(Artista desconhecido)
O inverno cai
sobre Liubliana, encobrindo-a com seu manto de neve. Na casa de Valentim, a
parteira auxilia Danica no trabalho de parto.
Danica não era
uma mulher jovem. Ela tinha mais de quarenta anos e sua gravidez era de risco.
Muitos na vizinhança se espantaram com seu desaparecimento, mas ao retornar
para casa, eles se espantaram ainda mais ao saberem que ela estava grávida. Por
muitos anos Danica não teve filhos, e muitos pensaram que ela era estéril. Mas
Valentim a trouxe de volta e, para a surpresa de todos, ela trazia um bebê em
seu ventre.
Boatos começaram
a se espalhar pelas ruas. Os vizinhos falavam que não era Danica e sim Valentim
que era estéril, e achavam muito suspeito o fato dela voltar grávida após seu
“desaparecimento”.
De qualquer
forma, esses boatos maldosos, porém realistas, nunca chegaram aos ouvidos do amoroso
Valentim.
Então, em uma
tarde fria e nevoenta, nasce o filho do casal. Enquanto aguardava, Valentim
esteve tão preocupado e irritado que teve de ser contido por seus vizinhos. Mas
de repente ele sobe as escadas como um relâmpago ao ouvir o choro de um bebê.
Ele abre a porta
e encontra sua esposa segurando um adorável menino. Com lágrimas já encharcando
sua barba, ele se aproxima e se ajoelha. Valentim nota como o menino tinha perninhas
tão finas e como era pequeninho. Seus cabelos, porém, eram negros e ele tinha a
feição da mãe. A visão se embaça. Lágrimas vertem e Valentim mal consegue
manter os olhos abertos. Reunindo o máximo de suas forças, o pai abraça sua
esposa e seu filho, e chora sobre os cabelos de Danica.
Os vizinhos sobem
e logo o quarto fica abarrotado de gente. Mesmo Orfeu subia, curioso para ver. Todos
viam, emocionados, o marido sobre sua esposa. A cena era tão emocionante que quebrantava
até o mais duro dos corações. Então eles convictamente dizem para si mesmos:
“Deus visitou esta casa essa tarde”.
As mulheres se
aproximam e prontamente perguntam:
- Danica, como o
menino vai se chamar?
Exausta e
ofegante, a esposa olha para elas e responde:
- Bogdan, que
quer dizer “dado por Deus”.
- Bogdan Davud. –
interrompe Valentim, assustando-os – Em homenagem ao jovem guarda que morreu enquanto
me protegia.
Os vizinhos se
admiram, comentando o nome composto. Então todos sorriem e batem palmas,
parabenizando a nova família.
§
Duas semanas se
passam.
Danica estava
feliz e irradiava felicidade; ela finalmente realizara o seu sonho de ter um
filho. Valentim a observa secretamente. Sua esposa estava alegre e cuidava do
menino com todo amor e carinho. Ela nunca falara de seu sequestro e de seu
paradeiro; ao contrário, ela parece ter se esquecido de tudo aquilo, tendo
deliberadamente apagado a lembrança de sua mente.
Mesmo o rude
Valentim relaxa um pouco. Após dois meses de muita tensão, o tormento parecia
ter chegado ao fim. Danica estava em casa. O marido estava vivo para vê-la
novamente. A nova família vivia em paz.
Mas essa paz não
duraria para sempre.
O casal vai à
Catedral de Liubliana para o bebê receber o batismo. O padre Frančišek realiza
o rito com o auxílio de Izak, o diácono. Todos estavam felizes; mesmo o diácono
se demonstrava amigável com Valentim. Ele se surpreende. Após o interessante
episódio do exorcismo de Madelaine Smith, Izak pôde perceber sua bravura e,
assim como Tobias e Davud, passou a admira-lo também. Felizmente para os dois,
a inimizade chegara ao fim.
Naquela noite, corujas
os observavam sobre o telhado no escuro. Danica se distrai enquanto ninava seu
filho. De repente ela sente olhos observando-a ao longe e vê aqueles pássaros
hediondos na escuridão. Ela chama Valentim e ele vê também. O marido sabe o que
aquilo significa: o culto de Exúvia.
Certa noite a
mulher acorda e se depara com três cultistas em seu quarto. Eles se ajoelham e
adoram o pequeno bebê. Danica grita, acordando Valentim. O marido vê aqueles
homens ali e, antes que pudesse pegar seu punhal, eles desaparecem no ar.
Em um dia
qualquer, homens batem na porta. Valentim atende e se depara com dois gendarmes
da patrulha querendo falar com ele. Valentim sente medo, pois teme que seu ouro
seja confiscado e ele seja levado preso. Mas nada disso acontece. Os gendarmes
o parabenizam e lhe dão presentes, louvando o nome de Exúvia. Valentim não
entende. Então os gendarmes simplesmente dão as costas e vão embora.
No mercado,
Danica se sente incomodada. Ela se queixa que velhas horríveis de dentes
amarelados e tortos olhavam para ela, sorrindo como se estivessem debochando-a.
Mas ela teme ir tirar satisfações, pois elas tinham uma aparência suja e
hostil, parecendo psicopatas fugidas de algum hospício.
Outra noite, enquanto Valentim organizava o
ouro roubado do templo, ele ouve passos na rua. Temendo ser os gendarmes, ele
os esconde e espia pela janela. Valentim se espanta ao ver uma centena de
cultistas caminhando em passos coordenados pela rua, dirigindo-se à sua casa
como em uma procissão. Valentim pode notar que eles portavam velas de fogo
verde.
“Plasma”, pensa
ele.
E então ele
percebe: sua família não estava a salvo do culto. Valentim já foi forte uma vez
para suportar o sumiço de Danica; ele não será forte o bastante para suportar
outra, muito menos se eles levarem o bebê.
Daquele momento
em diante só um pensamento permeava em sua mente. A família precisava partir.
O ano é 1895. Na
pacata Liubliana, uma catástrofe acontece. A cidade sofre um terrível
terremoto, destruindo 10% de seus 1400 prédios.
A casa de
Valentim, da qual ele herdara de sua família, também foi destruída pelo tremor.
Felizmente ele e sua família não se feriram, mas várias vítimas se acumulavam
nos hospitais.
Valentim contempla seu lar reduzido a uma pilha
de escombros e ruínas. Suas lágrimas são interrompidas pelo grasnado de corujas
sobrevoando sua cabeça. Sobre os postes que ainda ficaram em pé, as aves o
agouram, predizendo que seus infortúnios ainda estavam longe do fim.
Pegando o braço
de sua esposa, ele diz:
- Danica, coloque
tudo o que puder nas malas. Nós temos que ir.
E assim o casal
deixa Liubliana, fugindo do poder e influência de Exúvia que insistia em
persegui-los.
§
Valentim imigra
com sua família para a Bósnia, em homenagem ao seu amigo morto, Davud. Ocupados
demais como estavam, eles não acompanhavam os jornais naqueles dias.
As relações dos
sérvios com os austro-húngaros se deterioravam. O Império Austro-Húngaro
disputava a soberania da Bósnia no momento, ocupada desde 1878. A ocupação
gerou atritos com os vizinhos na região, com os italianos e os sérvios
reivindicando a província para si. Valentim e Danica não sabiam, mas eles
estavam se mudando para um barril de pólvora na Europa, e o pavio já estava
aceso.
Ao mesmo tempo,
uma onda de violência corre o mundo. Anarquistas radicais praticavam atentados
terroristas, geralmente terminando com vários mortos. O extremismo começou em 4
de maio de 1886 em Chicago, nos Estados Unidos.
No meio de uma greve pela redução da jornada de trabalho para oito
horas, revoltosos lançaram uma bomba na polícia, matando um policial e ferindo
outros sete. A polícia reagiu e atirou contra os manifestantes, matando quatro
e ferindo outras dezenas. Oito anarquistas foram julgados e sete foram
condenados à morte. O último foi condenado à prisão perpétua, mas suicidou-se
na prisão. O evento ficou mundialmente conhecido como a Revolta de
Haymarket.
Em 1888 Wilhem II
sobe ao trono, tornando-se o novo Kaiser do Império Alemão. Em 1890 ele força a
retirada de Otto von Bismarck e o dispensa do cargo de chanceler. Em seguida o
kaiser reata as relações com os austro-húngaros e inicia sua expansão militar,
adotando uma postura agressiva com seus vizinhos. Ao expandir sua frota naval,
Wilhelm enfurece os ingleses, que cortam as relações com os alemães e os
austro-húngaros, assim encerrando definitivamente seus investimentos em
Carníola. Valentim ouve a respeito e se alegra, pois ele nunca gostou dos
ingleses em sua cidade.
Em 10 de setembro
de 1898, o Império Austro-Húngaro sofre uma comovente perda. A imperatriz Sissi
sofre um atentado em Genebra, Suiça. Enquanto passeava à beira de um lago, um
anarquista italiano a esfaqueia no peito e foge. O agressor é preso, mas o pior
ainda estava por vir. A princípio a imperatriz não percebe, mas o golpe era uma
facada direto em seu coração. Ela passa mal e se deita e, ao verificarem o
ferimento, sangue se escorria de seu peito. E assim ela tristemente morre,
partindo deste mundo em uma fatídica tarde de outono.
Em 29 de outubro
de 1900 morre o Rei Umberto I da Itália. Durante um evento esportivo em Monza,
o monarca foi morto a três tiros de arma de fogo. O assassino, um anarquista de
31 anos, disse que sua motivação foi a vingança pelo massacre em Bava-Beccaris.
Em 6 de setembro
de 1901, a violência anarquista volta aos Estados Unidos. O presidente William
McKinley visitava uma exposição em Buffalo, Nova Iorque. O anarquista Leon Czolgosz
se aproximou do presidente e atirou duas vezes em seu abdômen. McKinley morreu
oito dias depois.
Aqueles foram os
dias negros na Europa e na América. Devido às fascinantes invenções e aos
avanços tecnológicos, alguns historiadores chamarão aquele período de Belle Époque,
mas essa bela época estava perto do fim.

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