terça-feira, 25 de janeiro de 2022

Sonata - 72 - Vendetta

 


(Imagem do game Cyberpunk 2077)


As aeronaves da Bushido bombardeiam os canhões antiaéreos pelo distrito. Drones americanos voam pelo céu. O ribombar das bombas é constante; toda a Cúpula Corporativa tremia com aquele confronto. Apesar de menos intensa, a batalha prosseguia.

Acordando lentamente, um paladino olha ao redor e vê seus companheiros mortos pelo chão. Todos eles foram asfixiados por envenenamento a gás. Ao se levantar, ele vê a praça tomada por esparsas nuvens de gás preto. Em um delírio religioso, ele se ajoelha e ora por sua alma, acreditando ter sido lançada no inferno. Então ele ouve um gemido.

Arrastando-se pelos corpos, ele encontra o carrinho tombado de John August. O paladino se aproxima e encontra o profeta ferido, mas consciente. Apavorado, ele rasga suas roupas e estanca o sangramento de seu líder.

- Vossa Santidade, o senhor está bem?!

O profeta respira fundo e tosse um pouco. Haviam manchas negras em sua pele pálida. Ele responde:

- Não se preocupe. Eu não morro.

Vendo os ferimentos em seu corpo, o paladino se intriga.

- Como?

Ele altivamente conclui:

- Deus não permite.

A obscura facção de indigentes atravessou suas defesas e subiu pelo edifício. Em lamentos, John August vê sua congregação derrotada e sem vida. Mas nem todos estavam mortos.

Outros paladinos se levantam entre os cadáveres. O terrível veneno não os asfixiou totalmente, alguns conseguiram resistir ao ataque. Vendo seu líder parado ali, os sobreviventes correm ao seu socorro e se ajoelham. Beijando sua mão, eles clamam:

- Salve-nos, Santidade!

O profeta aceita a reverência.

- Acalmem-se, meus filhos. Primeiro vamos cuidar de nossos feridos, e então nos vingaremos daqueles que se atentaram contra o Senhor nosso Deus.

Mas tal vingança jamais aconteceria.

Ouvindo passos entre a fumaça, os clérigos se alertam. A fumaça se dissipa e eles veem centenas de facciosos sobre os montes de entulho. Em terror eles os reconhecem. Era a Frente Ateísta.

Com semblante sério, Dawkins encara o profeta John August. O profeta estava caído ali, indefeso como um porco no matadouro. O clérigo se desespera; ele sabe o que os ateístas querem: a total aniquilação de sua falsa religião.

Dawkins está convicto. Ele jamais tolerará o veneno da fé. Para ele, a superstição é a expressão máxima do retrocesso e da ignorância. O líder crê que a religião aprisiona a sociedade com o medo. Como disse Darwin, “o homem, em sua arrogância, pensa de si mesmo como uma grande obra, merecedora da intervenção de uma divindade”. Mas para Dawkins, não existe uma divindade. E, logo, nem mais os fideístas.

Apontando suas armas, os ateístas abrem fogo. Com o mesmo medo do inferno que ele próprio tentava imputar, John August exclama:

- Protejam-me! Vocês serão recompensados no Paraíso!

Os clérigos mal podiam se levantar, o veneno esgotara seus organismos. Antes mesmo de revidarem, ele são atingidos pelo ataque ateísta. Os tiros atravessam seus corpos, matando os poucos que sobraram da facção. As freiras empunham suas armas mas, estando muito fracas, se desabam contaminadas pelo veneno.

John August corre. Suas longas roupas o atrapalham e ele se cansa devido a sua idade avançada. Apesar de suas limitações, ele luta para salvar a sua vida.

Alguns ateístas zombam dele:

- Clame ao seu deus! Peça-o para salva-lo!

Mas o profeta não cita o seu deus nenhuma vez, nem mesmo para clama-lo. Vendo aquela cena, Dawkins o despreza. Nem a “Vossa Santidade” se lembrava de seu deus. Talvez aquela fosse a prova que ele estava esperando, de saber que o próprio John August não acreditava na divindade que ele garantia existir.

Tropeçando, o profeta cai no chão. Cansado, ele não aguenta mais caminhar. Ele ofega constantemente, suor se escorria de seu rosto e ele tosse. Então os ateístas o cercam.

Virando-se, ele encontra o olhar de Dawkins entre os homens sem fé. John August suplica:

- Piedade...!

De maneira fria, o ateísta responde:

- Meus homens tiveram sua piedade ao serem assassinados por você?

Dawkins se referia ao seu hospital explodido por Nathan.

- Você não entende...! Eu estava fazendo a obra de Deus!

Irritando-se, o ateísta pergunta:

- Por que o senhor se agarra tanto a essa crença vazia?

O profeta explica:

- A fé está presente no coração humano... A fé é intrínseca a nossa natureza! Como disse Voltaire, “se Deus não existisse, seria preciso inventa-lo”.

Dawkins sorri.

- Mas ele também disse: “o interesse que tenho em acreditar em uma coisa não é a prova da existência desta mesma coisa”.

Então o profeta se desanima. Seus melhores argumentos não poderiam convencer os ímpios. O ateísta se despede:

- Adeus, John August. Se realmente teme ao seu deus, sugiro que comece a rezar.

O profeta protesta:

- Você não pode fazer isso! Você estará matando um santo!

- Em outras épocas o senhor receberia sua morte com alegria, pois estaria se tornando um mártir da fé.

Sentindo-se desmascarado, o profeta o insulta:

- Ímpio! Sua alma jamais terá salvação!

Dawkins sorri novamente.

- Então nos vemos no inferno.

O ateísta aperta o gatilho e executa John August. A bala atravessa sua cabeça e ele cai sem vida. Vendo o sangue se espalhar pelo piso, Dawkins reconhece: os Clérigos do Recomeço estavam acabados.

Durante milênios a religião dominou a raça humana. No futuro projetado por Dawkins, a única crença racional será a Ciência.

Enquanto reflete a respeito, ele vê um facção ao longe. Soldados e ciborgues sobre-humanos marchavam pela praça. A facção comemorava sua vitória, exterminando a pouca resistência que restava. Dawkins os reconhece, eram os Trans-humanistas.

Huxley parecia se empolgar com a destruição. Parando o que está fazendo, ele encontra o olhar de Dawkins ao longe. Olhando aos seus pés, ele reconhece o cadáver de John August. Imediatamente ele se espanta, descobrindo que os clérigos acabaram de ser eliminados.

Dawkins e Huxley se encaram por alguns segundos. As duas facções se encontravam em um perigoso impasse. Naquele instante, outra guerra podia facilmente começar. Entretanto, os ateístas e os mecanicistas não tinham nenhuma rixa, as facções eram neutras entre si. Diante desse fato, Dawkins se vira e vai embora. Huxley entende a mensagem, virando-se também e se afastando. E assim eles evitam um confronto entre os mecanicistas e os ateístas.

 

§

 

Nathan pensa na fundação de Sonata. O passado foi suprimido; sua história, suas leis, suas ideologias e religiões... Tudo se fez novo naquele macro experimento social. O rapaz não consegue condenar seus fundadores, pois o conhecimento de seu passado aflorou o extremismo entre a população. Os fanáticos pela história, como a 4 de Julho e a Bushido, lutam entre si. Os fanáticos dos Clérigos do Recomeço inventaram uma nova religião. Fanáticos pela ciência, como os Trans-humanistas, a Resistência Purista e a Frente Ateísta promovem a ciência antiética e irrestrita. Sem querer admitir, Nathan reconhece que as corporações agiram corretamente ao censurarem o acesso à informação.

“Por décadas a informação se tornou a raiz de todo extremismo em Sonata. Quanto mais conhecimento as pessoas tinham, mais eles encontravam motivos para se separarem”, reflete ele.

A história da humanidade não é bonita; ela sempre foi escrita com sangue. Ensina-la é dar mais páginas para que essa caneta nunca pare de escrever.

“É lamentável que, nessa jaula de culturas tão heterogêneas, a história tenha de ser suprimida”.

E então ele se pergunta:

“E por falar em história, onde está o General Washington?”.

 

§

 

Abrindo a escotilha, George se arrasta para fora do tanque. Ele olha ao redor e vê os poderosos tanques M1 Abrams envoltos no gás preto. Suas tropas não resistiram e morreram sufocadas. George se consterna ao ver seus homens caídos com semblantes de agonia sobre o chão.

Caminhando ao redor, ele sente como se estivesse no Iraque em 1988, quando o governo de Saddam Hussein usou armas químicas contra a população curda, ou em 2017 na Síria, quando o governo de Bashar al-Assad lançou bombas de gás sarin e cloro no norte de Damasco. Refletindo, o general percebe que, desde a Primeira Guerra Mundial, os Estados Unidos sempre estiveram envolvidos em guerras com ataques de gases.

George ouve ruídos. Caminhando ao redor, ele vê que alguns americanos sobreviveram, embora estivessem fracos e infectados pelo gás. Ele se aproxima e vê horrendas manchas negras em suas peles.

- General Washington, o senhor está vivo!

O general está fraco também. Sua pele estava pálida e ele se esforçava para se manter acordado.

- Soldado, qual é a situação?

- Senhor, as tropas foram dizimadas! Apenas um punhado conseguiu sobreviver...

O general se espanta. Suas tropas tinham mais de quatrocentos homens.

- E quanto a Força Aérea?

- Perdi o contato pelo rádio, senhor. Não sei o que lhes aconteceu. – mudando de assunto, o soldado pergunta – Senhor, o que eram aquelas coisas?

George pondera. Ele nunca viu os ciborgues da Subtopia antes.

- Eu não sei, soldado, mas prepare as defesas caso elas retornem.

O soldado ri, desprezando a esperança de que eles sobrevivam.

Minutos depois, os americanos se reorganizam. O general nota como não havia quase ninguém vivo. O remédio dos soldados não tinham efeito algum sobre o veneno. Prosseguindo, eles recarregam suas armas e montam suas defesas, mas não havia muito a ser feito. Desanimado, o general perde seu característico carisma.

Então algo acontece.

Aeronaves os sobrevoam, lançando bombas sobre os tanques. As explosões se aproximam e fulminam os veículos. Os americanos se assustam e correm para se proteger. Devido à falta de operadores, não havia ninguém nos veículos para montar a defesa antiaérea.

O fogo e a fumaça se levantam. A visão se distorce, mas George consegue ver. Guerreiros com armaduras orientais e vestindo máscaras de demônios pairam à sua frente. Ele pensa ser a Subtopia, mas sua aparência era impossível de se confundir.

Os guerreiros vestiam armaduras vermelhas e portavam longas espadas. Um deles, presumivelmente seu líder, vestia uma armadura preta e o encarava ferozmente. Ele sabe quem são. Sussurrando lentamente, ele diz:

- Bushido...!

Os americanos abrem fogo, mas a desvantagem numérica era enorme. Os samurais os cercam e os atacam em um ataque coordenado. Os americanos são abatidos um a um. Para a honrosa Bushido, combate-los em tal circunstância era quase uma covardia.

Uma granada cai ao lado do general e ele corre para se proteger. Enquanto está escondido, ele se espanta ao ver um americano tendo seu braço decepado por um golpe de espada. Outro americano cai no chão e é impalado pela baioneta de um samurai. Em horror, George testemunhava um banho de sangue.

A granada finalmente se explode e fragmentos voam contra o seu rosto. Ofuscado, o general limpa seus olhos e tenta se recompor. Então alguém exclama:

- General Washington!

A inconfundível voz grossa lhe era familiar. Virando-se, ele contempla o temível samurai à sua frente.

- Xogum Tokugawa... – responde ele.

Sujo, ferido e se arrastando pelo chão, o general sente vergonha de si mesmo. O xogum diz:

- Sim. Arraste-se na sujeira como um verme! E assim entenderá o que o honorável espírito japonês sentiu na rendição de 1945.

George ri.

- Ainda vivendo no passado, Tokugawa? Insiste em viver na fantasia do Japão feudal?

- Não é fantasia, é vingança! – brada ele, assustando a todos – O império japonês deveria governar a Ásia por direito, mas teve seu pedido negado pela Liga das Nações! As potências ocidentais nos trataram como cidadãos de segunda classe, nos rebaixando a reles lacaios do Ocidente! – citando os eventos passados, ele continua – Após a traição covarde de Roosevelt, nosso país mergulhou em uma guerra custosa com a América, drenando totalmente os nossos recursos! E para quê? Para termos nossa honra esmagada por duas bombas atômicas, para perdermos nossos territórios continentais e sermos forçados a uma rendição incondicional humilhante! 

Resistindo aos sintomas do gás, George responde:

- Vocês atacaram Pearl Harbor! Vocês começaram a guerra!

Tokugawa insiste:

- E quem foi o responsável pelo fim do xogunato, apontando os canhões para Tóquio e culminando na Restauração Meiji?

O xogum se referia à primeira visita do comandante americano Matthew Perry em 1853. Perry forçou o fim do isolacionismo japonês e fomentou a abertura comercial com o resto do mundo. Devido à intervenção americana, o Japão sofreu mudanças drásticas em sua sociedade, modernizando seu exército, desenvolvendo sua indústria e acumulando poderes em torno do imperador. Para Tokugawa, esse evento significou o fim do xogunato e dos samurais.

Sem argumentos, o general se silencia. Então o xogum diz:

- Fomos subjugados, humilhados e domesticados como cães! – exclama ele – Toda a nossa honra foi tomada. Nos tornamos uma nação de negociantes capitalistas! – ele se lamenta –Éramos senhores e nos tornamos lacaios dos desonrados americanos!

Tokugawa vociferava enquanto falava. Com seu grande carisma, o general responde:

- Fale o quanto quiser, mas ao derrotarmos o seu precioso império nós livramos o mundo de uma das ditaduras mais sanguinárias do século 20. Ou o senhor se esqueceu das atrocidades cometidas na guerra? 

O xogum responde:

- Fabricações propagadas pela mídia anti-japonesa!

- Como as armas químicas e biológicas desenvolvidas na Unidade 731?

- Aquela era uma estação de tratamento de água! – nega ele.

- Veja só esse gás, Tokugawa. Preto como a face da morte. Quem garante que, em sua composição, não haja indícios daquilo que os japoneses desenvolveram na Manchúria, tornando-os os coautores dos gases mais letais criados pelo Homem?

- Seus insultos nos desonram, general. Mas não estou aqui para te esmagar como um inseto. Te darei uma chance de morrer com honra. – apontando-lhe sua espada, ele diz – Execute a si mesmo com o haraquiri.

George o ouve e então gargalha.

- Quem o senhor pensa que eu sou? Um bárbaro feudal?

Os samurais se insultam. Contendo-os, Tokugawa diz:

- Pois bem. Não imaginei que um verme como você teria honra. Ajoelhem-no!

Segurando-o pelos braços, os samurais o colocam de joelhos. Prevendo o seu fim, George diz:

- Saboreie sua vitória, Tokugawa! Mas saiba que o espírito americano viverá novamente!

O xogum o ignora. Levantando sua espada, ele golpeia e decapita o general, encerrando a sua vida.

Um vento frio sopra na praça. Olhando ao redor, o xogum vê os seus arqui-inimigos mortos. Ele venceu, finalmente. Limpando o sangue da lâmina na junta de seu braço, os samurais o saúdam, curvando-se.

A vingança estava consumada. As bombas atômicas, a rendição incondicional, a ocupação de seu país... Tudo acabou. Com os americanos mortos, o xogum podia realizar seu plano de trazer o Japão de volta ao período anterior à Restauração Meiji. Embriagado por seu saudosismo fanático, ele sorri.

 

§

 

Na Cúpula Corporativa, Apex diz:

- Mestre Nathan, acabo de receber a notícia de que os Clérigos do Recomeço e a 4 de Julho foram destruídas.

O rapaz se intriga.

- Destruídas...?!

- Os clérigos foram exterminados pela Frente Ateísta e os americanos pela Bushido.

Nathan se espanta, não conseguindo acreditar no que ouve.

Database ri maliciosamente.

- Parece que sua Rebelião está se desfalecendo, garoto.

Dirigindo-se à cúpula, Copérnico diz:

- Está na hora de acabar com esse jogo. Eu tenho bombas de gás espalhadas por toda a metrópole, cada uma com capacidade para matar meio milhão de habitantes.

O diretor da Bio Prótesis diz:

- Você está blefando.

- Oh, eu não estou. Para infiltrar e armar as bombas, eu tive ajuda de um certo associado de Nathan. – e então ele olha para Database.

Nesse momento o rapaz sente que o seu chefe era o verdadeiro traidor.

Copérnico continua:

- No primeiro dia, as bombas matarão cem mil pessoas. E então o gás se espalhará. Na primeira semana, dez milhões estarão mortos. No primeiro mês, meio milhão. Em dois meses Sonata se tornará um vasto cemitério!

O diretor da Cellgenesis exclama:

- Isso é genocídio!

- Não! – objeta ele – Não é genocídio livrar o planeta da clonagem!

- Os clones são a humanidade, agora!

Os humanos da Subtopia riem.

Intervindo, o diretor da Cybersys responde:

- Você não tem o direito de eliminar o Protótipo #8! Se esqueceu que você também é um protótipo?

Então o rapaz se confunde. Copérnico fazia aquilo por pura vingança mesquinha.

- Direito?! O mesmo que eu não tive para me defender? Eu fui banido sem direito de defesa por descobrir a verdade!

O diretor da Hoverdrive exclama:

- Milhões vão morrer!

- Bilhões de humanos morreram para que os seus protótipos vivessem!

- Seus planos nunca poderão se realizar sobre uma pilha de cadáveres!

Em tom ameaçador, o líder responde:

- Eu direi quais são os meus planos, mestres. Eu bombardearei a cidade com o meu gás. Eu aniquilarei o Protótipo #8 da face da Terra. Eu devolverei a cidade à verdadeira humanidade e tomarei Sonata por direito. Com o meu exército de humanos, a tecnologia das corporações e os robôs de Deus Ex Machina, eu governarei o mundo para sempre!   

Ultrajados, os diretores bradam:

- Louco!

Olhando para Nathan, o líder pergunta:

- Junte-se a mim, Inimigo de Estado. As corporações podem ter te enganado, mas este mundo é nosso!

Horrorizado, o rapaz pega o rifle de Apex e grita:

- Nunca!

Nathan abre fogo e fuzila Copérnico com os lasers. Seguindo o exemplo de seu mestre, os robôs atiram também, eliminando os facciosos da Subtopia.

Um breve confronto se inicia. Os facciosos tentam revidar, mas seus dardos não surtem efeito algum contra os robôs. Os quadrúpedes atacam, mas não são páreos para a eficiência robótica da Design Inteligente.

No meio da confusão, Database tenta fugir e é atingido por um dardo venenoso. O veneno se espalha por seu corpo e suas veias ficam sinistramente pretas. Apavorado, ele olha para o seu atirador e vê Copérnico no chão, sorrindo para ele.   

Alguns facciosos tentam fugir. O mercenário bloqueia a porta, dizendo:

- Essa festa ainda não acabou.

Maynard abre fogo e elimina a retaguarda da facção.

Após alguns minutos, o último quadrúpede é abatido e o confronto se encerra.

Ofegante, o rapaz olha para o salão e contempla o massacre que acaba de cometer. Com os facciosos da Subtopia mortos, ele havia exterminado a humanidade para sempre.

- O que eu fiz? – sussurra ele.

Algo chama a sua atenção. Com manchas negras espalhadas pelo corpo, Nathan reconhece a Database. Correndo em sua direção, ele se agacha e tenta desesperadamente reanima-lo. Interrompendo-o, Maynard diz:

- Ele está morto.

O rapaz não consegue acreditar no que fez.

Copérnico estava lá também, com o corpo fumegante devido ao quentíssimo laser. Ao se aproximar, Nathan percebe que nele não havia mais vida.

Maynard checa os corpos dos facciosos. Tirando a máscara de um soldado, ele averigua sua pele pálida. Então ele diz:

- Eles ainda estão infectados pelo vírus, mas uma vacina o mantém incubado em seus organismos, impedindo de acabar com suas vidas.

Nathan percebe que Copérnico usava indigentes e moribundos em sua vingança, liderando-os em sua jornada pelo reerguimento da raça humana. Ele se consterna.

Em tom condescendente, o diretor da Electro Core diz:

- Ambos perderam; apenas Nathan ganhou. Pitágoras e Copérnico foram tragados pelo desejo egoísta de se vingarem das corporações. E ambos acabaram mortos. Meus parabéns, Nathan. Se aqui houve algum vitorioso, esse alguém é você.

O rapaz se entristece.

- E quem é esse vitorioso se não um assassino?

O mercenário responde:   

- Nathan, o Inimigo de Estado.

Maynard o honrava. Ao ouvir suas palavras, o rapaz se conforta.

Os robôs se aproximam e Apex pergunta:

- Mestre Nathan, o que faremos agora?

As corporações estavam destruídas, a população estava insurreta e a polícia não mais existia... Olhando ao redor, o rapaz não conseguia enxergar nenhum futuro promissor. Ele finalmente responde:

- Eu não sei.

Os diretores discutem entre si. Um minuto depois, eles dizem:

- Nathan, nós temos uma proposta para você.

 

 

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