domingo, 12 de junho de 2022

Liubliana - 15 - Um Longo e Lento Beijo


(Foto de Laura Makabresku)

 

No lado de fora da Gendarmerie, Tobias se dirige ao pátio onde ficam as carruagens. Chamando um cocheiro, ele diz:

- Por favor, nos leve para o Monte Santa Maria.

O cocheiro arregala os olhos. Em sua comitiva haviam cinco pessoas.

- Inspetor, acho que precisará de uma carruagem maior.

Então o cocheiro lhe indica uma carruagem puxada por dois cavalos. Eles entram no veículo e deixam a estação.

Apertando-se nos bancos, eles percebem que seria uma viagem bem desconfortável. Mas Valentim sorria discretamente, pois via naquilo sua chance de procurar por Danica. Ao partir com a Gendarme, ele espera encontrar pistas sobre o seu paradeiro. Ele se enche de esperança.   

Querendo iniciar uma conversa, Mladen pergunta:

- Agora eu estou confuso, inspetor. Estas criaturas fantasiosas vêm ou não vêm do Plasma? Pois pelo que estava nos dizendo, elas podem ser reais ou alucinações.

Ajeitando-se no banco, Tobias responde:

- Eu ainda não sei, guarda. Acredito que o Plasma seja um condutor, ou uma catálise da realidade em que seres reais e imaginários, oriundos de outros planos, se mesclam a este plano. Mas são apenas teorias.

Mladen acende seu cigarro, expelindo a fumaça.

- Seres de outros planos, não? Como o “mundo encantado”?

O guarda novamente o zombava. Controlando-se, Tobias responde:

- Como eu disse, são apenas teorias, mas não difere da crença cristã em que eles afirmam existirem seres espirituais do Céu e Inferno.

- Céu e inferno? – pergunta ele, expelindo fumaça.

- Ou islâmica, quanto a existência dos djinns.

- Eu acredito nos djinns. – interrompe Davud.

Então eles olham para o jovem bósnio.

- O que disse?

- Eu acredito nos djinns. Segundo o Profeta, a paz esteja sobre Ele, os djinns são seres feitos de um fogo que não fumega. Ele consta principalmente no capítulo 72 do Alcorão, e significa “aqueles que não se pode ver”. Os djinns fazem parte de nossa crença.    

Valentim se lembra que, diferente de Carníola, os bósnios seguiam o Islã. Na verdade, essa era a primeira vez que ele via a um bósnio na vida.

Fumando seu cigarro, Mladen olha para o jovem ruivo e pergunta:

- Ei, você veio da Bósnia, não é?

- Sim, senhor.

Mladen então diz:

- A Bósnia foi invadida e ocupada pelos austro-húngaros em 1878, e hoje vocês prestam servidão a eles. Vocês têm todos os motivos do mundo para odiá-los, mas você, ao contrário, os serve. – ele se referia ao seu alistamento na Gendarme – Por quê?

Com o ímpeto característico da juventude, Davud responde:

- Porque eu não quero viver sob o jugo dos sérvios! – exclama ele – Sérvios, croatas e bósnios residem na Bósnia e Herzegovina, mas os sérvios querem toma-la apenas para si! Eles não reconhecem nossa fé, nossa cultura e principalmente nossa liberdade. São imperialistas e belicistas; se utilizam de sua aliança histórica com os russos para nos intimidar. Se eles invadirem a nossa terra, o Império Russo invadirá também. Será um massacre, uma limpeza étnica assim, por dizer! Jamais permitirei isso e lutarei contra sua agressão como for, inclusive dando minha própria vida se necessário! – exclama ele mais uma vez – Mas não conseguiremos resisti-los sozinhos. Precisamos de aliados poderosos; as potências ocidentais, por exemplo. Por isso me aliei ao Império Austro-húngaro. Prefiro o jugo austríaco do que os sérvios sanguinários nos governando.

Todos se espantam com sua visão política.

- Por que você acha que estará melhor com os austríacos? – pergunta o guarda.

- Me diga o senhor: as províncias ilírias vivem sob o jugo austríaco desde o fim do Sacro Império Romano Germânico. Por acaso vocês sofreram a ameaça de expulsão de suas terras? De deportação? De eliminação de sua fé católica? De limpeza étnica?

Mladen não sabe o que responder. Assim como Valentim, ele era só mais um carníolo médio e ignorante.

- Acho que não.

- E nós também não queremos. Luto pela liberdade de minha Bósnia e Herzegovina. Este é o meu maior desejo. – conclui ele.

O guarda fuma seu cigarro. Olhando para Tobias, ele pergunta:

- Você concorda com isso, inspetor?     

- Bem, eu... – Mladen expele a fumaça, incomodando-o – Temo que esteja exagerando, guarda Davud. O Império Austríaco se envolveu em várias guerras... – novamente a fumaça – Arrastando consigo suas províncias, como Carníola, por exemplo. Assim eles eliminaram grande parte de seus súditos... – ele abana a fumaça – Devido às suas desastrosas escolhas políticas. Desde as Guerras Napoleônicas... – ele tosse – Até mais recentemente, contra os prussianos... – irritando-se ele diz – Guarda Mladen, pode por favor apagar esse cigarro?

Com olhar entediado, o guarda olha para ele e responde:

- Não.

E assim eles prosseguem a viagem.

 

§

 

A carruagem passa por estradas de terra, provocando ruídos nas rodas. Abrindo a janela, Tobias vê a linda paisagem bucólica ao redor do monte. Ele pergunta:

- Senhor Mirko, é este o lugar?

Mirko, que esteve quieto a viagem inteira, responde:

- Sim, senhor inspetor.

A comitiva então deixa a carruagem. Ao olhar ao redor, Valentim vê os campos verdes, as plantações e o vilarejo de Šmartno pod Šmarno Goro ao longe. Á beira da estrada eles veem uma densa floresta subindo pela encosta do Monte Santa Maria.

Tobias observa a paisagem a frente. A vasta floresta escondia segredos. Apressando-se, ele diz:

- Atenção, senhores. Mirko nos guiará pela floresta. Ao percorrerem a área, vocês devem se manter vigilantes. Cuidar de sua segurança é essencial. Cuidado com as raízes, limos e pedras soltas. Também tenham cuidado com os animais silvestres. Por último, se atentem com as pistas que possam encontrar pelo caminho. Até lá, peço que todos fiquem juntos.

Mladen apaga seu cigarro e ajeita seu bigode. Valentim se atenta, preparando-se para tudo. Mirko aperta seu cinto e intenta mostrar o caminho. Então algo acontece.

Davud coloca uma faixa verde com letras brancas ao redor de sua cabeça. Em seguida ele se ajoelha e encosta sua testa no chão, fazendo uma prece em outro idioma. O grupo se intriga.

Curioso, Mladen pergunta:

- Ei, garoto. O que você está fazendo?

- Estou pedindo a Allah por proteção.

Davud se endireita e então se encurva de novo, repetindo a prece mais uma vez. O grupo assiste em silêncio, sem entender ao certo. Então ele termina e se levanta, abanando os seus joelhos e se limpando. O guarda novamente pergunta:

- O que está escrito aí? – ele se referia à sua faixa.

- La ilaha Ilallah Muhammadar Rasululah. – responde ele, falando em árabe – Quer dizer “Não há Deus senão Allah, e Maomé é seu mensageiro”. É o famoso Shahadah, a declaração de fé islâmica.

Todos se entreolham. Apesar do império ser multiétnico, raramente eles se encontravam com pessoas de culturas tão diferentes. Agora, com a chegada do Plasma, Liubliana recebia constantemente essas pessoas.

Finado o seu rito religioso, Davud se prepara para acompanha-los. Havia uma área aberta, seca e coberta de pedras antes de chegar à floresta. O cocheiro encosta a carruagem e desce da boleia. A comitiva inicia a caminhada e sobe a pequena subida ao lado do monte. Ao olhar para trás, Valentim vê o cocheiro ao longe, encostado em sua carruagem e fumando um cigarro.

Novamente inquieto, o tagarela Mladen tenta conversar outra vez.

- Então o que estamos procurando aqui? Vestígios de sua esposa?

Mirko ri, negando com a cabeça.

- Não é minha esposa, é minha filha.

- Filha, é? Eu tenho filhas também. Uma do primeiro casamento, outra do segundo e uma garotinha do terceiro.

O grupo se espanta.

- O senhor está casado pela terceira vez?! – espanta-se Tobias.

- Não exatamente. Eu pretendi noivar no terceiro, mas me separei a tempo. Ou melhor, me libertei! Não ia suportar me casar de novo.

- Mas por quê? Seus casamentos foram assim tão terríveis?

- Certamente! – empolga-se ele – Todas os casamentos são.

Então todos se interessam, querendo participar da conversa. Valentim nota como as melhores conversas começavam com uma bela polêmica.

- O que houve? As casadas fizeram mal ao senhor?

- Pode-se dizer que sim. Mas eu não as culpo. É a natureza do casamento! De fato, acho que esta instituição foi criada para tornar a vida dos homens miserável...

Eles riem, uns concordando e outros não.

- Isso foi extremamente ofensivo... – comenta Tobias.

- Por quê?

- E há necessidade de me justificar? Eu não creio que o casamento foi criado com o único objetivo de nos tornar miseráveis!

Mladen ri. Então, tocando-o no ombro, ele pergunta:

- Você é casado?

O inspetor se constrange.

- Eu... – hesita ele.

- Você o quê? – insiste o guarda.

- Eu tive uma namorada em Viena, mas ela me deixou.

- Então quer dizer que você nunca casou? – admira-se ele – E você tem mais de trinta anos...! Mas muito bem. Você se livrou de uma tremenda enrascada.

A comitiva ri, com exceção de Tobias.

- Eu a amava!

- E por que ela o deixou?

O inspetor não sabe o que responder.

- Eu não sei. Mas foi devido ao nosso rompimento que eu decidi deixar a Áustria. Eu quis ir o mais longe que pudesse, para a mais longínqua província do império para nunca mais ter de vê-la novamente. Tudo em minha terra me lembrava dela.

O guarda assente.

- Então você concorda que ela deixou sua vida bastante miserável após o rompimento, não?

Tobias reluta em concordar. Ele ainda se sentia muito magoado.

- Eu fiz tudo por ela e não foi o suficiente... – lamenta-se ele.

- Mas nunca é! – sorri ele – No casamente, as casadas são inconstantes, vorazes e extremamente gananciosas! Nunca estão satisfeitas. Querem mais e mais, e mais... Mais dinheiro, mais amor, mais emoção... E quando não conseguem mais arranca-los de nós, nos acusam, nos culpam e nos imputam a causa de sua cínica infelicidade. E por quê? – pergunta ele – Porque nada pode satisfazer suas vaidades do matrimônio.

Valentim se avilta. Ele é casado e Danica nunca o tratou assim.

- Vejo que teve experiências muito ruins em seus casamentos, senhor guarda. Mas eu também não acho que as casadas sejam assim.

Mirko falava com ele. Em seu semblante eles viam que ele estava irritado.

- O senhor é casado?

- Senhor guarda, eu sou viúvo há oito anos.

Então Mladen se constrange.

- Meus pêsames, cidadão. – diz ele – Se o senhor teve uma boa esposa, eu te parabenizo. Porém não foi o caso comigo e por isso eu nunca mais me casei. Me casar foi a maior desgraça que eu fiz. Perdi toda a minha juventude e minha liberdade. Nunca mais me senti alegre ou realizado comigo mesmo. Me lancei em uma fria prisão. Irônico, já que sou da Gendarme e sou eu quem lança os outros na prisão... – ri ele – Mas agora que me libertei, tive dezenas de mulheres em minha cama! Eu sou conhecido em todo bordel. Todas as prostitutas conhecem o meu nome!

O guarda se alegra. Tobias lhe lança um olhar de repugnância.

- Sendo o senhor um cristão eu não acho que esteja seguindo corretamente a sua religião, senhor Mladen.

- Mas do que é que você está falando?

- Em sua Bíblia diz que divórcio, prostituição e fornicação são pecados. E o senhor está cometendo os três.

Mladen ri.

- E quantas mulheres tiveram os patriarcas? Ou os juízes? Ou melhor ainda, o rei Salomão? – pergunta ele – Ademais, não é pecado a poligamia no Islamismo, e nós adoramos o mesmo Deus. Não é, meu jovem?

O guarda olha para Davud.

- Talvez.

- Não seja tímido! – repreende ele – Vamos diga. Com quantas mulheres pode um homem se casar no Islã?

Um pouco confuso, ele responde:

- Quatro.

- Quatro?! – espantam-se eles.

Todos sorriem, fantasiando o quão prazeroso seria ter quatro mulheres em suas casas.

- Mas há uma séria restrição. – adverte ele – No capítulo 4, versículo 3 do Alcorão, Allah nos orienta a tratar nossas esposas com igualdade e justiça. Mas se o marido não for capaz de pratica-las, então o Alcorão o orienta a se casar apenas com uma. A poligamia no Islã tem caráter social e moral, e o marido a total responsabilidade de cuidar e manter igualmente as suas esposas.

Os homens se desanimam. Não seria viável ter quatro mulheres em casa.

- Meu jovem, responda-me: quantas mulheres teve o Profeta Maomé?

Davud pensa.

- Algumas fontes dizem onze, outras quinze...

Os homens se estarrecem.

- Como veem, o Islã, que é o sucessor do cristianismo, está corretíssimo ao legalizar o casamento poligâmico.

O jovem guarda sorri, alegrando-se da maior possibilidade de ter um casamento feliz. Notando seu sorriso, Mirko os interrompe e pergunta:

- Com licença, guarda Davud. Muito interessante os detalhes de sua religião, mas me responda uma coisa: você já é casado?

Davud vira o rosto, envergonhado. Ao demorar para responder, Mladen pergunta:

- O que foi, meu jovem? Você ainda não se casou?

De cabeça baixa, Davud meneia negativamente a cabeça. Então Mladen percebe tudo.

- Espere um minuto. – interrompe ele – Você ainda é virgem! – então o guarda ri intensamente.

O jovem bósnio tenta negar, mas sua voz se perde entre os risos do grupo. Foi tão evidente seu constrangimento que nenhum argumento os convenceria do contrário.

- Como pode ver vantagem na poligamia se nunca foi casado? Como pode se comparar conosco se você ainda não se casou? – pergunta Mirko – As casadas não são objetos das quais você descarta uma e arruma outra. Talvez você mude de ideia quando perder a mulher que você ama, como eu perdi a minha.

Mirko o repreende com olhar férreo, como um pai educando o seu filho. Davud fica tão vermelho quanto os seus cabelos

Abraçando-o em seu ombro, Mladen diz:

- Não ligue para ele, meu jovem. Você não perdeu nada não se casando, mas ao se casar não ganhará nada também. Você é um rapaz virgem, puro, imaculado pelos venenos do matrimônio. Se eu fosse você, eu jamais me casaria. Você apenas se tornará amargo e infeliz. E não tenha medo da solidão! – adverte ele – Olhe para mim. Eu sou divorciado e muito feliz!

O guarda ri novamente, divertindo-os.

- Mas guarda Mladen, eu não posso me lançar à libertinagem. Eu desejo me casar um dia.

Mladen se indigna.

- Pois deixe-me abrir os seus olhos, garoto, assim você não cometerá os mesmos erros que eu cometi. – diz ele – Se você pensa em se casar para fazer sexo, saiba de uma coisa: casados não fazem! 

A comitiva se intriga.

- Ora, essa! Mas é claro que os casados fazem! – objeta Mirko.

- Não se faça de desentendido! O senhor foi casado há tanto tempo e não aprendeu? – repreende ele – Sexo só existe no começo do casamento, depois a casada se esfria e o restringe mais e mais, até se tornar monótono e maçante. Então se você pensa que ao se casar você vai viver transando, esqueça!

O jovem guarda se assusta.

- Mas... – continua ele – Se você quiser excitar sua esposa e manter seu tesão aceso por mais tempo, tenha dinheiro!

- O quê?! – intriga-se ele.

- Não é seu físico, seu uniforme ou seu sentimento que realmente atrai sua esposa. O que elas gostam mesmo é de dinheiro! – afirma ele – Então, se quiser viver transando, tenha muito guardado. Esposas só nos querem quando temos dinheiro...

Os homens riem de seus ensinamentos, inclusive Valentim.

- Mas e seu eu encontrar uma mulher virtuosa que me ame e queira realmente construir uma vida comigo?

Mladen ri de deboche.

- Preste atenção, Bósnia. As casadas destroem a vida do homem, e unicamente para construir a delas em cima. Não existe a construção de uma vida junto. Ou você faz as suas vontades ou elas fazem da sua vida um inferno. Simples assim.

- Está dizendo que todas são mentirosas?

 - Com certeza as casadas mentem! – afirma ele – Na verdade, elas são mestras nisso. Elas mentem, omitem e distorcem a verdade, isso quando não a sufoca completamente. Elas sabotam os seus sonhos e inventam mentiras, dissuadindo-o de seus objetivos e atraindo-o para os delas. Não espere lealdade. União é ilusão.

Davud se espanta.

- Então não há amor, não há sexo e não há união... – lamenta-se ele – Pelo visto, não convém casar.

- Casamento é a prisão do desejo. – afirma ele – Espere ver todos os seus desejos, prazeres e fantasias serem tirados com o tempo. Beijos então? Nem pensar! Você estará faminto por um alívio sexual decente. Sua esposa, por outro lado, estará ótima sempre negando-o a você.

O jovem guarda se desfalece. Vendo como Mladen o desiludia, Tobias intervém.

- Ei, Mladen. Deixe-o em paz.

Olhando-o, o guarda responde:

- Acalme-se, inspetor. Nós só estamos conversando. Aliás, você deveria aconselha-lo também. Afinal você também sofreu grande desilusão, não é mesmo?

Apesar de seu grande conhecimento acadêmico, Tobias não podia competir com a experiência de vida de Mladen.

Davud pergunta:

- Guarda Mladen, por que o casamento é tão mal?

Novamente em tom professoral, ele responde:

- Veja, o problema não é só o casamento. O problema começa por que os homens e as mulheres mentem na hora da conquista, por isso o casamento é uma desgraça. – explica ele – Entenda que ambos caem na armadilha do amor, do sexo e da criação de filhos. Mas os maridos tentam se desvencilhar dessa armadilha arrumando amantes, prostitutas ou o próprio divórcio. Já as esposas se tornam a armadilha. Elas usam nossas fraquezas contra nós mesmos, ameaçando-nos com a separação, a pensão alimentícia, o casamento com outros homens, a gravidez e até a ameaça do inferno, usando a própria Bíblia como arma.

Ao ouvi-lo, Davud comenta:

- Não sou cristão, mas vejo que o cristianismo impõe um fardo moral muito pesado nos ombros dos homens.

- Cristianismo é o eterno ato de se redimir de sua própria miséria! – afirma ele – Se você não ama mais sua esposa, ore. Se você deseja outra mulher, ore. Se sua esposa reclama da falta de dinheiro, ore. Se você está desesperado e quer acabar com a sua vida, ore... Os cristãos justificam a si mesmos com passagens bíblicas que dizem “no mundo terão aflições”, “os humilhados serão exaltados”, “lancem sobre mim os seus fardos e eu os aliviarei...” – e então ele zomba – Mas estranhamente esse fardo parece ter sido lançado para eles de volta...

Nesse momento Valentim concorda com ele.

- Talvez tenha razão.

- Ao redimirem-se com a Bíblia, os cristãos eternizam seus problemas ao invés de trata-los corretamente, e assim eles nunca vão embora. É o mesmo com o casamento. Acreditar que, por um milagre, sua esposa vai voltar a ser uma pantera na cama, é estupidez. Ou pior ainda, é patético.

Valentim ri, chamando a sua atenção. Percebendo que ele estava quieto o tempo todo, o guarda pergunta:

- Ei, cidadão. O senhor também é casado, não é?

- Sim, senhor guarda.

- E o que o senhor acha? Estou certo?

Refletindo, Valentim responde:

- Suas palavras fazem sentido, mas não posso dizer que concordo plenamente. Eu amo a minha esposa e jamais a abandonaria. Ela está desaparecida e eu estou procurando-a. E eu revirarei esta cidade inteira para encontrá-la, nem que eu tenha de passar por cima de qualquer um que ousar se pôr em meu caminho.

Mladen se espanta, impressionado com sua inabalável convicção. Por fim, ele comenta:

- Vejo que o senhor realmente a ama. Vivi pouco o amor verdadeiro com uma esposa. Mas me responsa uma coisa. – pede ele – O que o senhor fará quando finalmente encontrá-la? O que pretende fazer para recompensar o seu esforço?

Lembrando-se do quanto ele sentia saudades de sua esposa, do quanto ele a amava e do imenso vazio que sua ausência deixou em seu peito, Valentim diz:

- Um longo e lento beijo servirá.

 

 

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