segunda-feira, 8 de novembro de 2021

Sonata - 60 - Massacre e Música Eletrônica

 


(Arte do RPG Gurps Cyberpunk)


Em seu escritório no Mystique, Database observa Nathan pelas câmeras. Por ordem do chefe, o Submundo está completamente deserto e desprotegido. Database espera um ataque surpresa, uma invasão iminente ao seu bunker subversivo, e ele usa a Nathan como isca em seu perigoso plano.

Um segurança se aproxima e pergunta:

- Senhor, você tem certeza disso? É seguro deixar o Inimigo de Estado totalmente sozinho?

O chefe fuma seu charuto e responde:

- Por que a preocupação? Você se esqueceu que ele tem sete vidas?

Ele se referia às inúmeras vezes em que Nathan escapou com vida de situações onde a morte era quase certa.

Alguns minutos se passam. Observando os monitores, as câmeras não detectam atividade anormal, mas Database está atento. Trabalhando com os melhores hackers, ele sabe que, mesmo com os melhores softwares, qualquer sistema de segurança pode ser desarmado.

Então o que ele esperava acontece.

Os alarmes são ativados no Submundo. Alguém sabotou os dutos de ventilação, colocando gases tóxicos pela rede. Nathan foge pelos corredores e deixa o local. Agora nos becos, ele tenta alcançar a rua quando vê uma pilha de lixo obstruindo a saída. O rapaz parece se desesperar.

Database ordenara que seus seguranças embarricassem a saída. Sorrindo satisfeito, o chefe sussurra:

- Isso mesmo, coelhinho. Morra de medo...!

Ao reiniciar o sistema de segurança, ele olha para os monitores e se espanta. Havia viaturas e centenas de policiais fortemente armados na superfície.

Diferente do que pensou, aquela não seria uma invasão silenciosa para assassinar Nathan, mas um ataque coordenado e aberto, pronto para reduzir a superfície às cinzas.

- É uma invasão! – exclama ele.

De repente o prédio treme com uma explosão. A fachada do Mystique havia sido pulverizada por um ataque a bomba.

Sob o ensurdecedor alarme, Database se recupera do susto. Tiros são ouvidos lá embaixo, os invasores já estavam nas ruas.

Enquanto organiza suas defesas, o chefe entende o ocorrido. Nathan era só uma distração, não o objetivo principal. A inteligência policial não procurava abater o Inimigo de Estado, mas aniquilar todo o aparato subversivo da Rebelião. Se Nathan fosse o único objetivo, ele já teria sido morto em sua fuga pelos becos.

“E por falar nisso, onde está ele agora?”, pergunta-se ele.

 

§

 

Laura volta ao seu apartamento. Seu pai está ausente mas, pelo cheiro de álcool no ar, ela já desconfia de seu paradeiro.

“Ele está bebendo em algum beco por aí...”, lamenta-se ela.

De repente ela ouve um estrondo. Pela janela, ela vê uma enorme labareda se elevar sobre os prédios. Ela reconhece o local, o fogo vinha da casa noturna Mystique. Preocupada, ela se dirige para lá.

Subindo as escadas de incêndio, ela pula por sobre os prédios. Laura olha para cima e vê viaturas policiais sobrevoando os fossos escuros.

“Mas como os policiais chegaram aqui e ninguém viu?!”, intriga-se ela.

Aproximando-se do Mystique, ela se distrai correndo sobre um terraço e então alguém diz:

- Parada!

Ela se assusta e olha para trás, um policial lhe apontava uma arma. Ela se paralisa e pensa no que fazer. Então o policial se aproxima, intentando revista-la. Grande erro. 

Laura o desarma e golpeia seu rosto com o cotovelo, fazendo-o cambalear. Finalmente ela lhe dá uma joelhada no queixo e ele desmaia, caindo aos seus pés.

Em seguida mais policiais aparecem e se surpreendem com seu colega desacordado no chão. Eles olham para seu agressor e veem uma garota, uma bela runner de cabelos dourados.

Antes que os policiais pudessem fazer algo, ela avança sobre eles e inicia uma violenta luta corporal. Eles tentam reagir, mas ela é muito rápida, desviando-se de seus cassetetes com tremenda agilidade.

A garota é uma runner de grande experiência. Ela recebeu interminável ensinamento em seu treinamento. Seus mestres a ensinaram exatamente como desarmar seus oponentes e onde golpeá-los para o máximo de dano. De fato, ela recebeu aulas de um deturpado Krav Magá, uma versão mais suja e dedicada aos marginais e trapaceiros da superfície.

Ao liquida-los um a um, os policiais caem desmaiados. Ela olha para seus oponentes no chão e, respirando fundo, se alegra. Ela já estava se acostumando a se sentir uma super-heroína.   

- Mãos para cima!

A alegria dura pouco. Ao olhar para o lado, ela vê mais policiais apontando suas armas para ela. Tateando seu coldre, ela não encontra sua metralhadora e se repreende. Ela a havia deixado em seu apartamento.

- Eu disse mãos para cima! – ordena o policial.

Sem opção, ela finalmente ergue suas mãos.

Um policial, presumivelmente o tenente, se aproxima. Desta vez Laura não pensa em reagir. Qualquer movimento e eles a matariam.

Olhando-a da cabeça aos pés, o tenente sorri e pergunta:

- Que belo estrago você fez aqui, hein garota?

- Dane-se.

Os policiais riem.

- Ora, além de bonita você é valentona? – sorri ele – Nós temos algumas perguntas para fazer.

Alguém no grupo humoradamente diz:

- Pergunta se ela é solteira!

Os policiais riem para si mesmo. Todos estavam animados com a captura da belíssima runner.

- Pensando melhor, acho que primeiro vamos nos divertir um pouco.

Então alguém atrás deles diz:

- Perdoem-me, senhores. – então eles se entreolham, assustados – Mas a garota tem namorado.

Os policiais olham para trás e veem um homem de jaqueta marrom com um fuzil de assalto em suas mãos.

Antes que pudessem esboçar uma reação, o homem aperta o gatilho e fuzila os policiais. Eles caem baleados no chão, pegos totalmente desprevenidos pelas costas. Finado o confronto, o homem troca o pente de sua arma.

Ele se aproxima da luz e a garota o reconhece.

- Maynard!

O mercenário sorri.

- Olá, Laura. Fiquei sabendo que você está namorando? – pergunta ele, calmamente.

Viaturas os sobrevoam, preparando-se para o ataque. A garota diz:

- Maynard, a superfície está sofrendo uma invasão!

Tiros são ouvidos lá embaixo. Esgueirando-se no parapeito, ela vê policiais executando os civis. As pessoas correm desesperadamente pelas ruas, tentando fugir e sendo baleadas nas costas. A garota se espanta.

- Eles estão matando inocentes! São pelotões de fuzilamento!

- Sim, sim... – responde Maynard – E vocês também ficam mais bonitos, não?

Laura se confunde.

- O quê?!

- Vocês, jovens quando amam. Quando namoram, vocês ficam mais bonitos e mais alegres... – complementa ele, ressaltando o rosto.

A garota se irrita.

- Inocentes estão morrendo e você não se importa?

Abanando suas roupas, o mercenário responde:

- É claro que me importo. Tremendo desperdício de munição.

- Maynard! Isso é assassinato!

- Pensei que você já estivesse se acostumado às cenas de guerra. Aliás... – pergunta ele – Inocentes aqui? 

Laura entende a ironia.

Uma mulher grita lá embaixo. Sobre o parapeito, a garota vê uma mulher caída no chão. Então um policial lhe aponta uma arma e atira em sua cabeça, executando-a. Sangue se escorre pelo piso e o assassino vai embora tranquilamente.

 Laura olha para Maynard e pergunta:

- Você tem uma arma?

O mercenário lhe faz um olhar entediado.

- É óbvio que eu tenho uma arma. – responde ele.

Ele lhe dá uma pistola automática. A garota checa as balas e diz:

- Certo. Agora eu devo partir. Eu trabalho melhor sozinha.

Mas, ao virar-se para trás, o mercenário já havia desaparecido. Ele realmente conhecia cada um de seus contatos na superfície, incluindo suas personalidades. Balançando a cabeça, a garota sussurra:

- Maldito sociopata...

E então ela pula pelos terraços e se dirige ao Mystique.

 

§

 

Nathan está tão ferido que mal consegue se levantar. Olhando ao redor, ele vê os escuros telhados da superfície. Ninguém ficou para ajuda-lo, na verdade, ninguém se lembrou dele. Ele se entristece.

Ao dar um passo, sua perna dói, fazendo-o cair. Haviam ossos trincados por todo o seu corpo. Ele mal se lembra da última vez que tomou uma surra.

“Talvez na adolescência...”, pensa ele.

Mas, apesar da última briga, ele nunca foi linchado como dessa vez. Lembrando-se das pancadas e dos pontapés, lágrimas se escorrem de seus olhos.

“O que minha mãe pensaria agora se me visse pisoteado como um saco de lixo?”, lamenta-se ele.

Arrastando-se pelas escadas, ele se lembra que sempre defendeu a paz. Mas, infelizmente, nem sempre era possível ser pacífico na vida.

“Viver é conviver com os animais inteligentes e violentos, os seres humanos”, pensa ele.

Com a Rebelião, ele conheceu os piores tipos de animais racionais.

“As facções”, reconhece ele. “O que essas pessoas são capazes de fazer em seu fanatismo?”.

Mas, talvez, ele estivesse exagerando. Sonata não era um lugar comum, mas uma jaula superlotada habitada com todo o tipo de gente com as mais diferentes cosmovisões.

“O que é normal e aceitável para mim pode não ser para você”, reflete ele.

As facções lutavam por um ideal. Pessoas como Nathan eram passivas, covardes e fracas, sujeitando-se à ordem opressiva das corporações e não fazendo nada para mudar.

“Pelo menos as facções faziam alguma coisa”, pensa ele. “E eu? O que eu fazia?”.

Nathan se martiriza por dentro. Apesar de seus pais terem morrido pelas mãos das próprias corporações, o rapaz ainda se sujeitara a elas.

Chegando nos becos, o rapaz se arrasta pelos sacos de lixo. Tiros são ouvidos nas ruas, mas ele estava longe do perigo. Ao chegar no Submundo, com muito esforço ele toca o identificador digital e o suja de sangue. As portas se abrem e ele se arrasta pelas escadas.

O Submundo estava deserto como anteriormente. Nathan não compreende.

“Como puderam evacua-lo na iminência do ataque de um especialista?”.

Ele se convence de que os runners partiram para combater a invasão lá fora. 

Abrindo a porta de seu quarto, ele sobe em sua cama e, com muito cuidado, se deita. Suas roupas estavam sujas, suas feridas sangravam e seu corpo doía. A Rebelião sofria um revés lá fora, mas ele não se importava. Naquele momento, um Inimigo de Estado ferido e inapto para o combate apenas os atrapalhariam.

Com tantas dores, lágrimas se escorrem de seus olhos, mas ele tenta não chorar. Laura não ia gostar de ver a principal figura da Rebelião choramingando por causa de uma simples surra.

“Laura não tomaria uma surra, ela daria uma!”, pensa ele, sorrindo.

Respirando fundo, ele põe a mão em seus olhos e pensa:

“Só espero que ela esteja bem”.

 

§

 

“Laura, está me ouvindo?”.

O comunicador no bolso da runner piscava.

- Database, eu estou aqui.

“Qual é a sua situação?”.

Espiando por uma janela, ela vê policiais alinhando civis em uma parede e fuzilando-os. Ao pegar outros, eles repetem o ato.

- Os policiais estão cometendo um massacre.

“Não são policiais, são mercenários pagos, assassinos condenados das prisões”.

Database investigou o contingente policial e descobriu que as corporações estão arregimentando novos “profissionais” para defende-las.

- Por falar em mercenário, eu vi Maynard agora há pouco.

“Não se preocupe com ele. Preciso que você coordene a defesa dos runners. Eu vou lidera-los à distância”.

- Liderar à distância? – intriga-se ela – Database, onde é que você está?

“Onde você acha?”.

Laura vê a fachada do clube destruída. Estranhamente ela ouve o som alto de música eletrônica vindo de seu interior. Ela diz:

- Chefe, estou ouvindo música vinda do Mystique.

"Deve ser um mal funcionamento. Apresse-se, Laura. Temos mais o que fazer".

- Ok. O que você quer que eu faça?

Vociferando de ódio, o chefe responde:

“Quero que você os faça sangrar!”.

A garota sorri.

- Pode ser mais específico?

Então Database lhe dá as instruções do contra-ataque.

“E Laura, tome cuidado”.

Ela sorri novamente.

- Que bonitinho. – responde ela, sarcasticamente. O chefe não se importava com ninguém além de si mesmo.

Minutos mais tarde, os runners se posicionam sobre os terraços próximos. A garota caminha com mais dez runners sobre o telhado do Mystique. Olhando para a rua, ela vê os policiais se aproximando. Então ela diz:

- Atacar!

Os runners atiram contra a polícia. Muitos são baleados e abatidos, mas outros conseguem escapar. Aerocarros os sobrevoam e atiram nos runners. Vendo a ameaça, Laura contata os operadores de drones e diz:

- Liberem os drones!

As pequenas aeronaves sobrevoam o campo de batalha e atiram nas viaturas. Elas têm grande vantagem sobre a polícia, pois são pequenas e leves, fáceis de se manobrar nos estreitos espaços entre os prédios. Entretanto, os drones são frágeis e não carregam muita munição, tornando-os suscetíveis a pequenas rajadas de metralhadoras.

A chuva de aço cai sobre eles. Runners e policiais têm de se proteger dos aerocarros em chamas e dos fragmentos de drones em toda parte.

Abaixo, a garota vê civis correndo desesperados pelos becos e sendo baleados em seguida. Pilhas de cadáveres se acumulam pelas ruas. Aqueles mercenários vieram na intenção de limpar a superfície, exterminando quem encontrassem pelo caminho. Vendo aquilo, Laura testemunhava um massacre.

Dos becos escuros, pares de olhos vermelhos se aproximam. Os policiais recuam, esvaziando repentinamente as ruas. Entreolhando-se, os runners desconfiam da súbita mudança de estratégia dos inimigos. Então algo acontece.

Securitrons aparecem, avançando sobre os entulhos e os cadáveres empilhados. A garota arregala os olhos.

“Laura, o que está havendo? Por que os tiroteios cessaram?”.

- Database, eles trouxeram Securitrons! Preciso de armamento pesado agora!

Virando seus canhões para os prédios, os robôs disparam mísseis e explodem os terraços, eliminando os grupos de runners posicionados próximos ao Mystique. Vendo seus companheiros caindo sem vida lá embaixo, a garota ordena:

- Recuar!

Laura e seu grupo fogem. Um segundo depois o telhado se explode, erguendo uma labareda infernal. Eles se salvam por um triz.

Descendo para dentro do Mystique, ela contata seu chefe e diz:

- Database, perdemos nossas defesas externas! Precisamos preparar as defesas dentro do clube!

“Vocês perderam...?!”, espanta-se ele, sabendo que seus runners haviam morrido. “Certo. Enviarei os seguranças da casa”.

A garota e os runners rapidamente se posicionam no mezanino sobre a pista de dança. Os seguranças aparecem portando potentes fuzis e, em seguida, se posicionam no bar.

“Laura, responda!”.

- O que foi, chefe?

“O que houve lá fora?”.

- Securitrons apareceram. Os runners não tiveram a mínima chance.

Ponderando, Database responde:

“Ouça-me. Em meu laboratório há uma saída de emergência. É uma rota de fuga secreta que os leva para longe do Mystique. Eu não gostaria que abandonassem meu clube, tenho dados sensíveis que, se revelados, comprometeriam a Rebelião... Mas, se precisarem, eu deixarei a porta destrancada para vocês”.

A garota se lembra que seu laboratório era uma área restrita que poucos privilegiados tinham acesso. Laura era um deles.

- Eu me lembrarei disso. Desligo.

Os Securitrons disparam seus mísseis e fulminam a entrada do Mystique, arrasando o pouco que sobrou de sua fachada. Se as portas de aço não aguentarem, todo o prédio se desabará antes.

Enquanto está atenta ao ataque inimigo, alguém toca o seu ombro e a assusta. Virando-se rápida como um relâmpago, ela aponta seu fuzil para o rosto de quem a tocou.

- Maynard...?! – exclama ela – Como entrou aqui?

Dando de ombros, ele responde:

- Esqueci de tomar minha bebida.

- O quê?!

O mercenário calmamente desce as escadas. Laura nota que ele carrega uma bolsa em suas costas. Chegando ao bar, ele deixa a bolsa no chão, ao lado da parede.

- Isso aqui vai estragar o dia de alguém... – diz ele, sorrindo.    

Em seguida ele pega um copo, abre uma garrafa de uísque e o bebe, apreciando-o a cada gole. Os runners e os seguranças ficam atônitos vendo aquele homem agir tão tranquilamente em meio a uma invasão.

Um minuto depois, as portas de aço cedem, escancarando a entrada. Os Securitrons invadem o Mystique. Desesperada, a garota ordena:

- Atacar!

Os runners e os seguranças atiram, mas nada podem fazer contra a blindagem das máquinas. Um Securitron atira contra o mezanino e o explode. Laura vê dois runners voarem pelos ares.

- Laura!

A garota olha para baixo e Maynard a joga um lança-granadas. Olhando para a munição, ela vê EMPs.

Levantando-se, ela atira nos robôs e uma poderosa onda de choque azul se levanta. Sob o efeito das bombas, os robôs são desabilitados, mas não por muito tempo.

- Database, onde está o armamento pesado?

“Eu os realoquei por Sonata. Pretendia usa-los na Rebelião”.    

Laura se enfurece.

- Você e sua maldita obsessão, não é?!

Enquanto os robôs se recuperam, os batalhões de policiais invadem o clube. Eles atiram para todos os lados e jogam granadas. Alguns seguranças são atingidos e caem sobre o balcão de bebidas. A garota percebe que não resistirá ao ataque.

De repente Maynard se levanta e, portando duas metralhadoras, atira contra os invasores. Ele inacreditavelmente caminha em sua direção, atirando e alvejando-os. Os policiais atiram de volta, mas suas balas são bloqueadas por uma barreira Kinect ao redor do mercenário.

Esgotada as balas, Maynard se agacha atrás de outro balcão. Enquanto recarrega suas armas, os policiais atiram, estourando os copos e as garrafas na prateleira acima dele. Sobre o mezanino, Laura olha para baixo e tem a impressão de vê-lo rir.

Tirando o pino de uma granada, o mercenário a lança contra os policiais e se protege. A explosão os lança pelos ares, arruinando a colorida pista de dança.

No mezanino, a garota atira nos policiais, distraindo-os. O mercenário tem tempo de se mover e atirar de outra posição, confundindo-os. Realizando um ataque coordenado, Laura e Maynard revidam, cobrindo um ao outro.

O mercenário atira no globo de luz e ele cai no meio da pista. Os policiais se assustam, fazendo Maynard gargalhar.

Os Securitrons se recuperam do pulso eletromagnético. Mais policiais entram no clube. O capitão olha para seus subordinados e ordena:

- Alguém desligue essa maldita música!

Vendo que os invasores se concentravam no clube, Laura olha para seus companheiros. Os runners estavam feridos e sem munição. Os seguranças foram eliminados nos bares abaixo. Apenas ela e um punhado de runners sobraram. Tristemente ela reconhece que aquela era uma batalha perdida. Respirando fundo, ela forçosamente ordena:

- Temos que repelir a invasão! Defendam o Mystique!

- Não! – grita alguém.

Os runners olham intrigados para Maynard.

- O que disse?

- Database tem uma saída de emergência no laboratório, não é? Sigam para lá. Eu te dou cobertura.

A garota objeta.

- O Mystique tem dados essenciais para a Rebelião. Database vai precisar deles depois.

- Se perdermos os runners, não haverá mais Rebelião.

Olhando ao redor, ela responde:

- Não sobrou muito.

- Sobrou a mais importante. Você. – afirma ele – Agora vá. Não há tempo a perder.

Laura pensa em desobedece-lo, mas, ao olhar para os runners, ela vê que são apenas garotos cansados e assustados, arrastados para uma guerra provocada pelo próprio Database. A garota não era nenhuma inocente, mas sabe que seu chefe se utilizava da marginalidade da superfície para usa-los em seus interesses egoístas.

- Ok. – acata ela – Nos dê cobertura.

Maynard lança granadas contra os invasores. A garota se abaixa e segue para o porão onde o laboratório se encontra. Passando pela porta, elas e os runners atravessam o vasto salão onde Database realiza seus bizarros experimentos. Uma runner olha para um tanque criogênico e pergunta:

- Ei, o que é isso?!

Laura olha para o tanque e vê um androide idêntico a um ser humano. Cabos e tubos se conectam ao seu corpo. Em uma plaqueta abaixo, ela lê: “Protótipo #9”.   

“#9...?!”, intriga-se ela. “Mas não foi o #8 que causou toda essa confusão?”.

Ao observa-lo melhor, ela se espanta. Aquele androide era o mesmo feto encapsulado que ela trouxe a Database meses atrás.

“Como ele cresceu tão rápido...?”, pergunta-se ela.

- Encontrei a saída! – interrompe um runner.

Uma porta oculta se abre e eles veem um extenso corredor. Eles atravessam a entrada e a garota aperta um botão na parede. Um runner intervém.

- Laura, e quanto a Maynard?

Pressionando o botão, ela friamente responde:

- Ele sabe se virar.

Então a porta se fecha e eles vão embora.

 

§

 

Acima, os policiais avançam e encontram o clube vazio e abandonado. Eles venceram a batalha; eles tomaram o Mystique.

Um policial caminha pelo bar e vê algo atrás do balcão. Aproximando-se, ele identifica um bolsa sob a poeira e os cacos de vidro. Abanando a sujeira, ele diz:

- Capitão, eu encontrei algo aqui!

Os policiais se dirigem ao bar e abrem a bolsa. O capitão vê luzes piscando intermitentemente e se intriga.

- O que é isso? – pergunta-se ele.

Então, ao serem manipuladas, as luzes emitem um agudo apito. O capitão se empalidece e, fazendo um tique em seu lábio, abaixa sua arma.

De repente a potente explosão destrói a casa noturna Mystique, alastrando a violência de sua força por toda a superfície.

 

 

 

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