sexta-feira, 21 de janeiro de 2022

Sonata - 71 - Subtopia

 


(Artista desconhecido)


Lá fora, na vasta praça, uma outra facção aparece. Os manifestantes e policiais, ainda em confronto, são pegos de surpresa por misteriosos atiradores. Vestidos com uniformes pretos e máscaras de gás, a desconhecida facção avança com fuzis em mãos. Suas armas, porém, não atiram balas ou lasers, mas dardos contendo misteriosos venenos.

Os clérigos guardavam o salão de entrada do edifício. Eles se espantam ao verem soldados encapuzados com uniformes que mais se pareciam trapos. Os desconhecidos atiravam indistintamente, atingindo tanto policiais quanto manifestantes.

Os dados perfuram as pessoas e imediatamente o veneno é injetado em seus corpos. Estarrecidos, os clérigos veem as vítimas terem suas veias enegrecidas pelo veneno sob sua pele. A contaminação os definha e eles tombam, morrendo em lenta agonia sobre o chão. 

Intrigado, um paladino se aproxima de John August e pergunta:

- Eminência, quem são estes varões?

O profeta responde:

- Eu não sei, pobre alma, mas se eles atacarem as ovelhas de minha congregação, elimine-os.

Tanques da 4 de Julho estavam em seu caminho; os americanos se paralisam para vê-los também. De repente bombas se estouram e os clérigos veem um gás preto se levantando entre os veículos. Os americanos abrem as escotilhas e se lançam para fora, sufocando sob o efeito do gás. Eles também sofriam com aquela coloração nefasta sob suas peles.

Então, sob a nuvem mortífera de gás eles aparecem. Os clérigos veem ciborgues quadrúpedes com canhões montados sobre suas costas. Eles se espantam ao verem que aquelas aberrações eram experimentos humanos.

“Seriam eles os Trans-humanistas?”, pergunta-se John August.

Apesar de seus caminhos raramente se encontrarem, os clérigos conheciam os mecanicistas. Eles jamais tiveram aquela aparência de indigentes. Como toda outra facção, os mecanicistas tinha postura e honra. 

Na entrada da megatorre, John August está apreensivo. A estranha facção se organiza em formação de ataque e os encaram. Então aqueles soldados esfarrapados junto de suas aberrações cibernéticas marcham rumo ao edifício.  Prevendo o iminente confronto, o profeta alinha seus paladinos e ordena:

- Atacar!

Os primeiros tiros são disparados, até que aquela nuvem de gás preto começa a subir.

Acima, na Cúpula Corporativa, Nathan, Database e os diretores se silenciam. Eles ouvem gritos de agonia e tiros vindo dos andares inferiores. Uma voz surge no comunicador do rapaz e diz:

“Nathan! Está me ouvindo? Estamos sendo atacados!”.

Ele reconhece a voz de do General Washington.

- George! O que está havendo? Quem está atacando-o?

“Eu não sei! Mas eles estão usando um tipo de vírus!”.

- Um vírus...?!

Apex informa:

- Mestre Nathan, a megatorre está sendo invadida.

Surpreso, o rapaz não conseguem imaginar quem poderia ser.

- Por quem?

- Não sabemos. Os invasores são tropas desconhecidas.

Database os interrompe:

- Tropas desconhecidas?! Por acaso esse é mais um truque das corporações?

- Não. – responde o diretor da Cellgenesis – Não temos mais o que temer. Já fomos derrotados. Mas uma relíquia do passado se aproxima com o rancor e a fúria de quem pede justiça.

O rapaz pergunta:

- O que quer dizer? Quem são estas relíquias?

- Finado o Projeto Gemini, a humanidade foi substituída pelo Protótipo #8, mas a antiga humanidade não acabou extinta. Infectados e moribundos permaneceram, conservando sua espécie e resistindo ao vírus. Eles vivem no exterior da metrópole, renegados ao antigo mundo do qual eles insistiram em manter.  

Ao ouvi-lo, ele não se lembra de quem ele está falando. Então algo acontece

Uma fumaça negra se levanta na entrada. Pessoas se arrastam para dentro mas, sucumbindo ao sufocante veneno, se desabam no piso. O rapaz se espanta. Entre as vítimas ele via policiais, manifestantes, clérigos e americanos.

“Eles estão matando a todos indistintamente?”, pergunta-se Nathan.

De repente um projétil atravessa a fumaça e atinge o seu peito. Ele grita e cai no chão, ferido. Os robôs reconhecem um dardo envenenado cravado em sua pele. Em segundos o veneno se infiltra em seu organismo e percorre suas veias, tornando-as pretas como a face da morte.

Enquanto o rapaz se contorce e sufoca, figuras desconhecidas aparecem entre a fumaça. Database vê soldados em trapos pretos portando fuzis. Eles se aproximam e o chefe vê máscaras de gás em seus rostos. Um deles a tira e diz:

- Sua utilidade acaba aqui, Inimigo de Estado.

O diretor da Bio Prótesis diz:

- Nos vemos de novo, Copérnico. Voltou para destruir Sonata?

Com ódio em sua voz, ele responde:

- Sim, mestres. Cada um de vocês.

Surpreso, Database sorri. Ele finalmente encontrara seu antecessor. Ele pergunta:

- Então você é o Copérnico?

O ex-ministro olha para o chefe e lhe aponta a sua arma. Database imediatamente levanta as mãos, rendendo-se.

- Os senhores criaram muitos inimigos, meus antigos mestres. Primeiro a mim e então a este marginal. – diz ele, referindo-se a Database – Do alto deste Monte Olimpo os senhores realmente pensaram que estariam a salvo para sempre?

Vendo o rapaz contorcendo-se sobre o chão, o diretor da Electro Core diz:

- O preço de sua vingança é a vida de um inocente. Ambos usaram a este rapaz. O marginal e você não são diferentes.

O diretor da Hoverdrive se lamenta:

- Pobre Inimigo de Estado. Pitágoras o usou para realizar sua ambição megalomaníaca. Mas você usou o Nathan, o Pitágoras e todo o seu submundo do crime. E para quê? Para dançar sobre as ruínas da última civilização existente. 

Copérnico responde:

- Ele foi só uma ferramenta. Nada e nem ninguém obstruirá a ascensão da Subtopia.

O diretor da Cellgenesis diz:

- Tolo! Com o seu vírus não haverá nenhuma ascensão possível!

Copérnico ri.

- Este não é o vírus de 2057, mas um veneno aprimorado de alta letalidade aos protótipos de Deus Ex Machina. Em breve todos irão perecer!

Os robôs apontam suas armas e se preparam para lutar. Inesperadamente alguém intervém.

- Não atirem! – ordena Apex, intrigando-os – Apenas esperem.

De repente o veneno é neutralizado e o organismo de Nathan é restabelecido. Apoiando-se em seu cotovelo, ele se levanta e abana o pó de suas roupas. Copérnico arregala os olhos e pergunta:

- Como isso é possível?!

O rapaz arranca o dardo de seu corpo, lançando-o ao chão. Apex os esclarece, dizendo:

- Seu veneno pode ser letal ao Protótipo #8, mas Nathan perdeu seu organismo sintético projetado por Deus Ex Machina. Nós, da Design Inteligente, o restauramos com partes de robôs. A tecnologia robótica repôs o seu organismo, tornando-o um ciborgue autoimune.

Recompondo-se, Nathan vê homens encapuzados acompanhados de ciborgues quadrúpedes. Ele pergunta:

- Subtopia...?!

Irritado, Copérnico exclama:

- Então foi por isso que eu fui banido? Por revelar a verdade sobre experimentos genéticos do qual o próprio Inimigo de Estado faz parte?!

Os ciborgues de Subtopia são mais medonhos do que qualquer máquina de guerra trans-humanista. O rapaz via quadrúpedes sujos e deformados. Alguns tinham tentáculos hidráulicos no lugar das pernas. Reconhecendo seres humanos nos corpos daquelas criaturas, ele se assombra.

- O que Copérnico diz é verdade? As corporações realmente foram as responsáveis por isso?

O diretor da Bio Prótesis responde:

- Nathan, para alcançarmos o progresso os valores do passado tiveram de ser anulados. A antiga moral e a ética foram substituídas. Tudo o que remetia aos valores passados foram proibidos, incluindo leis, ideologias e religiões. Com o caminho livre, a ciência e a tecnologia puderam progredir.

O diretor da Cellgenesis complementa:

- Imagine o corpo como uma fonte de potencial infinito. Você o condenaria aos limites de sua própria fisiologia, privando-o de sua evolução? Ou você o evoluiria à sua capacidade máxima como o fez a própria Deus Ex Machina?

Ao ouvi-los, o rapaz entende como o ideal estritamente tecnocrata das corporações foi o principal responsável pela aparição de extremistas em Sonata.

- Mas vocês experimentaram em cobaias humanas, submissas ao seu poder.

O diretor da Electro Core responde:

- Quem você vê são criminosos violentos e presos políticos, ambos condenados à prisão perpétua. Em nosso sistema penitenciário, indivíduos problemáticos pertencem exclusivamente às corporações. Nós os tiramos das ruas, as tornamos mais seguras aos cidadãos sonatenses. Além do mais, não fomos os únicos a realizar tais experiências. Indivíduos visionários e de inteligência notável também compartilharam dos nossos ideais. Você os conhece pelo nome de Trans-humanistas.

O diretor da Hoverdrive diz:

- Deus Ex Machina deu ao ser humano a possibilidade de se tornar uma deidade com o Protótipo #8. Não mais estávamos limitados ao velho corpo. Se agora os homens podiam se tornar deuses, inicialmente nós os tornaríamos anjos.

Nesse momento Nathan percebe como a Resistência Purista se enganou ao acreditar na preservação da pureza humana. Ele pensa:

“Nunca fomos puros, sempre fomos o Protótipo #8”.

Irritado, o rapaz novamente pondera. As corporações experimentavam em criminosos involuntários. Ele imagina como tudo aquilo foi moralmente condenável, mas acusa-los seria inútil. Eles não mais acreditavam nos valores antigos.

Nathan pergunta:

- Se estes eram os seus novos ideais, por que não os revelaram a todos? Por que não expuseram os seus experimentos?

O diretor da Bio Prótesis responde:

- A população não estava preparada para saber. O segredo precisou ser mantido por mais tempo. Apenas os mais privilegiados tinham acesso a essa informação. Por esta razão, o Ministério da Informação foi criado.  

Copérnico os interrompe:

- Vocês podem fantasiar como quiserem, mas a humanidade não se perdeu com o velho mundo. No Ministério da Informação eu descobri a verdade. Experiências em seres humanos eram realizadas, o Projeto Gemini substituiu a humanidade e os velhos seres humanos não foram extintos. A caixa de Pandora foi aberta e eu fui injustamente punido. – diz ele, referindo-se ao ministério – Eu descobri a verdade e fui banido. Mas através do Inimigo de Estado ela finalmente foi revelada. E hoje eu volto, trazendo o conhecimento comigo!  

Os diretores riem.

- Ora, veja só você, Copérnico! Se sente um Prometeu roubando o fogo do Olimpo e dando-o aos seres humanos. Mas você não é o Prometeu, a Cúpula não é o Olimpo e tampouco sua “verdade” é o fogo. – responde o diretor da Electro Core – Nós somos a verdade e você é apenas uma peça do nosso jogo.

O líder da Subtopia se indigna, revelando um passado obscuro inclusive para Database.

- Jogo?! Houve uma guerra entre protótipos e humanos! Eu descobri tudo no Ministério da Informação! Ao serem derrotados, vocês os condenaram no exterior para morrer! Mas enquanto sua cidade prosperava, os sobreviventes se esforçavam, lutando diariamente pela sobrevivência! Nunca houve uma segunda chance! Durante séculos eles viveram como indigentes, negados ao direto a vida em seu próprio mundo! – então ele conclui – Vocês não são os preservadores da espécie, vocês são os seus exterminadores! Os verdadeiros genocidas!

Com a bombástica revelação, eles ficam em silêncio por um tempo.

Database ousadamente comenta:

- O Ministério da Informação se tornou um celeiro de subversivos, não é mesmo, “mestres”? Talvez a informação realmente nos corrompa pois, como dizem por aí, “informação é poder”.

- Então é verdade? – pergunta Nathan – A Subtopia realmente são os sobreviventes da raça humana?

Pesaroso, o diretor da Cybersys responde:

- Exato. Eles são os descendentes daqueles que rejeitaram o Protótipo #8. Por séculos eles resistiram, sobrevivendo com vacinas e máscaras de gás. Esperávamos que estes indigentes se extinguissem, nos livrando de sua ameaça. Mas não foi isso o que aconteceu. E então apareceu Copérnico, revelando-lhes a verdade e arregimentando-os em uma nova facção: Subtopia.

O rapaz se surpreende. Observando os soldados do exterior, ele apenas via indigentes em trapos pretos. Atrás de suas máscaras, ele via peles cinzentas como se estivessem doentes. De falto, ele jamais acreditaria que aqueles eram os verdadeiros humanos de 2057.

Interrompendo-o novamente, Apex diz:

- Mestre Nathan, há um novo invasor no edifício.

Os soldados se afoitam, preparando-se para um eventual conflito.

Bots de segurança aparecem e metralham os facciosos da Subtopia. Alguns são baleados e feridos, mas outros se protegem e atiram de volta. Os robôs protegem o rapaz e o levam para longe. No meio da confusão, Database desaparece no salão escuro.

- Matem o invasor! – ordena Copérnico.

Mas os bots avançavam e ninguém via o invasor em lugar algum.

Os ciborgues quadrúpedes atacam os bots. Eles correm pelo ambiente com extrema agilidade. Aqueles com tentáculos hidráulicos pulam tão alto que alcançam o teto. Poucos minutos depois eles empurram os bots e os derrubam. Em segundos eles despedaçam os bots, esmagando-os sob os seus pés.

Ao vê-los em ação, o rapaz percebe que os ciborgues não eram robóticos como os Securitrons ou emocionalmente instáveis como a Design Inteligente. Eles eram apenas pessoas em bizarros corpos alterados. Independentemente de seu passado violento, nenhum detento deveria passar pelo horror de ser desmembrado em experiências genéticas. Nathan pensa como deve ter sido horrível dormir e acordar em um corpo quadrúpede.    

Tiros voam para todos os lados. Então, aparecendo entre os cadáveres na entrada do salão, um homem se aproxima. O rapaz se espanta e exclama:

- Maynard...?!

Recarregando sua escopeta, o mercenário responde:

- Olá, garoto.

- O que veio fazer aqui?!

- Pensei em passar para dar um oi.

Irritado, Copérnico ordena:

- Matem-no!

Os soldados atiram seus dardos envenenados em Maynard. Um campo de força se revela, protegendo-o atrás de uma barreira Kinect. Então os ciborgues disparam bombas de gás e o veneno se levanta, obscurecendo-o entre a fumaça. Preocupado, o rapaz teme por sua vida naquela fumaça negra.

Um minuto se passa, mas os soldados estão atentos. Ali havia veneno o suficiente para matar uma dúzia de protótipos. Confiante, o líder sabe que ninguém poderia sobreviver àquela quantidade. 

Então algo acontece.

Imóvel entre a fumaça, o veneno se dissipa e eles veem o mercenário parado ali. Os facciosos se surpreendem.

- Adorei. – comenta Maynard – Tem outros sabores?

A Subtopia não esboça reação. Copérnico abre os braços e diz:

- Maynard, o famoso mercenário responsável por começar tudo isto! Nós poderíamos ter trabalhado juntos, Maynard, mas você sempre se mete onde não é chamado e se recusa a morrer! – acusa ele – Você sobreviveu ao confronto com meus runners e os matou em seguida. Por outro lado... – pondera ele – Ainda pode haver utilidade para alguém com seus talentos em meu governo.

Maynard jocosamente responde:

- Fale com o meu agente.

Nathan pergunta:

- Como você sobreviveu ao veneno?

O mercenário não responde. Então Copérnico sorri.

- Maynard está aqui para ocultar um segredo sobre si mesmo.

- Como assim? – pergunta o rapaz.

- Ele também é um humano!

O rapaz arregala os olhos.

- Como isso é possível?

- O mercenário participou de um programa espacial e foi resgatado quando sua nave voltou para a Terra. As corporações o acolheram, mas seu mundo e seu tempo ficaram para trás. Por isso ele não tem implantes ou próteses. Maynard não é um protótipo. Ele é e sempre foi um humano. – revela ele – Hoje ele é um cachorro sem dono, um vira-latas rondando a metrópole sem direção.   

Lembrando-se do VHS Nightclub, o rapaz reconhece que o que Maynard disse era verdade. Ele realmente fez parte da extinta Agência de Vigilância Internacional, como dissera.

Interrompendo-os, o diretor da Electro Core responde:

- Assim como os indigentes da Subtopia, o mercenário também é uma relíquia do passado. Uma relíquia que se recusa a se extinguir.

- Haverá uma extinção. – intervém Maynard – Mas não dos humanos ou dos protótipos, mas da velha ordem em Sonata.

Nathan se intriga.

- Do que está falando, Maynard?

- As facções. – responde ele – Elas estão se matando lá embaixo. E tudo graças a Laura... – e então ele pondera um pouco – E a mim.

Aparecendo entre os robôs, Database o ironiza.

- Ora, mas quem poderia imaginar?

 

 

 

 

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