O ano é 1914.
Valentim está
tremendo de frio. Sua casa cheira a pó e sujeira se acumula pelos cantos. Sem
seu vigor e a ajuda de sua esposa, o velho marido não faz mais a faxina;
naqueles dias, ele mal conseguia se levantar da cama.
Olhando para o
lado, ele encontra Danica. Ela dormia tranquilamente, ou assim ele achava.
Ao colocar o
cobertor sobre ela, Valentim olha para seu rosto e se assusta; ela estava
pálida e seu olhar encarava o vazio. Alarmado, ele a sacode, mas ela não acorda.
Ao verificar sua respiração, ele nota que ela não estava respirando. O
desespero toma sua mente e ele se levanta, enfrentando a fraqueza de estar
velho e doente.
Valentim a
sacode, sacode e sacode, mas em vão. Apavorado, ele se encurva sobre seu peito
e chora. Danica estava tão gelada quanto aquela manhã. Apesar das lágrimas
ferventes vindas direto do seu coração, ela não acordava.
Confuso, ele não
sabe o que fazer. Não foi assim que ele imaginou a morte de sua esposa.
Valentim sempre desejou morrer junto com ela, e ambos serem enterrados em uma cova
para dois. Velar seu corpo sem vida não estava nem no pior dos seus pesadelos,
pois o dedicado marido sequer imaginava viver sem ela.
Em um acesso delirante
de esperança, Valentim se levanta e caminha pela casa. Ele veste seu casaco e
alcança a porta, intentando buscar ajuda.
Mas ele não vai
longe.
Os passos são
penosos e suas costas doem. Incapaz de cuidar da própria saúde, mesmo sua
higiene é afetada. Tanto as roupas quanto a própria casa cheirava a urina. Infecções
surgem em sua pele, coceiras inconvenientes que insistiam em incomodá-lo. Mesmo
Danica sofria o mesmo, mas, ao perder o vigor e a fala, ela jamais se queixara.
Parando em frente
à casa, a neve esfria seu corpo e ele perde o equilíbrio. Uma tosse forte e
seca o acomete e rasga a sua garganta.
“Então é esse?”,
ele pensa. “Então é esse o destino para os viventes?”.
Valentim não
durará muito ali fora. Morando em uma região rural, a casa mais próxima fica a
dez minutos de caminhada. Ele, porém, mal se aguentava em pé.
De repente ele
ouve um ruído. Sobre uma árvore retorcida, ele enxerga uma coruja. Ela não se
mexe, mas apenas o observa ali com seu olhar inexorável e sem compaixão.
Esgotado e desesperado, Valentim tem uma ideia. Ele olha para a coruja e pede
ajuda. As lágrimas ressecam o seu rosto, congelando em sua barba. Novamente ele
pede ajuda, fazendo um último apelo.
- Se você estiver
me ouvindo, por favor, me ajude...!
Exausto, ele
fecha os olhos e cai sobre a neve. Antes de sucumbir, ele tem a impressão de
ouvir asas batendo por perto. Ele abre os olhos e se espanta ao ver centenas de
corujas à sua volta.
Valentim ouve um
som vindo de sua casa. Estranhamente as corujas abrem caminho e lhe dão
passagem, permitindo-o passar. Intrigado, ele se levanta e caminha de volta.
Ao adentrar a
casa, ele se arrasta de volta para o seu quarto, esforçando-se o quanto pode.
Então ele vê a face da abominação.
Uma figura
diabólica, com vários braços e membros que se reviravam como tentáculos, jazia
ao lado de sua esposa. A figura era tão alta que quase alcançava o teto. Os
pelos ressecados e os pés com pontudas garras lhe dão arrepios. Aparentemente
todo o seu corpo era coberto por uma energia negra. Enquanto respirava, aquela
coisa emitia sibilos sinistros. Mas, ao olhar para Valentim, o monstro tinha a
face de Bogdan.
Apavorado,
Valentim grita:
- Oh, meu Deus!
- Deus?! – ri
Bogdan – O seu Deus não está aqui esta manhã!
Valentim corre,
fugindo desesperadamente dali. Ele não é mais valente como era antes. Agora ele
está velho e doente, e não pode se defender.
Ao passar pela
cozinha, Valentim tropeça e se esbarra contra as panelas. Ele tenta encontrar
seu velho punhal, mas se lembra que ele estava na gaveta ao lado de sua cama.
Abalado, ele se lamenta.
Bogdan comenta
atrás dele:
- No passado,
houveram muitas mitologias. A mitologia grega, a mitologia nórdica, a mitologia
celta, a mitologia egípcia... Alguns diziam que eu estava na mitologia
babilônica, e outros em uma mais antiga, a mitologia suméria. Mas quem pode
dizer, não?
Valentim abre a
porta e se lança para fora. Com muito esforço, ele tenta se levantar quando, ao
apoiar-se sobre uma perna, seu joelho estrala. Ao sentir a excruciante dor crescer, a aflição o domina.
Logo atrás,
Bogdan continua:
- E também as
teologias. A teologia judaica, depois a cristã, e mais recentemente a islâmica.
Todas, de alguma forma, citaram a minha existência. Mas o senhor me conhece. Eu
prefiro me esconder nas brumas do paganismo...
Valentim se
arrasta pela neve; ele não é mais capaz de correr. As árvores estão mais à
frente. Ele não sabe ao certo para onde está indo, mas quer se afastar o máximo
possível daquela coisa.
Seus cotovelos se
ralam e doem. Seu joelho está tão dolorido que ele não consegue mais movê-lo.
Acima dele, as corujas grasnavam sem parar.
Bogdan diz:
- O senhor olhou
demais para o abismo. Agora a sua alma jamais poderá descansar em paz.
Ignorando-o,
Valentim se arrasta. As árvores estavam mais perto, faltava só mais um
pouquinho.
Então algo
acontece.
Ao se arrastar mais
uma braçada, um par de botas aparecem à sua frente. Surpreso, ele olha para
cima e vê seu filho. Sua aparência macabra não existia mais.
Bogdan, agora um
homem de 30 anos, olha para ele e então diz:
- A mamãe está
morta.
O choque
atravessa o coração de Valentim. Ele chora; seus gritos são tão altos e
tristes que ele sente dores no peito. A negação o domina e ele se recusa a
acreditar. Mas, quanto mais se recusava, mais sua dor aumentava.
Valentim põe a
mão sobre seu peito. Sua face exprime profunda agonia. Uma outra dor surge simultânea
à dor de sua perda. Agora Valentim sofria um ataque cardíaco.
A dor estilhaça
seu sistema nervoso e ele não consegue mais respirar. Em agonia, ele luta e se debate
para salvar sua vida. Bogdan apenas o observa, frio e cruel como um sangrento
deus pagão.
Minutos se passam.
Valentim não resiste. Seus olhos arregalados veem apenas a escuridão. Expirando
seu último suspiro, seus pulmões cessam e ele não respira mais.
E assim ele morre aos pés de seu filho.
§
Naquela mesma
tarde, uma cova é aberta na floresta.
Bogdan, agora
Exúvia, está diante de seus pais com uma pá na mão. Ele contempla seu pai e sua
mãe mortos dentro da cova; eles estavam um ao lado do outro, como Valentim
sempre quis.
O deus pergunta:
- Não é isso o
que o senhor queria, papai? Uma cova para dois?
Bogdan os observa
com seu olhar brilhante e verde. Sobre seus ombros pousam uma coruja marrom e
uma branca. Em seguida centenas de corujas pousam nas árvores e ao lado da
cova, como se tivessem vindo para acompanhar o funeral.
Exúvia diz:
- Não é justo que
a carne de meus pais seja devorada por vermes tão imundos.
Então as corujas
descem à cova e devoram Valentim e Danica. Elas batem as asas e grasnam,
refestelando-se em um espetáculo antinatural e profano.
Ao terminarem, os
esqueletos estão abraçados um ao outro, como se estivessem se protegendo do mal
ancestral diante de si.
Exúvia sorri.
Com sua pá, o
deus finalmente enterra seus pais na floresta. Então a coruja marrom e a coruja
branca pousam sobre a lápide de seus pais.
- Perdoem-me por
não trazer uma cruz. – diz ele – Eu tenho repulsa a cruzes.
Então as corujas
se petrificam sozinhas, permanecendo no local, agora um santuário, para sempre.

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