domingo, 14 de novembro de 2021

Sonata - 61 - O Preço do Fracasso

 


(Artista desconhecido)


Ao abrirem o porta-malas do aerocarro, Burton se ofusca com a claridade. Seus braços e pernas estão amarrados e ele não pode se mexer. Maynard então diz:

- Levante-se, Burton. Você vem conosco.

Ao sair do porta-malas, o policial vê mais três pessoas. Database, Nathan e Laura estão lá, olhando para ele.

- Database? Fiquei me perguntando quando nos encontraríamos finalmente.

O chefe o ironiza:

- Pretendia me levar preso?

- Oh, não... – responde Burton, sorrindo – Pretendia leva-lo em um caixão.

Então Maynard desamarra suas pernas e o escolta por uma plataforma ao ar livre. Burton se vê em um local afastado, longe da superfície e dos prédios. Ele se vê em um distrito não desenvolvido, livre de megatorres e com um vasto terreno abaixo deles. Ao longe, a metrópole brilhava timidamente, iluminada por suas luzes de emergência nas vias públicas.

A estreita plataforma se aproxima do fim. Sob o luar, o policial sente o vento soprar através de suas roupas. Vendo a magnífica metrópole mergulhada na decadência, ele se lamenta.

Maynard o lança no chão. Olhando para trás, Burton se vê à beira do precipício. Mais um passo e seria o seu fim. Respirando fundo, ele se lamenta por dentro.

Burton ouve uma arma se destravando. Olhando para frente, ele vê Maynard lhe apontando uma arma. Instintivamente ele comenta:

- Ora, vejam só. Uma pistola semiautomática calibre .50, pente de 10 balas, com acionador a gás e parafuso giratório... Você realmente sabe escolher seu armamento, mercenário. Estou impressionado.

Database se aproxima e, segurando a mão de Maynard, intervém dizendo:

- Deixe-o, Maynard. Eu resolverei isso.

O policial o provoca.

- Você vai resolver? Que surpresa! Pois você sempre colocou os moleques da superfície para limpar sua sujeira, enviando-os para a morte enquanto você se acovardava atrás de sua mesa...

Nathan pensa que o chefe ia ficar calado, mas ele o responde, dizendo:

- Eu não os obriguei a aceitar os trabalhos. Eles foram porque quiseram e foram pagos para isso. Aliás, eu não estou atrás de minha mesa agora.

- Ah, mas de certa forma você os obrigou, sim! – retruca Burton – Veja esses marginais e vagabundos da superfície. Que futuro eles têm? Se alguém como você, que explora a miséria alheia, não oferecer-lhes dinheiro para que eles roubem e matem por sua causa, que perspectiva de vida eles terão?

Refletindo, Laura ouve apenas verdades. Database era sim um explorador da miséria alheia, um bandido que corrompia e cooptava a juventude.

Database responde:

- O meu trabalho era empregar aqueles garotos. E o seu qual era? Caça-los e extermina-los em suas operações policiais. Como te chamavam mesmo? Detetive Burton, o “caçador de terroristas”?

Devido a sua eficiência em caçar os subversivos, o policial havia ganhado esse famoso título.

Refletindo um pouco, Burton responde:

- Me parece que está tentando nos equiparar, Database. Nos tornar lados opostos da mesma moeda, como irmãos que se reencontram em lados opostos da guerra. Muito poético, devo dizer. Entretanto, eu me orgulho do lado onde me encontro. Eu combatia o crime. Você o promovia.

Franzindo a testa, Database pergunta:

- Combatia? Você não combatia nada, você defendia as corporações. Eu libertava as pessoas dessa ordem abusiva e de pessoas como você.

Burton gargalha, ironizando-o.

Database dirigia uma rede de tráfico de drogas, de espionagem, de sabotagem, de contrabando, de extorsão, de assassinos de aluguel, de prostituição, de aliciação de menores e tinha envolvimento com o terrorismo. Ele era tudo, exceto um libertador.

Então eles ouvem uma explosão ao longe. Em algum lugar da metrópole, os rebeldes vandalizavam as instalações corporativas.

O policial comenta:

- Você deve estar muito orgulhoso, não é, Inimigo de Estado? Toda essa decadência e destruição são responsabilidade sua.

Apesar de provoca-lo, Burton parecia se lamentar.

- Não seja cínico! Você, mais do que eu, sabe que as corporações são as responsáveis. Eu sou inocente!

Então Database lhe acena com a mão, pedindo-o para se calar.

- E você, garota. – diz ele, olhando para Laura – Filha da famosa Ultra, tão mortal e feroz quanto. Se deixando usar por esse monstro do Database... Não precisei investigar muito para perceber que você não é como sua mãe. Você tem um coração bom, embora imatura e obcecada de vez em quando...

A garota se ira.

- Não ouse falar da minha mãe!

- Ah, mas eu falarei! – sorri ele – Eu não tenho mais nada a perder. Ultra era uma mulher psicopata e sanguinária, porém, livre como uma águia. Ela jamais se submeteria a alguém como Database. Eu duvidaria que alguém que causou tantas mortes pudesse gerar uma vida. Então você nasceu. Fico feliz que, apesar de tanta tristeza e miséria em sua vida, você possa ter encontrado o amor. – e então ele olha para Nathan.

Laura ia responder algo, mas o chefe a interrompe também.

Vendo o controle que Database detinha sobre os dois, Burton comenta:

- Olhe para você, Database. Uma figura paterna para esses órfãos da superfície. Embora Nathan seja dos níveis superiores e Laura, bem... – hesita ele – Eu não sei se poderia chamar aquilo de pai...

Então a garota avança contra o policial e Maynard é obrigado a segura-la.

- E então, Database? O que vai ser? – pergunta Burton enquanto o mercenário afasta a runner para longe – O que decidiu o “prefeito” da superfície?

Nathan se indigna. Database não era nenhum prefeito. Como o policial disse, o chefe era um parasita, um câncer que explorava os miseráveis com drogas, ameaças, chantagens e intimidações.  

- Você matou meus runners e destruiu o meu clube. Você sabe o que vai ser.

Controlando o medo, Burton diz:

- Eu sei quem você é, ou melhor, era antes de se tornar o infame Database. Quão irônico o fato das corporações terem te tornado um assassino... Assumir um codinome jamais mudará isso.

Pela primeira vez o chefe sente medo.

- Cale-se! Não importa o que fale, você vai morrer agora.

Então o policial vocifera, dizendo.

- Então nos vemos no inferno, seu criminoso filho da...

Database aperta o gatilho. A bala atravessa a testa de Burton e ele cai de costas na plataforma. Vendo que ele finalmente se silenciara, o chefe diz:

- Isso é pelo Vertigo.  

Nathan se aproxima e diz.

- Database, Vertigo nos usou e nos traiu. Se houver um inferno, creio que Burton se encontrará com ele lá embaixo.

Com olhar frio, o chefe responde:

- Acho que nós todos nos encontraremos...

Laura se desvencilha e se aproxima. Em um ataque de fúria, ela pisoteia e cospe no cadáver. E então ela diz:

- Isso é pelos runners, canalha!

Maynard se agacha e, agarrando-o pelas roupas, o atira da plataforma. Burton cai no precipício lá embaixo, desaparecendo na escuridão.

Database pergunta:

- O que acontecerá agora?

- Deixe que os abutres encontrem o corpo. – responde ele, referindo-se aos policiais.

Então o chefe aponta a arma para Maynard, fazendo-o se assustar. Em seguida ele a gira em sua mão, devolvendo-a.

- Tome. Isso aqui é seu.

O mercenário se acalma e a pega de volta.

Estava tudo acabado.

 

§

 

Voltando ao Submundo, o grupo fala sobre o ocorrido. O ataque policial havia devastado a superfície. O Mystique estava destruído e as ruas estavam cobertas de sangue. Em sua invasão, a polícia havia cometido um massacre.

Nathan comenta:

- Se Maynard não tivesse aparecido, eu certamente teria morrido. – diz ele, referindo-se ao espancamento.  

- E por falar nisso, o que estava fazendo na superfície, Maynard?

Encostado na parede, o mercenário responde:

- Minhas fontes me disseram que a polícia planejara um ataque aqui embaixo. Vim para protege-los.

O chefe deixa escapar um sorriso.

- Proteger-nos? – ironiza ele – De que fontes está falando? Por que realmente desceu aqui?

- Não me é interessante que a Rebelião acabe. Estou apostando em vocês.

- Mas você depende das corporações para sobreviver. As facções te pagam para fazer o inferno lá em cima.

- É verdade. Mas quem serão meus clientes se ocorrer o Projeto Gemini? – e então ele olha para Nathan.

O chefe olha para a garota e pergunta:

- Você concorda com isso, Laura? Maynard os protegeu?

De braços cruzados, ela responde:

- O mercenário foi vital para repelirmos o ataque inimigo. Se não fosse por ele, nós todos teríamos morrido.

Database pondera. Tanto a runner quanto o Inimigo de Estado reconhecem sua ajuda. Ele responde:

- De qualquer forma, eu agradeço sua ajuda, Maynard. Obrigado.

Na verdade Database o detesta, mas sabe que seria muito arriscado tentar mata-lo. Maynard era um inferno ambulante.

- Não se preocupe. – responde ele – Eu voltarei para cobrar o favor. Até breve.

E então ele abre a porta e deixa o Submundo.

Aproveitando sua saída, Database olha para a garota e pergunta:

- Laura, e quanto aos runners, qual é a situação?

- Mortos. – responde ela – A maioria morreu tentando defender o Mystique.

A garota se controla, fingindo não se importar. O chefe olha para o rapaz e pergunta:

- E você, Nathan? Você está bem para continuarmos a Rebelião?

Segurando suas feridas, ele responde:

- Se não fosse pelos analgésicos de Maynard, eu não sobreviveria.

Database apoia seu queixo e faz um olhar preocupado. Ele sabe que se demonstrar fraqueza, as facções não mais o respeitarão. Ele precisava criar uma ilusão, uma cortina de fumaça para camuflar o estado deplorável da superfície.

“Não posso perder tempo, eu devo agir rápido!”, pensa ele.

- Eu pensarei algo em breve. – responde ele, ocultando suas intenções.

Então o rapaz diz:

- Chefe, eu não quero parecer pessimista, mas a superfície não conseguirá se levantar após esse ataque. Houve muitas baixas, muitos inocentes morreram. Temo que a Rebelião tenha chegado ao fim.

Irritado, Database bate em sua mesa e se levanta, vociferando como um leão.  

- A Rebelião vai acabar quando o Submundo disser que acabou, está me ouvindo? Até lá, eu direi o que fazer, fui claro?

- Mas Database...

- Eu disse fui claro?

Então o rapaz se cala e desiste de argumentar. Dando-lhe as costas, o casal passa pela porta e o deixa sozinho.

 

 

 

 

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