sexta-feira, 28 de janeiro de 2022

Sonata - 73 - A Ascensão do Inimigo de Estado

 


(Imagem de shnfilm)


O vento sopra pelo salão e um novo tanque de suporte a vida surge entre a neblina. Luzes brilhantes o iluminam e uma tampa se abre, revelando um compartimento semelhante a uma cama.

O diretor da Cybersys solenemente diz:

- Nathan Hill, nós da Cúpula Corporativa o convidamos para governar Sonata ao nosso lado. Se houve um vencedor nesta Rebelião, esse alguém foi você. Aceite o seu troféu, receba o seu prêmio e governe a metrópole conosco.

Com a inesperada e grandiosa oferta, o rapaz se espanta. Outra decisão gigantesca caía em suas mãos.

- Governar a metrópole...? – pergunta ele, não acreditando.

- Sim. Você se tornará um membro permanente da Cúpula Corporativa. O benevolente Inimigo de Estado tornado o protetor do povo. O seu guardião de bom coração.

Nathan se sente honrado. Mas, lembrando-se de algo, ele diz:

- Por séculos os senhores esconderam a verdade e conspiraram contra a população. Como poderei aceitar tal oferta?

O diretor da Cellgenesis responde:

- Nathan, enquanto Inimigo de Estado você viu com seus próprios olhos o que o conhecimento pode causar. Facções se formaram, utilizando-se do terrorismo para promover seu ativismo político. Se a população não consegue suportar o passado pré-2057, como suportarão que seus ancestrais foram extintos?

O rapaz pondera. O diretor tinha razão. Quanto mais conhecimento o povo tiver, maior será o seu extremismo. Mas ele insiste:

- A Polícia Corporativa prendia, executava e bania os subversivos. A violência sempre foi o seu método. Como eu poderei confiar em vocês?

O diretor da Electro Core responde:

- Nós somos os mantenedores de Sonata, e não os destruidores como estes aí – ele aponta para Copérnico e Database – Fizemos o necessário para manter a metrópole unida, evitando que ela se dividisse. Mas você a unirá novamente, o herói popular que venceu a Rebelião e se tornou o seu protetor.

Ele retruca:

- Como eu a protegeria me aliando às corporações?

O diretor da Hoverdrive diz:

- Se a Cúpula Corporativa o matar, a devastação da Rebelião continuará. Em semanas Sonata se desfaleceria, dividindo-se entre extremistas e sendo tragada por morticínios. – explica ele – Como os Pais Fundadores formaram a América, nós formamos Sonata. A população precisará de nós para sobreviver. A ordem só poderá reinar se as corporações existirem.

Nathan concorda. Sem as corporações, o caos reinará e não haverá mais distinção entre a metrópole e o exterior.  

“Como Zeus é o Olimpo, as corporações são Sonata”, pensa ele.

O rapaz pergunta:

- Podem protótipos e humanos coexistirem?

Incisivo, o diretor da Bio Prótesis responde:

- Os moribundos humanos foram tragados pelo vírus. O Protótipo #8 é o futuro da espécie agora. Para a velha humanidade, o único futuro possível é a extinção.

Ao ouvir esta dura realidade, o rapaz se assombra.     

Os robôs averiguam os soldados da Subtopia. Entre os mortos, eles encontram homens e mulheres. Apex olha para Nathan e afirma:

- Mestre Nathan, se o que sobrou da humanidade está aqui, eles foram extintos para sempre.

Mais uma vez o rapaz se consterna.

Sabendo que Maynard tinha entre 45 e 50 anos, o líder sugere:

- Maynard é um humano puro. Se ainda houverem fêmeas no exterior, a humanidade poderá sobreviver.

Com semblante sério, o mercenário responde:

- Eu não tenho maturidade para ter filhos.

Apex insiste:

- Mas se trata da sobrevivência da raça. Durante milênios a humanidade fez da união estável sua tradição. Baseada nos sentimentos ou em interesses pessoais, ela teve por finalidade perpetuar a espécie e lhes garantir um futuro. Nesse caso, o papel dos pais foi fundamental para a criação dos filhos.

Sorrindo, o mercenário responde:

- Desculpe-me, mas eu já fui casado.

As palavras de Apex machucam o rapaz. “Os sentimentos”, pensa ele. “Eu tive sentimentos, mas e o que teve Laura?”. Entristecendo-se, ele pensa. “Interesses pessoais”.

Respirando fundo, Nathan se vira aos diretores e declara:

- Está bem. Eu me juntarei à Cúpula Corporativa.

Com lágrimas nos olhos, ele caminha em direção ao tanque. Então Maynard o interrompe:

- Pense bem, garoto. Ao fazer isso, você não poderá voltar atrás.

Ele olha para o mercenário e diz:

- E para quem eu voltaria? Eu sou órfão. Eu não tenho família.

Maynard insiste:

- Você tem outra pessoa. Laura.

Então o seu coração dói novamente. Ele se lamenta.

- E onde está Laura agora?

O mercenário se silencia; ele sabe que os dois terminaram. Laura foi um tanto cruel ao terminar o namoro, pois sabia que Nathan lhe dava amor incondicional e que faria de tudo para estar ao seu lado, inclusive se tornar um ciborgue.

As memórias vêm à mente de Nathan. Foi ideia dela entrega-lo à Design Inteligente, mas a garota não se importa com os sentimentos alheios. Ao tão somente ver o que ele se tornara, ela o dispensou, estraçalhando o seu coração.

“Essa ferida é profunda e nunca se cicatrizará, permanecendo sangrando em seu peito para sempre”, pensa Maynard.

Desiludido no amor, Nathan decide se juntar à Cúpula Corporativa.

Como um berço de ouro, o tanque brilha à sua frente. Por dentro, o tanque era transparente e tinha cabos por toda parte. Nathan entra e se deita. A tampa lentamente se fecha e ele se sente deitado em um sarcófago. Como sanguessugas, os cabos tocam seu corpo e se conectam à sua pele. Um conector segura sua cabeça e uma broca perfura sua nuca, causando-lhe dor. Em seguida um cabo se conecta ao seu cérebro e altera sua consciência. E então algo acontece.

Como um deus dotado de onisciência, o rapaz vê imagens de toda a metrópole em sua mente. Tudo lhe era revelado, desde imagens de segurança, conhecimentos passados e dados tecnológicos das corporações.

A experiência lhe extasia. Aquilo era muito mais profundo e intenso do que navegar no ciberespaço. De fato, Nathan sente como se fosse o próprio ciberespaço, e não mais um reles usuário dele. Em um piscar de olhos, ele viaja para cada canto de Sonata. Maravilhado, o rapaz sente que não precisava mais de corpo. Detalhes triviais como roupas, calçados, cosméticos e higiene pessoal, tudo era irrelevante e ultrapassado. Seu corpo se adaptava a uma nova condição de existência, eliminando de si a necessidade fisiológica e anatômica.

Seu corpo não era mais necessário. Sua mente era a única necessidade possível. Passado, presente e futuro se fundiam. A onipresença virtual estava ao seu alcance através de dezenas de milhares de braços espalhados por Sonata. O rapaz podia correr e voar sem jamais ter de sair do lugar. Tudo lhe era acessível naquela matriz.

Nathan se tornava uma deidade tecnológica.    

A luz intensa ilumina o salão e ofusca o mercenário. O tanque se movimenta e se levanta, aproximando-se do demais diretores. O rapaz é recebido pela Cúpula Corporativa e os tanques se preparam para retornar ao seu abrigo. Ao começar a descer, Apex pergunta:

- Mestre Nathan, o que faremos sem você?

Como Deus Ex Machina, o rapaz responde:

- Seja o mediador dos humanos e dos robôs, meu servo fiel.

Assentindo, ele faz outra pergunta:            

- E quanto a Stella?

Com benevolência, o rapaz apenas diz:

- Deixe-a viver.

Em seguida os tanques descem e retornam ao seu abrigo. Alguns segundos depois aquela luz intensa se apaga e todo o salão fica escuro novamente.

O silêncio se levanta e a neblina novamente se arrasta pelo ambiente. Sentindo o frio em seu corpo, Maynard sacode suas roupas e sorri. Empunhando sua escopeta, ele se vira e vai embora.

 

§

 

Minutos antes, os Trans-humanistas passeiam pela praça corporativa e comemoram sua vitória. Laura está lá também e contempla a devastação causada pela Rebelião. Os mecanicistas não se importam com o estrago e festejam alegremente. Huxley se aproxima e lhe oferece uma bebida, mas ela rejeita.

De repente uma luz brilha no topo da megatorre. Todos param o que estão fazendo e olham para cima. A luz vinha da Cúpula Corporativa.

A Frente Ateísta e a Bushido também param para contemplar a luz. A polícia e os manifestantes param também, hipnotizados pelo intenso brilho.

Ninguém sabe o que está acontecendo. Todos estavam ocupados comemorando sobre os cadáveres de seus inimigos. Acreditando terem vencido a batalha, eles festejavam a tomada da cidade. Mas isto estava muito longe da verdade.

Lá em cima, Nathan se fundia à cúpula. A Rebelião se encerrava, mas uma nova era se iniciava na metrópole. Como os pilares do Monte Olimpo, as corporações permaneceram, sustentando o paraíso terreno chamado Sonata.

As corporações não caíram e foi Nathan quem impediu sua queda. Iniciando um novo regime com as ruínas do antigo, o Inimigo de Estado se tornava o novo diretor, ou como disse os diretores, o protetor do povo.

Mas se, de fato, ele lhes daria proteção, apenas o tempo podia dizer.

Laura contempla a luz lá em cima. Ela sabe que Nathan está lá, combatendo ao lado de seus robôs. Ela pensa muito nele e se preocupa com sua segurança. Mas, controlando-se, ela tenta manter sua postura fria.

De repente a luz se apaga e tudo fica em silêncio novamente. Algo a incomoda e Laura sente o carinho de Nathan em seu ombro. Virando-se, o vento sopra e ela não vê ninguém.

As facções voltam a comemorar livremente. Distraída, Laura toca o seu ombro e se entristece. Então lágrimas se formam e ela chora intensamente, permanecendo sozinha enquanto os facciosos festejam ao seu redor.


    

 

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