, agora disfarçado de Bogdan, se reúne com mais cinco conspiradores. Ferdinand e sua esposa aparecem em um veículo com a capota aberta. Após algumas tentativas, um a um eles fracassam, acovardando-se ou errando o alvo. Uma granada, porém, se explode próximo ao carro do arquiduque, ferindo dois policias.

Ferdinand faz seu discurso na prefeitura e decide visitar os feridos do atentado no hospital. Potiarek sugere um caminho seguro, mas se esquece de avisar o motorista. Quando o motorista é informado, ele para o carro e inicia a manobra, mas o motor morre em seguida. Isto seria fatídico para Ferdinand. Para a sorte de Exúvia, ele estava só a um metro e meio de distância.        

O rapaz se aproxima, saca sua arma e atira. Um tiro atinge o pescoço do arquiduque e o outro o abdômen de sua esposa. Antes que pudesse dar o terceiro tiro, ele é contido pela multidão. Ferdinand e sua esposa, entretanto, morrem pouco tempo depois.

Princip se deixa capturar e é levado preso. Os policiais se intrigam; ele parecia estar se divertindo.

Nos dias seguintes, uma nova crise se levanta na Europa. Supostas provas da participação sérvia no atentado surgem, e os austro-húngaros dão um ultimato ao Reino da Sérvia. A Rússia, aliada dos sérvios, promete proteger a honra da Sérvia em caso de guerra. Os prussianos, por sua vez, prometem proteger a honra dos austro-húngaros. As potências propõem soluções diplomáticas para a crise, mas todas as tentativas fracassam.      

A Sérvia aceita alguns termos do ultimato, mas não todos. Para eles, o ultimato fere a dignidade da nação. Desta maneira, às 11 da manhã do dia 28 de julho de 1914, o Império Austro-Húngaro declara guerra ao Reino da Sérvia. Como consequência, a Rússia declara guerra aos austro-húngaros. Os prussianos, por sua vez, declaram guerra aos russos. A França, aliada dos russos, declara guerra aos prussianos; os franceses ainda ressentiam sua derrota na Guerra Franco-Prussiana. A Alemanha, para invadir a França, invade a Bélgica, violando a neutralidade de seu território. Por esta violação, a Inglaterra declara guerra aos prussianos.

Mais tarde, várias outros países entrariam na guerra, seja por motivos econômicos ou geopolíticos.

Vendo o efeito dominó diante de seus olhos, Exúvia gargalha na prisão. Seu desejo foi realizado; ele veria o mundo queimar. Apesar dos espancamentos, má alimentação e terríveis condições de sobrevivência, ele passava horas gargalhando. De sua solitária, uma sinistra luz verde emanava, intrigando os guardas.   

Exúvia não tem mais utilidade em seu corpo. Concluído seu trabalho, ele pode voltar para os seus domínios. A alma capturada de Gavrilo Princip retorna e, confuso, ele se vê em uma soturna prisão.

Em julgamento, Princip é severamente condenado, recebendo toda a culpa. Ele grita e protesta, alegando uma inocência que, para os jurados, parecia fantasiosa e delirante. O rapaz morreria três anos depois, vítima de uma tuberculose contraída na prisão.

E assim começa a Grande Guerra, mais popularmente conhecida como a Primeira Guerra Mundial.

 

 



[1] Jovem Bósnia em bósnio

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