Com o telefone em
sua mão, o rapaz exasperadamente diz:
- Moça, você não
entende! Eles estão atrás de você! Quem quer que você seja, é melhor fugir! E
parar de ligar para mim!
A voz no outro
lado da linha responde:
- Acalme-se, Gunther.
Me explique o que está acontecendo, e bem devagar.
O rapaz respira
fundo.
- A Stasi sabe
sobre sua existência. Eles sabem que você não é dessa dimensão... ou desse tempo...
ou desse mundo... Ou qualquer coisa...! – responde ele, confuso – A
polícia do Estado é poderosa. Eles podem te achar!
A voz ri.
- Semanas atrás
você estava me acusando de ser uma espiã deles, agora me alerta a fugir dos
meus supostos recrutadores?
- Sei que parece
absurdo. Ouça, provavelmente eles já estão ouvindo a essa ligação. É melhor
desligar antes que eles te rastreiem.
A ligação fica
muda por alguns segundos. O rapaz se confunde, pois a voz só ia embora quando
ele ouvia estática. Porém, ele começa a ouvir uma bela melodia de violino.
- Moça...? –
pergunta ele.
- Não é lindo o
som desse violino?
Sem tempo para
apreciar, o rapaz responde:
- Eu...
- Shhh! –
interrompe a voz – Ouça essa melodia, é Mozart.
O rapaz ouve, mas
não dá atenção.
- Você precisa me
ouvir, fuja!
- A música ajuda
a acalmar o nervosismo. Talvez você devesse apreciar essa melodia em um
concerto. – fazendo uma breve pausa, a voz continua – Hoje à noite haverá um
concerto na Staatsoper Unter den Linden[1].
É melhor estar pronto, senão você vai se atrasar.
Gunther conhece o
lugar. A Staatsoper Unter den Linder, ou também conhecida como Casa de Ópera de
Berlim, é uma bela edificação de arquitetura paladiana construída em 1743. Apesar
de gerida pelo governo socialista, apenas os espectadores com ingresso podiam
entrar.
- Eu agradeço o
convite, mas como poderei entrar sem um ingresso?
De repente um
braço se estica ao seu lado e lhe oferece algo em sua mão. Largando o telefone
em um grito, ele olha para trás mas não vê ninguém. Um ingresso, entretanto,
estava caído no piso.
- Você não vai
querer perder o concerto. Divirta-se! – então a voz desaparece nos ruídos de
estática.
Ainda assustado,
o rapaz se pergunta como aquele ingresso foi parar ali.
§
À noite, o rapaz
entra na Casa de Ópera e procura por um lugar para se sentar. O interior é
magnífico, tendo sido restaurado completamente após a devastação da Segunda
Guerra Mundial. Apesar de ser uma casa dedicada à ópera, esporadicamente haviam
concertos e sinfonias, dos quais agradavam muitos os berlinenses mais eruditos.
Notando como a casa se enchia, o rapaz pensa: “aparentemente a erudição não foi
destruída com a guerra”.
Enquanto admira o
salão, alguém se senta ao seu lado. Sem se importar, Gunther aguarda
pacientemente o início do concerto.
Os músicos se
apresentam e o maestro inicia a adorável sinfonia. O instrumento clássico
preferido do rapaz era o violoncelo, mas era o violino que mais o agradava.
Deixando-se envolver pelo maravilhoso instrumento, a pessoa ao seu lado
pergunta:
- Linda a música,
não?
Ao olhar para o
lado, Gunther tem uma tremenda surpresa. Ele estava ao lado de Albert Einstein.
Gritando
brevemente em espanto, a plateia se assusta e olha para eles. O rapaz disfarça
e se recompõe.
- Dr. Einstein?!
É o senhor mesmo?
Sorrindo e ajeitando
seu bigode, o físico responde:
- Sim, meu jovem.
Sou eu.
- É uma honra
conhece-lo...!
Assentindo,
Einstein cruza as pernas e olha para os músicos. O concerto parecia agrada-lo
imensamente. Gunther está perplexo e não consegue acreditar que Einstein em
pessoa estava ao seu lado. Então o físico comenta:
- Ouça, que bela
música...! Note como os instrumentos se mesclam à beleza da melodia!
Controlando-se, o
rapaz vê o maestro acenando enquanto os músicos tocam elegantemente seus
instrumentos.
- É sim. –
comenta ele.
- Se eu não fosse
um físico, eu provavelmente seria um músico. Eu frequentemente penso na música.
Eu sonho acordado na música. Eu vejo minha vida nos termos da música... A maior
parte dos meus prazeres vêm da música...
Gunther nota como
Einstein fala apaixonado sobre o assunto. De fato, ele ouviu dizer que o físico
a adorava. Tentando encontrar algo inteligente para responder, o rapaz diz:
- A melodia é
verdadeiramente magnífica, Dr. Einstein.
- Como disse
Friedrich Nietzsche, “sem a música, a vida seria um erro”. – comenta ele – O
senhor conhece Nietzsche?
Franzindo a testa
em um humilde sorriso, o físico olha para ele.
- É claro, Dr.
Einstein. Sou um profundo admirador de sua filosofia.
Enquanto aprecia o concerto, o físico parece
se perder em pensamentos. O rapaz ainda não
consegue acreditar que Einstein estava ao seu lado. O físico foi o criador da
famosa Teoria da Relatividade, com sua mundialmente conhecida equação E=mc².
Percebendo como o
rapaz ainda estava muito admirado ao vê-lo, o físico pergunta:
- Como se chama,
meu jovem?
Quase gaguejando,
ele responde:
- Gunther,
doutor.
- E como vão as
coisas, senhor Gunther?
Pensando antes de
falar, como ele poderia responder? Seria muito difícil dizer que ele era um
paradoxo dimensional, viajante do espaço/tempo, espionado pela Stasi que
conversava com pessoas mortas. Lembrando-se de algo melhor e mais racional, ele
responde:
- Ultimamente, sofrendo pelo amor de uma mulher...
- Como assim? –
interessa-se Einstein.
- Eu a amo tanto que
às vezes sinto pena de mim mesmo...
- Ora, não diga
isso. Amar não é digno de pena, e o estado em que ficamos quando amamos é a
mais sublime elevação do sentimento humano. Pelo amor devemos derrubar qualquer
barreira.
Intrigado, o
rapaz pergunta:
- Qualquer
barreira?
- Certamente!
Reclinando-se em
seu assento, o rapaz complementa:
- Essa garota, de
nome Anneliese, é uma comunista ferrenha que propôs se casar comigo com uma
única condição. Acho que ela estava brincando comigo, mas apaixonado como eu
estava, acreditei mesmo assim.
O físico parece
se interessar bastante. Sua vida amorosa foi algo bastante intenso em sua vida,
pois ele amou muitas mulheres. Apesar de seus muitos envolvimentos extra conjugais,
o falecimento de sua Elsa o havia deixado muito abalado.
- E que condição foi
essa?
- Quando o
socialismo caísse.
Então Einstein faz um olhar sério. Em 1949, o físico escreveu um artigo chamado “Por que o Socialismo?”
do qual criticava asperamente o sistema capitalista. No artigo, ele apontava os
problemas do capitalismo, como a competição econômica, o aumento da
desigualdade social e o controle da mídia pelo grande capital. Entretanto, anos
antes em 1925, Einstein também criticou o socialismo bolchevique, acusando-o de
ser um regime de terror e uma tragédia para a humanidade.
Após um tempo em silêncio,
Einstein pergunta:
- Responda-me: por
acaso você planeja derrubar o regime socialista?
Pensando no quão
boba aquela ideia parecia ser, o rapaz convictamente responde:
- Sim.
Coçando sua
barba, o físico assente com a cabeça.
- Não imaginei
que você fosse tão contrário a essa ideologia.
- Três milhões de
alemães, de uma população total de 16 milhões, já fugiram da Alemanha Oriental
até o momento. E continuam fugindo. Me admira o fato de que alguns ainda
defendam esse regime. Acho que não aprenderam com os erros de Lênin...
Em contrapartida,
Einstein responde:
- Eu devo dizer que
sou um admirador de Lênin. Nele eu honro um homem que, em total sacrifício de
sua pessoa, empreendeu toda sua energia em realizar a justiça social. Eu não acho
seus métodos recomendáveis, mas uma coisa é certa: homens como ele são os guardiões
e renovadores da consciência humana.
Gunther nota que,
apesar das críticas, o físico era um homem de opinião equilibrada sobre o
socialismo.
- Me parece um
pouco radical de sua parte querer derrubar esse regime por amor. – continua ele
– Mas eu também fui um pouco radical em minha oposição ao movimento sionista e à
criação do Estado de Israel. Eu inclusive recusei o pedido do embaixador Eban
de me tornar o primeiro presidente.
- É mesmo? –
espanta-se Gunther.
- Sim. Na ocasião,
eu respondi que o pedido incorporava o maior respeito do qual o povo judeu repousava
em seus filhos. Eu fiquei profundamente comovido, entristecido e envergonhado
em ter de recusa-lo. – olhando-o nos olhos, ele jocosamente pergunta – Acho que
ambos somos um pouco subversivos, não é mesmo?
Os dois riem. Então
alguém atrás deles os pede para fazerem silêncio.
Após a apresentação,
os dois deixam a Casa de Ópera e caminham pelas ruas de Berlim. Gunther segue
desconfortavelmente ao seu lado pois, apesar de ter quase trinta anos, se parecia
com um reles menino ao lado de um senhor mais experiente e incomparavelmente superior a ele.
Fumando seu
cachimbo, Einstein olha ao redor e se fascina com a atual paisagem berlinense. Até
sua morte em 1955, ele morava nos Estados Unidos e a Alemanha, país de seu
nascimento, ainda se recuperava do traumático período pós-guerra. De repente
ele comenta:
- Apesar dos russos
terem remodelado boa parte da cidade, não posso deixar de sentir nostalgia ao
revê-la. Entretanto, eu prefiro vê-la adaptada aos moldes soviéticos do que sob
a tirania do regime nazista.
Lembrando-se de
algo, o rapaz diz:
- Concordo plenamente,
mas devo dizer que os soviéticos não são tão melhores que os nazistas. Hoje
eles possuem armas nucleares e ameaçam a democracia e a liberdade no mundo. Apesar
de não existirem mais Gulags, muita gente ainda perece nos campos de trabalhos
forçados no interior da Rússia.
Respirando fundo,
Einstein responde:
- É lamentável o
que os russos, sob a égide do marxismo-leninismo, fizeram, mas é um mal menor
se comparado aos horrores do nazismo.
Os dois chegam a
um famigerado local. Eles estavam no meio da Opernplatz, a praça onde, em 10 de
maio de 1933, os nazistas queimaram cerca de vinte mil livros de autores não arianos.
- Veja, meu
jovem. Aqui os nazistas queimaram meus livros em meio a um espetáculo de ódio e
antissemitismo.
Então Einstein observa
o local em silêncio.
Gunther se lembra
que, na ocasião, o ministro da propaganda Joseph Goebbels proclamou que o “intelectualismo
judeu estava morto”. Mais tarde, uma revista alemã incluiu o nome de Einstein na
lista dos inimigos do regime alemão com a frase “ainda não enforcado”,
oferecendo cinco mil marcos pela sua cabeça. O rapaz imagina como deve ter sido
difícil para Einstein estar vivo naquele negro período.
Repentinamente, o
físico diz:
- Prevendo a destruição
que os alemães causariam, eu, Leo Szilard e outros refugiados como Edward
Teller e Eugene Wigner aconselhamos o presidente americano Franklin Roosevelt a
investir na construção de armas nucleares. Nunca considerei essa hipótese, mas
fui persuadido por meus colegas a considera-la, afinal Hitler estaria mais do
que disposto a usa-las.
Einstein falava
da corrida armamentista pelo desenvolvimento de bombas atômicas da qual os
americanos felizmente venceram com o Manhattan Project.
Gunther pergunta:
- Hoje essa armas
também estão nas mãos dos russos, que também ameaçam o mundo com seus mísseis
balísticos e intercontinentais. O senhor crê que, para a manutenção da paz, a
posse delas sejam um mal necessário?
Evasivo, o físico
responde:
- Não posso deixar
de me sentir responsável por sua existência. De fato, eu cometi um grande erro
em minha vida quando assinei aquela carta ao presidente Roosevelt recomendando
que as bombas atômicas fossem feitas. Mas houve uma justificativa, o perigo de
que os alemães as fizessem...
Lágrimas se formam
em seus olhos. O rapaz diz:
- Tenho certeza
que, naquele momento, isso foi o melhor a ser feito.
Ressentido,
Einstein comenta:
- Por culpa do nazismo
eu me distanciei de minha postura pacifista. Mas como eu mesmo disse no Instituto
de Tecnologia da Califórnia, a ciência está mais inclinada a fazer o mal do que
o bem.
Passados alguns
minutos, os dois continuam sua caminhada. Eles então chegam
à famosa Universidade de Humboldt da qual Einstein, em 1913, foi diretor e
professor.
- Nessa
universidade eu fui eleito o diretor da Sociedade Alemã de Físicos. Isso foi em
1916... ou 1917...? Eu não me lembro mais...
Einstein sorri
enquanto fuma seu cachimbo. Gunther aproveita o momento para perguntar:
- Dr. Einstein, o
senhor acredita em Deus?
Com a estranha
pergunta, o físico se intriga.
- Por que a
pergunta, meu jovem?
- É evidente que
o senhor é um homem de ciência. Talvez o melhor de todos. Mas o senhor acredita
que o universo possa ter um criador?
Sorrindo, o
físico responde:
- Bem, eu não sou
um ateu. Se eu puder escolher, eu prefiro me chamar de agnóstico ou um profundo
descrente religioso.
Ouvindo-o, o
rapaz faz outra pergunta:
- O senhor não crê
na religião, apesar de sua respeitável origem judaica?
Meneando negativamente
a cabeça, ele responde:
- Para mim, a religião
judaica, como qualquer outra, é a encarnação das mais infantis superstições. E o
povo judeu do qual eu felizmente pertenço, e cuja mentalidade eu tenho profunda
afinidade, não tem melhor qualidade do que qualquer outro povo. Eu não consigo
ver nada “escolhido” neles.
- Também sou agnóstico, pois com tanta maldade no mundo, é difícil acreditar que um deus bom exista.
Einstein complementa:
- Acredito no Deus de Espinosa, que se revela por si mesmo na harmonia de tudo o que existe, e não no Deus que se interessa pela sorte e pelas ações dos homens.
Gunther assente. Pensando
no assunto, lhe parece que os mais célebres judeus que já existiram eram agnósticos
ou ateus. O rapaz vê isso em Karl Marx, Sigmund Freud, Isaac Asimov, Léon Trotsky
e Albert Einstein.
A noite fica mais
fria em Berlim. Estava entardecendo. Aquecendo-se, o rapaz comenta:
- Gostaria de ter
sua genialidade para resolver meus problemas, Dr. Einstein. Assim minha vida
amorosa não seria tão fria quanto essa noite.
Amigavelmente, o
físico responde:
- Ora, não fale
assim. Somos todos geniais, mas se você julgar um peixe por sua capacidade de
subir em árvores, ele passará a vida inteira acreditando ser estúpido.
O rapaz agradece
a agradável resposta.
Olhando para o seu
relógio, Einstein diz:
- Veja só que
horas são! Agora eu devo partir. Foi um prazer conhece-lo, jovem Gunther. Até a
próxima!
O físico ajeita sua
cabeleira e caminha em direção oposta na rua. Mas o rapaz o interrompe,
perguntando-o:
- Dr. Einstein,
perdoe a minha insistência, mas o que fazer quando, entre você e o amor de sua
vida, encontram-se um regime tirânico e a Revolução?
Apressado e sem
tempo para pensar, o físico apenas diz:
- O que for
preciso, meu jovem!
Então Einstein
acena, se vira e continua caminhando pela rua, até finalmente desaparecer no ar.
Gunther fica parado ali, espantado com a sinistra cena. Porém, uma tristeza inunda
seu coração. Ele está triste por brevemente ganhar e perder mais um amigo, pois
ultimamente ele só conversava com gente morta.
Lembrando-se de
Anneliese, o rapaz pergunta novamente para si mesmo:
- O que fazer...?
Ele repete a pergunta inúmeras vezes.
- O que Einstein faria...? - aventura-se ele, pensando no trabalho hercúleo que seria para apenas um homem derrubar esse regime.
Então uma reflexão surge em sua mente.
“O que foi necessário
para derrubar o império japonês e seu tirânico regime?”, reflete ele. “É isso mesmo!”,
ele se responde, estalando os dedos.
“Armas nucleares!”.

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