domingo, 14 de maio de 2023

Liubliana - 37 - Cova para Dois

 


O ano é 1914.

Valentim está tremendo de frio. Sua casa cheira a pó e sujeira se acumula pelos cantos. Sem seu vigor e a ajuda de sua esposa, o velho marido não faz mais a faxina; naqueles dias, ele mal conseguia se levantar da cama.

Olhando para o lado, ele encontra Danica. Ela dormia tranquilamente, ou assim ele achava.

Ao colocar o cobertor sobre ela, Valentim olha para seu rosto e se assusta; ela estava pálida e seu olhar encarava o vazio. Alarmado, ele a sacode, mas ela não acorda. Ao verificar sua respiração, ele nota que ela não estava respirando. O desespero toma sua mente e ele se levanta, enfrentando a fraqueza de estar velho e doente.

Valentim a sacode, sacode e sacode, mas em vão. Apavorado, ele se encurva sobre seu peito e chora. Danica estava tão gelada quanto aquela manhã. Apesar das lágrimas ferventes vindas direto do seu coração, ela não acordava.

Confuso, ele não sabe o que fazer. Não foi assim que ele imaginou a morte de sua esposa. Valentim sempre desejou morrer junto com ela, e ambos serem enterrados em uma cova para dois. Velar seu corpo sem vida não estava nem no pior dos seus pesadelos, pois o dedicado marido sequer imaginava viver sem ela.

Em um acesso delirante de esperança, Valentim se levanta e caminha pela casa. Ele veste seu casaco e alcança a porta, intentando buscar ajuda.

Mas ele não vai longe.

Os passos são penosos e suas costas doem. Incapaz de cuidar da própria saúde, mesmo sua higiene é afetada. Tanto as roupas quanto a própria casa cheirava a urina. Infecções surgem em sua pele, coceiras inconvenientes que insistiam em incomodá-lo. Mesmo Danica sofria o mesmo, mas, ao perder o vigor e a fala, ela jamais se queixara.

Parando em frente à casa, a neve esfria seu corpo e ele perde o equilíbrio. Uma tosse forte e seca o acomete e rasga a sua garganta.

“Então é esse?”, ele pensa. “Então é esse o destino para os viventes?”.

Valentim não durará muito ali fora. Morando em uma região rural, a casa mais próxima fica a dez minutos de caminhada. Ele, porém, mal se aguentava em pé.

De repente ele ouve um ruído. Sobre uma árvore retorcida, ele enxerga uma coruja. Ela não se mexe, mas apenas o observa ali com seu olhar inexorável e sem compaixão. Esgotado e desesperado, Valentim tem uma ideia. Ele olha para a coruja e pede ajuda. As lágrimas ressecam o seu rosto, congelando em sua barba. Novamente ele pede ajuda, fazendo um último apelo.

- Se você estiver me ouvindo, por favor, me ajude...!

Exausto, ele fecha os olhos e cai sobre a neve. Antes de sucumbir, ele tem a impressão de ouvir asas batendo por perto. Ele abre os olhos e se espanta ao ver centenas de corujas à sua volta.

Valentim ouve um som vindo de sua casa. Estranhamente as corujas abrem caminho e lhe dão passagem, permitindo-o passar. Intrigado, ele se levanta e caminha de volta.

Ao adentrar a casa, ele se arrasta de volta para o seu quarto, esforçando-se o quanto pode. Então ele vê a face da abominação.

Uma figura diabólica, com vários braços e membros que se reviravam como tentáculos, jazia ao lado de sua esposa. A figura era tão alta que quase alcançava o teto. Os pelos ressecados e os pés com pontudas garras lhe dão arrepios. Aparentemente todo o seu corpo era coberto por uma energia negra. Enquanto respirava, aquela coisa emitia sibilos sinistros. Mas, ao olhar para Valentim, o monstro tinha a face de Bogdan.

Apavorado, Valentim grita:

- Oh, meu Deus!       

- Deus?! – ri Bogdan – O seu Deus não está aqui esta manhã!

Valentim corre, fugindo desesperadamente dali. Ele não é mais valente como era antes. Agora ele está velho e doente, e não pode se defender.

Ao passar pela cozinha, Valentim tropeça e se esbarra contra as panelas. Ele tenta encontrar seu velho punhal, mas se lembra que ele estava na gaveta ao lado de sua cama. Abalado, ele se lamenta.

Bogdan comenta atrás dele:

- No passado, houveram muitas mitologias. A mitologia grega, a mitologia nórdica, a mitologia celta, a mitologia egípcia... Alguns diziam que eu estava na mitologia babilônica, e outros em uma mais antiga, a mitologia suméria. Mas quem pode dizer, não?

Valentim abre a porta e se lança para fora. Com muito esforço, ele tenta se levantar quando, ao apoiar-se sobre uma perna, seu joelho estrala. Ao sentir a excruciante dor crescer, a aflição o domina.

Logo atrás, Bogdan continua:

- E também as teologias. A teologia judaica, depois a cristã, e mais recentemente a islâmica. Todas, de alguma forma, citaram a minha existência. Mas o senhor me conhece. Eu prefiro me esconder nas brumas do paganismo...

Valentim se arrasta pela neve; ele não é mais capaz de correr. As árvores estão mais à frente. Ele não sabe ao certo para onde está indo, mas quer se afastar o máximo possível daquela coisa.

Seus cotovelos se ralam e doem. Seu joelho está tão dolorido que ele não consegue mais movê-lo. Acima dele, as corujas grasnavam sem parar.

Bogdan diz:

- O senhor olhou demais para o abismo. Agora a sua alma jamais poderá descansar em paz.

Ignorando-o, Valentim se arrasta. As árvores estavam mais perto, faltava só mais um pouquinho.

Então algo acontece.

Ao se arrastar mais uma braçada, um par de botas aparecem à sua frente. Surpreso, ele olha para cima e vê seu filho. Sua aparência macabra não existia mais.

Bogdan, agora um homem de 30 anos, olha para ele e então diz:

- A mamãe está morta.

O choque atravessa o coração de Valentim. Ele chora; seus gritos são tão altos e tristes que ele sente dores no peito. A negação o domina e ele se recusa a acreditar. Mas, quanto mais se recusava, mais sua dor aumentava.

Valentim põe a mão sobre seu peito. Sua face exprime profunda agonia. Uma outra dor surge simultânea à dor de sua perda. Agora Valentim sofria um ataque cardíaco.

A dor estilhaça seu sistema nervoso e ele não consegue mais respirar. Em agonia, ele luta e se debate para salvar sua vida. Bogdan apenas o observa, frio e cruel como um sangrento deus pagão.

Minutos se passam. Valentim não resiste. Seus olhos arregalados veem apenas a escuridão. Expirando seu último suspiro, seus pulmões cessam e ele não respira mais.

 E assim ele morre aos pés de seu filho.

 

§

 

Naquela mesma tarde, uma cova é aberta na floresta.

Bogdan, agora Exúvia, está diante de seus pais com uma pá na mão. Ele contempla seu pai e sua mãe mortos dentro da cova; eles estavam um ao lado do outro, como Valentim sempre quis.

O deus pergunta:

- Não é isso o que o senhor queria, papai? Uma cova para dois?

Bogdan os observa com seu olhar brilhante e verde. Sobre seus ombros pousam uma coruja marrom e uma branca. Em seguida centenas de corujas pousam nas árvores e ao lado da cova, como se tivessem vindo para acompanhar o funeral.

Exúvia diz:

- Não é justo que a carne de meus pais seja devorada por vermes tão imundos.

Então as corujas descem à cova e devoram Valentim e Danica. Elas batem as asas e grasnam, refestelando-se em um espetáculo antinatural e profano.

Ao terminarem, os esqueletos estão abraçados um ao outro, como se estivessem se protegendo do mal ancestral diante de si.

Exúvia sorri.

Com sua pá, o deus finalmente enterra seus pais na floresta. Então a coruja marrom e a coruja branca pousam sobre a lápide de seus pais.

- Perdoem-me por não trazer uma cruz. – diz ele – Eu tenho repulsa a cruzes.

Então as corujas se petrificam sozinhas, permanecendo no local, agora um santuário, para sempre.

 

 

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