domingo, 19 de junho de 2022

Liubliana - 16 - Exúvia

 


(Artista desconhecido)


As encostas do Monte Santa Maria eram belíssimas. A floresta se estende pelas colinas e vales ao redor. A área a ser vasculhada era vasta, mas Mirko os guiaria precisamente ao destino.

Enquanto se aproximam, eles notam como as árvores eram densas e altas. Valentim vê carvalhos e plantas pela vegetação. Adentrando a floresta, eles ouviam os pássaros cantando e os insetos voando. Sob o sol daquela agradável tarde em Carníola, eles se sentem em um paraíso.

Então algo acontece.

Estranhamente o tempo se fecha. A tarde ensolarada torna-se feia e cinzenta; um vento frio sopra entre as árvores e as se balançam sutilmente. O canto agradável dos pássaros se silencia e as belas borboletas desaparecem no ar. Era como se a natureza se protegesse dos invasores e ocultasse seus mistérios.

O clima torna-se pesado e funério. Nem o tagarela Mladen ousava abrir a boca. Passeando entre as árvores, eles ouvem seus passos sobre a folhagem e se confundem; parecia haver mais gente ao redor. Olhando de relance, sombras apareciam atrás dos troncos e se retraíam, escondendo-se da vista. 

Mirko caminha a frente em silêncio. Corvos voam em círculos acima de suas cabeças, e seus grasnados lhes davam arrepios. Apesar de ainda ser dia, eles ouvem o chirriar de corujas vindo das entranhas da mata. De repente um nevoeiro surge e se arrasta pelas árvores, trazendo seu gélido sopro. O nevoeiro atravessa seus corpos e alcança suas almas, como se fossem emanações malignas vindas do coração gelado de Satanás.

Tobias sente medo. Há um minuto ele pensava estar em um paraíso, mas agora ele pensa ter atravessado o véu da realidade e ido direto para o inferno.  

Atravessando a floresta, eles notam como a umidade aumenta. As grandes folhas das plantas molhavam suas roupas e seus pés pisavam na lama e no lodo. Cada passo era cuidadosamente observado; escorregões podiam ser danosos. Valentim, que usava um desgastado par de botas, sente seu pé se encharcando e se irrita.

Embrenhados naquela mata, mesmo o imponente Monte Santa Maria desaparecia. O verde escuro e a neblina branca os encerravam naquele purgatório, lançando-os em um mundo paralelo em que suas dimensões tinham o tamanho do alcance de seus olhos. Valentim sente frio e abotoa sua camisa. Naquela tarde nem sua pele queimada e acostumada ao frio suportava a sinistra emanação.

Mirko caminhava apressadamente, de semblante fechado e sem olhar para os lados. O silêncio funéreo pairava sobre eles e ninguém ousava quebra-lo. Mesmo suas respirações eram confusas, pois eram rodeadas de sussurros.  

De repente o caminho se alarga e revela uma clareira no meio das árvores. Mladen vê algo incomum e se intriga. Três estruturas de galhos secos estavam vestidas com tecidos velhos. Ele nota que no topo haviam chifres, como se fossem representações antropomórficas de caprinos.

Tirando forças do fundo de sua alma para abrir a boca, o guarda pergunta:

- Ei, o que é isso?

A comitiva olha para trás e o vê apontando para algo no mato. Tobias olha e sente arrepios descendo por sua espinha. Haviam três seres encapuzados ali, imóveis e vigilantes vendo os invasores atravessarem o seu território. O jovem inspetor sacode sua cabeça e controla o seu medo; sua mente estava criando alucinações.     

- São espantalhos... – diz ele.

- Devemos investigar? – pergunta Mladen.

Hesitante, o inspetor forçosamente responde:

- Sim.

Eles caminham em direção aos espantalhos. Olhando para trás, Valentim nota que Mirko não saía do lugar.

Observando atentamente, Tobias vê uma rudimentar estrutura de galhos revestida de tecidos coloridos. Eles tinham cabeças de bode, desencarnadas e apodrecidas com o tempo. Sentindo o forte cheiro de carniça, eles se atordoam.

- O que você acha que é isso, inspetor?

- Eu não sei. Me parecem representações do deus Pã.

- Deus Pã?

- Na mitologia grega, Pã é o deus dos bosques, dos campos, dos rebanhos e dos pastores. Ele tinha corpo metade homem e metade bode, e acreditava-se que morava nas montanhas e nas florestas da antiga Grécia.

Espantando as moscas, Tobias nota que a estrutura estava firmemente amarrada; mesmo os tecidos não haviam desbotado com os intempéries. Ele diz:

- Os tecidos são novos e os espantalhos foram montados recentemente. Quem os erigiu vive na região ou pode estar próximo daqui. Fiquem atentos.

 Davud pergunta:

- Que lugar é este?

- Eu não sei. Talvez seja um local de culto ou o solo sagrado para a adoração de um deus pagão.

- E nós somos os seus profanadores. – afirma Valentim, com olhar sério.

- Mas de qual deus pagão exatamente? – pergunta Mladen.

- Eu não sei dizer. Deuses gregos não são mais adorados na Europa, ou mesmo seus equivalentes romanos. Após a conversão de Constantino, o cristianismo se tornou a religião oficial do Império Romano. Bolsões de paganismo foram perseguidas da antiguidade até a Idade Média, mas como o próprio nome diz, paganus quer dizer camponês e tudo pode acontecer atrás das cortinas negras da noite. 

Valentim insiste.

- Não podemos negligenciar esta pista. Quem quer que esteja realizando estes cultos deve ter informações que nos levem ao desaparecimento de Valerija.

Ele mentia. O que Valentim queria mesmo eram pistas sobre o paradeiro de Danica.

- Mas quem pode ser? – pergunta o guarda – Eu nunca vi estas representações antes.

- Deve ser uma religião que precede o cristianismo, ou que seja de outra região da Europa. – sugere Tobias – Davud?

- Lamento, inspetor. Eu nunca vi isto na Bósnia.

- Valentim?

- Não as conheço.

Então Tobias se confunde.

- É o Exúvia.

Todos se viram, olhando intrigados para Mirko.

- O que disse?

- Exúvia é a lenda sobre um culto pagão que ronda o monte à noite. Nós não sabemos de onde ela surgiu, mas alguns acreditam que a ela venha do leste. A lenda diz que os cultistas vestem mantos pretos e carregam tochas de fogo verde à noite. Ao vermos o brilho verde na floresta, todos entram em suas casas e trancam as portas, e ninguém ousa sair até ser de manhã.

Ouvindo sobre a estranha coloração do fogo, Tobias pergunta:

- Por que o fogo é verde?

- Os boatos dizem que a chama é alimentada por uma substância mística; o sangue da terra como eles dizem.

Então o inspetor se interessa.

- Sabe de algo mais?

- Toda a vez que a seita aparece, uma desgraça recai sobre a humanidade. Eles intentam ressuscitar um deus pagão, reencarnando-o em ídolos e imagens, como os espantalhos aí. – aponta ele – Animais agourentos os representam, como dragões, cobras, corvos e corujas.

E então Valentim se assusta.

- O senhor já os viu? – pergunta Tobias.

- Não, mas muitos afirmam tê-los visto. Alguns dizem que os cultistas espreitam a floresta e nem mesmo os caçadores mais experientes têm coragem de se aproximar deles. Todos temem o desaparecimento.

O inspetor se preocupa.

- E o que mais?

- O culto precede o retorno do deus, e as estrelas já indicam sua concepção profana. O deus retornará como o filho de uma coruja marrom com uma coruja branca.

Mladen deixa escapar um sorriso.

- Filho de uma coruja marrom com uma branca...?! – zomba ele – Cidadão, acho que o senhor andou bebendo demais...

- O deus pagão é o filho da terra. A cada reencarnação ele assume uma nova forma, irrompendo-se de seu antigo invólucro e voltando à vida. Por isso o culto tem este nome: exúvia.

Tobias pondera. Exúvia era uma palavra latina que significava “camisa” ou “pele vazia”. Na biologia era o exoesqueleto eliminado por certos artrópodes durante a muda, como insetos, crustáceos e aracnídeos. Segundo Mirko, o deus pagão encasulava-se em representações terrenas, eliminando-as ao voltar à vida. 

Investigando os espantalhos, Davud mexe em suas roupas. Mirko o interrompe.

- Não toque nisso!

Assustado, ele pergunta:

- Por quê?

- Este lugar é amaldiçoado! Vamos embora. A noite se aproxima. Nós devemos nos apressar.

Virando-se, Mirko se apressa e deixa clareira para trás.

 

§

 

A comitiva caminha por mais alguns minutos. O céu cinzento se escurece; em algumas horas ia anoitecer. A sensação de urgência se apodera deles. Todos queriam deixar aquele lugar o mais rápido possível.

Mirko aponta para algumas árvores e diz:

- Aqui. Este é o lugar onde o cheiro de minha filha termina.

Tobias abre sua maleta e veste o seu equipamento. Eles veem uma curiosa engenhoca parecida com os óculos. Fazendo uma breve busca ao redor, ele usa seu equipamento e define os pontos de investigação.

- Senhores, procurem por pistas em galhos e sob a folhagem. Tomem cuidado para não destruí-las. Qualquer dúvida, eu estou à disposição.

Então o inspetor começa a investigação. Ele mexia em seus óculos, parecendo amplificar a visão. Os demais também procuram, mexendo nas plantas e checando os galhos próximos.

Mirko está inquieto; ele se sente constantemente observado. Ele teme ter irritado os cultistas e atraído a sua ira. Diferente dos gendarmes, ele residia próximo da mata e se tornaria alvo fácil de represálias. Todavia ele se controla e tenta se acalmar. Encontrar a sua filha dependia do trabalho das investigações.

Davud diz:

- Inspetor, eu encontrei algo.

Tobias se levanta e se dirige ao jovem guarda.

- O que foi, guarda?

O guarda lhe mostra um pedaço de tecido rasgado preso a um galho. Observando com sua lente, Tobias se alegra. O tecido era possivelmente um vestido feminino.

- Meus parabéns, guarda Davud. Esta é nossa primeira pista.

O bósnio sorri.

Valentim também o chama.

- Inspetor, eu encontrei uma coisa.

Tobias se aproxima e vê um objeto na folhagem. Afastando-a com os dedos, ele encontra algo feito de tabaco. Usando sua lente, ele diz:

- É uma ponta de charuto.

- Ora, essa! – resmunga Mladen – E eu louco para dar um trago...!

- Há um pedaço de papel aqui também. – diz Valentim – Mas está molhado e eu não consigo ler as letras.

Ele mentia. Confessar seu analfabetismo lhe seria constrangedor.

Usando seu equipamento, Tobias amplifica a lente e diz:

- Isto é um selo. Aqui diz ser de uma loja de charutos no centro da cidade. – tirando seus óculos, ele pergunta – Guarda Mladen, o senhor conhece alguma dessas lojas em Liubliana?

Imediatamente ele responde:

- Óbvio.

Virando-se, Tobias se dirige ao pai da desaparecida e pergunta:

- Senhor Mirko, algum dos seus parentes ou empregados fuma?

- Sim, senhor inspetor. Todos os homens adultos em minha propriedade fumam.

Animando-se, ele formula outra questão.

- Alguém em sua propriedade se ausentou recentemente?

Mirko tenta se lembrar.

- Um deles disse que sua mãe estava doente e precisou partir. Ele intentava visita-la em Liubliana.

- Ótimo. – alegra-se ele – Temos o nosso primeiro suspeito.

Então algo se move na copa das árvores, tirando suas atenções. Um medo incômodo os envolve e eles se entreolham, mas ninguém ousa falar a respeito.

- Agora podemos dar o fora daqui? – pergunta Mladen, quase suplicando-o.

- Sim. – gagueja ele – Vamos voltar.

 

§

 

Enquanto voltam à Gendarmerie, anoitece em Liubliana. As ruas eram iluminadas pela chama verde como uma praga engolindo a cidade. Tobias se preocupa.

Todos estavam exaustos. Mirko ficou no Monte Santa Maria e seguiu para sua casa a pé. Mladen tranquilamente fumava seu cigarro e Davud dormia em seu banco. Valentim, porém, estava sério olhando pela janela.

Tobias pondera nas palavras de Mirko. A lenda de Exúvia o intrigara. Se ela for verdadeira, a tal substância comprovaria suas teorias. A cada vez que ela surgia, a humanidade penava em uma nova hecatombe. Sua coloração verde e seu trágico efeito só lhe apontavam para uma resposta: Plasma.

“Um culto se formara ao redor do Plasma e cultuava um deus esquecido. De fato, o culto era tão antigo que se tornara uma lenda. Mas o Plasma existe e lhe dará a vida”, pensa ele. “Como o líquido amniótico de uma besta apocalíptica”.

Ele ainda não sabe o que é esta substância, mas ao ver toda a cidade iluminada por sua chama, ele se horroriza. Tobias se sentia um condenado na dantesca cidade de Dis.

Valentim também pensa a respeito da lenda. Ele não se importa com o que os camponeses acreditam, mas algo lhe chamou a atenção. Corujas darão a luz a um antigo deus. Lembrando-se de como ele era assombrado por essa horrível ave, ele sente medo. Ultimamente as corujas pareciam segui-lo a cada passo.

A estação se aproxima e o cocheiro estaciona a carruagem. Mladen acorda Davud com uma cotovelada e então deixa o veículo.

- Chega de passeios por hoje. E Tobias, se o capitão me convocar para mais uma investigação sua, diga-o que eu morri. – pede ele – Senhores, até amanhã.

E então ele caminha pelas ruas.

Olhando para o jovem bósnio, o inspetor diz:

- Guarda Davud, está dispensado. Obrigado por seus serviços.

- Obrigado, inspetor Tobias. Até amanhã. – então ele vai embora também.

Temendo ser dispensado da comitiva definitivamente, Valentim pergunta:

- Inspetor Tobias, o que irá fazer agora?

- Eu vou subir à sala de evidências e estudar as pistas, e amanhã eu partirei atrás dos suspeito. Por quê?

- Minha esposa está desaparecida, como o senhor já deve saber. Eu tenho pressa para encontrá-la e sozinho o senhor levará tempo. Eu posso ajudá-lo. – sugere ele – Se trabalharmos juntos, eu espero encontrar a minha esposa mais rápido. Com vida, se possível.

Tobias sorri.

- Como pode um civil ajudar na análise técnica de uma investigação de campo? Isso exigiu anos do meu estudo. E outra coisa: tenho a impressão de que o senhor nem mesmo sabe ler!

Meneando negativamente a cabeça, ele responde:

- O senhor é jovem. Vai aprender que a vida não é só estudo, instrução e diplomas na parede. Ouça-me, eu já tive contato com o Plasma e sofri alucinações com ele. Se ele não for banido, mais pessoas poderão se ferir. Não é isso o que a Gendarmerie deseja? Erradicar essa onda de violência?

Tobias levanta a sobrancelha e pergunta:

- Aonde o senhor quer chegar?

- Eu... – e então seu estômago ronca, fazendo um som tão alto que Tobias pode ouvi-lo.

- Está com fome, senhor Valentim?

Apesar de ter se acostumado com a fome, Valentim não havia comido nada o dia inteiro.

- Não se importe com isso.

- Onde o senhor vive?

Ele responde:

- Zgornja Šiška.

- Ora, mas isso é muito longe! – exclama ele – Quer que um cocheiro o leve de volta para casa?

- Eu não tenho como pagá-lo. Eu vou a pé.

- Com certeza não vai! – proíbe Tobias – Aqui, tome esse dinheiro. Pegue um trem de volta, sim? E compre algo para comer no caminho.

Intrigado com sua generosidade, ele pergunta:

- Por que está me ajudando?

- Foi o senhor que me ajudou hoje. – ele se referia às pistas – Além do mais, se o senhor caminhar de volta com essa fome, com certeza se desfalecerá no caminho.

Olhando para as moedas de gulden[1] em sua mão, ele diz:

- Inspetor Tobias, eu não tenho como pagá-lo.

- Não se incomode com isso. Afinal, encontrar sua esposa agora é tudo o que te importa, não é?

Profundamente agradecido, ele diz:

- Esta noite o senhor alimentará não apenas um desempregado, mas também um gato faminto.

O inspetor sorri.

- Se me dá licença, eu tenho um trabalho a fazer. – ele lhe dá as costas e diz – Até a vista, senhor Valentim.

- Amanhã trabalharemos de novo?

Entediando-se, ele responde:

- O senhor ouviu o capitão, não? – então Tobias finalmente entra na estação.

No lado de fora, Valentim olha para as moedas e se alegra. Esta noite ele não passaria fome.

Sorrindo, ele se vira e também vai embora, deixando a estação da Gendarmerie para trás.

 

 

 



[1] Moeda oficial do Império Austro Húngaro de 1754 até 1892

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