(Imagem de hdqwalls.com)
Alguns dias se
passam.
Em um bar
qualquer, Maynard bebe tranquilamente seu uísque. Estava uma bela tarde lá fora
e os aerocarros passavam normalmente. As luzes piscavam um pouco, o
fornecimento de eletricidade ainda estava ruim, mas aos poucos ia melhorar.
Debruçado no balcão, ele assiste ao noticiário na TV. As imagens eram ofuscadas
pela fumaça dos cigarros, mas ele não se importa.
A Rebelião se
encerrara. A face de Nathan viajava pelo ciberespaço, conclamando o povo a se
unir. Ele os pedia para voltar ao trabalho, cessar as hostilidades e restaurar
a ordem na metrópole. Com a convicção de um novo dirigente, ele os convocava
para a construção de um novo amanhã.
O mercenário bebe
um gole de uísque e pensa. Na Cúpula Corporativa, Nathan tinha um dilema em
suas mãos. Ou ele se juntava à cúpula e reconstruía a cidade ou a entregava ao
controle sanguinário das facções. Conhecendo de perto os terroristas, ele
escolhera a primeira opção.
“Uma boa
escolha”, pensa ele, não se importando.
As corporações estavam
sendo reconstruídas. Os ministérios estavam sendo reativados. A insurreição estava
sendo pacificada. Lentamente a ordem se restabelecia.
A repórter fazia
a cobertura da reconstrução da Bio Prótesis, o primeiro alvo a ser tomado pela
Rebelião. Trabalhando juntos e cooperando entre si, a obra era realizada por
robôs e humanos.
“Ou protótipos”,
se corrige ele.
Convenientemente
a população não sabia a verdade. Para eles, Nathan impediu o Projeto Gemini,
encerrando a ameaça do Protótipo #8 para sempre. O Inimigo de Estado se tornou
o seu herói, o salvador que deu a sua vida às corporações para lhes restringir
o poder. Meneando negativamente a cabeça, Maynard ri.
Sonata se dividiu em zonas, cada uma controlada por cada facção. Entretanto, todas eram subservientes ao regime do "benevolente diretor Nathan". No Setor F, a Frente Ateísta pôde realizar o seu plano de instaurar um governo antirreligioso e científico. No Setor T, os Trans-humanistas puderam desenvolver sua tecnologia de maneira irrestrita. No Setor J, a Bushido estava livre para reerguer o orgulhoso espírito japonês. Lembrando-se dos samurais, Maynard soube que eles concordaram em abandonar o seu expansionismo imperialista, voltando aos moldes pacíficos do Japão do século 21.
Uma viatura de
polícia passa pela janela. Estranhamente, nenhum cidadão a hostiliza. O velho
inimigo se tornou o novo aliado do povo, mas não da mesma maneira que antes. A
Design Inteligente se tornou a nova Polícia Corporativa. Fiéis a Nathan, eles o
obedeceram, cumprindo o seu benevolente desejo de serem os seus mediadores.
“Os mediadores
dos humanos e dos robôs”, lembra-se ele.
Stella, a
poderosa Deus Ex Machina, estava desaparecida. Como o próprio nome sugere,
Stella era um deus capaz de criar a vida. Devido ao seu poder, as corporações a
mantiveram confinada por séculos e liberta-la foi algo ousado da parte de
Nathan. Sabendo do que o supercomputador é capaz, o mercenário teme
confronta-la no futuro. Todavia, esse não era um problema seu.
Subtopia morreu
junto com Copérnico. O plano genocida de exterminar os protótipos e devolver o
mundo aos humanos foi impedido. Mas Maynard carregava o fardo de ser o último
humano original sobre a Terra. Bebendo o seu uísque, ele reflete sobre si
mesmo. Ele não acredita que todos os humanos foram extintos. De fato, é um
mundo bem grande lá fora. Se ainda houverem moribundos vivendo no exterior da
metrópole, Maynard prefere deixá-los em paz.
Então ele pensa
novamente. Em séculos a Subtopia foi o único sinal de vida fora de Sonata. Ele
não é um homem esperançoso. Se os membros dessa facção foram os últimos
sobreviventes, então a humanidade foi extinta para sempre.
Assistindo ao
noticiário, ele tenta não pensar a respeito.
As imagens
mostram a superfície. Nathan pretendia urbaniza-la e reintegrar os seus
habitantes aos níveis superiores. Com a morte de Database, Laura se tornou a
nova governante lá embaixo. Sorrindo, o mercenário lhe deseja sorte.
Lembrando-se de
Database, ele pensa em algo incômodo. As corporações se apoderaram das
pesquisas do antigo chefe do Submundo. Eles intentavam desenvolver o Protótipo
#9 e usá-lo para explorar o exterior da metrópole. Se obtiverem sucesso, Sonata
passará de uma cidade-Estado isolada para um país inteiro.
Maynard sorri.
Database não estaria vivo para ver a continuidade de seus planos. Ironicamente
quem o continuaria seria Nathan. Bebendo o seu uísque, ele ri ao pensar como o
chefe devia estar rolando em seu túmulo.
O mercenário se
levanta e deixa o bar.
Caminhando pelo
terraço, ele vislumbra a metrópole. O poente anunciava uma nova era em Sonata.
Trabalhadores e as facções, os robôs e as corporações, todos se uniam para a construção
de um novo amanhã. Parado enquanto observa a paisagem, ele põe as mãos nos
bolsos e respira fundo. Parecia haver satisfação e orgulho em seu olhar.
Então ele sorri e
alegremente diz:
- Bem-vindos à
Sonata.
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