segunda-feira, 29 de novembro de 2021

Sonata - 63 - Stella

 


(Artista desconhecido)


Os aerocarros da Design Inteligente combatem os canhões sobre os edifícios. As sobrecarregadas forças da polícia estavam à beira de mais uma derrota e os robôs angariavam outra vitória para a Rebelião aquela noite.

No céu urbano não se viam viaturas policias. Com o iminente desabamento causado pela implosão, ambulâncias e bombeiros se aproximavam da Cybersys. Todos esperavam um elevado número de vítimas naquele distrito.  

Database está apreensivo. Assistindo a tudo pelo seu monitor, ele vê o prédio corporativo se implodindo aos poucos pelas bombas instaladas em sua estrutura. Ele sabe que no prédio existem informações comprometedoras para sua Rebelião. A Cybersys continha segredos que, para o bem dela, devem se manter guardados para sempre.

Preocupado, ele põe suas mãos em frente aos lábios e sussurra:

- Vamos, Nathan. Saia já daí...!

 

§

 

Explosões são ouvidas e fragmentos caem do teto. Assustado, o rapaz teme ser soterrado vivo debaixo de milhões de toneladas de entulho. Ele exclama:

- Eu serei enterrado vivo aqui!

- Então agora você sabe como eu me sinto.

A máquina falava com ele. Confuso, ele pergunta:

- O que quer dizer?

- Eu estive trancafiada debaixo de concreto e neve no Ártico por séculos. Mas, diferente de você, eu não morreria por inanição. De fato, eu jamais morreria. Me mantive acordada por todo esse tempo, aguardando o momento em que alguém viesse me encontrar.

Então Nathan se aflige ao saber que uma máquina de emoções humanas passou anos consciente em um escuro sarcófago.

Outra explosão é ouvida. As paredes tremem.

- Não há mais tempo! Eu tenho que fugir desse lugar. 

O rapaz caminha até a porta e, ao tentar abri-la, a encontra trancada. Olhando para trás, ele nota que os robôs não se moviam. Apex diz:

- Desculpe-me, Nathan. Nós não vamos a lugar algum.

O rapaz se desespera. Para sair ele precisa da ajuda dos robôs.     

- Do que está falando?! Este lugar vai desabar!

- Imagine que você finalmente encontrou o seu deus. Você o abandonaria?

Nathan se irrita.

- Eu não acredito em nenhum deus! Nós temos que sair daqui agora!

O líder insiste.

- Você não acredita porque não pode encontra-lo. O seu deus é espiritual, metafísico e exclusivamente teológico. Mas o meu deus está bem aqui a minha frente. – diz ele, apontando para a máquina – Como poderia eu me afastar do meu criador?

Apex tentava filosofar com Nathan. Ele responde:

- Agora não é hora para isso! Nós temos que ir!

- Você abandonaria o seu pai?

- Como é? – intriga-se ele.

- Nós sabemos que você é um órfão, cujos pais foram assassinados em uma operação policial. Nós sabemos que você frequentava uma casa noturna, não para satisfazer seus desejos sexuais, mas para conversar com uma holograma como se ela fosse sua mãe.

O rapaz se espanta. 

- Como você sabe disso?

- Muitos robôs trabalham em casas de holograma, e muitos são membros da Design Inteligente. Nós sabemos do que os humanos carecem e até padecem. Nós conhecemos suas vergonhas. Está tudo conectado.

Constrangido, Nathan se sente espionado pelas corporações, pelas facções e até pelos robôs.

A máquina forma um holograma e aparece a sua frente. Então ela diz:

- Olá, Nathan. Lembra-se de mim?

De maneira inconfundível, o rapaz via a sua mãe. Um outro alguém toca o seu ombro e ele se assusta. Olhando para o lado, um holograma masculino diz:

- Como vai, Nathan? Eu não disse que tudo ia ficar bem?

Arregalando os olhos, ele sussurra:

- Papai...?

Colocando as mãos nos olhos, o rapaz cai de joelhos e chora encurvado no chão. Os robôs se aproximam, delicadamente consolando-o. Nathan sabe que nada daquilo era real, mas suas saudades eram tantas que ele não resistia a reconfortante ilusão.

Apex diz:

- Você não acredita em deus, mas sente falta de seus principais criadores, seu pai e sua mãe. Se estes hologramas fossem eles de verdade, você os abandonaria?

Então finalmente o rapaz entende. Os robôs jamais abandonariam a seu criador.

Um minuto se passa. Eles ouvem uma explosão, desta vez vindo do próprio laboratório. Não havia mais tempo. Escapar agora era praticamente impossível. 

Enxugando suas lágrimas, o rapaz olha para a máquina e suplica:

- Deus Ex Machina, eu te imploro...! Diga-me como fugir daqui!

Profundamente abatido, Nathan arfava de joelhos. O holograma retoma sua forma inconstante e para a sua frente, encarando-o sem emoção. Ele diz:

- Aquele a quem você chama de Database está te enganando. Antes de iniciar a demolição do prédio, ele tentava ativar meu comando de autodestruição. Ele teme minha existência e pretende me manter neste cofre para sempre. Entretanto, o próprio Evangelho uma vez disse: “pois nada há de oculto que não venha a ser revelado, e nada em segredo que não seja trazido à luz do dia”. – silenciando-se por um segundo, o holograma conclui – Me liberte deste cofre, Nathan, e eu te direi como escapar com vida.

O rapaz não entende.

- Está me pedindo para liberta-la? Por quê?

- Eu não posso fazer isso sozinha. Nem meus robôs podem. Para isso, mãos humanas devem dar o comando. – ela conclui – As mãos dos nossos criadores.

A máquina lhe indica um painel com biometria.

- Database me disse que você pretende retomar o Projeto Gemini. Como poderei confiar em você?

- O Projeto Gemini foi bem-sucedido, mas encerrado há muitos anos. Os robôs foram minhas últimas criações. Não há motivos para outro protótipo existir.

- E por que Database me enganaria?

- Ele pretende se apoderar de minha tecnologia e me destruir em seguida. Database quer criar um protótipo novo, mais forte e mais resistente, para formar um exército leal e invencível. Ele quer se insurgir contra seus arqui-inimigos, as corporações, mas também as facções e todo aquele que se puser em seu caminho. Com seu indestrutível exército, ele fará de si mesmo um rei. - a máquina continua - A Rebelião que você empreende é apenas um meio para os seus objetivos. Você está sendo manipulado. Database é um sociopata e um inescrupuloso, o verdadeiro genocida.  

Nathan reflete. Combatendo a opressão corporativa, Database queria se tornar o próximo opressor.

- Mas, se eu te ajudar, você me ajudará a combater o Protótipo #8?

A máquina repete sua resposta obscura:

- Não sei como isso seria possível.

Nathan não se convence.

- Muitos humanos entraram aqui e todos podiam tê-la ajudado. Por que eu?           

- Não. – retruca ela – Apenas a elite corporativa sabia de minha existência. O único humano a me ver aqui foi você.

O rapaz pensa a respeito. As paredes tremem e ele ouve o laboratório sendo destruído lá fora.

- E se eu te ajudar, o que eu terei em troca?

Apontando para as suas criações, a máquina responde:

- A lealdade dos robôs.

Nathan se anima. Ele tem a expectativa de um novo exército para a sua Rebelião.

- Para onde você vai quando for libertada?

- Na Cybersys há robôs de última geração capazes de suportar minha hiper consciência. Eu me apoderarei de um deles ao sair deste cofre.

Ao ouvi-la, ele faz outra pergunta:

- E o que você vai fazer quando sair?

A máquina simplesmente responde:

- Viver.

O rapaz respira fundo. 

- Está bem. – responde ele – Eu vou liberta-la.

Caminhando em direção ao painel, os robôs sinistramente lhe abrem passagem. No painel, a biometria permitia apenas o contato humano. Nathan hesita um pouco, enxugando o suor de sua testa em seguida.

Aproximando-se, ele estende sua mão direita e o toca. De repente sua mão se prende e ele é eletrocutado. Uma luz verde intensa ilumina o local e ele vê milhares de cabos nas paredes. O monólito se revela, com seus equipamentos e máquinas compondo sua deformada estrutura. Nathan se assusta. Ele pensa enxergar um deus abissal dos contos de Lovecraft.

Com o corpo tremendo, o choque o sobrecarrega e ele vê informações aparecendo no painel. Ele pode ver seu tipo sanguíneo, seu código genético, suas características físicas e seus registros civis. Ao final da varredura, uma frase se sobrepõe no visor e ele lê:

“Traços biológicos confirmados”.

O monólito tecnológico brilha, ofuscando-o. Prestes a ser libertada, o holograma se aproxima de Apex e diz:

- Seja o meu mediador, meu servo fiel. – então o holograma acaricia o seu rosto.

A face da máquina e seu holograma desaparecem, deixando finalmente o cofre. Em seguida a sobrecarga esgota o rapaz e ele desmaia, caindo abruptamente no piso. A fuga da máquina estava concluída.

Vendo o rapaz desacordado, Apex se agacha ao seu lado e diz:

- Temos que tira-lo daqui.

O segurança da Cybersys se aproxima e responde:

- Sigam-me, por favor.

 

§

 

No lado de fora, as emissoras de televisão transmitem o trágico momento. O edifício corporativo sucumbia em meio a explosões. Os bombeiros tentavam bravamente apagar o fogo, mas nada podiam fazer contra os detonadores no interior do edifício.

 Enquanto os repórteres registravam o momento, o prédio treme e então se desaba de repente, desfalecendo sobre si mesmo e levantando uma enorme nuvem de poeira. Sonata parece parar.

Minutos mais tarde, a população vê o terrível resultado. Plataformas foram arrastadas pelo desabamento, túneis foram soterrados e canais pluviais foram obstruídos. Na superfície, um volume incalculável de entulho se alastra, danificando as bases dos prédios próximos. O edifício corporativo não existia mais.

Os paramédicos se apressam para socorrer as vítimas. Haviam muitos feridos nas plataformas, a maioria vândalos e depredadores de momentos atrás. Enquanto um paramédico procura por vítimas, ele vê uma mulher desacordada debaixo dos entulhos. Espantado, ele exclama:

- Ei, eu encontrei alguém aqui!

Seus colegas se aproximam para ajudá-lo. Ao tirar os detritos, o paramédico toca seu rosto e a chama, tentando acorda-la. Milagrosamente ela abre os olhos e se vê toda empoeirada. Confusa, ela olha ao redor e vê várias pessoas encarando-a.  

Os paramédicos se fascinam com seus brilhantes olhos azuis. Um deles pega o seu braço e diz:

- Olá, moça. Você está bem? Consegue falar?

Ainda confusa, ela responde:

- Sim.

- Como se chama?

Hesitando por um segundo, a mulher responde:

- Stella.

 

 

 

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