segunda-feira, 6 de dezembro de 2021

Sonata - 64 - Hoverdrive


(Imagem do filme O Quinto Elemento)


No distrito H, uma batalha está em andamento. Nathan e a Design Inteligente atacam a corporação Hoverdrive, responsável pela indústria automobilística de Sonata. O Submundo planejava interromper a produção de aeronaves de combate e viaturas policiais, assim comprometendo o esforço de guerra corporativo. Diferente das invasões anteriores, o ataque ocorreria de dia, iluminado por um céu cinzento de fumaça e explosões.

As máquinas ainda operavam. Como esperado, as fábricas tinham linhas de produção automatizadas. Apex esperava invadir os galpões industriais e acessar o computador principal. Ele sabotaria as máquinas e reprogramaria os operários robóticos, arregimentando-os à Rebelião.

Nathan, Laura e Apex vão juntos ao ataque. Com comunicadores, eles coordenam a invasão. A garota não confiava nos robôs, mas sabia que eles eram leais a Nathan. Apex tinha uma visão estratégica bastante razoável, mas desconsiderava o caos e o pânico provocado nos humanos.

Em comum acordo, os três definem os pontos de entrada. Nathan guiará os robôs pelo interior do edifício, Laura invadirá pelos terraços e Apex coordenará o ataque aéreo.

A polícia estava praticamente esgotada. Após tantas derrotas, seu contingente estava severamente reduzido. Nem mesmo seus mercenários, aqueles presidiários contratados para combater por eles, impunham sólida resistência. Para compensar sua defasagem, os policiais liberavam drones, canhões e Securitrons.

Avançando pelos terraços, Laura encontra várias equipes de policiais operando canhões antiaéreos. Ela não os enfrenta sozinha, mas recebe auxílio dos robôs sob seu comando. Aquelas máquinas de combate eram esplêndidas, pois atacavam com formidável coordenação; elas atiravam com extrema precisão e raramente recuavam. A garota nota que, apesar de receberem danos, elas se levantavam e seguiam em frente.

Um robô com o rosto pela metade se aproxima e diz:

- Mestre Laura, nossos sensores indicam uma rota mais viável a frente. Solicitamos permissão para segui-la.

O robô falava tranquilamente. Desconcertada, a garota sente seu estômago revirar.

- É claro. – assente ela – Vamos por este caminho.

Laura não estava costumada a correr durante o dia. A luz revela sua posição e o calor a esgota. Com o suor se escorrendo em seu corpo, ela temia que suas mãos se escorregassem no topo dos edifícios. Entretanto os robôs pulavam com extrema facilidade, apoiados por propulsores hidráulicos em suas pernas. Ela reconhece que os runners eram mais artísticos em seus movimentos, mas a eficiência dos robôs era insuperável.

O tiroteio e as bombas a confundem, a garota se atordoa com o barulho. Com os aerocarros passando rápido e zunindo em seus ouvidos, Laura é obrigada a parar um pouco. Mas os robôs não hesitam e nem se debilitam com distrações. Eles avançam impetuosamente, esmagando a resistência e eliminando os humanos. Os policiais os atingem, mas eles não param. A garota se espanta ao vê-los desmembrados e desfigurados com suas armas em mãos. Ao olhar para o chão, ela vê um robô se arrastando sem suas pernas.

- Meu Deus...! – sussurra ela.

Ao neutralizar um número considerável de canhões, Laura acende um sinalizador de fumaça azul e acena para Apex. O líder agora tinha o espaço aéreo mais livre para a invasão. Sem tempo a perder, a garota continua em seu caminho.

Avistando o terraço da Hoverdrive, ela espera uma ocupação fácil. A garota olha para baixo e vê as plataformas de entrada do prédio. A equipe de Nathan avançava pelas barricadas inimigas, acompanhado dos robôs e de uma vasta multidão.

“Eles acompanham o seu herói...”, pensa ela.

Liderando os soldados robóticos, Laura pula pelos telhados e alcança a corporação. Enquanto ela tenta acender outro sinalizador, algo imprevisto acontece. O telhado treme ao ritmo de passos. A garota olha para frente e se espanta. Dezenas de Securitrons aparecem.  Ela se estarrece com tamanha quantidade e arregala os olhos.

Imóvel diante do inimigo, ela não sabe o que fazer. Os robôs inimigos começam a girar suas metralhadoras e o medo a domina. E então os Securitrons atiram.

- Cuidado!

Um robô a empurra e então tem seu corpo destroçado pelas balas. Laura cai no chão e se arrasta para a cobertura. Ao olhar para trás, ela vê a cabeça do robô que a salvou caída no piso. Um pouco confusa, ela diz:

- Obrigado.

Então o robô sorri e seus olhos se apagam, desligando-se para sempre. Nesse momento a garota percebe que, não importa a espécie, a morte sempre será uma tragédia.

O ataque massivo dos Securitrons ameaçam a frota aérea de Apex. Eles também foram pegos de surpresa. Checando sua bolsa, Laura encontra apenas duas bombas de EMP. Elas seriam suficientes para abater apenas dois inimigos. Espiando pela cobertura, ela conta vinte.

A Design Inteligente resiste. Eles se levantam de suas coberturas e atiram contra o inimigo. O efeito do laser consegue atrasa-los, mas não muito. Os Securitrons ativam seus canhões de ombro e atiram seus mísseis. De repente uma chuva de explosões devastam o telhado, assoprando fragmentos para todos os lados. A garota põe suas mãos nos ouvidos e se encolhe, tentando salvar sua vida.

Finado o primeiro ataque, os robôs jaziam em pedaços pelo chão. Os restantes se reorganizavam e tentavam contra-atacar. Sabendo que seu esforço seria inútil, Laura ordena:

- Recuar!

Um dos robôs diz:

- Negativo, mestre Laura! Não podemos recuar neste momento.

Intrigada, ela pergunta:

- Por quê?

- Nossos sensores indicam que, considerando o avanço dos robôs e seu número, a probabilidade de você morrer na fuga é de 86%.

A garota se espanta.

- Mas se ficarmos será de 100%. Não é melhor tentarmos a sorte e fugir?

O robô olha sem expressão para ela.

- Nós não entendemos esse conceito de sorte.

- Então nós todos vamos ficar?

- Afirmativo, mestre Laura. Nós vamos ficar e protege-la até o fim.

Respirando fundo, ela desiste. Não adianta discutir com robôs. Eles estavam decididos a se sacrificar por ela se fosse preciso.

E então o ataque dos Securitrons recomeça.

Mais abaixo, as portas da corporação foram arrombadas por bombas e pontapés. Nathan liderava uma horda de manifestantes furiosos e descontrolados. Prevendo uma morte violenta, os policias abandonavam seus postos e se retraíam para dentro do edifício.

Tudo era saqueado. O que os manifestantes não conseguiam levar eles vandalizavam. Alguns policiais feridos eram linchados. Em meio a tanta violência e destruição, Nathan se sentia o Átila com os hunos.

De repente seu comunicador toca.

“Nathan? Apex? Eu preciso de ajuda!”.

Assustado, o rapaz reconhece a voz de Laura.

- Laura! Eu estou aqui! O que houve?

“Eu estou cercada no telhado. Há um exército de Securitrons aqui em cima! Os robôs se recusam a me deixar fugir e dizem que se eu partir eu serei morta!”.

- O quê?! – espanta-se ele – Onde está Apex?

“No combate aéreo. Mas ele está em perigo. Os Securitrons estão abatendo seus aerocarros no ar!”.

O rapaz se desespera, temendo pela vida da garota.

- Laura, espere! Eu estou a caminho!

Atravessando o saguão principal, Nathan alcança o elevador. Os robôs o acompanham, portando seus potentes rifles lasers. Apertando os botões, uma mensagem no painel aparece. Em pranto o rapaz percebe que os elevadores foram desligados por motivos de segurança.

Voltando-se para os robôs, ele pergunta:

- Alguns de vocês consegue hackear o dispositivo?

Um robô abre um compartimento em sua cabeça e conecta um fio no painel. Após uma breve análise, o robô diz:

- Mestre Nathan, os elevadores foram desligados no gerador. Apenas sua ativação manual é possível.

- E onde se encontra esse gerador?

- No subsolo, mas está defendido por outros sistemas de segurança.

Colocando as mãos na cabeça, o rapaz se apavora. Laura não tem muito tempo.

- O que podemos fazer então?

- Eu posso abrir as portas, mas teremos de subir o fosso pela escada.

- E quanto as escadarias comuns?

- Muito perigoso. Os policiais as embarricaram e estão espalhados por toda parte.

Sem tempo para pensar, o rapaz diz:

- Abra a porta!

Então ele e seu séquito robótico adentram o fosso.

Pelo comunicador, Nathan ouve tiros e explosões vindos do terraço. Uma forte dose de adrenalina corre em suas veias, acompanhada de uma coragem que ele nunca sentiu antes. Ele segura as barras da escada e sobe sem se cansar. Ele estava determinado a salvar Laura.

Fragmentos e poeira caiam em seu corpo. Todo o prédio tremia com as explosões. Lá embaixo, os manifestantes vandalizam o prédio; eles subiam impetuosamente pelos andares, confrontavam a polícia e roubavam tudo o que encontravam. Acima, o rapaz ouve os policiais conversando e fortificando suas defesas.

No comunicador, Nathan ouve gritos. Assustando-se, ele chama pela garota, mas ela não responde. Mais uma vez um forte impulso o domina e ele sobe incansavelmente a escada, mais rápido até que os robôs.

Um robô o alerta.

- Mestre Nathan, meus sensores detectam elevadas batidas cardíacas em seu peito. Se continuar assim, o senhor irá desmaiar.

Ignorando-o, o rapaz apenas pensa:

“Espere, Laura. Eu estou chegando”.

Mas, ao olhar para cima, ele via apenas uma imensidão vertical quase infinita.

No terraço, a garota se protege atrás de uma pilha de entulho. Os robôs lutavam bravamente, alguns sem braços e pernas, apenas auxiliando seus companheiros. Após tantos ataques com mísseis, o chão se trincava e ameaçava ceder.

De fato, a defesa de Securitrons pegou os invasores de surpresa. A frota de Apex passou fácil pelos canhões antiaéreos, mas não consiguia passar pela tropa de Securitrons.

Olhando ao redor, Laura reconhece que os robôs estavam certos. Não havia a menor chance de fugir dali. Se ela deixasse a cobertura, ela teria seu corpo estraçalhado e espalhado pelo chão.

Os aerocarros caíam em chamas pelos ares. Alguns caiam sobre os próprios Securitrons, mas não era o suficiente para destruí-los. A frota tentava arduamente combater o inimigo, mas não podia resistir ao seu formidável poder de fogo. Ela se pergunta onde estava Apex naquele momento, ou mesmo se ele estava vivo.

Enquanto se protege, Nathan tentava falar com ela no comunicador, mas o barulho constante abafava qualquer mensagem. Então Laura sorri. Ela nunca pensou que sua vida dependeria do dócil Nathan. O Submundo e as facções os desprezavam tanto que lhe dava pena. Mas, como ela mesmo aprendeu com sua mãe, o amor desconhecia a razão.

Refletindo sobre ele e os robôs, ela pensa:

“Irônico o fato de um Inimigo de Estado fraco e a mais desprezada das facções se unirem...”.

E então algo improvável acontece.

Acompanhado de seus robôs, Nathan surge no terraço atirando freneticamente com a fúria do inferno em seu olhar. Laura se espanta. Os robôs seguiam logo atrás, atirando com lança-mísseis e lança-granadas. Pegos na confusão, alguns Securitrons são abatidos irresistivelmente. A frota se alivia e se reorganiza, preparando uma nova arremetida contra o inimigo.

- Laura! Onde você está?! – exclama ele.

O rapaz olhava ao redor e via um terraço devastado cheio de entulho e fumaça. O calor era insuportável, a luz do sol e o fogo o esgotava. Mas não havia tempo a perder.

Caminhando imprudentemente pelo local, ele chama pela garota. Ainda haviam muitos Securitrons e ele podia ouvir seus pesados passos por perto. Do fundo de seus pulmões ele a chama, abaixando sua arma e bloqueando o sol com sua mão.

Laura tenta se levantar e então algo a incomoda; sua perna estava sangrando. Durante os ataques a míssil, um fragmento perfurou sua perna e se alojou sob a pele, mas a tensão era tanta que ela nem percebeu.

Resistindo a dor, ela se arrasta pela pilha de entulho e brada:

- Nathan, eu estou aqui...!

O rapaz a ouve. Caminhando pela fumaça, ela a encontra toda suja e ferida no chão. Imediatamente ele corre em sua direção. Então um Securitron surge através da fumaça e, notando o rapaz correndo ali, se prepara para atirar. Seu canhão de ombro de forma. Laura arregala os olhos e grita:

- Cuidado!   

Confuso, Nathan olha para o lado e então ocorre a explosão. Fumaça se ergue e ofusca toda a visão. Ao mesmo tempo, a frota da Design Inteligente faz um rasante e lança suas bombas, levantando uma enorme chama e eliminando grande parte dos Securitrons.

Finado aquele espetáculo horrendo, a garota se levanta e manca pelo terraço. Procurando pelo rapaz, ela vê apenas um poça de sangue fresco e empoeirado. Em pânico, ela percebe que ele foi arremessado pelo ar.

- Nathan! – chama ela.

A frota retorna, atacando novamente o prédio. Agora os Securitrons se ocupavam do ataque aéreo, esquecendo-a por enquanto. Laura tenta se apressar mas sua perna dói; seu sangue se escorre de sua coxa até o pé.

A fumaça era muito densa. Ela chama constantemente pelo rapaz, mas ouvia apenas a frota, os robôs e os Securitrons ao longe. Ela se pergunta:

“Nathan, onde é que você está...?”.

Esgotando-se, ela cai de joelhos e suspira, ofegando em exaustão. Suor se escorre por seu corpo e seu ferimento sangra. Minutos se passam. A garota luta para não desmaiar. Ainda exausta, ela teme pelo seu próprio fim.

 Então alguém se aproxima.

Através da fumaça, a silhueta de um homem se forma e ela pergunta:

- Nathan...?

Mas não era Nathan e sim Apex quem se aproximava. Com sua face simétrica e seu olhar estático, o líder pergunta:

- Laura, você está bem?

Arfando, ela responde:

- Nathan... Temos que encontrar o Nathan...

Apex não demonstra reação. Ao invés, ele apenas diz:

- Me acompanhe, por favor.

Dando-lhe a mão, o líder a ajuda a se levantar e a carrega pelo terraço.

Atravessando a fumaça, Laura encontra um grupo de robôs. Eles estão ao redor de algo sobre o chão. A garota se intriga. Abrindo-lhes passagem, ela vê um corpo coberto de sangue e poeira. Acreditando se tratar de um policial, ela observa melhor e o reconhece. É Nathan.

Laura se desvencilha e se lança ao chão. Ela chama pelo rapaz e então se horroriza. Nathan teve seus membros mutilados. Arregalando os olhos, a garota põe suas mãos na boca.

Apex diz:

- Nathan foi atingido em cheio pelos Securitrons. Infelizmente chegamos tarde e não tivemos tempo de protege-lo.

Ainda horrorizada, a garota pergunta:

- Ele está vivo?

- Por enquanto. As injeções de adrenalina estão o mantendo vivo, mas ele não durará muito.

Então lágrimas se formam e a garota chora. Ajoelhando-se sobre o rapaz, ela acaricia o seu rosto. Alguns robôs choram intensamente e outros se mantém morbidamente estáticos, mas a cena era igualmente comovente a todos.

Laura pergunta:

- Vocês podem salva-lo?

Os robôs se entreolham.

- Há uma chance. – responde Apex – Existe um método experimental para a restauração física, mas ele só foi testado em robôs.

Sem pensar duas vezes, ela diz:

- Façam.

- Laura, não é tão simples. Como eu disse, ele só foi testado em robôs. Em humanos pode haver efeitos colaterais como perda de memória, apatia, desorientação, sequelas, dissonância cognitiva, perda de coordenação motora...

Enquanto o líder lista os efeitos, a garota acaricia o rapaz e chora sobre seu rosto. Nathan sussurra intensamente, lutando para se manter vivo. Mas, apesar de seu esforço, o rapaz perdera totalmente o contato com a realidade, inconsciente das pessoas paradas ali.

Laura repete:

- Façam.

Temeroso, o líder pergunta:

- Você tem certeza?

- Absoluta.  

Satisfeito, Apex diz:

- Que assim seja.

 

§

 

Dois dias atrás, a superfície recebe uma visita inesperada. Nathan havia trazido o ilustre líder da Design Inteligente ao Submundo. Pelas câmeras, Database via um exército de robôs fortemente armados andando pelos becos escuros. Sinistramente seus olhos brilhavam na escuridão.

Alguém bate em sua porta. Dando-lhe permissão, Nathan entrava com seu convidado. Database apenas os observava em silêncio enquanto eles ousadamente invadiam seu território. Em seguida, Laura entra também. Ela e o chefe se entreolham, ela também não confiava nos robôs.

- Boa noite, Database. – cumprimenta Apex – Prazer em conhece-lo.

O chefe fuma seu charuto. Expondo seu desprezo, ele nega o mesmo prazer.

- Nathan, trazer Apex aqui nos coloca em risco diplomático com as outras facções.

- Não. – discorda ele – Não existe mais separação entre mim e esta facção. A Design Inteligente se aliou ao Inimigo de Estado. Agora eu e os robôs somos um.

Database parece corar de ódio.

- O que quer dizer?

- A Design Inteligente me salvou da demolição da Cybersys, demolição esta que você causou estando eu ainda lá dentro. – acusa ele, com rancor em sua voz – Mas felizmente os robôs me salvaram.

Considerando que os robôs não se importem com quem vive ou quem morre, o chefe pergunta:

- Por quê?

- Por gratidão. Eu os levei ao cofre de seu deus, assim cumprindo a minha parte no acordo. E então eu fiz outro acordo com Deus Ex Machina. Em troca da servidão da Design Inteligente... – hesita ele, prevendo um ataque de fúria de Database – Eu a libertei de sua prisão.

Conforme esperado, o chefe esmurra sua mesa fazendo a própria madeira se afundar.

- Você o quê?! – enfurece-se ele – Nathan, você libertou um supercomputador perigoso em troca da servidão destes patéticos robôs?! Você se esqueceu que o Projeto Gemini e o Protótipo #8 são criações diretas do Deus Ex Machina?!

- Stella. – interrompe Apex.

- O quê?

- O supercomputador se chama Stella agora.

Sacando sua arma, ele a aponta para o líder. Imediatamente os robôs reagem, apontando seus fuzis para ele.

- Você cale a sua boca, sua máquina maldita! Vocês nunca serão benvindos aqui!

- Então por que você os cria? – pergunta Laura.

O chefe se intriga. Ele não esperava que ela intervisse.

- Do que você está falando, Lótus?

- Eu entrei em seu laboratório. Você criava um robô diferente, um sintético avançado e sobre-humano. Como ele se chamava mesmo? Protótipo #9?

Desmascarado, ele tenta ganhar tempo.

- Ora, será que não posso ter um pouco de privacidade em minhas pesquisas?

- Como a privacidade que você tirou de mim ao instalar câmeras em meu quarto? – pergunta Nathan.

Database é pego mais uma vez.

- Aquilo era só uma medida de segurança.

- Mentira. – objeta ele – Você esconde suas intenções de todos, mas todos são constantemente vigiados por você. Você nos usa e nos manipula, assim como as dezenas de runners mortos em seus serviços.

- Então é isso? – surpreende-se ele – Vocês planejaram um complô contra mim?

Nathan e Laura riem. Apex, porém, se mantém sério.

- Já existe uma rebelião e ela está ocorrendo lá em cima. Mas você não fará dela seu tabuleiro e tampouco seremos os seus peões. Temos coisas mais importantes para fazer primeiro. – responde Nathan

Database se sente ameaçado.

- Vai tomar o meu lugar?

- É claro que não, mas o Submundo teve uma queda irrecuperável de contingente. Perdemos praticamente todos os runners. Por isso, eu e os robôs vamos substitui-los na Rebelião.

- Está cometendo um grande erro. Os robôs não servem a você, eles servem àquele maldito supercomputador... – então ele se corrige – Stella... Que os robôs chamam pateticamente de deus. Eles estão te enganando!

- Enganando? – interrompe Apex – O que pensa que somos? Humanos?

- De qualquer forma, a Rebelião deve continuar. – continua Nathan – Nós já temos nosso próximo alvo. A corporação Hoverdrive.

Ao ouvi-los, Database entende tudo. Nathan e a Design Inteligente pretendem interromper e produção de aerocarros.

- Como pretende fazer isso?

- Os robôs aliados à Design Inteligente informaram que existe um mainframe que controla os operários robóticos lá dentro. Se Apex conseguir sabota-lo, cessaremos a produção e traremos mais robôs para a Rebelião. Entretanto, eles só conseguirão diminuir as defesas do prédio durante o dia. Eis a nossa chance.

Database assente.

- E quando você deverá partir?

- Imediatamente.

O chefe ri.

- Você arriscará sua vida ao lado de máquinas sem consciência e emoção? – sorri ele – Saiba que você não terá nenhum runner para te proteger desta vez, rapaz. Boa sorte.

Laura intervém novamente.

- Ele terá a mim.

Surpreendendo-se, ele pergunta:

- Não acredito que você irá acompanha-lo com esses robôs...!

- Já está decidido. – responde ela.

Maliciosamente o chefe pergunta:

- Você também não confia neles, não é?

A garota não responde, ao invés ela se vira e vai embora. Apex e os robôs se retiram também. Antes que Nathan pudesse sair, o chefe o interrompe, dizendo:

- Parece que você cresceu em poder e influência, Nathan. Mas lembre-se de uma coisa: em um jogo de pôquer, não são apenas as boas cartas que te garantem a vitória. – explica ele – Também vence quem tiver o maior blefe.

Então o rapaz percebe. Apesar de combalido, Database ainda é poderoso.

Em silêncio, ele se vira e finalmente vai embora.

 

 


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