(Artista desconhecido)
Ao abrirem o
porta-malas do aerocarro, Burton se ofusca com a claridade. Seus braços e
pernas estão amarrados e ele não pode se mexer. Maynard então diz:
- Levante-se,
Burton. Você vem conosco.
Ao sair do
porta-malas, o policial vê mais três pessoas. Database, Nathan e Laura estão lá,
olhando para ele.
- Database?
Fiquei me perguntando quando nos encontraríamos finalmente.
O chefe o ironiza:
- Pretendia me
levar preso?
- Oh, não... –
responde Burton, sorrindo – Pretendia leva-lo em um caixão.
Então Maynard
desamarra suas pernas e o escolta por uma plataforma ao ar livre. Burton se vê
em um local afastado, longe da superfície e dos prédios. Ele se vê em um
distrito não desenvolvido, livre de megatorres e com um vasto terreno abaixo
deles. Ao longe, a metrópole brilhava timidamente, iluminada por suas luzes de
emergência nas vias públicas.
A estreita
plataforma se aproxima do fim. Sob o luar, o policial sente o vento soprar
através de suas roupas. Vendo a magnífica metrópole mergulhada na decadência,
ele se lamenta.
Maynard o lança
no chão. Olhando para trás, Burton se vê à beira do precipício. Mais um passo e
seria o seu fim. Respirando fundo, ele se lamenta por dentro.
Burton ouve uma
arma se destravando. Olhando para frente, ele vê Maynard lhe apontando uma
arma. Instintivamente ele comenta:
- Ora, vejam só.
Uma pistola semiautomática calibre .50, pente de 10 balas, com acionador a gás
e parafuso giratório... Você realmente sabe escolher seu armamento, mercenário.
Estou impressionado.
Database se
aproxima e, segurando a mão de Maynard, intervém dizendo:
- Deixe-o,
Maynard. Eu resolverei isso.
O policial o
provoca.
- Você vai
resolver? Que surpresa! Pois você sempre colocou os moleques da superfície para
limpar sua sujeira, enviando-os para a morte enquanto você se acovardava atrás
de sua mesa...
Nathan pensa que
o chefe ia ficar calado, mas ele o responde, dizendo:
- Eu não os
obriguei a aceitar os trabalhos. Eles foram porque quiseram e foram pagos para
isso. Aliás, eu não estou atrás de minha mesa agora.
- Ah, mas de
certa forma você os obrigou, sim! – retruca Burton – Veja esses marginais e
vagabundos da superfície. Que futuro eles têm? Se alguém como você, que explora
a miséria alheia, não oferecer-lhes dinheiro para que eles roubem e matem por
sua causa, que perspectiva de vida eles terão?
Refletindo, Laura
ouve apenas verdades. Database era sim um explorador da miséria alheia, um
bandido que corrompia e cooptava a juventude.
Database
responde:
- O meu trabalho
era empregar aqueles garotos. E o seu qual era? Caça-los e extermina-los em
suas operações policiais. Como te chamavam mesmo? Detetive Burton, o “caçador
de terroristas”?
Devido a sua eficiência
em caçar os subversivos, o policial havia ganhado esse famoso título.
Refletindo um
pouco, Burton responde:
- Me parece que
está tentando nos equiparar, Database. Nos tornar lados opostos da mesma moeda,
como irmãos que se reencontram em lados opostos da guerra. Muito poético, devo
dizer. Entretanto, eu me orgulho do lado onde me encontro. Eu combatia o crime.
Você o promovia.
Franzindo a
testa, Database pergunta:
- Combatia? Você
não combatia nada, você defendia as corporações. Eu libertava as pessoas dessa
ordem abusiva e de pessoas como você.
Burton gargalha,
ironizando-o.
Database dirigia
uma rede de tráfico de drogas, de espionagem, de sabotagem, de contrabando, de
extorsão, de assassinos de aluguel, de prostituição, de aliciação de menores e
tinha envolvimento com o terrorismo. Ele era tudo, exceto um libertador.
Então eles ouvem
uma explosão ao longe. Em algum lugar da metrópole, os rebeldes vandalizavam as
instalações corporativas.
O policial
comenta:
- Você deve estar
muito orgulhoso, não é, Inimigo de Estado? Toda essa decadência e destruição
são responsabilidade sua.
Apesar de
provoca-lo, Burton parecia se lamentar.
- Não seja
cínico! Você, mais do que eu, sabe que as corporações são as responsáveis. Eu
sou inocente!
Então Database
lhe acena com a mão, pedindo-o para se calar.
- E você, garota.
– diz ele, olhando para Laura – Filha da famosa Ultra, tão mortal e feroz
quanto. Se deixando usar por esse monstro do Database... Não precisei
investigar muito para perceber que você não é como sua mãe. Você tem um coração
bom, embora imatura e obcecada de vez em quando...
A garota se ira.
- Não ouse falar
da minha mãe!
- Ah, mas eu
falarei! – sorri ele – Eu não tenho mais nada a perder. Ultra era uma mulher
psicopata e sanguinária, porém, livre como uma águia. Ela jamais se submeteria a
alguém como Database. Eu duvidaria que alguém que causou tantas mortes pudesse
gerar uma vida. Então você nasceu. Fico feliz que, apesar de tanta tristeza e
miséria em sua vida, você possa ter encontrado o amor. – e então ele olha para
Nathan.
Laura ia
responder algo, mas o chefe a interrompe também.
Vendo o controle
que Database detinha sobre os dois, Burton comenta:
- Olhe para você,
Database. Uma figura paterna para esses órfãos da superfície. Embora Nathan
seja dos níveis superiores e Laura, bem... – hesita ele – Eu não sei se poderia
chamar aquilo de pai...
Então a garota
avança contra o policial e Maynard é obrigado a segura-la.
- E então,
Database? O que vai ser? – pergunta Burton enquanto o mercenário afasta a
runner para longe – O que decidiu o “prefeito” da superfície?
Nathan se indigna.
Database não era nenhum prefeito. Como o policial disse, o chefe era um parasita,
um câncer que explorava os miseráveis com drogas, ameaças,
chantagens e intimidações.
- Você matou meus
runners e destruiu o meu clube. Você sabe o que vai ser.
Controlando o
medo, Burton diz:
- Eu sei quem você
é, ou melhor, era antes de se tornar o infame Database. Quão irônico o fato das
corporações terem te tornado um assassino... Assumir um codinome jamais mudará
isso.
Pela primeira vez
o chefe sente medo.
- Cale-se! Não
importa o que fale, você vai morrer agora.
Então o policial vocifera,
dizendo.
- Então nos vemos
no inferno, seu criminoso filho da...
Database aperta o
gatilho. A bala atravessa a testa de Burton e ele cai de costas na plataforma.
Vendo que ele finalmente se silenciara, o chefe diz:
- Isso é pelo
Vertigo.
Nathan se
aproxima e diz.
- Database,
Vertigo nos usou e nos traiu. Se houver um inferno, creio que Burton se
encontrará com ele lá embaixo.
Com olhar frio, o
chefe responde:
- Acho que nós
todos nos encontraremos...
Laura se
desvencilha e se aproxima. Em um ataque de fúria, ela pisoteia e cospe no cadáver.
E então ela diz:
- Isso é pelos
runners, canalha!
Maynard se agacha
e, agarrando-o pelas roupas, o atira da plataforma. Burton cai no precipício lá
embaixo, desaparecendo na escuridão.
Database
pergunta:
- O que
acontecerá agora?
- Deixe que os
abutres encontrem o corpo. – responde ele, referindo-se aos policiais.
Então o chefe
aponta a arma para Maynard, fazendo-o se assustar. Em seguida ele a gira em sua mão, devolvendo-a.
- Tome. Isso aqui
é seu.
O mercenário se
acalma e a pega de volta.
Estava tudo
acabado.
§
Voltando ao
Submundo, o grupo fala sobre o ocorrido. O ataque policial havia devastado a
superfície. O Mystique estava destruído e as ruas estavam cobertas de sangue.
Em sua invasão, a polícia havia cometido um massacre.
Nathan comenta:
- Se Maynard não tivesse
aparecido, eu certamente teria morrido. – diz ele, referindo-se ao
espancamento.
- E por falar
nisso, o que estava fazendo na superfície, Maynard?
Encostado na parede, o mercenário responde:
- Minhas fontes
me disseram que a polícia planejara um ataque aqui embaixo. Vim para protege-los.
O chefe deixa
escapar um sorriso.
- Proteger-nos? –
ironiza ele – De que fontes está falando? Por que realmente desceu aqui?
- Não me é
interessante que a Rebelião acabe. Estou apostando em vocês.
- Mas você depende
das corporações para sobreviver. As facções te pagam para fazer o inferno lá em
cima.
- É verdade. Mas
quem serão meus clientes se ocorrer o Projeto Gemini? – e então ele olha para
Nathan.
O chefe olha para
a garota e pergunta:
- Você concorda
com isso, Laura? Maynard os protegeu?
De braços cruzados, ela responde:
- O mercenário
foi vital para repelirmos o ataque inimigo. Se não fosse por ele, nós todos teríamos
morrido.
Database pondera.
Tanto a runner quanto o Inimigo de Estado reconhecem sua ajuda. Ele responde:
- De qualquer
forma, eu agradeço sua ajuda, Maynard. Obrigado.
Na verdade
Database o detesta, mas sabe que seria muito arriscado tentar mata-lo. Maynard era
um inferno ambulante.
- Não se
preocupe. – responde ele – Eu voltarei para cobrar o favor. Até breve.
E então ele abre
a porta e deixa o Submundo.
Aproveitando sua
saída, Database olha para a garota e pergunta:
- Laura, e quanto
aos runners, qual é a situação?
- Mortos. –
responde ela – A maioria morreu tentando defender o Mystique.
A garota se
controla, fingindo não se importar. O chefe olha para o rapaz e pergunta:
- E você, Nathan?
Você está bem para continuarmos a Rebelião?
Segurando suas
feridas, ele responde:
- Se não fosse
pelos analgésicos de Maynard, eu não sobreviveria.
Database apoia
seu queixo e faz um olhar preocupado. Ele sabe que se demonstrar fraqueza, as facções
não mais o respeitarão. Ele precisava criar uma ilusão, uma cortina de fumaça
para camuflar o estado deplorável da superfície.
“Não posso perder
tempo, eu devo agir rápido!”, pensa ele.
- Eu pensarei
algo em breve. – responde ele, ocultando suas intenções.
Então o rapaz
diz:
- Chefe, eu não quero
parecer pessimista, mas a superfície não conseguirá se levantar após esse
ataque. Houve muitas baixas, muitos inocentes morreram. Temo que a Rebelião
tenha chegado ao fim.
Irritado,
Database bate em sua mesa e se levanta, vociferando como um leão.
- A Rebelião vai
acabar quando o Submundo disser que acabou, está me ouvindo? Até lá, eu direi o
que fazer, fui claro?
- Mas Database...
- Eu disse fui
claro?
Então o rapaz se
cala e desiste de argumentar. Dando-lhe as costas, o casal passa pela porta e o
deixa sozinho.
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