(Artista desconhecido)
Os aerocarros da
Design Inteligente combatem os canhões sobre os edifícios. As sobrecarregadas
forças da polícia estavam à beira de mais uma derrota e os robôs angariavam
outra vitória para a Rebelião aquela noite.
No céu urbano não
se viam viaturas policias. Com o iminente desabamento causado pela
implosão, ambulâncias e bombeiros se aproximavam da Cybersys.
Todos esperavam um elevado número de vítimas naquele distrito.
Database está
apreensivo. Assistindo a tudo pelo seu monitor, ele vê o prédio corporativo se
implodindo aos poucos pelas bombas instaladas em sua estrutura. Ele sabe que no
prédio existem informações comprometedoras para sua Rebelião. A Cybersys continha
segredos que, para o bem dela, devem se manter guardados para sempre.
Preocupado, ele
põe suas mãos em frente aos lábios e sussurra:
- Vamos, Nathan.
Saia já daí...!
§
Explosões são
ouvidas e fragmentos caem do teto. Assustado, o rapaz teme ser soterrado vivo
debaixo de milhões de toneladas de entulho. Ele exclama:
- Eu serei
enterrado vivo aqui!
- Então agora
você sabe como eu me sinto.
A máquina falava
com ele. Confuso, ele pergunta:
- O que quer
dizer?
- Eu estive
trancafiada debaixo de concreto e neve no Ártico por séculos. Mas, diferente de você, eu
não morreria por inanição. De fato, eu jamais morreria. Me mantive acordada por
todo esse tempo, aguardando o momento em que alguém viesse me encontrar.
Então Nathan se
aflige ao saber que uma máquina de emoções humanas passou anos consciente em um
escuro sarcófago.
Outra explosão é
ouvida. As paredes tremem.
- Não há mais
tempo! Eu tenho que fugir desse lugar.
O rapaz caminha
até a porta e, ao tentar abri-la, a encontra trancada. Olhando para trás, ele nota que os robôs não se moviam. Apex diz:
- Desculpe-me,
Nathan. Nós não vamos a lugar algum.
O rapaz se
desespera. Para sair ele precisa da
ajuda dos robôs.
- Do que está
falando?! Este lugar vai desabar!
- Imagine que
você finalmente encontrou o seu deus. Você o abandonaria?
Nathan se irrita.
- Eu não acredito
em nenhum deus! Nós temos que sair daqui agora!
O líder insiste.
- Você não
acredita porque não pode encontra-lo. O seu deus é espiritual, metafísico e
exclusivamente teológico. Mas o meu deus está bem aqui a minha frente. – diz ele, apontando para a máquina – Como poderia eu me afastar do meu criador?
Apex tentava
filosofar com Nathan. Ele responde:
- Agora não é
hora para isso! Nós temos que ir!
- Você
abandonaria o seu pai?
- Como é? –
intriga-se ele.
- Nós sabemos que
você é um órfão, cujos pais foram assassinados em uma operação policial. Nós sabemos que
você frequentava uma casa noturna, não para satisfazer seus desejos sexuais, mas
para conversar com uma holograma como se ela fosse sua mãe.
O rapaz se
espanta.
- Como você sabe
disso?
- Muitos robôs
trabalham em casas de holograma, e muitos são membros da Design Inteligente. Nós
sabemos do que os humanos carecem e até padecem. Nós conhecemos suas vergonhas.
Está tudo conectado.
Constrangido,
Nathan se sente espionado pelas corporações, pelas facções e até pelos robôs.
A máquina forma um holograma e aparece a sua frente. Então ela diz:
- Olá, Nathan.
Lembra-se de mim?
De maneira
inconfundível, o rapaz via a sua mãe. Um outro alguém toca o seu ombro e ele se assusta. Olhando para o lado,
um holograma masculino diz:
- Como vai, Nathan? Eu
não disse que tudo ia ficar bem?
Arregalando os
olhos, ele sussurra:
- Papai...?
Colocando as mãos
nos olhos, o rapaz cai de joelhos e chora encurvado no chão. Os robôs se
aproximam, delicadamente consolando-o. Nathan sabe que nada daquilo era real, mas
suas saudades eram tantas que ele não resistia a reconfortante ilusão.
Apex diz:
- Você não
acredita em deus, mas sente falta de seus principais criadores, seu pai e sua
mãe. Se estes hologramas fossem eles de verdade, você os abandonaria?
Então finalmente
o rapaz entende. Os robôs jamais abandonariam a seu criador.
Um minuto se
passa. Eles ouvem uma explosão, desta vez vindo do próprio laboratório. Não
havia mais tempo. Escapar agora era praticamente impossível.
Enxugando suas
lágrimas, o rapaz olha para a máquina e suplica:
- Deus Ex
Machina, eu te imploro...! Diga-me como fugir daqui!
Profundamente
abatido, Nathan arfava de joelhos. O holograma retoma sua forma inconstante e
para a sua frente, encarando-o sem emoção. Ele diz:
- Aquele a quem
você chama de Database está te enganando. Antes de iniciar a demolição do prédio, ele tentava
ativar meu comando de autodestruição. Ele teme minha existência e pretende me
manter neste cofre para sempre. Entretanto, o próprio Evangelho uma vez disse:
“pois nada há de oculto que não venha a ser revelado, e nada em segredo que não
seja trazido à luz do dia”. – silenciando-se por um segundo, o holograma
conclui – Me liberte deste cofre, Nathan, e eu te direi como escapar com
vida.
O rapaz não
entende.
- Está me pedindo
para liberta-la? Por quê?
- Eu não posso
fazer isso sozinha. Nem meus robôs podem. Para isso, mãos humanas devem dar o
comando. – ela conclui – As mãos dos nossos criadores.
A máquina lhe
indica um painel com biometria.
- Database me
disse que você pretende retomar o Projeto Gemini. Como poderei confiar em você?
- O Projeto
Gemini foi bem-sucedido, mas encerrado há muitos anos. Os robôs foram minhas
últimas criações. Não há motivos para outro protótipo existir.
- E por que
Database me enganaria?
- Ele pretende se
apoderar de minha tecnologia e me destruir em seguida. Database quer criar um
protótipo novo, mais forte e mais resistente, para formar um exército leal e
invencível. Ele quer se insurgir contra seus arqui-inimigos, as corporações,
mas também as facções e todo aquele que se puser em seu caminho. Com seu indestrutível exército, ele fará de si mesmo um rei. - a máquina continua - A Rebelião que você
empreende é apenas um meio para os seus objetivos. Você está sendo manipulado.
Database é um sociopata e um inescrupuloso, o verdadeiro genocida.
Nathan reflete.
Combatendo a opressão corporativa, Database queria se tornar o próximo
opressor.
- Mas, se eu te
ajudar, você me ajudará a combater o Protótipo #8?
A máquina repete sua resposta obscura:
- Não sei como
isso seria possível.
Nathan não se convence.
- Muitos humanos
entraram aqui e todos podiam tê-la ajudado. Por que eu?
- Não. – retruca
ela – Apenas a elite corporativa sabia de minha existência. O único humano a me
ver aqui foi você.
O rapaz pensa a
respeito. As paredes tremem e ele ouve o laboratório sendo destruído lá fora.
- E se eu te
ajudar, o que eu terei em troca?
Apontando para as
suas criações, a máquina responde:
- A lealdade dos
robôs.
Nathan se anima.
Ele tem a expectativa de um novo exército para a sua Rebelião.
- Para onde você vai quando for libertada?
- Na Cybersys há robôs de última geração capazes de suportar minha hiper consciência. Eu me apoderarei de um deles ao sair deste cofre.
Ao ouvi-la, ele faz outra pergunta:
- E o que você vai fazer quando sair?
A máquina simplesmente responde:
- Viver.
O rapaz respira fundo.
- Está bem. –
responde ele – Eu vou liberta-la.
Caminhando em
direção ao painel, os robôs sinistramente lhe abrem passagem. No painel, a
biometria permitia apenas o contato humano. Nathan hesita um pouco,
enxugando o suor de sua testa em seguida.
Aproximando-se, ele estende sua mão direita e o toca. De repente sua mão se prende e ele é eletrocutado. Uma luz verde intensa ilumina o local e ele vê milhares de cabos nas paredes. O monólito se revela, com seus equipamentos e máquinas compondo sua deformada estrutura. Nathan se assusta. Ele pensa enxergar um deus abissal dos contos de Lovecraft.
Com o corpo
tremendo, o choque o sobrecarrega e ele vê informações aparecendo no painel. Ele
pode ver seu tipo sanguíneo, seu código genético, suas características físicas e seus registros civis. Ao final da varredura, uma frase se sobrepõe no visor e ele
lê:
“Traços biológicos
confirmados”.
O monólito tecnológico
brilha, ofuscando-o. Prestes a ser libertada, o holograma se aproxima de Apex e
diz:
- Seja o meu mediador, meu servo fiel. – então o holograma acaricia o seu rosto.
A face da máquina e seu holograma desaparecem, deixando finalmente o cofre. Em seguida a sobrecarga esgota o rapaz e ele desmaia, caindo
abruptamente no piso. A fuga da máquina estava concluída.
Vendo o rapaz
desacordado, Apex se agacha ao seu lado e diz:
- Temos que
tira-lo daqui.
O segurança da
Cybersys se aproxima e responde:
- Sigam-me, por
favor.
§
No lado de fora,
as emissoras de televisão transmitem o trágico momento. O edifício corporativo
sucumbia em meio a explosões. Os bombeiros tentavam bravamente apagar o fogo,
mas nada podiam fazer contra os detonadores no interior do edifício.
Enquanto os repórteres registravam o momento,
o prédio treme e então se desaba de repente, desfalecendo sobre si
mesmo e levantando uma enorme nuvem de poeira. Sonata parece parar.
Minutos mais
tarde, a população vê o terrível resultado. Plataformas foram arrastadas pelo
desabamento, túneis foram soterrados e canais pluviais foram obstruídos. Na superfície,
um volume incalculável de entulho se alastra, danificando as bases dos prédios próximos. O
edifício corporativo não existia mais.
Os paramédicos se apressam para socorrer as vítimas. Haviam muitos feridos nas plataformas,
a maioria vândalos e depredadores de momentos atrás. Enquanto um paramédico procura
por vítimas, ele vê uma mulher desacordada debaixo dos entulhos. Espantado, ele
exclama:
- Ei, eu
encontrei alguém aqui!
Seus colegas se
aproximam para ajudá-lo. Ao tirar os detritos, o paramédico toca seu rosto e a
chama, tentando acorda-la. Milagrosamente ela abre os olhos e se vê toda
empoeirada. Confusa, ela olha ao redor e vê várias pessoas encarando-a.
Os paramédicos se fascinam com seus brilhantes olhos azuis. Um deles pega
o seu braço e diz:
- Olá, moça. Você
está bem? Consegue falar?
Ainda confusa,
ela responde:
- Sim.
- Como se chama?
Hesitando por um segundo,
a mulher responde:
- Stella.
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