sexta-feira, 14 de janeiro de 2022

Sonata - 70 - Protótipo #8

 


(Arte de gsd_studio)


Semelhante ao cofre de Deus Ex Machina, o salão da cúpula era vasto e escuro. Um vapor frio se arrastava entre suas pernas e Nathan tem a impressão de estar em uma nave alienígena. Apex e os robôs o acompanham, atentos e preparados para tudo. Então eles avistam uma luz.

Cilindros brilhantes surgem do chão. Como tanques criogênicos, Nathan vê corpos em seu interior. O vapor lentamente se dissipa e ele reconhece tanques de suporte a vida.     

O rapaz conta cinco tanques, cada um com sua numeração em seu topo. Haviam plaquetas com letras um pouco apagadas pelos cristais de gelo. Ele lê Bio Prótesis, Electro Core, Cybersys, Cellgenesis e Hoverdrive.

“As corporações”, pensa ele.

Apex diz:

- Mestre Nathan, meus sensores indicam sinais vitais dentro dos tanques.

Os corpos ali dentro pareciam respirar. O rapaz reconhece homens muito velhos, mas era difícil enxerga-los devido ao vapor gelado. Fios e cabos se conectam por seus corpos, como se fossem aberrações em um show de horror. De repente seus olhos se abrem e eles despertam, emitindo um estrondo que ecoa pela escuridão. Nathan recua, apreensivo.

O homem no tanque número #3 mexe sua cabeça. Ao lado do número, ele lê Cybersys. Então uma voz reverberante fala com ele.

- Saudações, Nathan Hill. Estávamos esperando por você.

Nathan se espanta. Os homens estavam conscientes.

- Quem são vocês?

O número #3 responde:

- Somos a Cúpula Corporativa.

Como que ressuscitados, os demais homens acordam também. A visão clareia e ele vê cinco anciões dentro dos tanques. Um pouco confuso, ele pergunta:

- Como isto é possível...?

O número #1 responde. Na plaqueta ele lê Bio Prótesis.

- Nós somos os diretores do extinto conglomerado conhecido como Sonata. Nós nos mantivemos vivos para conservar o legado da corporação fundadora.

O número #2 complementa. Na plaqueta ele lê Electro Core.

- Sonata se dissolveu para realizar a construção da metrópole. Reunimos as melhores mentes do Vale do Silício e do resto do mundo para a sua construção. Cada um de nós compunha o corpo dirigente, e após sua dissolução nos tornamos os diretores vitalícios das ramificações remanescentes.

O número #4 conclui. Na plaqueta ele lê Cellgenesis.

- Nós driblamos a lei de monopólio vigente, mas após a catástrofe de 2057, não havia mais legislação para obedecer. Em seu esforço para salvar a humanidade, o conglomerado caiu com o velho mundo, mas suas ramificações sobreviveram. Nós construímos a metrópole. Nós povoamos este oásis habitável. – e então ele conclui – Nós somos as corporações.

Estarrecido, o rapaz sussurra:    

- Então a origem de Sonata é real...

O número #5 responde. Na plaqueta ele lê Hoverdrive.

- Em Sonata, nós somos seus Pais Fundadores.

Lembrando-se de algo, Nathan se enche de indignação.

- Pais que matam os filhos, eu devo dizer! Vocês reativaram o Projeto Gemini e pretendem nos substituir pelo Protótipo #8!

Entreolhando-se, os anciões sorriem.

- Mas meu jovem, todos somos o Protótipo #8.

Então o rapaz arregala os olhos.

- O quê...?

O diretor da Cellgenesis explica:

- O Projeto Gemini não será reativado porque ele já ocorreu. A humanidade pós 2057 não conseguia resistir ao vírus interplanetário; seus corpos não tinham quaisquer anticorpos necessários para combate-lo. A única vacina possível encontrava-se em Marte, mas todo o programa espacial foi encerrado devido à infecção de seus realizadores. Em poucas semanas, metade do planeta estava morta. – afirma ele, espantando o rapaz – Então o conglomerado procurou outra saída. Desenvolver uma vacina era impossível, mas e quanto a um corpo aprimorado e resistente ao vírus?

O diretor da Cybersys continua:

- Reunindo os melhores cientistas no Ártico, Sonata corria contra o tempo. A letalidade do vírus era imensa. Os cientistas morriam enquanto trabalhavam. Para auxiliar em seu trabalho, eles criaram um supercomputador capaz de armazenar, recalcular e reescrever os dados científicos. Sua avançada inteligência artificial logo superou a eficiência da equipe, tornando-se ela mesma a coautora do projeto. E assim surgiu Deus Ex Machina.

O rapaz pondera. Stella falava a verdade.

- A engenharia genética foi empregada e novos corpos foram criados. Nós os chamamos de protótipos. – diz o diretor da Bio Prótesis – O processo de transferência de consciência era mortífero e nenhum voluntário sobrevivia. Ao todo sete foram criados, e todos terminaram em fracasso. Então Deus Ex Machina alterou o projeto e desenvolveu uma obra-prima, a salvação da humanidade. E assim nascia o Protótipo #8. O protótipo era um clone humano aprimorado que podia ser cultivado. Ele podia ser concebido artificialmente em incubadoras, e naturalmente nos ventres de mães infectadas, e o bebê nascia ser infecção alguma.

- Adultos também sobreviviam à transferência, mas estariam condenados a corpos artificiais para sempre. Para manter o legado de Sonata e preservar a raça humana, essa foi a nossa escolha se a fazer. – responde o diretor da Electro Core, referindo-se à Cúpula Corporativa – Nós construímos a nova metrópole em um mundo em ruínas. Trazendo as melhores mentes para habita-la, nós iniciamos o Projeto Gemini, significando gêmeos em latim. O processo de transferência foi realizado em larga escala, atingindo homens e mulheres de todo o mundo.

Ao ouvir a dura verdade, o rapaz se esforça para acreditar.

- Então o Projeto Gemini foi realizado e todos somos o Protótipo #8?

O diretor da Hoverdrive responde:

- O Protótipo #8 foi o estágio final e nossa salvação. Sem Sonata, Deus Ex Machina e o Projeto Gemini, a raça humana certamente estaria extinta.

O espanto faz a apatia robótica de Nathan desaparecer.

O diretor da Bio Prótesis afirma:

- O corpo original jamais poderia suportar os implantes neurais e as próteses biomecânicas. Seu organismo sofreria constante rejeição. Mas Deus Ex Machina reescreveu o código genético, aprimorando-o e nos tornando versões mais avançadas e evoluídas de nós mesmos.  

O diretor da Cellgenesis diz:

- Engenharia genética e nanotecnologia constituem o Protótipo #8. Se o código genético não fosse alterado, você jamais sobreviveria em um corpo de robô.

O rapaz pondera por alguns segundos. Ao olhar para o seu corpo, ele reconhece que todo o seu código genético pode ter sido reescrito por uma máquina. Abalado, ele diz:

- Eu não acredito em vocês.

Apex o interrompe:

- Mestre Nathan, meus sensores não indicam nenhum nível de ansiedade e estresse nos diretores. Eles falam a verdade.

Irritado, ele insiste:

- Não pode ser verdade! Se não fosse por minha revelação, as corporações cometeriam o genocídio!

Encarando-o seriamente, o diretor da Cybersys responde:

- Nathan, você foi manipulado.

- O quê?!

- Você foi manipulado por dois ex-ministros do Ministério da Informação. Copérnico e Pitágoras.

- Pitágoras...?

- Copérnico não foi o único banido. O Ministério da Informação guarda muitos segredos que, se revelados, certamente os corromperiam. Outro ministro também foi banido; seu crime foi ter revelado arquivos ultrassecretos. Você o conhece pelo nome de Database.

Então a revelação reverbera em seu peito como um trovão.

Passos são ouvidos atrás dele, alguém se aproximava na escuridão. Ao aproximar-se da luz, Nathan reconhecia o chefe do Submundo.

- Database?! – espanta-se ele – O que está fazendo aqui?

Dirigindo-se a cúpula, o chefe furiosamente diz:

- Tolos! Esta noite eu terei a minha vingança!

Os diretores se exaltam em seus tanques.

- Pitágoras... O filho pródigo que retorna. Mas, diferente do perdão, você veio pedir a destruição de seus pais? – pergunta o diretor da Hoverdrive.

- Não. – objeta o diretor da Cellgenesis – Este homem não é o arrependido filho pródigo. Como Átila, o huno, nos portões de Roma, ele veio destruir o que não consegue construir.

Database se enche de ódio.

- Eu fui um fiel servo das corporações e vocês me baniram!

O diretor da Bio Prótesis nega.

- Você foi banido por ter revelado dados ultrassecretos. Você tomou conhecimento do Protótipo #8 e de seu potencial para a adaptação em ambiente inóspito. Com a tecnologia, você pretendia criar novos protótipos e repopular o exterior da metrópole. Sua ambição comprometeu a segurança e estabilidade de Sonata, o que é algo intolerável em nosso regime.     

- Ambição?! – indigna-se ele – Eu quis dar esperança a este mundo! Ressuscita-lo das ruínas que hoje chamamos de lar! E como fui retribuído? Com isto!

Database exibe suas próteses cibernéticas por todo o seu corpo. Ele era uma versão grotesca de ciborgue.

O diretor da Electro Core diz:

- De fato, você passou por grandes adversidades ao partir, mas seus crimes foram imperdoáveis. A polícia o desfigurou em sua fuga, mas você conseguiu se esconder e se refugiar na superfície, montando um império do crime com o dinheiro desviado das corporações.

O diretor da Electro Core complementa:

- Sua rede de poder paralelo arrastou a metrópole para o caos. O índice de criminalidade aumentou, o terrorismo se espalhou e as facções se tornaram mais poderosas. Diferentes classes de marginais surgiram, como mercenários, hackers e runners. E também mendigos, prostitutas e drogados infestaram as passarelas e os becos escuros. A esquecida superfície se tornou um quartel-general de terroristas e rebelados. E tudo isso devido a ação de um homem. Você.

O chefe sorri. Ele se admira do quanto é poderoso em Sonata. 

Em tom de lamentação, o diretor da Cybersys diz:

- Você foi um proeminente servo, Pitágoras. Nós mudamos o seu nome, rebatizando-o com o célebre matemático e filósofo Pitágoras de Samos. E então o nomeamos para o cargo do nosso importantíssimo ministério. Inteligente, ambicioso e influente, queríamos fazer de você o novo matemático, o Pitágoras de Sonata. Mas ao invés de fazer do Ministério da Informação a sua nova Crotona, você levou todo o seu talento para a decadente superfície. E desde então você planeja sua vingança egoísta contra nós. Triste, muito triste...

Database responde:

- Triste é o destino que vocês escolheram para Sonata; uma enorme e opressiva jaula para vinte milhões de habitantes. Eu quis libertar o povo. Eu quis expandir os limites do muro. Eu quis lhes dar a esperança!

O diretor da Bio Prótesis ri.

- Esperança?! Você quis governa-los! Em posse da tecnologia, você pretendia criar um exército de novos protótipos, mais aprimorados e avançados para subjugar a metrópole. Você nunca quis liberdade. Se conseguisse dominar seus inimigos com o Protótipo #9, você faria de si mesmo um rei!

“Protótipo #9?”, pergunta-se Nathan. Lembrando-se do relato de Laura em sua passagem pelo Mystique, novamente as palavras de Stella se comprovavam.

O diretor da Cellgenesis diz:

- Sabemos de suas sucessivas falhas ao tentar recriar o protótipo, mas você é persistente. Mas devo informa-lo que, sem a ajuda de Deus Ex Machina, você não vai conseguir. E nós sabemos que ela nunca irá ajudar um facínora como você.

Stella o alertara sobre as intenções genocidas de Database. “Se ele não podia controla-la, era melhor destruí-la”, pensa Nathan.

Sorrindo maliciosamente, Database responde:

- Eu não preciso mais me preocupar com Deus Ex Machina. Ela foi libertada pelo ingênuo do Nathan.

Olhando para o rapaz, a Cúpula Corporativa pergunta:

- Você a libertou, Nathan?

Todos pareciam julga-lo com o olhar.

- Sim.

Os diretores discutem entre si, irritados. O diretor da Cybersys diz:

- Libertar Deus Ex Machina foi um erro. Ela é uma ferramenta com poder o suficiente para se tornar uma arma.

Torna-la uma arma era exatamente o que Database queria.

- Como eu poderia trancafia-la se eu mesmo luto para libertar o povo das corporações?

O diretor da Hoverdrive responde:

- Você se ilude, Nathan. Você apaixonadamente fala do povo e de sua liberdade, mas desconhece que Sonata não subsiste sem a opressão. A mão de ferro é necessária. A metrópole é populosa e propícia a se rebelar. Democracia a dividiria e a desestabilizaria, mergulhando-a no caos e na insurreição. Mesmo Pitágoras reconheceu isso, pois após anos financiando as facções, seu terrorismo ideológico nunca despertou no povo o desejo de se rebelar. Foi necessário um deles para inflama-los, um trabalhador comum sem ligações com os bandidos e os terroristas. Então ele te encontrou e te usou para inflamar as massas. Está tudo conectado.

O diretor da Electro Core diz:

- O Submundo, o exterior e as facções te manipularam. Você fez o que elas nunca conseguiram fazer: inflamar o povo. Você é o ideal Inimigo de Estado, alguém da própria plebe que, ao espalhar uma informação falsa, insurgiu toda a metrópole contra os seus próprios mantenedores: as corporações.

Sentindo-se traído, o rapaz treme.

- A democracia é uma ilusão. As facções lá fora se digladiam por poder e vingança. Para a sobrevivência de Sonata, a cúpula deve existir. – conclui o diretor da Bio Prótesis. 

Desnorteado, o rapaz argumenta:

- Vocês prendem opositores, executam cidadãos inocentes e banem adversários políticos. É este o regime que deve existir?

- Não há perseguição para quem é honesto e não se envolve com os subversivos. – responde o diretor da Cellgenesis.

- Mas não há liberdade política e religiosa. Somos os prisioneiros desta prisão.

- Liberdade política leva à revoluções; lembre-se da Rússia revolucionária. Liberdade religiosa leva a morticínios; lembre-se da Rebelião Taiping.

O diretor tinha razão. Ideologias e religiões foram as responsáveis pelos maiores massacres da história humana.

- O velho mundo acabou em 2057, Inimigo de Estado. Uma nova sociedade era necessária para a sobrevivência da civilização. Por isso ressuscitamos o humanismo clássico com seu brilhantismo renascentista, sua arquitetura deco e seu cientificismo positivista. Não mais estaríamos presos à moral e ética de um mundo obsoleto. Tudo seria novo. E assim nascia Sonata. – responde o diretor da Cybersys.

Sem querer admitir, as palavras da cúpula faziam sentido. 

- Database... – chama ele – Você mentiu para mim?

- Não, eu não menti. Eu te dei a escolha entre salvar e condenar Sonata. Você preferiu salvar, só não me perguntou quem realmente a salvaria. – e então ele ri.

Chocado com tamanha revelação, o rapaz põe suas mãos na cabeça. Ele se recusava a acreditar naquilo. Há um mês sua informação revelou o plano obscuro de repopular a metrópole. Após tanta morte, caos e destruição ele se recusava a aceitar que sua Rebelião era uma mentira.

- Não pode ser...!

O diretor da Cellgenesis diz:

- A humanidade já foi substituída pelo Protótipo #8, mas nem todos aceitaram o processo de repopulação.

Abatido, o rapaz pergunta:

- Do que está falando?

Gritos e explosões são ouvidos lá embaixo. O diretor conclui:

- Um velho inimigo se aproxima.

 

 

 

 

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