sábado, 22 de maio de 2021

Tiergarten - 28 - Passeando com Albert Einstein


 

Com o telefone em sua mão, o rapaz exasperadamente diz:

- Moça, você não entende! Eles estão atrás de você! Quem quer que você seja, é melhor fugir! E parar de ligar para mim!

A voz no outro lado da linha responde:

- Acalme-se, Gunther. Me explique o que está acontecendo, e bem devagar.

O rapaz respira fundo.

- A Stasi sabe sobre sua existência. Eles sabem que você não é dessa dimensão... ou desse tempo... ou desse mundo... Ou qualquer coisa...! – responde ele, confuso – A polícia do Estado é poderosa. Eles podem te achar!

A voz ri.

- Semanas atrás você estava me acusando de ser uma espiã deles, agora me alerta a fugir dos meus supostos recrutadores?

- Sei que parece absurdo. Ouça, provavelmente eles já estão ouvindo a essa ligação. É melhor desligar antes que eles te rastreiem.

A ligação fica muda por alguns segundos. O rapaz se confunde, pois a voz só ia embora quando ele ouvia estática. Porém, ele começa a ouvir uma bela melodia de violino.

- Moça...? – pergunta ele.

- Não é lindo o som desse violino?

Sem tempo para apreciar, o rapaz responde:

- Eu...

- Shhh! – interrompe a voz – Ouça essa melodia, é Mozart.

O rapaz ouve, mas não dá atenção.

- Você precisa me ouvir, fuja!

- A música ajuda a acalmar o nervosismo. Talvez você devesse apreciar essa melodia em um concerto. – fazendo uma breve pausa, a voz continua – Hoje à noite haverá um concerto na Staatsoper Unter den Linden[1]. É melhor estar pronto, senão você vai se atrasar.

Gunther conhece o lugar. A Staatsoper Unter den Linder, ou também conhecida como Casa de Ópera de Berlim, é uma bela edificação de arquitetura paladiana construída em 1743. Apesar de gerida pelo governo socialista, apenas os espectadores com ingresso podiam entrar.

- Eu agradeço o convite, mas como poderei entrar sem um ingresso?

De repente um braço se estica ao seu lado e lhe oferece algo em sua mão. Largando o telefone em um grito, ele olha para trás mas não vê ninguém. Um ingresso, entretanto, estava caído no piso.

- Você não vai querer perder o concerto. Divirta-se! – então a voz desaparece nos ruídos de estática.   

Ainda assustado, o rapaz se pergunta como aquele ingresso foi parar ali.

 

§

 

À noite, o rapaz entra na Casa de Ópera e procura por um lugar para se sentar. O interior é magnífico, tendo sido restaurado completamente após a devastação da Segunda Guerra Mundial. Apesar de ser uma casa dedicada à ópera, esporadicamente haviam concertos e sinfonias, dos quais agradavam muitos os berlinenses mais eruditos. Notando como a casa se enchia, o rapaz pensa: “aparentemente a erudição não foi destruída com a guerra”.

Enquanto admira o salão, alguém se senta ao seu lado. Sem se importar, Gunther aguarda pacientemente o início do concerto.

Os músicos se apresentam e o maestro inicia a adorável sinfonia. O instrumento clássico preferido do rapaz era o violoncelo, mas era o violino que mais o agradava. Deixando-se envolver pelo maravilhoso instrumento, a pessoa ao seu lado pergunta:

- Linda a música, não?

Ao olhar para o lado, Gunther tem uma tremenda surpresa. Ele estava ao lado de Albert Einstein.

Gritando brevemente em espanto, a plateia se assusta e olha para eles. O rapaz disfarça e se recompõe.

- Dr. Einstein?! É o senhor mesmo?

Sorrindo e ajeitando seu bigode, o físico responde:

- Sim, meu jovem. Sou eu.

- É uma honra conhece-lo...!

Assentindo, Einstein cruza as pernas e olha para os músicos. O concerto parecia agrada-lo imensamente. Gunther está perplexo e não consegue acreditar que Einstein em pessoa estava ao seu lado. Então o físico comenta:

- Ouça, que bela música...! Note como os instrumentos se mesclam à beleza da melodia!

Controlando-se, o rapaz vê o maestro acenando enquanto os músicos tocam elegantemente seus instrumentos.

- É sim. – comenta ele.

- Se eu não fosse um físico, eu provavelmente seria um músico. Eu frequentemente penso na música. Eu sonho acordado na música. Eu vejo minha vida nos termos da música... A maior parte dos meus prazeres vêm da música...

Gunther nota como Einstein fala apaixonado sobre o assunto. De fato, ele ouviu dizer que o físico a adorava. Tentando encontrar algo inteligente para responder, o rapaz diz:

- A melodia é verdadeiramente magnífica, Dr. Einstein.

- Como disse Friedrich Nietzsche, “sem a música, a vida seria um erro”. – comenta ele – O senhor conhece Nietzsche?

Franzindo a testa em um humilde sorriso, o físico olha para ele.

- É claro, Dr. Einstein. Sou um profundo admirador de sua filosofia.

Enquanto aprecia o concerto, o físico parece se perder em pensamentos. O rapaz ainda não consegue acreditar que Einstein estava ao seu lado. O físico foi o criador da famosa Teoria da Relatividade, com sua mundialmente conhecida equação E=mc².

Percebendo como o rapaz ainda estava muito admirado ao vê-lo, o físico pergunta:

- Como se chama, meu jovem?

Quase gaguejando, ele responde:

- Gunther, doutor.

- E como vão as coisas, senhor Gunther?

Pensando antes de falar, como ele poderia responder? Seria muito difícil dizer que ele era um paradoxo dimensional, viajante do espaço/tempo, espionado pela Stasi que conversava com pessoas mortas. Lembrando-se de algo melhor e mais racional, ele responde:

- Ultimamente, sofrendo pelo amor de uma mulher...

- Como assim? – interessa-se Einstein.

- Eu a amo tanto que às vezes sinto pena de mim mesmo...

- Ora, não diga isso. Amar não é digno de pena, e o estado em que ficamos quando amamos é a mais sublime elevação do sentimento humano. Pelo amor devemos derrubar qualquer barreira.

Intrigado, o rapaz pergunta:

- Qualquer barreira?

- Certamente!

Reclinando-se em seu assento, o rapaz complementa:

- Essa garota, de nome Anneliese, é uma comunista ferrenha que propôs se casar comigo com uma única condição. Acho que ela estava brincando comigo, mas apaixonado como eu estava, acreditei mesmo assim.

O físico parece se interessar bastante. Sua vida amorosa foi algo bastante intenso em sua vida, pois ele amou muitas mulheres. Apesar de seus muitos envolvimentos extra conjugais, o falecimento de sua Elsa o havia deixado muito abalado.

- E que condição foi essa?

- Quando o socialismo caísse.

Então Einstein faz um olhar sério. Em 1949, o físico escreveu um artigo chamado “Por que o Socialismo?” do qual criticava asperamente o sistema capitalista. No artigo, ele apontava os problemas do capitalismo, como a competição econômica, o aumento da desigualdade social e o controle da mídia pelo grande capital. Entretanto, anos antes em 1925, Einstein também criticou o socialismo bolchevique, acusando-o de ser um regime de terror e uma tragédia para a humanidade.

Após um tempo em silêncio, Einstein pergunta:

- Responda-me: por acaso você planeja derrubar o regime socialista?

Pensando no quão boba aquela ideia parecia ser, o rapaz convictamente responde:

- Sim.

Coçando sua barba, o físico assente com a cabeça.

- Não imaginei que você fosse tão contrário a essa ideologia.

- Três milhões de alemães, de uma população total de 16 milhões, já fugiram da Alemanha Oriental até o momento. E continuam fugindo. Me admira o fato de que alguns ainda defendam esse regime. Acho que não aprenderam com os erros de Lênin...

Em contrapartida, Einstein responde:

- Eu devo dizer que sou um admirador de Lênin. Nele eu honro um homem que, em total sacrifício de sua pessoa, empreendeu toda sua energia em realizar a justiça social. Eu não acho seus métodos recomendáveis, mas uma coisa é certa: homens como ele são os guardiões e renovadores da consciência humana.  

Gunther nota que, apesar das críticas, o físico era um homem de opinião equilibrada sobre o socialismo.

- Me parece um pouco radical de sua parte querer derrubar esse regime por amor. – continua ele – Mas eu também fui um pouco radical em minha oposição ao movimento sionista e à criação do Estado de Israel. Eu inclusive recusei o pedido do embaixador Eban de me tornar o primeiro presidente.

- É mesmo? – espanta-se Gunther.

- Sim. Na ocasião, eu respondi que o pedido incorporava o maior respeito do qual o povo judeu repousava em seus filhos. Eu fiquei profundamente comovido, entristecido e envergonhado em ter de recusa-lo. – olhando-o nos olhos, ele jocosamente pergunta – Acho que ambos somos um pouco subversivos, não é mesmo?  

Os dois riem. Então alguém atrás deles os pede para fazerem silêncio.

Após a apresentação, os dois deixam a Casa de Ópera e caminham pelas ruas de Berlim. Gunther segue desconfortavelmente ao seu lado pois, apesar de ter quase trinta anos, se parecia com um reles menino ao lado de um senhor mais experiente e incomparavelmente superior a ele.

Fumando seu cachimbo, Einstein olha ao redor e se fascina com a atual paisagem berlinense. Até sua morte em 1955, ele morava nos Estados Unidos e a Alemanha, país de seu nascimento, ainda se recuperava do traumático período pós-guerra. De repente ele comenta:

- Apesar dos russos terem remodelado boa parte da cidade, não posso deixar de sentir nostalgia ao revê-la. Entretanto, eu prefiro vê-la adaptada aos moldes soviéticos do que sob a tirania do regime nazista.

Lembrando-se de algo, o rapaz diz:

- Concordo plenamente, mas devo dizer que os soviéticos não são tão melhores que os nazistas. Hoje eles possuem armas nucleares e ameaçam a democracia e a liberdade no mundo. Apesar de não existirem mais Gulags, muita gente ainda perece nos campos de trabalhos forçados no interior da Rússia.

Respirando fundo, Einstein responde:

- É lamentável o que os russos, sob a égide do marxismo-leninismo, fizeram, mas é um mal menor se comparado aos horrores do nazismo.    

Os dois chegam a um famigerado local. Eles estavam no meio da Opernplatz, a praça onde, em 10 de maio de 1933, os nazistas queimaram cerca de vinte mil livros de autores não arianos.

- Veja, meu jovem. Aqui os nazistas queimaram meus livros em meio a um espetáculo de ódio e antissemitismo.

Então Einstein observa o local em silêncio.

Gunther se lembra que, na ocasião, o ministro da propaganda Joseph Goebbels proclamou que o “intelectualismo judeu estava morto”. Mais tarde, uma revista alemã incluiu o nome de Einstein na lista dos inimigos do regime alemão com a frase “ainda não enforcado”, oferecendo cinco mil marcos pela sua cabeça. O rapaz imagina como deve ter sido difícil para Einstein estar vivo naquele negro período.

Repentinamente, o físico diz:

- Prevendo a destruição que os alemães causariam, eu, Leo Szilard e outros refugiados como Edward Teller e Eugene Wigner aconselhamos o presidente americano Franklin Roosevelt a investir na construção de armas nucleares. Nunca considerei essa hipótese, mas fui persuadido por meus colegas a considera-la, afinal Hitler estaria mais do que disposto a usa-las.

Einstein falava da corrida armamentista pelo desenvolvimento de bombas atômicas da qual os americanos felizmente venceram com o Manhattan Project.  

Gunther pergunta:

- Hoje essa armas também estão nas mãos dos russos, que também ameaçam o mundo com seus mísseis balísticos e intercontinentais. O senhor crê que, para a manutenção da paz, a posse delas sejam um mal necessário?

Evasivo, o físico responde:

- Não posso deixar de me sentir responsável por sua existência. De fato, eu cometi um grande erro em minha vida quando assinei aquela carta ao presidente Roosevelt recomendando que as bombas atômicas fossem feitas. Mas houve uma justificativa, o perigo de que os alemães as fizessem...

Lágrimas se formam em seus olhos. O rapaz diz:

- Tenho certeza que, naquele momento, isso foi o melhor a ser feito.   

Ressentido, Einstein comenta:

- Por culpa do nazismo eu me distanciei de minha postura pacifista. Mas como eu mesmo disse no Instituto de Tecnologia da Califórnia, a ciência está mais inclinada a fazer o mal do que o bem.

Passados alguns minutos, os dois continuam sua caminhada. Eles então chegam à famosa Universidade de Humboldt da qual Einstein, em 1913, foi diretor e professor.

- Nessa universidade eu fui eleito o diretor da Sociedade Alemã de Físicos. Isso foi em 1916... ou 1917...? Eu não me lembro mais...

Einstein sorri enquanto fuma seu cachimbo. Gunther aproveita o momento para perguntar:

- Dr. Einstein, o senhor acredita em Deus?

Com a estranha pergunta, o físico se intriga.

- Por que a pergunta, meu jovem?

- É evidente que o senhor é um homem de ciência. Talvez o melhor de todos. Mas o senhor acredita que o universo possa ter um criador?

Sorrindo, o físico responde:

- Bem, eu não sou um ateu. Se eu puder escolher, eu prefiro me chamar de agnóstico ou um profundo descrente religioso.

Ouvindo-o, o rapaz faz outra pergunta:

- O senhor não crê na religião, apesar de sua respeitável origem judaica?

Meneando negativamente a cabeça, ele responde:

- Para mim, a religião judaica, como qualquer outra, é a encarnação das mais infantis superstições. E o povo judeu do qual eu felizmente pertenço, e cuja mentalidade eu tenho profunda afinidade, não tem melhor qualidade do que qualquer outro povo. Eu não consigo ver nada “escolhido” neles.

- Também sou agnóstico, pois com tanta maldade no mundo, é difícil acreditar que um deus bom exista.

Einstein complementa:

- Acredito no Deus de Espinosa, que se revela por si mesmo na harmonia de tudo o que existe, e não no Deus que se interessa pela sorte e pelas ações dos homens.

Gunther assente. Pensando no assunto, lhe parece que os mais célebres judeus que já existiram eram agnósticos ou ateus. O rapaz vê isso em Karl Marx, Sigmund Freud, Isaac Asimov, Léon Trotsky e Albert Einstein.

A noite fica mais fria em Berlim. Estava entardecendo. Aquecendo-se, o rapaz comenta:

- Gostaria de ter sua genialidade para resolver meus problemas, Dr. Einstein. Assim minha vida amorosa não seria tão fria quanto essa noite.

Amigavelmente, o físico responde:

- Ora, não fale assim. Somos todos geniais, mas se você julgar um peixe por sua capacidade de subir em árvores, ele passará a vida inteira acreditando ser estúpido.

O rapaz agradece a agradável resposta.

Olhando para o seu relógio, Einstein diz:

- Veja só que horas são! Agora eu devo partir. Foi um prazer conhece-lo, jovem Gunther. Até a próxima!

O físico ajeita sua cabeleira e caminha em direção oposta na rua. Mas o rapaz o interrompe, perguntando-o:

- Dr. Einstein, perdoe a minha insistência, mas o que fazer quando, entre você e o amor de sua vida, encontram-se um regime tirânico e a Revolução?

Apressado e sem tempo para pensar, o físico apenas diz:

- O que for preciso, meu jovem!

Então Einstein acena, se vira e continua caminhando pela rua, até finalmente desaparecer no ar. Gunther fica parado ali, espantado com a sinistra cena. Porém, uma tristeza inunda seu coração. Ele está triste por brevemente ganhar e perder mais um amigo, pois ultimamente ele só conversava com gente morta.

Lembrando-se de Anneliese, o rapaz pergunta novamente para si mesmo:

- O que fazer...?

Ele repete a pergunta inúmeras vezes.

- O que Einstein faria...? - aventura-se ele, pensando no trabalho hercúleo que seria para apenas um homem derrubar esse regime. 

 Então uma reflexão surge em sua mente.   

“O que foi necessário para derrubar o império japonês e seu tirânico regime?”, reflete ele. “É isso mesmo!”, ele se responde, estalando os dedos.

“Armas nucleares!”.

 



[1] Casa de Ópera situada na avenida Unter den Linden

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