(Arte de gsd_studio)
Semelhante ao
cofre de Deus Ex Machina, o salão da cúpula era vasto e escuro. Um vapor frio
se arrastava entre suas pernas e Nathan tem a impressão de estar em uma nave
alienígena. Apex e os robôs o acompanham, atentos e preparados para tudo. Então
eles avistam uma luz.
Cilindros
brilhantes surgem do chão. Como tanques criogênicos, Nathan vê corpos em seu
interior. O vapor lentamente se dissipa e ele reconhece tanques de suporte a
vida.
O rapaz conta
cinco tanques, cada um com sua numeração em seu topo. Haviam plaquetas com
letras um pouco apagadas pelos cristais de gelo. Ele lê Bio Prótesis, Electro
Core, Cybersys, Cellgenesis e Hoverdrive.
“As corporações”,
pensa ele.
Apex diz:
- Mestre Nathan,
meus sensores indicam sinais vitais dentro dos tanques.
Os corpos ali
dentro pareciam respirar. O rapaz reconhece homens muito velhos, mas era
difícil enxerga-los devido ao vapor gelado. Fios e cabos se conectam por seus corpos,
como se fossem aberrações em um show de horror. De repente seus olhos se abrem e
eles despertam, emitindo um estrondo que ecoa pela escuridão. Nathan recua, apreensivo.
O homem no tanque
número #3 mexe sua cabeça. Ao lado do número, ele lê Cybersys. Então uma voz
reverberante fala com ele.
- Saudações,
Nathan Hill. Estávamos esperando por você.
Nathan se
espanta. Os homens estavam conscientes.
- Quem são vocês?
O número #3
responde:
- Somos a Cúpula
Corporativa.
Como que ressuscitados,
os demais homens acordam também. A visão clareia e ele vê cinco anciões dentro
dos tanques. Um pouco confuso, ele pergunta:
- Como isto é
possível...?
O número #1
responde. Na plaqueta ele lê Bio Prótesis.
- Nós somos os
diretores do extinto conglomerado conhecido como Sonata. Nós nos mantivemos
vivos para conservar o legado da corporação fundadora.
O número #2
complementa. Na plaqueta ele lê Electro Core.
- Sonata se
dissolveu para realizar a construção da metrópole. Reunimos as melhores mentes
do Vale do Silício e do resto do mundo para a sua construção. Cada um de nós
compunha o corpo dirigente, e após sua dissolução nos tornamos os diretores
vitalícios das ramificações remanescentes.
O número #4
conclui. Na plaqueta ele lê Cellgenesis.
- Nós driblamos a
lei de monopólio vigente, mas após a catástrofe de 2057, não havia mais legislação
para obedecer. Em seu esforço para salvar a humanidade, o conglomerado caiu com
o velho mundo, mas suas ramificações sobreviveram. Nós construímos a metrópole.
Nós povoamos este oásis habitável. – e então ele conclui – Nós somos as corporações.
Estarrecido, o
rapaz sussurra:
- Então a origem
de Sonata é real...
O número #5
responde. Na plaqueta ele lê Hoverdrive.
- Em Sonata, nós
somos seus Pais Fundadores.
Lembrando-se de
algo, Nathan se enche de indignação.
- Pais que matam
os filhos, eu devo dizer! Vocês reativaram o Projeto Gemini e pretendem nos substituir pelo Protótipo #8!
Entreolhando-se,
os anciões sorriem.
- Mas meu jovem,
todos somos o Protótipo #8.
Então o rapaz
arregala os olhos.
- O quê...?
O diretor da
Cellgenesis explica:
- O Projeto
Gemini não será reativado porque ele já ocorreu. A humanidade pós 2057 não
conseguia resistir ao vírus interplanetário; seus corpos não tinham quaisquer
anticorpos necessários para combate-lo. A única vacina possível encontrava-se
em Marte, mas todo o programa espacial foi encerrado devido à infecção de seus
realizadores. Em poucas semanas, metade do planeta estava morta. – afirma ele,
espantando o rapaz – Então o conglomerado procurou outra saída. Desenvolver uma
vacina era impossível, mas e quanto a um corpo aprimorado e resistente ao
vírus?
O diretor da Cybersys
continua:
- Reunindo os
melhores cientistas no Ártico, Sonata corria contra o tempo. A letalidade do
vírus era imensa. Os cientistas morriam enquanto trabalhavam. Para auxiliar em
seu trabalho, eles criaram um supercomputador capaz de armazenar, recalcular e reescrever
os dados científicos. Sua avançada inteligência artificial logo superou a
eficiência da equipe, tornando-se ela mesma a coautora do projeto. E assim
surgiu Deus Ex Machina.
O rapaz pondera.
Stella falava a verdade.
- A engenharia
genética foi empregada e novos corpos foram criados. Nós os chamamos de
protótipos. – diz o diretor da Bio Prótesis – O processo de transferência de
consciência era mortífero e nenhum voluntário sobrevivia. Ao todo sete foram
criados, e todos terminaram em fracasso. Então Deus Ex Machina alterou o
projeto e desenvolveu uma obra-prima, a salvação da humanidade. E assim nascia o
Protótipo #8. O protótipo era um clone humano aprimorado que podia ser
cultivado. Ele podia ser concebido artificialmente em incubadoras, e
naturalmente nos ventres de mães infectadas, e o bebê nascia ser infecção
alguma.
- Adultos também
sobreviviam à transferência, mas estariam condenados a corpos artificiais para
sempre. Para manter o legado de Sonata e preservar a raça humana, essa foi a
nossa escolha se a fazer. – responde o diretor da Electro Core, referindo-se à
Cúpula Corporativa – Nós construímos a nova metrópole em um mundo em ruínas. Trazendo
as melhores mentes para habita-la, nós iniciamos o Projeto Gemini, significando
gêmeos em latim. O processo de transferência foi realizado em larga escala,
atingindo homens e mulheres de todo o mundo.
Ao ouvir a dura
verdade, o rapaz se esforça para acreditar.
- Então o Projeto
Gemini foi realizado e todos somos o Protótipo #8?
O diretor da
Hoverdrive responde:
- O Protótipo #8
foi o estágio final e nossa salvação. Sem Sonata, Deus Ex Machina e o Projeto
Gemini, a raça humana certamente estaria extinta.
O espanto faz a
apatia robótica de Nathan desaparecer.
O diretor da Bio
Prótesis afirma:
- O corpo
original jamais poderia suportar os implantes neurais e as próteses biomecânicas.
Seu organismo sofreria constante rejeição. Mas Deus Ex Machina reescreveu o
código genético, aprimorando-o e nos tornando versões mais avançadas e evoluídas
de nós mesmos.
O diretor da
Cellgenesis diz:
- Engenharia
genética e nanotecnologia constituem o Protótipo #8. Se o código genético não fosse
alterado, você jamais sobreviveria em um corpo de robô.
O rapaz pondera
por alguns segundos. Ao olhar para o seu corpo, ele reconhece que todo o seu
código genético pode ter sido reescrito por uma máquina. Abalado, ele diz:
- Eu não acredito
em vocês.
Apex o
interrompe:
- Mestre Nathan,
meus sensores não indicam nenhum nível de ansiedade e estresse nos diretores.
Eles falam a verdade.
Irritado, ele
insiste:
- Não pode ser
verdade! Se não fosse por minha revelação, as corporações cometeriam o
genocídio!
Encarando-o
seriamente, o diretor da Cybersys responde:
- Nathan, você foi
manipulado.
- O quê?!
- Você foi
manipulado por dois ex-ministros do Ministério da Informação. Copérnico e
Pitágoras.
- Pitágoras...?
- Copérnico não
foi o único banido. O Ministério da Informação guarda muitos segredos que, se
revelados, certamente os corromperiam. Outro ministro também foi banido; seu crime
foi ter revelado arquivos ultrassecretos. Você o conhece pelo nome de Database.
Então a revelação
reverbera em seu peito como um trovão.
Passos são
ouvidos atrás dele, alguém se aproximava na escuridão. Ao aproximar-se da luz,
Nathan reconhecia o chefe do Submundo.
- Database?! –
espanta-se ele – O que está fazendo aqui?
Dirigindo-se a
cúpula, o chefe furiosamente diz:
- Tolos! Esta
noite eu terei a minha vingança!
Os diretores se
exaltam em seus tanques.
- Pitágoras... O
filho pródigo que retorna. Mas, diferente do perdão, você veio pedir a
destruição de seus pais? – pergunta o diretor da Hoverdrive.
- Não. – objeta o
diretor da Cellgenesis – Este homem não é o arrependido filho pródigo. Como
Átila, o huno, nos portões de Roma, ele veio destruir o que não consegue
construir.
Database se enche
de ódio.
- Eu fui um fiel
servo das corporações e vocês me baniram!
O diretor da Bio
Prótesis nega.
- Você foi banido
por ter revelado dados ultrassecretos. Você tomou conhecimento do Protótipo #8
e de seu potencial para a adaptação em ambiente inóspito. Com a tecnologia,
você pretendia criar novos protótipos e repopular o exterior da metrópole. Sua
ambição comprometeu a segurança e estabilidade de Sonata, o que é algo
intolerável em nosso regime.
- Ambição?! –
indigna-se ele – Eu quis dar esperança a este mundo! Ressuscita-lo das ruínas
que hoje chamamos de lar! E como fui retribuído? Com isto!
Database exibe suas
próteses cibernéticas por todo o seu corpo. Ele era uma versão grotesca de
ciborgue.
O diretor da
Electro Core diz:
- De fato, você passou
por grandes adversidades ao partir, mas seus crimes foram imperdoáveis. A
polícia o desfigurou em sua fuga, mas você conseguiu se esconder e se refugiar na
superfície, montando um império do crime com o dinheiro desviado das
corporações.
O diretor da
Electro Core complementa:
- Sua rede de
poder paralelo arrastou a metrópole para o caos. O índice de criminalidade
aumentou, o terrorismo se espalhou e as facções se tornaram mais poderosas. Diferentes
classes de marginais surgiram, como mercenários, hackers e runners. E também mendigos,
prostitutas e drogados infestaram as passarelas e os becos escuros. A esquecida
superfície se tornou um quartel-general de terroristas e rebelados. E tudo isso
devido a ação de um homem. Você.
O chefe sorri. Ele
se admira do quanto é poderoso em Sonata.
Em tom de
lamentação, o diretor da Cybersys diz:
- Você foi um
proeminente servo, Pitágoras. Nós mudamos o seu nome, rebatizando-o com o
célebre matemático e filósofo Pitágoras de Samos. E então o nomeamos para o
cargo do nosso importantíssimo ministério. Inteligente, ambicioso e influente,
queríamos fazer de você o novo matemático, o Pitágoras de Sonata. Mas ao invés
de fazer do Ministério da Informação a sua nova Crotona, você levou todo o seu
talento para a decadente superfície. E desde então você planeja sua vingança
egoísta contra nós. Triste, muito triste...
Database
responde:
- Triste é o
destino que vocês escolheram para Sonata; uma enorme e opressiva jaula para
vinte milhões de habitantes. Eu quis libertar o povo. Eu quis expandir os
limites do muro. Eu quis lhes dar a esperança!
O diretor da Bio
Prótesis ri.
- Esperança?!
Você quis governa-los! Em posse da tecnologia, você pretendia criar um exército
de novos protótipos, mais aprimorados e avançados para subjugar a metrópole.
Você nunca quis liberdade. Se conseguisse dominar seus inimigos com o Protótipo
#9, você faria de si mesmo um rei!
“Protótipo #9?”,
pergunta-se Nathan. Lembrando-se do relato de Laura em sua passagem pelo
Mystique, novamente as palavras de Stella se comprovavam.
O diretor da
Cellgenesis diz:
- Sabemos de suas
sucessivas falhas ao tentar recriar o protótipo, mas você é persistente. Mas
devo informa-lo que, sem a ajuda de Deus Ex Machina, você não vai conseguir. E
nós sabemos que ela nunca irá ajudar um facínora como você.
Stella o alertara
sobre as intenções genocidas de Database. “Se ele não podia controla-la, era
melhor destruí-la”, pensa Nathan.
Sorrindo
maliciosamente, Database responde:
- Eu não preciso mais me preocupar com Deus Ex Machina. Ela foi libertada pelo ingênuo do
Nathan.
Olhando para o
rapaz, a Cúpula Corporativa pergunta:
- Você a libertou,
Nathan?
Todos pareciam
julga-lo com o olhar.
- Sim.
Os diretores
discutem entre si, irritados. O diretor da Cybersys diz:
- Libertar Deus
Ex Machina foi um erro. Ela é uma ferramenta com poder o suficiente para se
tornar uma arma.
Torna-la uma arma
era exatamente o que Database queria.
- Como eu poderia
trancafia-la se eu mesmo luto para libertar o povo das corporações?
O diretor da
Hoverdrive responde:
- Você se ilude,
Nathan. Você apaixonadamente fala do povo e de sua liberdade, mas desconhece
que Sonata não subsiste sem a opressão. A mão de ferro é necessária. A
metrópole é populosa e propícia a se rebelar. Democracia a dividiria e a
desestabilizaria, mergulhando-a no caos e na insurreição. Mesmo Pitágoras
reconheceu isso, pois após anos financiando as facções, seu terrorismo
ideológico nunca despertou no povo o desejo de se rebelar. Foi necessário um
deles para inflama-los, um trabalhador comum sem ligações com os bandidos e os
terroristas. Então ele te encontrou e te usou para inflamar as massas. Está tudo conectado.
O diretor da
Electro Core diz:
- O Submundo, o
exterior e as facções te manipularam. Você fez o que elas nunca conseguiram
fazer: inflamar o povo. Você é o ideal Inimigo de Estado, alguém da própria
plebe que, ao espalhar uma informação falsa, insurgiu toda a metrópole contra
os seus próprios mantenedores: as corporações.
Sentindo-se traído,
o rapaz treme.
- A democracia é
uma ilusão. As facções lá fora se digladiam por poder e vingança. Para a
sobrevivência de Sonata, a cúpula deve existir. – conclui o diretor da Bio
Prótesis.
Desnorteado, o
rapaz argumenta:
- Vocês prendem
opositores, executam cidadãos inocentes e banem adversários políticos. É este o
regime que deve existir?
- Não há
perseguição para quem é honesto e não se envolve com os subversivos. – responde
o diretor da Cellgenesis.
- Mas não há
liberdade política e religiosa. Somos os prisioneiros desta prisão.
- Liberdade
política leva à revoluções; lembre-se da Rússia revolucionária. Liberdade
religiosa leva a morticínios; lembre-se da Rebelião Taiping.
O diretor tinha
razão. Ideologias e religiões foram as responsáveis pelos maiores massacres da
história humana.
- O velho mundo
acabou em 2057, Inimigo de Estado. Uma nova sociedade era necessária para a
sobrevivência da civilização. Por isso ressuscitamos o humanismo clássico com
seu brilhantismo renascentista, sua arquitetura deco e seu cientificismo
positivista. Não mais estaríamos presos à moral e ética de um mundo obsoleto. Tudo
seria novo. E assim nascia Sonata. – responde o diretor da Cybersys.
Sem querer
admitir, as palavras da cúpula faziam sentido.
- Database... – chama
ele – Você mentiu para mim?
- Não, eu não
menti. Eu te dei a escolha entre salvar e condenar Sonata. Você preferiu
salvar, só não me perguntou quem realmente a salvaria. – e então ele ri.
Chocado com
tamanha revelação, o rapaz põe suas mãos na cabeça. Ele se recusava a acreditar
naquilo. Há um mês sua informação revelou o plano obscuro de repopular a
metrópole. Após tanta morte, caos e destruição ele se recusava a aceitar que
sua Rebelião era uma mentira.
- Não pode ser...!
O diretor da
Cellgenesis diz:
- A humanidade já
foi substituída pelo Protótipo #8, mas nem todos aceitaram o processo de
repopulação.
Abatido, o rapaz
pergunta:
- Do que está
falando?
Gritos e
explosões são ouvidos lá embaixo. O diretor conclui:
- Um velho inimigo
se aproxima.
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