(Artista desconhecido)
As encostas do
Monte Santa Maria eram belíssimas. A floresta se estende pelas colinas e vales
ao redor. A área a ser vasculhada era vasta, mas Mirko os guiaria precisamente
ao destino.
Enquanto se
aproximam, eles notam como as árvores eram densas e altas. Valentim vê
carvalhos e plantas pela vegetação. Adentrando a floresta, eles ouviam os
pássaros cantando e os insetos voando. Sob o sol daquela agradável tarde em
Carníola, eles se sentem em um paraíso.
Então algo
acontece.
Estranhamente o
tempo se fecha. A tarde ensolarada torna-se feia e cinzenta; um vento frio
sopra entre as árvores e as se balançam sutilmente. O canto agradável dos
pássaros se silencia e as belas borboletas desaparecem no ar. Era como se a
natureza se protegesse dos invasores e ocultasse seus mistérios.
O clima torna-se
pesado e funério. Nem o tagarela Mladen ousava abrir a boca. Passeando entre as
árvores, eles ouvem seus passos sobre a folhagem e se confundem; parecia haver
mais gente ao redor. Olhando de relance, sombras apareciam atrás dos troncos e
se retraíam, escondendo-se da vista.
Mirko caminha a
frente em silêncio. Corvos voam em círculos acima de suas cabeças, e seus
grasnados lhes davam arrepios. Apesar de ainda ser dia, eles ouvem o chirriar
de corujas vindo das entranhas da mata. De repente um nevoeiro surge e se
arrasta pelas árvores, trazendo seu gélido sopro. O nevoeiro atravessa seus
corpos e alcança suas almas, como se fossem emanações malignas vindas do
coração gelado de Satanás.
Tobias sente
medo. Há um minuto ele pensava estar em um paraíso, mas agora ele pensa ter atravessado
o véu da realidade e ido direto para o inferno.
Atravessando a
floresta, eles notam como a umidade aumenta. As grandes folhas das plantas
molhavam suas roupas e seus pés pisavam na lama e no lodo. Cada passo era
cuidadosamente observado; escorregões podiam ser danosos. Valentim, que usava
um desgastado par de botas, sente seu pé se encharcando e se irrita.
Embrenhados
naquela mata, mesmo o imponente Monte Santa Maria desaparecia. O verde escuro e
a neblina branca os encerravam naquele purgatório, lançando-os em um mundo
paralelo em que suas dimensões tinham o tamanho do alcance de seus olhos.
Valentim sente frio e abotoa sua camisa. Naquela tarde nem sua pele queimada e
acostumada ao frio suportava a sinistra emanação.
Mirko caminhava
apressadamente, de semblante fechado e sem olhar para os lados. O silêncio
funéreo pairava sobre eles e ninguém ousava quebra-lo. Mesmo suas respirações
eram confusas, pois eram rodeadas de sussurros.
De repente o
caminho se alarga e revela uma clareira no meio das árvores. Mladen vê algo
incomum e se intriga. Três estruturas de galhos secos estavam vestidas com
tecidos velhos. Ele nota que no topo haviam chifres, como se fossem
representações antropomórficas de caprinos.
Tirando forças do
fundo de sua alma para abrir a boca, o guarda pergunta:
- Ei, o que é
isso?
A comitiva olha
para trás e o vê apontando para algo no mato. Tobias olha e sente arrepios
descendo por sua espinha. Haviam três seres encapuzados ali, imóveis e
vigilantes vendo os invasores atravessarem o seu território. O jovem inspetor sacode
sua cabeça e controla o seu medo; sua mente estava criando alucinações.
- São
espantalhos... – diz ele.
- Devemos
investigar? – pergunta Mladen.
Hesitante, o
inspetor forçosamente responde:
- Sim.
Eles caminham em
direção aos espantalhos. Olhando para trás, Valentim nota que Mirko não saía do
lugar.
Observando
atentamente, Tobias vê uma rudimentar estrutura de galhos revestida de tecidos
coloridos. Eles tinham cabeças de bode, desencarnadas e apodrecidas com o
tempo. Sentindo o forte cheiro de carniça, eles se atordoam.
- O que você acha
que é isso, inspetor?
- Eu não sei. Me
parecem representações do deus Pã.
- Deus Pã?
- Na mitologia
grega, Pã é o deus dos bosques, dos campos, dos rebanhos e dos pastores. Ele tinha
corpo metade homem e metade bode, e acreditava-se que morava nas montanhas e
nas florestas da antiga Grécia.
Espantando as
moscas, Tobias nota que a estrutura estava firmemente amarrada; mesmo os
tecidos não haviam desbotado com os intempéries. Ele diz:
- Os tecidos são
novos e os espantalhos foram montados recentemente. Quem os erigiu vive na
região ou pode estar próximo daqui. Fiquem atentos.
Davud pergunta:
- Que lugar é
este?
- Eu não sei.
Talvez seja um local de culto ou o solo sagrado para a adoração de um deus
pagão.
- E nós somos os
seus profanadores. – afirma Valentim, com olhar sério.
- Mas de qual
deus pagão exatamente? – pergunta Mladen.
- Eu não sei
dizer. Deuses gregos não são mais adorados na Europa, ou mesmo seus
equivalentes romanos. Após a conversão de Constantino, o cristianismo se tornou
a religião oficial do Império Romano. Bolsões de paganismo foram perseguidas da
antiguidade até a Idade Média, mas como o próprio nome diz, paganus quer dizer camponês e tudo pode
acontecer atrás das cortinas negras da noite.
Valentim insiste.
- Não podemos
negligenciar esta pista. Quem quer que esteja realizando estes cultos deve ter
informações que nos levem ao desaparecimento de Valerija.
Ele mentia. O que
Valentim queria mesmo eram pistas sobre o paradeiro de Danica.
- Mas quem pode
ser? – pergunta o guarda – Eu nunca vi estas representações antes.
- Deve ser uma
religião que precede o cristianismo, ou que seja de outra região da Europa. – sugere
Tobias – Davud?
- Lamento,
inspetor. Eu nunca vi isto na Bósnia.
- Valentim?
- Não as conheço.
Então Tobias se
confunde.
- É o Exúvia.
Todos se viram,
olhando intrigados para Mirko.
- O que disse?
- Exúvia é a
lenda sobre um culto pagão que ronda o monte à noite. Nós não sabemos de onde ela
surgiu, mas alguns acreditam que a ela venha do leste. A lenda diz que os
cultistas vestem mantos pretos e carregam tochas de fogo verde à noite. Ao
vermos o brilho verde na floresta, todos entram em suas casas e trancam as
portas, e ninguém ousa sair até ser de manhã.
Ouvindo sobre a
estranha coloração do fogo, Tobias pergunta:
- Por que o fogo
é verde?
- Os boatos dizem
que a chama é alimentada por uma substância mística; o sangue da terra como
eles dizem.
Então o inspetor
se interessa.
- Sabe de algo mais?
- Toda a vez que
a seita aparece, uma desgraça recai sobre a humanidade. Eles intentam
ressuscitar um deus pagão, reencarnando-o em ídolos e imagens, como os
espantalhos aí. – aponta ele – Animais agourentos os representam, como dragões,
cobras, corvos e corujas.
E então Valentim
se assusta.
- O senhor já os
viu? – pergunta Tobias.
- Não, mas muitos
afirmam tê-los visto. Alguns dizem que os cultistas espreitam a floresta e nem
mesmo os caçadores mais experientes têm coragem de se aproximar deles. Todos
temem o desaparecimento.
O inspetor se
preocupa.
- E o que mais?
- O culto precede
o retorno do deus, e as estrelas já indicam sua concepção profana. O deus
retornará como o filho de uma coruja marrom com uma coruja branca.
Mladen deixa
escapar um sorriso.
- Filho de uma
coruja marrom com uma branca...?! – zomba ele – Cidadão, acho que o senhor
andou bebendo demais...
- O deus pagão é
o filho da terra. A cada reencarnação ele assume uma nova forma, irrompendo-se
de seu antigo invólucro e voltando à vida. Por isso o culto tem este nome:
exúvia.
Tobias pondera. Exúvia
era uma palavra latina que significava “camisa” ou “pele vazia”. Na biologia
era o exoesqueleto eliminado por certos artrópodes durante a muda, como
insetos, crustáceos e aracnídeos. Segundo Mirko, o deus pagão encasulava-se em
representações terrenas, eliminando-as ao voltar à vida.
Investigando os
espantalhos, Davud mexe em suas roupas. Mirko o interrompe.
- Não toque
nisso!
Assustado, ele
pergunta:
- Por quê?
- Este lugar é
amaldiçoado! Vamos embora. A noite se aproxima. Nós devemos nos apressar.
Virando-se, Mirko
se apressa e deixa clareira para trás.
§
A comitiva
caminha por mais alguns minutos. O céu cinzento se escurece; em algumas horas
ia anoitecer. A sensação de urgência se apodera deles. Todos queriam deixar
aquele lugar o mais rápido possível.
Mirko aponta para
algumas árvores e diz:
- Aqui. Este é o
lugar onde o cheiro de minha filha termina.
Tobias abre sua
maleta e veste o seu equipamento. Eles veem uma curiosa engenhoca parecida com
os óculos. Fazendo uma breve busca ao redor, ele usa seu equipamento e define
os pontos de investigação.
- Senhores,
procurem por pistas em galhos e sob a folhagem. Tomem cuidado para não
destruí-las. Qualquer dúvida, eu estou à disposição.
Então o inspetor
começa a investigação. Ele mexia em seus óculos, parecendo amplificar a visão.
Os demais também procuram, mexendo nas plantas e checando os galhos próximos.
Mirko está
inquieto; ele se sente constantemente observado. Ele teme ter irritado os
cultistas e atraído a sua ira. Diferente dos gendarmes, ele residia próximo da
mata e se tornaria alvo fácil de represálias. Todavia ele se controla e tenta
se acalmar. Encontrar a sua filha dependia do trabalho das investigações.
Davud diz:
- Inspetor, eu
encontrei algo.
Tobias se levanta
e se dirige ao jovem guarda.
- O que foi, guarda?
O guarda lhe
mostra um pedaço de tecido rasgado preso a um galho. Observando com sua lente,
Tobias se alegra. O tecido era possivelmente um vestido feminino.
- Meus parabéns,
guarda Davud. Esta é nossa primeira pista.
O bósnio sorri.
Valentim também o
chama.
- Inspetor, eu
encontrei uma coisa.
Tobias se
aproxima e vê um objeto na folhagem. Afastando-a com os dedos, ele encontra
algo feito de tabaco. Usando sua lente, ele diz:
- É uma ponta de
charuto.
- Ora, essa! –
resmunga Mladen – E eu louco para dar um trago...!
- Há um pedaço de
papel aqui também. – diz Valentim – Mas está molhado e eu não consigo ler as
letras.
Ele mentia.
Confessar seu analfabetismo lhe seria constrangedor.
Usando seu
equipamento, Tobias amplifica a lente e diz:
- Isto é um selo.
Aqui diz ser de uma loja de charutos no centro da cidade. – tirando seus
óculos, ele pergunta – Guarda Mladen, o senhor conhece alguma dessas lojas em
Liubliana?
Imediatamente ele
responde:
- Óbvio.
Virando-se,
Tobias se dirige ao pai da desaparecida e pergunta:
- Senhor Mirko,
algum dos seus parentes ou empregados fuma?
- Sim, senhor
inspetor. Todos os homens adultos em minha propriedade fumam.
Animando-se, ele
formula outra questão.
- Alguém em sua
propriedade se ausentou recentemente?
Mirko tenta se
lembrar.
- Um deles disse
que sua mãe estava doente e precisou partir. Ele intentava visita-la em
Liubliana.
- Ótimo. –
alegra-se ele – Temos o nosso primeiro suspeito.
Então algo se move
na copa das árvores, tirando suas atenções. Um medo incômodo os envolve e eles
se entreolham, mas ninguém ousa falar a respeito.
- Agora podemos
dar o fora daqui? – pergunta Mladen, quase suplicando-o.
- Sim. – gagueja
ele – Vamos voltar.
§
Enquanto voltam à
Gendarmerie, anoitece em Liubliana. As ruas eram iluminadas pela chama verde
como uma praga engolindo a cidade. Tobias se preocupa.
Todos estavam
exaustos. Mirko ficou no Monte Santa Maria e seguiu para sua casa a pé. Mladen
tranquilamente fumava seu cigarro e Davud dormia em seu banco. Valentim, porém,
estava sério olhando pela janela.
Tobias pondera
nas palavras de Mirko. A lenda de Exúvia o intrigara. Se ela for verdadeira, a
tal substância comprovaria suas teorias. A cada vez que ela surgia, a
humanidade penava em uma nova hecatombe. Sua coloração verde e seu trágico
efeito só lhe apontavam para uma resposta: Plasma.
“Um culto se
formara ao redor do Plasma e cultuava um deus esquecido. De fato, o culto era
tão antigo que se tornara uma lenda. Mas o Plasma existe e lhe dará a vida”,
pensa ele. “Como o líquido amniótico de uma besta apocalíptica”.
Ele ainda não
sabe o que é esta substância, mas ao ver toda a cidade iluminada por sua chama,
ele se horroriza. Tobias se sentia um condenado na dantesca cidade de Dis.
Valentim também
pensa a respeito da lenda. Ele não se importa com o que os camponeses
acreditam, mas algo lhe chamou a atenção. Corujas darão a luz a um antigo deus.
Lembrando-se de como ele era assombrado por essa horrível ave, ele sente medo.
Ultimamente as corujas pareciam segui-lo a cada passo.
A estação se
aproxima e o cocheiro estaciona a carruagem. Mladen acorda Davud com uma
cotovelada e então deixa o veículo.
- Chega de
passeios por hoje. E Tobias, se o capitão me convocar para mais uma
investigação sua, diga-o que eu morri. – pede ele – Senhores, até amanhã.
E então ele caminha
pelas ruas.
Olhando para o
jovem bósnio, o inspetor diz:
- Guarda Davud,
está dispensado. Obrigado por seus serviços.
- Obrigado,
inspetor Tobias. Até amanhã. – então ele vai embora também.
Temendo ser
dispensado da comitiva definitivamente, Valentim pergunta:
- Inspetor
Tobias, o que irá fazer agora?
- Eu vou subir à
sala de evidências e estudar as pistas, e amanhã eu partirei atrás dos
suspeito. Por quê?
- Minha esposa
está desaparecida, como o senhor já deve saber. Eu tenho pressa para
encontrá-la e sozinho o senhor levará tempo. Eu posso ajudá-lo. – sugere ele –
Se trabalharmos juntos, eu espero encontrar a minha esposa mais rápido. Com
vida, se possível.
Tobias sorri.
- Como pode um
civil ajudar na análise técnica de uma investigação de campo? Isso exigiu anos
do meu estudo. E outra coisa: tenho a impressão de que o senhor nem mesmo sabe
ler!
Meneando
negativamente a cabeça, ele responde:
- O senhor é
jovem. Vai aprender que a vida não é só estudo, instrução e diplomas na parede.
Ouça-me, eu já tive contato com o Plasma e sofri alucinações com ele. Se ele
não for banido, mais pessoas poderão se ferir. Não é isso o que a Gendarmerie
deseja? Erradicar essa onda de violência?
Tobias levanta a
sobrancelha e pergunta:
- Aonde o senhor
quer chegar?
- Eu... – e então
seu estômago ronca, fazendo um som tão alto que Tobias pode ouvi-lo.
- Está com fome,
senhor Valentim?
Apesar de ter se
acostumado com a fome, Valentim não havia comido nada o dia inteiro.
- Não se importe
com isso.
- Onde o senhor
vive?
Ele responde:
- Zgornja Šiška.
- Ora, mas isso é
muito longe! – exclama ele – Quer que um cocheiro o leve de volta para casa?
- Eu não tenho
como pagá-lo. Eu vou a pé.
- Com certeza não
vai! – proíbe Tobias – Aqui, tome esse dinheiro. Pegue um trem de volta, sim? E
compre algo para comer no caminho.
Intrigado com sua
generosidade, ele pergunta:
- Por que está me
ajudando?
- Foi o senhor
que me ajudou hoje. – ele se referia às pistas – Além do mais, se o senhor
caminhar de volta com essa fome, com certeza se desfalecerá no caminho.
Olhando para as
moedas de gulden[1]
em sua mão, ele diz:
- Inspetor
Tobias, eu não tenho como pagá-lo.
- Não se incomode
com isso. Afinal, encontrar sua esposa agora é tudo o que te importa, não é?
Profundamente
agradecido, ele diz:
- Esta noite o
senhor alimentará não apenas um desempregado, mas também um gato faminto.
O inspetor sorri.
- Se me dá
licença, eu tenho um trabalho a fazer. – ele lhe dá as costas e diz – Até a
vista, senhor Valentim.
- Amanhã trabalharemos
de novo?
Entediando-se,
ele responde:
- O senhor ouviu
o capitão, não? – então Tobias finalmente entra na estação.
No lado de fora, Valentim
olha para as moedas e se alegra. Esta noite ele não passaria fome.
Sorrindo, ele se
vira e também vai embora, deixando a estação da Gendarmerie para trás.

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