(Arte do game Cygni All Guns Blazing)
Base secreta
subterrânea em Shanghai. 10:17 da manhã, apenas duas horas após a invasão.
O alto comando do
Exército, da Marinha e da Aeronáutica se reúnem no subterrâneo de Dachang. Os
relatórios chegavam constantemente. A invasão alienígena estava sobre as
principais cidades chinesas. Aparentemente o inimigo mirou a cabeça da
civilização humana, e esta cabeça era a China.
Pequim estava
furiosa. O Ministério da Defesa pedia a liberação do uso do armamento
termonuclear. Eles intentavam fulminar o invasor com o fogo radioativo, nem que
para isso eles tivessem que devastar centros urbanos inteiros.
Os generais viam
como a situação era má. Pequim, Shanghai, Chongqing, Hong Kong, Chengdu,
Guangzhou, Cantão... Todas as maiores cidades da China continental eram
atacadas, e os chineses estavam perdendo. Mas para que o Ministério da Defesa
pudesse usar seu arsenal nuclear, eles precisavam da liberação do alto comando
de Shanghai.
Enquanto caminham
pelo subterrâneo de Dachang, o Tenente-General Junlong discursa:
- Generais, antes
de revelar meu projeto eu devo lhes contar a história da superação chinesa. Em
1958, durante o famoso programa “O Grande Salto Adiante” de Mao Zedong, a China
exterminou os pardais, retratados pelo governo como uma das quatro pestes. A
campanha ficou conhecida como “As Quatro Pestes”, com o governo promovendo o
extermínio de ratos, moscas, mosquitos e pardais. – começa ele – A campanha se
revelou um desastre, provocando a quase extinção dos pardais, a proliferação dos
gafanhotos e o desequilíbrio ambiental. Por estas razões, o governo foi
obrigado a abandonar a campanha.
Parando em frente
a uma porta de aço anti ataque nuclear, ele passa seu olho em um scanner e
continua:
- Mas a China
superou esta adversidade, pois antes os pardais foram tirados do ar, mas hoje
nossos caças e drones nos dão a superioridade aérea.
Então eles passam
pela porta e continuam caminhando.
- O
programa espacial chinês começou em 1956, mas foi apenas em 1970 que lançamos
nosso primeiro satélite ao espaço, o Dong
Fang Hong 1[1].
Mais tarde, em 1993, é fundada a Administração Espacial Nacional da China, uma
agência subalterna ao Ministério da Indústria e da Tecnologia da Informação. Em
2007 a China lança seu foguete Longa Marcha 3A, carregando a sonda espacial Chang’e, nome da deusa chinesa da Lua. A
Chang’e orbitou a Lua e completou a
missão lunar, tornando-se, desta maneira, um sucesso.
Parando em uma
guarita de soldados, ele continua:
- Em 2020 a China
lança seu foguete Longa Marcha 5, carregando a sonda Tianwen[2]
1 e o veículo motorizado Zhurong[3].
Em 2021 a espaçonave chega à Marte, e três meses depois o veículo Zhurong toca a superfície daquele
planeta. Esta notável façanha torna a China a terceira nação a pousar em Marte
e a estabelecer comunicação a partir da superfície marciana, junto com a União
Soviética e os Estados Unidos.
Os soldados lhes permitem passagem.
- Em 2003, Yang
Liwei foi ao espaço a bordo da Shenzhou
5, se tornando a primeira pessoa a subir pelo programa espacial chinês. Esta
façanha fez da China o terceiro país a lançar humanos no espaço, e de maneira
independente. Em 2008, Zhai Zhigang foi o primeiro taikonauta a realizar a
caminhada espacial; Zhigang participava da missão Shenzhou 7. Em 2012 Liu Yang
se torna a primeira mulher a ir ao espaço e também a primeira a entrar na
estação espacial Tiangong 1; Yang
tripulava a Shenzhou 7. Em 2021, Wang
Yaping se torna a primeira chinesa a realizar a caminhada espacial; ela
tripulava a Shenzhou 13.
Atravessando um
salão abarrotado de computadores e técnicos de comunicação, Junlong diz:
- Em 1998 surgiu
o famoso termo “taikonauta”. O jornalista chinês malaio, Chiew Lee Yih, usou essa
palavra pela primeira vez em grupos de notícias. De acordo com o jornal Diário
do Povo, o termo reúne “naut”, que significa marinho em grego, e “taik”,
derivado de “taikong”, ou “espaço” em chinês. Assim, “taikonauta” designa os
astronautas chineses.
O grupo chega a
um vasto hangar subterrâneo.
- Não apenas os
taikonautas entraram para a História ao colocarem a China no grupo das
potências espaciais, mas também seus admiráveis transportes. Me refiro ao Shenzhou. No chinês mandarim clássico, o
significado literal da palavra é “Barca Divina”, ou “A barca divina no Rio
Celestial”, que se trata da Via Láctea, a nossa galáxia.
Os generais se
deparam com uma aeronave oculta sob lonas.
- Senhores, eu
vos apresento o Wénzí[4].
Cientistas vestindo
roupas e toucas brancas semelhante a cirurgiões tiram as lonas e revelam o
protótipo de Junlong.
Intrigados, os
generais contemplam a estranha espaçonave às suas frentes. Eles viam o que
parecia ser um pequeno avião de cabine arredondada, asas retráteis e
propulsores na fuselagem. Eles viam metralhadoras e canhões, como se fossem
numerosos ferrões em uma única abelha. Mas o formato da nave era o que mais os
intrigavam. Parecia-se com um inseto, mas não exatamente uma abelha; eles viam
a um mosquito.
Junlong descreve
o protótipo.
- Generais, este
é o nosso novo protótipo, o Shenzhou
800. O protótipo é compatível com diversos armamentos, como a metralhadora Vulcan, raio laser, carregador de fóton,
ogivas atômicas, lançamento de bombas, mísseis teleguiados e bombas
incendiárias. Todos estes armamento podem ser equipado e assimilados pelo
computador de bordo.
Os generais
duvidam, sussurrando entre si. Eles têm dificuldade em acreditar que uma única
nave pode fazer tudo aquilo.
- E por falar em
computador de bordo, a nave conta com uma Inteligência Artificial avançada,
desenvolvida especialmente para auxiliar o piloto durante a pilotagem e o
combate. Com a avançada IA, a nave assimila e adapta inclusive a tecnologia do
inimigo.
Neste momento, os
generais se espantam.
- Como a nave foi
projetada para voar por longos períodos, embutimos um sistema de reabastecimento
em pleno voo. Um módulo de reabastecimento se conecta ao protótipo, mas não
apenas o abastece. Desenvolvemos um sistema para que o módulo também realize a
troca de armamentos no decorrer das missões, assim garantindo uma vantagem
estratégica.
Extasiados, os
generais batem palmas para o tenente-general e sua aeronave.
Alguém pergunta:
- O senhor disse que
já tem alguém para pilotar o protótipo?
- Sim. – confirma
ele – O piloto se chama Yang Haisheng e já está a caminho.
E então Li Fen,
filha de Junlong, se incomoda.
Outro general
diz:
- Pois diga-o
para se apressar. O Alto Comando aguarda nossa liberação para lançar os mísseis
Dongfeng[5]!
Junlong se
preocupa. Se o seu protótipo falhar, o Alto Comando lançará bombas termonucleares
no céu e no espaço, contaminando centros urbanos para sempre.
- Estou
trabalhando nisso, senhor.
§
Finada a reunião,
Junlong aguarda. Da janela de seu escritório, ele observa o Shenzhou Wénzi lá embaixo. O
tenente-general está apreensivo. Os generais o pressionam; a cada minuto Shanghai
é dizimada lá em cima. Ele pede paciência, mas a espera é terrível. Os minutos
custam centenas de vidas.
- Se apresse, Yang!
– sussurra ele.
Então alguém
atrás dele abre a porta.
- Pai, posso
falar com você?
Virando-se, ele
vê Li Fen.
- O que foi,
filha?
- Por que o
senhor não me escalou? Por que o senhor convocou Yang Haisheng?
- Do que está
falando, querida?
- Eu sou a pessoa
que deve pilotar o Shenzhou Wénzi! –
exclama ela.
Junlong se
assusta.
- Não diga
bobagem, Li Fen! Eu jamais a convocaria para pilotar o Wénzi!
- Por que não?!
Então ele hesita.
- Você não tem a
experiência necessária em combate.
- É mentira! –
exclama ela, novamente – É porque o senhor não quer me pôr em perigo, não é?
Li Fen está
certa. Junlong jamais a colocaria em perigo.
- Li Fen, ouça...
– diz ele, respirando fundo – Preciso de um piloto experiente para pilotar a
nave. Lembre-se que é um protótipo. O risco é alto e muita coisa pode dar
errado durante o voo.
- Como pode dar
errado? O protótipo tem uma IA avançada para auxiliar na navegação!
- Não é tão
simples. A segurança e integridade do conjunto piloto/aeronave também precisam
de auxílio humano, mas remoto.
- Então está
dizendo que, além da IA, o protótipo também precisa de um auxiliar de
comunicação?
Junlong se surpreende.
Além de ambiciosa, sua filha também sempre foi perspicaz.
- Sim.
Li Fen insiste:
- Eu sei que
posso pilotar o Wénzi! Independente de
qualquer risco!
Cansado de discutir,
Junlong tem uma ideia.
- Coronel Li Fen
Junlong, você está convocada para auxiliar o piloto Yang Haisheng na navegação
do Shenzhou Wénzi.
Sua filha
protesta.
- Eu, uma
auxiliar de voo?! – indigna-se ela – Eu não quero auxiliar! Eu quero pilotar
aquela nave!
- Mas não vai!
Você o auxiliará a distância, fora da área de combates.
- Mas, pai...!
- Me deixe
orgulhoso, coronel! – interrompe ele. Então ele se vira e, juntando suas mãos
nas costas, ele conclui – Dispensada.
§
Yang atravessou
uma Shanghai em ruínas. Os cruzadores espaciais pairam sobre a cidade e os
enxames de naves reduzem os edifícios a escombros. Incêndios se alastram pelos
bairros e carros com famílias inteiras são deixados nas rodovias sem socorro.
Felizmente para
Yang, o subterrâneo de Shanghai está intacto. Oculto estrategicamente, os
níveis inferiores agora são usados pelos militares para deslocamento de
armamentos e inteligência.
Soldados e
engenheiros trabalham ao longo dos túneis. Câmaras e mais câmaras surgem pelos
trilhos enquanto Yang avança de trem. Apesar da infeliz tragédia na superfície,
ali embaixo Yang se sente em segurança.
Mas não por muito
tempo.
O subterrâneo
secreto da base de Dachang é vasto. Junlong se reúne com a alta cúpula militar
de Shanghai em sua sala. Ao olhar para cima, o jovem piloto o vê reunido com os
generais. Eles lançam olhares desconfiados para Yang, e apenas seu tutor
Junlong punha suas esperanças nele. Apreensivo, Yang percebe que uma grande
responsabilidade repousava em seus ombros.
A Shenzhou Wénzi é fascinante. Yang nunca
viu uma nave tão incrível quanto aquela. Sua tecnologia, seus armamentos e seu
formato... Aquele design lhe lembrava um mosquito. Tudo em Wénzi era tão incrível que ele a compara com as próprias naves
alienígenas.
Yang veste um
uniforme de piloto diferente. Parecia-se com um traje de taikonauta, mas mais
compacto e cheio de sensores que transmitiam suas condições físicas ao
computador de bordo.
Ao entrar na
cabine, uma voz masculina e computadorizada o cumprimenta.
- Zǎoshang hǎo[6],
piloto Haisheng. Eu me chamo Navcom; sou a Inteligência Artificial da Shenzhou Wénzi e vou auxilia-lo na
navegação da nave. Prazer em conhece-lo.
- Bom dia,
Navcom. – responde ele, sorrindo.
Ao colocar o
capacete, uma voz feminina fala com ele. Yang reconhece uma voz familiar.
“Haisheng? Piloto
Yang Haisheng...?”
- Li Fen, é você?
“Olá, Piloto
Haisheng. Aqui é a Coronel Li Fen Junlong. Eu serei sua assistente de
comunicações entre o Wénzi e o quartel-general”.
Li Fen lhe falava
em um tom frio e muito formal para velhos conhecidos. Neste momento, Yang
percebe sua profunda insatisfação.
As informações no
visor de seu capacete lhe davam a impressão de poder pilotar a nave com meros
comandos da mente. O enorme vidro da cabine o lembrava o das cabines dos
helicópteros. Dentro do Wénzi, Yang
se sentia suspenso no ar sem nem mesmo ter saído do chão.
Os técnicos no
hangar lhe dão a liberação para ligar a nave. Não era necessário nenhum
treinamento para pilota-lo; não havia tempo. Apesar da vasta experiência em voo
do jovem piloto, a única coisa que o Wénzi
necessitava era da maior virtude do ser humano: a coragem.
Yang inicia os
motores e os propulsores se acionam. Naquele momento ele sente que o Wénzi era incrivelmente leve. Dois
manches controlavam a nave; neles haviam botões para o disparo das armas e a
decolagem. Ao apertar os botões, o Wénzi
imediatamente deixa o solo, suspendendo-se a poucos centímetros no ar. Para voar,
a nave não necessitava de pista de pouso ou de espaço ao ar livre.
A liberação para
sair foi dada. Os técnicos e engenheiros se reúnem para ver o protótipo partir.
Eles querem ver seu ousado projeto finalmente ser usado em uma missão.
Uma porta de aço
se abre e revela um túnel subterrâneo. Yang se surpreende, pois o túnel era
estreito demais para aviões comuns. Mas Wénzi
estava muito longe de ser um avião comum. Antes que pudesse partir, alguém
aparece no alto do hangar e o encara.
Em uma plataforma
elevada, o Tenente-General Junlong se põe diante de Yang. Três segundos depois,
o militar honrosamente lhe bate continência. Comovido por tamanha demonstração
de respeito, Yang se endireita e bate continência também.
Finado a honrosa
troca de gestos, Yang move os manches e deixa o hangar.

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