(Foto de Laura Makabresku)
No lado de fora
da Gendarmerie, Tobias se dirige ao pátio onde ficam as carruagens. Chamando um
cocheiro, ele diz:
- Por favor, nos
leve para o Monte Santa Maria.
O cocheiro
arregala os olhos. Em sua comitiva haviam cinco pessoas.
- Inspetor, acho
que precisará de uma carruagem maior.
Então o cocheiro
lhe indica uma carruagem puxada por dois cavalos. Eles entram no veículo e
deixam a estação.
Apertando-se nos
bancos, eles percebem que seria uma viagem bem desconfortável. Mas Valentim
sorria discretamente, pois via naquilo sua chance de procurar por Danica. Ao
partir com a Gendarme, ele espera encontrar pistas sobre o seu paradeiro. Ele
se enche de esperança.
Querendo iniciar
uma conversa, Mladen pergunta:
- Agora eu estou
confuso, inspetor. Estas criaturas fantasiosas vêm ou não vêm do Plasma? Pois
pelo que estava nos dizendo, elas podem ser reais ou alucinações.
Ajeitando-se no
banco, Tobias responde:
- Eu ainda não
sei, guarda. Acredito que o Plasma seja um condutor, ou uma catálise da
realidade em que seres reais e imaginários, oriundos de outros planos, se
mesclam a este plano. Mas são apenas teorias.
Mladen acende seu
cigarro, expelindo a fumaça.
- Seres de outros
planos, não? Como o “mundo encantado”?
O guarda
novamente o zombava. Controlando-se, Tobias responde:
- Como eu disse,
são apenas teorias, mas não difere da crença cristã em que eles afirmam existirem
seres espirituais do Céu e Inferno.
- Céu e inferno?
– pergunta ele, expelindo fumaça.
- Ou islâmica, quanto
a existência dos djinns.
- Eu acredito nos
djinns. – interrompe Davud.
Então eles olham
para o jovem bósnio.
- O que disse?
- Eu acredito nos
djinns. Segundo o Profeta, a paz esteja sobre Ele, os djinns são seres feitos
de um fogo que não fumega. Ele consta principalmente no capítulo 72 do Alcorão,
e significa “aqueles que não se pode ver”. Os djinns fazem parte de nossa
crença.
Valentim se
lembra que, diferente de Carníola, os bósnios seguiam o Islã. Na verdade, essa
era a primeira vez que ele via a um bósnio na vida.
Fumando seu
cigarro, Mladen olha para o jovem ruivo e pergunta:
- Ei, você veio
da Bósnia, não é?
- Sim, senhor.
Mladen então diz:
- A Bósnia foi
invadida e ocupada pelos austro-húngaros em 1878, e hoje vocês prestam servidão
a eles. Vocês têm todos os motivos do mundo para odiá-los, mas você, ao
contrário, os serve. – ele se referia ao seu alistamento na Gendarme – Por quê?
Com o ímpeto
característico da juventude, Davud responde:
- Porque eu não
quero viver sob o jugo dos sérvios! – exclama ele – Sérvios, croatas e bósnios
residem na Bósnia e Herzegovina, mas os sérvios querem toma-la apenas para si!
Eles não reconhecem nossa fé, nossa cultura e principalmente nossa liberdade.
São imperialistas e belicistas; se utilizam de sua aliança histórica com os
russos para nos intimidar. Se eles invadirem a nossa terra, o Império Russo
invadirá também. Será um massacre, uma limpeza étnica assim, por dizer! Jamais
permitirei isso e lutarei contra sua agressão como for, inclusive dando minha
própria vida se necessário! – exclama ele mais uma vez – Mas não conseguiremos
resisti-los sozinhos. Precisamos de aliados poderosos; as potências ocidentais,
por exemplo. Por isso me aliei ao Império Austro-húngaro. Prefiro o jugo
austríaco do que os sérvios sanguinários nos governando.
Todos se espantam
com sua visão política.
- Por que você
acha que estará melhor com os austríacos? – pergunta o guarda.
- Me diga o
senhor: as províncias ilírias vivem sob o jugo austríaco desde o fim do Sacro
Império Romano Germânico. Por acaso vocês sofreram a ameaça de expulsão de suas
terras? De deportação? De eliminação de sua fé católica? De limpeza étnica?
Mladen não sabe o
que responder. Assim como Valentim, ele era só mais um carníolo médio e
ignorante.
- Acho que não.
- E nós também
não queremos. Luto pela liberdade de minha Bósnia e Herzegovina. Este é o meu
maior desejo. – conclui ele.
O guarda fuma seu
cigarro. Olhando para Tobias, ele pergunta:
- Você concorda
com isso, inspetor?
- Bem, eu... – Mladen
expele a fumaça, incomodando-o – Temo que esteja exagerando, guarda Davud. O
Império Austríaco se envolveu em várias guerras... – novamente a fumaça –
Arrastando consigo suas províncias, como Carníola, por exemplo. Assim eles
eliminaram grande parte de seus súditos... – ele abana a fumaça – Devido às
suas desastrosas escolhas políticas. Desde as Guerras Napoleônicas... – ele
tosse – Até mais recentemente, contra os prussianos... – irritando-se ele diz –
Guarda Mladen, pode por favor apagar esse cigarro?
Com olhar
entediado, o guarda olha para ele e responde:
- Não.
E assim eles
prosseguem a viagem.
§
A carruagem passa
por estradas de terra, provocando ruídos nas rodas. Abrindo a janela, Tobias vê
a linda paisagem bucólica ao redor do monte. Ele pergunta:
- Senhor Mirko, é
este o lugar?
Mirko, que esteve
quieto a viagem inteira, responde:
- Sim, senhor
inspetor.
A comitiva então
deixa a carruagem. Ao olhar ao redor, Valentim vê os campos verdes, as
plantações e o vilarejo de Šmartno pod Šmarno Goro ao longe. Á beira da estrada
eles veem uma densa floresta subindo pela encosta do Monte Santa Maria.
Tobias observa a
paisagem a frente. A vasta floresta escondia segredos. Apressando-se, ele diz:
- Atenção,
senhores. Mirko nos guiará pela floresta. Ao percorrerem a área, vocês devem se
manter vigilantes. Cuidar de sua segurança é essencial. Cuidado com as raízes,
limos e pedras soltas. Também tenham cuidado com os animais silvestres. Por
último, se atentem com as pistas que possam encontrar pelo caminho. Até lá,
peço que todos fiquem juntos.
Mladen apaga seu
cigarro e ajeita seu bigode. Valentim se atenta, preparando-se para tudo. Mirko
aperta seu cinto e intenta mostrar o caminho. Então algo acontece.
Davud coloca uma
faixa verde com letras brancas ao redor de sua cabeça. Em seguida ele se
ajoelha e encosta sua testa no chão, fazendo uma prece em outro idioma. O grupo
se intriga.
Curioso, Mladen
pergunta:
- Ei, garoto. O
que você está fazendo?
- Estou pedindo a
Allah por proteção.
Davud se
endireita e então se encurva de novo, repetindo a prece mais uma vez. O grupo
assiste em silêncio, sem entender ao certo. Então ele termina e se levanta,
abanando os seus joelhos e se limpando. O guarda novamente pergunta:
- O que está
escrito aí? – ele se referia à sua faixa.
- La ilaha Ilallah Muhammadar Rasululah. –
responde ele, falando em árabe – Quer
dizer “Não há Deus senão Allah, e Maomé é seu mensageiro”. É o famoso Shahadah, a declaração de fé islâmica.
Todos se
entreolham. Apesar do império ser multiétnico, raramente eles se encontravam
com pessoas de culturas tão diferentes. Agora, com a chegada do Plasma,
Liubliana recebia constantemente essas pessoas.
Finado o seu rito
religioso, Davud se prepara para acompanha-los. Havia uma área aberta, seca e
coberta de pedras antes de chegar à floresta. O cocheiro encosta a carruagem e
desce da boleia. A comitiva inicia a caminhada e sobe a pequena subida ao lado
do monte. Ao olhar para trás, Valentim vê o cocheiro ao longe, encostado em sua
carruagem e fumando um cigarro.
Novamente inquieto,
o tagarela Mladen tenta conversar outra vez.
- Então o que
estamos procurando aqui? Vestígios de sua esposa?
Mirko ri, negando
com a cabeça.
- Não é minha
esposa, é minha filha.
- Filha, é? Eu
tenho filhas também. Uma do primeiro casamento, outra do segundo e uma
garotinha do terceiro.
O grupo se
espanta.
- O senhor está
casado pela terceira vez?! – espanta-se Tobias.
- Não exatamente.
Eu pretendi noivar no terceiro, mas me separei a tempo. Ou melhor, me libertei!
Não ia suportar me casar de novo.
- Mas por quê? Seus
casamentos foram assim tão terríveis?
- Certamente! –
empolga-se ele – Todas os casamentos são.
Então todos se
interessam, querendo participar da conversa. Valentim nota como as melhores
conversas começavam com uma bela polêmica.
- O que houve? As
casadas fizeram mal ao senhor?
- Pode-se dizer
que sim. Mas eu não as culpo. É a natureza do casamento! De fato, acho que esta
instituição foi criada para tornar a vida dos homens miserável...
Eles riem, uns
concordando e outros não.
- Isso foi
extremamente ofensivo... – comenta Tobias.
- Por quê?
- E há
necessidade de me justificar? Eu não creio que o casamento foi criado com o
único objetivo de nos tornar miseráveis!
Mladen ri. Então,
tocando-o no ombro, ele pergunta:
- Você é casado?
O inspetor se
constrange.
- Eu... – hesita
ele.
- Você o quê? –
insiste o guarda.
- Eu tive uma
namorada em Viena, mas ela me deixou.
- Então quer
dizer que você nunca casou? – admira-se ele – E você tem mais de trinta
anos...! Mas muito bem. Você se livrou de uma tremenda enrascada.
A comitiva ri,
com exceção de Tobias.
- Eu a amava!
- E por que ela o
deixou?
O inspetor não
sabe o que responder.
- Eu não sei. Mas
foi devido ao nosso rompimento que eu decidi deixar a Áustria. Eu quis ir o
mais longe que pudesse, para a mais longínqua província do império para nunca
mais ter de vê-la novamente. Tudo em minha terra me lembrava dela.
O guarda assente.
- Então você
concorda que ela deixou sua vida bastante miserável após o rompimento, não?
Tobias reluta em
concordar. Ele ainda se sentia muito magoado.
- Eu fiz tudo por
ela e não foi o suficiente... – lamenta-se ele.
- Mas nunca é! – sorri
ele – No casamente, as casadas são inconstantes, vorazes e extremamente
gananciosas! Nunca estão satisfeitas. Querem mais e mais, e mais... Mais
dinheiro, mais amor, mais emoção... E quando não conseguem mais arranca-los de
nós, nos acusam, nos culpam e nos imputam a causa de sua cínica infelicidade. E
por quê? – pergunta ele – Porque nada pode satisfazer suas vaidades do matrimônio.
Valentim se
avilta. Ele é casado e Danica nunca o tratou assim.
- Vejo que teve
experiências muito ruins em seus casamentos, senhor guarda. Mas eu também não
acho que as casadas sejam assim.
Mirko falava com
ele. Em seu semblante eles viam que ele estava irritado.
- O senhor é
casado?
- Senhor guarda,
eu sou viúvo há oito anos.
Então Mladen se
constrange.
- Meus pêsames,
cidadão. – diz ele – Se o senhor teve uma boa esposa, eu te parabenizo. Porém
não foi o caso comigo e por isso eu nunca mais me casei. Me casar foi a maior
desgraça que eu fiz. Perdi toda a minha juventude e minha liberdade. Nunca mais
me senti alegre ou realizado comigo mesmo. Me lancei em uma fria prisão.
Irônico, já que sou da Gendarme e sou eu quem lança os outros na prisão... – ri
ele – Mas agora que me libertei, tive dezenas de mulheres em minha cama! Eu sou
conhecido em todo bordel. Todas as prostitutas conhecem o meu nome!
O guarda se
alegra. Tobias lhe lança um olhar de repugnância.
- Sendo o senhor um
cristão eu não acho que esteja seguindo corretamente a sua religião, senhor
Mladen.
- Mas do que é
que você está falando?
- Em sua Bíblia
diz que divórcio, prostituição e fornicação são pecados. E o senhor está
cometendo os três.
Mladen ri.
- E quantas
mulheres tiveram os patriarcas? Ou os juízes? Ou melhor ainda, o rei Salomão? –
pergunta ele – Ademais, não é pecado a poligamia no Islamismo, e nós adoramos o
mesmo Deus. Não é, meu jovem?
O guarda olha
para Davud.
- Talvez.
- Não seja
tímido! – repreende ele – Vamos diga. Com quantas mulheres pode um homem se
casar no Islã?
Um pouco confuso,
ele responde:
- Quatro.
- Quatro?! – espantam-se eles.
Todos sorriem,
fantasiando o quão prazeroso seria ter quatro mulheres em suas casas.
- Mas há uma
séria restrição. – adverte ele – No capítulo 4, versículo 3 do Alcorão, Allah
nos orienta a tratar nossas esposas com igualdade e justiça. Mas se o marido
não for capaz de pratica-las, então o Alcorão o orienta a se casar apenas com
uma. A poligamia no Islã tem caráter social e moral, e o marido a total
responsabilidade de cuidar e manter igualmente as suas esposas.
Os homens se
desanimam. Não seria viável ter quatro mulheres em casa.
- Meu jovem,
responda-me: quantas mulheres teve o Profeta Maomé?
Davud pensa.
- Algumas fontes
dizem onze, outras quinze...
Os homens se
estarrecem.
- Como veem, o
Islã, que é o sucessor do cristianismo, está corretíssimo ao legalizar o
casamento poligâmico.
O jovem guarda
sorri, alegrando-se da maior possibilidade de ter um casamento feliz. Notando
seu sorriso, Mirko os interrompe e pergunta:
- Com licença,
guarda Davud. Muito interessante os detalhes de sua religião, mas me responda
uma coisa: você já é casado?
Davud vira o
rosto, envergonhado. Ao demorar para responder, Mladen pergunta:
- O que foi, meu
jovem? Você ainda não se casou?
De cabeça baixa, Davud
meneia negativamente a cabeça. Então Mladen percebe tudo.
- Espere um
minuto. – interrompe ele – Você ainda é virgem! – então o guarda ri
intensamente.
O jovem bósnio
tenta negar, mas sua voz se perde entre os risos do grupo. Foi tão evidente seu
constrangimento que nenhum argumento os convenceria do contrário.
- Como pode ver
vantagem na poligamia se nunca foi casado? Como pode se comparar conosco se
você ainda não se casou? – pergunta Mirko – As casadas não são objetos das
quais você descarta uma e arruma outra. Talvez você mude de ideia quando perder
a mulher que você ama, como eu perdi a minha.
Mirko o repreende
com olhar férreo, como um pai educando o seu filho. Davud fica tão vermelho
quanto os seus cabelos
Abraçando-o em
seu ombro, Mladen diz:
- Não ligue para
ele, meu jovem. Você não perdeu nada não se casando, mas ao se casar não
ganhará nada também. Você é um rapaz virgem, puro, imaculado pelos venenos do
matrimônio. Se eu fosse você, eu jamais me casaria. Você apenas se tornará
amargo e infeliz. E não tenha medo da solidão! – adverte ele – Olhe para mim.
Eu sou divorciado e muito feliz!
O guarda ri
novamente, divertindo-os.
- Mas guarda
Mladen, eu não posso me lançar à libertinagem. Eu desejo me casar um dia.
Mladen se
indigna.
- Pois deixe-me
abrir os seus olhos, garoto, assim você não cometerá os mesmos erros que eu
cometi. – diz ele – Se você pensa em se casar para fazer sexo, saiba de uma
coisa: casados não fazem!
A comitiva se
intriga.
- Ora, essa! Mas
é claro que os casados fazem! – objeta Mirko.
- Não se faça de
desentendido! O senhor foi casado há tanto tempo e não aprendeu? – repreende
ele – Sexo só existe no começo do casamento, depois a casada se esfria e o
restringe mais e mais, até se tornar monótono e maçante. Então se você pensa
que ao se casar você vai viver transando, esqueça!
O jovem guarda se
assusta.
- Mas... –
continua ele – Se você quiser excitar sua esposa e manter seu tesão aceso por
mais tempo, tenha dinheiro!
- O quê?! –
intriga-se ele.
- Não é seu
físico, seu uniforme ou seu sentimento que realmente atrai sua esposa. O que
elas gostam mesmo é de dinheiro! – afirma ele – Então, se quiser viver
transando, tenha muito guardado. Esposas só nos querem quando temos dinheiro...
Os homens riem de
seus ensinamentos, inclusive Valentim.
- Mas e seu eu
encontrar uma mulher virtuosa que me ame e queira realmente construir uma vida
comigo?
Mladen ri de
deboche.
- Preste atenção,
Bósnia. As casadas destroem a vida do
homem, e unicamente para construir a delas em cima. Não existe a construção de
uma vida junto. Ou você faz as suas vontades ou elas fazem da sua vida um
inferno. Simples assim.
- Está dizendo
que todas são mentirosas?
- Com certeza as casadas mentem! – afirma ele
– Na verdade, elas são mestras nisso. Elas mentem, omitem e distorcem a
verdade, isso quando não a sufoca completamente. Elas sabotam os seus sonhos e
inventam mentiras, dissuadindo-o de seus objetivos e atraindo-o para os delas.
Não espere lealdade. União é ilusão.
Davud se espanta.
- Então não há
amor, não há sexo e não há união... – lamenta-se ele – Pelo visto, não convém
casar.
- Casamento é a
prisão do desejo. – afirma ele – Espere ver todos os seus desejos, prazeres e
fantasias serem tirados com o tempo. Beijos então? Nem pensar! Você estará
faminto por um alívio sexual decente. Sua esposa, por outro lado, estará ótima sempre
negando-o a você.
O jovem guarda se
desfalece. Vendo como Mladen o desiludia, Tobias intervém.
- Ei, Mladen.
Deixe-o em paz.
Olhando-o, o
guarda responde:
- Acalme-se,
inspetor. Nós só estamos conversando. Aliás, você deveria aconselha-lo também.
Afinal você também sofreu grande desilusão, não é mesmo?
Apesar de seu
grande conhecimento acadêmico, Tobias não podia competir com a experiência de
vida de Mladen.
Davud pergunta:
- Guarda Mladen,
por que o casamento é tão mal?
Novamente em tom
professoral, ele responde:
- Veja, o
problema não é só o casamento. O problema começa por que os homens e as
mulheres mentem na hora da conquista,
por isso o casamento é uma desgraça. – explica ele – Entenda que ambos caem na
armadilha do amor, do sexo e da criação de filhos. Mas os maridos tentam se
desvencilhar dessa armadilha arrumando amantes, prostitutas ou o próprio
divórcio. Já as esposas se tornam a
armadilha. Elas usam nossas fraquezas contra nós mesmos, ameaçando-nos com
a separação, a pensão alimentícia, o casamento com outros homens, a gravidez e
até a ameaça do inferno, usando a própria Bíblia como arma.
Ao ouvi-lo, Davud
comenta:
- Não sou
cristão, mas vejo que o cristianismo impõe um fardo moral muito pesado nos
ombros dos homens.
- Cristianismo é
o eterno ato de se redimir de sua própria miséria! – afirma ele – Se você não
ama mais sua esposa, ore. Se você deseja outra mulher, ore. Se sua esposa
reclama da falta de dinheiro, ore. Se você está desesperado e quer acabar com a
sua vida, ore... Os cristãos justificam a si mesmos com passagens bíblicas que
dizem “no mundo terão aflições”, “os humilhados serão exaltados”, “lancem sobre
mim os seus fardos e eu os aliviarei...” – e então ele zomba – Mas
estranhamente esse fardo parece ter sido lançado para eles de volta...
Nesse momento
Valentim concorda com ele.
- Talvez tenha
razão.
- Ao redimirem-se
com a Bíblia, os cristãos eternizam seus problemas ao invés de trata-los
corretamente, e assim eles nunca vão embora. É o mesmo com o casamento.
Acreditar que, por um milagre, sua esposa vai voltar a ser uma pantera na cama,
é estupidez. Ou pior ainda, é patético.
Valentim ri,
chamando a sua atenção. Percebendo que ele estava quieto o tempo todo, o guarda
pergunta:
- Ei, cidadão. O
senhor também é casado, não é?
- Sim, senhor
guarda.
- E o que o
senhor acha? Estou certo?
Refletindo,
Valentim responde:
- Suas palavras
fazem sentido, mas não posso dizer que concordo plenamente. Eu amo a minha
esposa e jamais a abandonaria. Ela está desaparecida e eu estou procurando-a. E
eu revirarei esta cidade inteira para encontrá-la, nem que eu tenha de passar
por cima de qualquer um que ousar se pôr em meu caminho.
Mladen se
espanta, impressionado com sua inabalável convicção. Por fim, ele comenta:
- Vejo que o
senhor realmente a ama. Vivi pouco o amor verdadeiro com uma esposa. Mas me
responsa uma coisa. – pede ele – O que o senhor fará quando finalmente
encontrá-la? O que pretende fazer para recompensar o seu esforço?
Lembrando-se do
quanto ele sentia saudades de sua esposa, do quanto ele a amava e do imenso
vazio que sua ausência deixou em seu peito, Valentim diz:
- Um longo e
lento beijo servirá.

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