(Imagem de shnfilm)
O vento sopra
pelo salão e um novo tanque de suporte a vida surge entre a neblina. Luzes
brilhantes o iluminam e uma tampa se abre, revelando um compartimento
semelhante a uma cama.
O diretor da
Cybersys solenemente diz:
- Nathan Hill,
nós da Cúpula Corporativa o convidamos para governar Sonata ao nosso lado. Se
houve um vencedor nesta Rebelião, esse alguém foi você. Aceite o seu troféu,
receba o seu prêmio e governe a metrópole conosco.
Com a inesperada
e grandiosa oferta, o rapaz se espanta. Outra decisão gigantesca caía em suas
mãos.
- Governar a
metrópole...? – pergunta ele, não acreditando.
- Sim. Você se
tornará um membro permanente da Cúpula Corporativa. O benevolente Inimigo de
Estado tornado o protetor do povo. O seu guardião de bom coração.
Nathan se sente
honrado. Mas, lembrando-se de algo, ele diz:
- Por séculos os
senhores esconderam a verdade e conspiraram contra a população. Como poderei
aceitar tal oferta?
O diretor da
Cellgenesis responde:
- Nathan,
enquanto Inimigo de Estado você viu com seus próprios olhos o que o
conhecimento pode causar. Facções se formaram, utilizando-se do terrorismo para
promover seu ativismo político. Se a população não consegue suportar o passado
pré-2057, como suportarão que seus ancestrais foram extintos?
O rapaz pondera.
O diretor tinha razão. Quanto mais conhecimento o povo tiver, maior será o seu
extremismo. Mas ele insiste:
- A Polícia
Corporativa prendia, executava e bania os subversivos. A violência sempre foi o
seu método. Como eu poderei confiar em vocês?
O diretor da
Electro Core responde:
- Nós somos os
mantenedores de Sonata, e não os destruidores como estes aí – ele aponta para
Copérnico e Database – Fizemos o necessário para manter a metrópole unida,
evitando que ela se dividisse. Mas você a unirá novamente, o herói popular que
venceu a Rebelião e se tornou o seu protetor.
Ele retruca:
- Como eu a
protegeria me aliando às corporações?
O diretor da
Hoverdrive diz:
- Se a Cúpula
Corporativa o matar, a devastação da Rebelião continuará. Em semanas Sonata se
desfaleceria, dividindo-se entre extremistas e sendo tragada por morticínios. –
explica ele – Como os Pais Fundadores formaram a América, nós formamos Sonata.
A população precisará de nós para sobreviver. A ordem só poderá reinar se as
corporações existirem.
Nathan concorda.
Sem as corporações, o caos reinará e não haverá mais distinção entre a
metrópole e o exterior.
“Como Zeus é o
Olimpo, as corporações são Sonata”, pensa ele.
O rapaz pergunta:
- Podem protótipos
e humanos coexistirem?
Incisivo, o
diretor da Bio Prótesis responde:
- Os moribundos
humanos foram tragados pelo vírus. O Protótipo #8 é o futuro da espécie agora.
Para a velha humanidade, o único futuro possível é a extinção.
Ao ouvir esta
dura realidade, o rapaz se assombra.
Os robôs
averiguam os soldados da Subtopia. Entre os mortos, eles encontram homens e
mulheres. Apex olha para Nathan e afirma:
- Mestre Nathan,
se o que sobrou da humanidade está aqui, eles foram extintos para sempre.
Mais uma vez o
rapaz se consterna.
Sabendo que
Maynard tinha entre 45 e 50 anos, o líder sugere:
- Maynard é um
humano puro. Se ainda houverem fêmeas no exterior, a humanidade poderá
sobreviver.
Com semblante
sério, o mercenário responde:
- Eu não tenho
maturidade para ter filhos.
Apex insiste:
- Mas se trata da
sobrevivência da raça. Durante milênios a humanidade fez da união estável sua
tradição. Baseada nos sentimentos ou em interesses pessoais, ela teve por
finalidade perpetuar a espécie e lhes garantir um futuro. Nesse caso, o papel
dos pais foi fundamental para a criação dos filhos.
Sorrindo, o
mercenário responde:
- Desculpe-me,
mas eu já fui casado.
As palavras de
Apex machucam o rapaz. “Os sentimentos”, pensa ele. “Eu tive sentimentos, mas e
o que teve Laura?”. Entristecendo-se, ele pensa. “Interesses pessoais”.
Respirando fundo,
Nathan se vira aos diretores e declara:
- Está bem. Eu me
juntarei à Cúpula Corporativa.
Com lágrimas nos
olhos, ele caminha em direção ao tanque. Então Maynard o interrompe:
- Pense bem,
garoto. Ao fazer isso, você não poderá voltar atrás.
Ele olha para o
mercenário e diz:
- E para quem eu
voltaria? Eu sou órfão. Eu não tenho família.
Maynard insiste:
- Você tem outra
pessoa. Laura.
Então o seu
coração dói novamente. Ele se lamenta.
- E onde está
Laura agora?
O mercenário se
silencia; ele sabe que os dois terminaram. Laura foi um tanto cruel ao terminar
o namoro, pois sabia que Nathan lhe dava amor incondicional e que faria de tudo
para estar ao seu lado, inclusive se tornar um ciborgue.
As memórias vêm à
mente de Nathan. Foi ideia dela entrega-lo à Design Inteligente, mas a garota
não se importa com os sentimentos alheios. Ao tão somente ver o que ele se
tornara, ela o dispensou, estraçalhando o seu coração.
“Essa ferida é
profunda e nunca se cicatrizará, permanecendo sangrando em seu peito para
sempre”, pensa Maynard.
Desiludido no
amor, Nathan decide se juntar à Cúpula Corporativa.
Como um berço de
ouro, o tanque brilha à sua frente. Por dentro, o tanque era transparente e
tinha cabos por toda parte. Nathan entra e se deita. A tampa lentamente se
fecha e ele se sente deitado em um sarcófago. Como sanguessugas, os cabos tocam
seu corpo e se conectam à sua pele. Um conector segura sua cabeça e uma broca
perfura sua nuca, causando-lhe dor. Em seguida um cabo se conecta ao seu
cérebro e altera sua consciência. E então algo acontece.
Como um deus
dotado de onisciência, o rapaz vê imagens de toda a metrópole em sua mente.
Tudo lhe era revelado, desde imagens de segurança, conhecimentos passados e
dados tecnológicos das corporações.
A experiência lhe
extasia. Aquilo era muito mais profundo e intenso do que navegar no
ciberespaço. De fato, Nathan sente como se fosse o próprio ciberespaço, e não
mais um reles usuário dele. Em um piscar de olhos, ele viaja para cada canto de
Sonata. Maravilhado, o rapaz sente que não precisava mais de corpo. Detalhes
triviais como roupas, calçados, cosméticos e higiene pessoal, tudo era
irrelevante e ultrapassado. Seu corpo se adaptava a uma nova condição de
existência, eliminando de si a necessidade fisiológica e anatômica.
Seu corpo não era
mais necessário. Sua mente era a única necessidade possível. Passado, presente
e futuro se fundiam. A onipresença virtual estava ao seu alcance através de
dezenas de milhares de braços espalhados por Sonata. O rapaz podia correr e
voar sem jamais ter de sair do lugar. Tudo lhe era acessível naquela matriz.
Nathan se tornava
uma deidade tecnológica.
A luz intensa
ilumina o salão e ofusca o mercenário. O tanque se movimenta e se levanta,
aproximando-se do demais diretores. O rapaz é recebido pela Cúpula Corporativa
e os tanques se preparam para retornar ao seu abrigo. Ao começar a descer, Apex
pergunta:
- Mestre Nathan,
o que faremos sem você?
Como Deus Ex
Machina, o rapaz responde:
- Seja o mediador
dos humanos e dos robôs, meu servo fiel.
Assentindo, ele
faz outra pergunta:
- E quanto a
Stella?
Com benevolência,
o rapaz apenas diz:
- Deixe-a viver.
Em seguida os
tanques descem e retornam ao seu abrigo. Alguns segundos depois aquela luz
intensa se apaga e todo o salão fica escuro novamente.
O silêncio se
levanta e a neblina novamente se arrasta pelo ambiente. Sentindo o frio em seu
corpo, Maynard sacode suas roupas e sorri. Empunhando sua escopeta, ele se vira
e vai embora.
§
Minutos antes, os
Trans-humanistas passeiam pela praça corporativa e comemoram sua vitória. Laura
está lá também e contempla a devastação causada pela Rebelião. Os mecanicistas
não se importam com o estrago e festejam alegremente. Huxley se aproxima e lhe
oferece uma bebida, mas ela rejeita.
De repente uma
luz brilha no topo da megatorre. Todos param o que estão fazendo e olham para
cima. A luz vinha da Cúpula Corporativa.
A Frente Ateísta
e a Bushido também param para contemplar a luz. A polícia e os manifestantes
param também, hipnotizados pelo intenso brilho.
Ninguém sabe o
que está acontecendo. Todos estavam ocupados comemorando sobre os cadáveres de
seus inimigos. Acreditando terem vencido a batalha, eles festejavam a tomada da
cidade. Mas isto estava muito longe da verdade.
Lá em cima, Nathan
se fundia à cúpula. A Rebelião se encerrava, mas uma nova era se iniciava na
metrópole. Como os pilares do Monte Olimpo, as corporações permaneceram,
sustentando o paraíso terreno chamado Sonata.
As corporações
não caíram e foi Nathan quem impediu sua queda. Iniciando um novo regime com as
ruínas do antigo, o Inimigo de Estado se tornava o novo diretor, ou como disse
os diretores, o protetor do povo.
Mas se, de fato,
ele lhes daria proteção, apenas o tempo podia dizer.
Laura contempla a
luz lá em cima. Ela sabe que Nathan está lá, combatendo ao lado de seus robôs.
Ela pensa muito nele e se preocupa com sua segurança. Mas, controlando-se, ela
tenta manter sua postura fria.
De repente a luz
se apaga e tudo fica em silêncio novamente. Algo a incomoda e Laura sente o
carinho de Nathan em seu ombro. Virando-se, o vento sopra e ela não vê ninguém.
As facções voltam a comemorar livremente. Distraída, Laura toca o seu ombro e se entristece. Então lágrimas se formam e ela chora intensamente, permanecendo sozinha enquanto os facciosos festejam ao seu redor.
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