(Artista desconhecido)
Lá fora, na vasta praça, uma outra facção aparece. Os manifestantes e policiais,
ainda em confronto, são pegos de surpresa por misteriosos atiradores. Vestidos
com uniformes pretos e máscaras de gás, a desconhecida facção avança com fuzis
em mãos. Suas armas, porém, não atiram balas ou lasers, mas dardos contendo
misteriosos venenos.
Os clérigos guardavam o salão de entrada do edifício. Eles se espantam ao verem soldados
encapuzados com uniformes que mais se pareciam trapos. Os desconhecidos
atiravam indistintamente, atingindo tanto policiais quanto manifestantes.
Os dados perfuram
as pessoas e imediatamente o veneno é injetado em seus corpos. Estarrecidos, os
clérigos veem as vítimas terem suas veias enegrecidas pelo veneno sob sua pele. A contaminação os definha e eles tombam, morrendo em lenta agonia
sobre o chão.
Intrigado, um
paladino se aproxima de John August e pergunta:
- Eminência, quem
são estes varões?
O profeta
responde:
- Eu não sei,
pobre alma, mas se eles atacarem as ovelhas de minha congregação,
elimine-os.
Tanques da 4 de
Julho estavam em seu caminho; os americanos se paralisam para vê-los também. De repente bombas se
estouram e os clérigos veem um gás preto se levantando entre os veículos. Os
americanos abrem as escotilhas e se lançam para fora, sufocando sob o efeito do
gás. Eles também sofriam com aquela coloração nefasta sob suas
peles.
Então, sob a
nuvem mortífera de gás eles aparecem. Os clérigos veem ciborgues quadrúpedes com
canhões montados sobre suas costas. Eles se espantam ao verem que aquelas aberrações
eram experimentos humanos.
“Seriam eles os
Trans-humanistas?”, pergunta-se John August.
Apesar de seus
caminhos raramente se encontrarem, os clérigos conheciam os mecanicistas. Eles
jamais tiveram aquela aparência de indigentes. Como toda outra facção, os
mecanicistas tinha postura e honra.
Na entrada da
megatorre, John August está apreensivo. A estranha facção se organiza em
formação de ataque e os encaram. Então aqueles soldados esfarrapados junto de
suas aberrações cibernéticas marcham rumo ao
edifício. Prevendo o iminente confronto,
o profeta alinha seus paladinos e ordena:
- Atacar!
Os primeiros tiros são disparados, até que aquela nuvem de gás preto começa a subir.
Acima, na Cúpula
Corporativa, Nathan, Database e os diretores se silenciam. Eles ouvem gritos de
agonia e tiros vindo dos andares inferiores. Uma voz surge no comunicador do
rapaz e diz:
“Nathan! Está me
ouvindo? Estamos sendo atacados!”.
Ele reconhece a
voz de do General Washington.
- George! O que
está havendo? Quem está atacando-o?
“Eu não sei! Mas
eles estão usando um tipo de vírus!”.
- Um vírus...?!
Apex informa:
- Mestre Nathan,
a megatorre está sendo invadida.
Surpreso, o rapaz
não conseguem imaginar quem poderia ser.
- Por quem?
- Não sabemos. Os
invasores são tropas desconhecidas.
Database os interrompe:
- Tropas
desconhecidas?! Por acaso esse é mais um truque das corporações?
- Não. – responde
o diretor da Cellgenesis – Não temos mais o que temer. Já fomos derrotados. Mas
uma relíquia do passado se aproxima com o rancor e a fúria de quem pede
justiça.
O rapaz pergunta:
- O que quer
dizer? Quem são estas relíquias?
- Finado o
Projeto Gemini, a humanidade foi substituída pelo Protótipo #8, mas a antiga
humanidade não acabou extinta. Infectados e moribundos permaneceram,
conservando sua espécie e resistindo ao vírus. Eles vivem no exterior da metrópole,
renegados ao antigo mundo do qual eles insistiram em manter.
Ao ouvi-lo, ele
não se lembra de quem ele está falando. Então algo acontece
Uma fumaça negra
se levanta na entrada. Pessoas se arrastam para dentro mas, sucumbindo
ao sufocante veneno, se desabam no piso. O rapaz se espanta. Entre as vítimas
ele via policiais, manifestantes, clérigos e americanos.
“Eles estão
matando a todos indistintamente?”, pergunta-se Nathan.
De repente um
projétil atravessa a fumaça e atinge o seu peito. Ele grita e cai no chão,
ferido. Os robôs reconhecem um dardo envenenado cravado em sua pele. Em
segundos o veneno se infiltra em seu organismo e percorre suas veias,
tornando-as pretas como a face da morte.
Enquanto o rapaz
se contorce e sufoca, figuras desconhecidas aparecem entre a fumaça. Database
vê soldados em trapos pretos portando fuzis. Eles se aproximam e o chefe vê
máscaras de gás em seus rostos. Um deles a tira e diz:
- Sua utilidade
acaba aqui, Inimigo de Estado.
O diretor da Bio
Prótesis diz:
- Nos vemos de
novo, Copérnico. Voltou para destruir Sonata?
Com ódio em sua
voz, ele responde:
- Sim, mestres. Cada
um de vocês.
Surpreso, Database
sorri. Ele finalmente encontrara seu antecessor. Ele pergunta:
- Então você é o Copérnico?
O ex-ministro
olha para o chefe e lhe aponta a sua arma. Database imediatamente levanta as
mãos, rendendo-se.
- Os senhores criaram muitos inimigos, meus antigos mestres. Primeiro a mim e então a este marginal. – diz ele, referindo-se a Database – Do alto deste Monte Olimpo os senhores realmente pensaram que estariam a salvo para sempre?
Vendo o rapaz
contorcendo-se sobre o chão, o diretor da Electro Core diz:
- O preço de sua
vingança é a vida de um inocente. Ambos usaram a este rapaz. O marginal e você não são
diferentes.
O diretor da
Hoverdrive se lamenta:
- Pobre Inimigo
de Estado. Pitágoras o usou para realizar sua ambição megalomaníaca. Mas você
usou o Nathan, o Pitágoras e todo o seu submundo do crime. E para quê? Para
dançar sobre as ruínas da última civilização existente.
Copérnico
responde:
- Ele foi só uma
ferramenta. Nada e nem ninguém obstruirá a ascensão da Subtopia.
O diretor da
Cellgenesis diz:
- Tolo! Com o seu
vírus não haverá nenhuma ascensão possível!
Copérnico ri.
- Este não é o
vírus de 2057, mas um veneno aprimorado de alta letalidade aos protótipos de
Deus Ex Machina. Em breve todos irão perecer!
Os robôs apontam
suas armas e se preparam para lutar. Inesperadamente alguém intervém.
- Não atirem! –
ordena Apex, intrigando-os – Apenas esperem.
De repente o
veneno é neutralizado e o organismo de Nathan é restabelecido. Apoiando-se em
seu cotovelo, ele se levanta e abana o pó de suas roupas. Copérnico arregala os
olhos e pergunta:
- Como isso é
possível?!
O rapaz arranca o
dardo de seu corpo, lançando-o ao chão. Apex os esclarece, dizendo:
- Seu veneno pode
ser letal ao Protótipo #8, mas Nathan perdeu seu organismo sintético projetado
por Deus Ex Machina. Nós, da Design Inteligente, o restauramos com partes de
robôs. A tecnologia robótica repôs o seu organismo, tornando-o um ciborgue autoimune.
Recompondo-se,
Nathan vê homens encapuzados acompanhados de ciborgues quadrúpedes. Ele pergunta:
- Subtopia...?!
Irritado,
Copérnico exclama:
- Então foi por
isso que eu fui banido? Por revelar a verdade sobre experimentos genéticos do
qual o próprio Inimigo de Estado faz parte?!
Os ciborgues de
Subtopia são mais medonhos do que qualquer máquina de guerra trans-humanista. O
rapaz via quadrúpedes sujos e deformados. Alguns tinham tentáculos hidráulicos
no lugar das pernas. Reconhecendo seres humanos nos corpos daquelas criaturas,
ele se assombra.
- O que Copérnico
diz é verdade? As corporações realmente foram as responsáveis por isso?
O diretor da Bio
Prótesis responde:
- Nathan, para
alcançarmos o progresso os valores do passado tiveram de ser anulados. A antiga
moral e a ética foram substituídas. Tudo o que remetia aos valores passados
foram proibidos, incluindo leis, ideologias e religiões. Com o caminho livre, a
ciência e a tecnologia puderam progredir.
O diretor da
Cellgenesis complementa:
- Imagine o corpo
como uma fonte de potencial infinito. Você o condenaria aos limites de sua
própria fisiologia, privando-o de sua evolução? Ou você o evoluiria à sua
capacidade máxima como o fez a própria Deus Ex Machina?
Ao ouvi-los, o
rapaz entende como o ideal estritamente tecnocrata das corporações foi o
principal responsável pela aparição de extremistas em Sonata.
- Mas vocês
experimentaram em cobaias humanas, submissas ao seu poder.
O diretor da
Electro Core responde:
- Quem você vê
são criminosos violentos e presos políticos, ambos condenados à prisão perpétua.
Em nosso sistema penitenciário, indivíduos problemáticos pertencem
exclusivamente às corporações. Nós os tiramos das ruas, as tornamos mais
seguras aos cidadãos sonatenses. Além do mais, não fomos os únicos a realizar
tais experiências. Indivíduos visionários e de inteligência notável também
compartilharam dos nossos ideais. Você os conhece pelo nome de
Trans-humanistas.
O diretor da
Hoverdrive diz:
- Deus Ex Machina
deu ao ser humano a possibilidade de se tornar uma deidade com o Protótipo #8.
Não mais estávamos limitados ao velho corpo. Se agora os homens podiam se
tornar deuses, inicialmente nós os tornaríamos anjos.
Nesse
momento Nathan percebe como a Resistência Purista se enganou ao acreditar na preservação
da pureza humana. Ele pensa:
“Nunca
fomos puros, sempre fomos o Protótipo #8”.
Irritado,
o rapaz novamente pondera. As corporações experimentavam em criminosos involuntários.
Ele imagina como tudo aquilo foi moralmente condenável, mas acusa-los seria
inútil. Eles não mais acreditavam nos valores antigos.
Nathan
pergunta:
-
Se estes eram os seus novos ideais, por que não os revelaram a todos? Por que não
expuseram os seus experimentos?
O
diretor da Bio Prótesis responde:
-
A população não estava preparada para saber. O segredo precisou ser mantido por
mais tempo. Apenas os mais privilegiados tinham acesso a essa informação. Por
esta razão, o Ministério da Informação foi criado.
Copérnico
os interrompe:
-
Vocês podem fantasiar como quiserem, mas a humanidade não se perdeu com o velho
mundo. No Ministério da Informação eu descobri a verdade. Experiências em seres
humanos eram realizadas, o Projeto Gemini substituiu a humanidade e os velhos
seres humanos não foram extintos. A caixa de Pandora foi aberta e eu fui injustamente punido. – diz ele, referindo-se ao ministério – Eu descobri a verdade e fui banido. Mas através do Inimigo de Estado ela finalmente foi
revelada. E hoje eu volto, trazendo o conhecimento comigo!
Os
diretores riem.
-
Ora, veja só você, Copérnico! Se sente um Prometeu roubando o fogo do Olimpo e
dando-o aos seres humanos. Mas você não é o Prometeu, a Cúpula não é o Olimpo e
tampouco sua “verdade” é o fogo. – responde o diretor da Electro Core – Nós somos a verdade e você é apenas uma
peça do nosso jogo.
O líder da
Subtopia se indigna, revelando um passado obscuro inclusive para
Database.
- Jogo?! Houve uma
guerra entre protótipos e humanos! Eu descobri tudo no Ministério da
Informação! Ao serem derrotados, vocês os condenaram no exterior para
morrer! Mas enquanto sua cidade prosperava, os sobreviventes se esforçavam,
lutando diariamente pela sobrevivência! Nunca houve uma segunda chance! Durante séculos
eles viveram como indigentes, negados ao direto a vida em seu próprio mundo! – então
ele conclui – Vocês não são os preservadores da espécie, vocês são os seus
exterminadores! Os verdadeiros genocidas!
Com a bombástica revelação,
eles ficam em silêncio por um tempo.
Database
ousadamente comenta:
- O Ministério da
Informação se tornou um celeiro de subversivos, não é mesmo, “mestres”? Talvez
a informação realmente nos corrompa pois, como dizem por aí, “informação é
poder”.
- Então é
verdade? – pergunta Nathan – A Subtopia realmente são os sobreviventes da raça humana?
Pesaroso, o diretor
da Cybersys responde:
- Exato. Eles são
os descendentes daqueles que rejeitaram o Protótipo #8. Por séculos eles
resistiram, sobrevivendo com vacinas e máscaras de gás. Esperávamos que estes
indigentes se extinguissem, nos livrando de sua ameaça. Mas não foi isso o que aconteceu. E então apareceu Copérnico, revelando-lhes a verdade e
arregimentando-os em uma nova facção: Subtopia.
O rapaz se
surpreende. Observando os soldados do exterior, ele apenas via indigentes em
trapos pretos. Atrás de suas máscaras, ele via peles cinzentas como se
estivessem doentes. De falto, ele jamais acreditaria que aqueles eram os verdadeiros
humanos de 2057.
Interrompendo-o
novamente, Apex diz:
- Mestre Nathan, há
um novo invasor no edifício.
Os soldados se
afoitam, preparando-se para um eventual conflito.
Bots de segurança
aparecem e metralham os facciosos da Subtopia. Alguns são baleados e feridos, mas
outros se protegem e atiram de volta. Os robôs protegem o rapaz e o levam para
longe. No meio da confusão, Database desaparece no salão escuro.
- Matem o
invasor! – ordena Copérnico.
Mas os bots
avançavam e ninguém via o invasor em lugar algum.
Os ciborgues
quadrúpedes atacam os bots. Eles correm pelo ambiente com extrema agilidade. Aqueles
com tentáculos hidráulicos pulam tão alto que alcançam o teto. Poucos minutos
depois eles empurram os bots e os derrubam. Em segundos eles despedaçam os bots, esmagando-os sob os seus pés.
Ao vê-los em ação, o rapaz percebe que os ciborgues não eram robóticos como os Securitrons ou
emocionalmente instáveis como a Design Inteligente. Eles eram apenas pessoas em
bizarros corpos alterados. Independentemente de seu passado violento, nenhum
detento deveria passar pelo horror de ser desmembrado em experiências genéticas.
Nathan pensa como deve ter sido horrível dormir e acordar em um corpo quadrúpede.
Tiros voam para
todos os lados. Então, aparecendo entre os cadáveres na entrada do
salão, um homem se aproxima. O rapaz se espanta e exclama:
- Maynard...?!
Recarregando sua
escopeta, o mercenário responde:
- Olá, garoto.
- O que veio fazer
aqui?!
- Pensei em
passar para dar um oi.
Irritado,
Copérnico ordena:
- Matem-no!
Os soldados
atiram seus dardos envenenados em Maynard. Um campo de força se revela,
protegendo-o atrás de uma barreira Kinect. Então os ciborgues disparam bombas
de gás e o veneno se levanta, obscurecendo-o entre a fumaça. Preocupado, o rapaz
teme por sua vida naquela fumaça negra.
Um minuto se
passa, mas os soldados estão atentos. Ali havia veneno o suficiente para matar uma
dúzia de protótipos. Confiante, o líder sabe que ninguém poderia sobreviver
àquela quantidade.
Então algo
acontece.
Imóvel entre a
fumaça, o veneno se dissipa e eles veem o mercenário parado ali. Os facciosos
se surpreendem.
- Adorei. – comenta Maynard – Tem outros sabores?
A Subtopia não esboça
reação. Copérnico abre os braços e diz:
- Maynard, o
famoso mercenário responsável por começar tudo isto! Nós
poderíamos ter trabalhado juntos, Maynard, mas você sempre se mete onde não é
chamado e se recusa a morrer! – acusa ele – Você sobreviveu ao confronto com
meus runners e os matou em seguida. Por outro
lado... – pondera ele – Ainda pode haver utilidade para alguém com seus
talentos em meu governo.
Maynard
jocosamente responde:
- Fale com o meu
agente.
Nathan pergunta:
- Como você sobreviveu
ao veneno?
O mercenário não responde.
Então Copérnico sorri.
- Maynard está
aqui para ocultar um segredo sobre si mesmo.
- Como assim? –
pergunta o rapaz.
- Ele também é um
humano!
O rapaz arregala
os olhos.
- Como isso é
possível?
- O mercenário
participou de um programa espacial e foi resgatado quando sua nave voltou para
a Terra. As corporações o acolheram, mas seu mundo e seu tempo ficaram para
trás. Por isso ele não tem implantes ou próteses. Maynard não é um protótipo. Ele
é e sempre foi um humano. – revela ele – Hoje ele é um cachorro sem dono, um
vira-latas rondando a metrópole sem direção.
Lembrando-se do
VHS Nightclub, o rapaz reconhece que o que Maynard disse era verdade. Ele
realmente fez parte da extinta Agência de Vigilância Internacional, como
dissera.
Interrompendo-os,
o diretor da Electro Core responde:
- Assim como os
indigentes da Subtopia, o mercenário também é uma relíquia do passado. Uma relíquia que se
recusa a se extinguir.
- Haverá uma extinção.
– intervém Maynard – Mas não dos humanos ou dos protótipos, mas da velha ordem
em Sonata.
Nathan se
intriga.
- Do que está
falando, Maynard?
- As facções. – responde
ele – Elas estão se matando lá embaixo. E tudo graças a Laura... – e então ele
pondera um pouco – E a mim.
Aparecendo entre
os robôs, Database o ironiza.
- Ora, mas quem
poderia imaginar?
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