segunda-feira, 18 de dezembro de 2023

Shenzhou Wénzi - 03 - Shenzhou Wénzi

 


(Arte do game Cygni All Guns Blazing)

 

Base secreta subterrânea em Shanghai. 10:17 da manhã, apenas duas horas após a invasão.

O alto comando do Exército, da Marinha e da Aeronáutica se reúnem no subterrâneo de Dachang. Os relatórios chegavam constantemente. A invasão alienígena estava sobre as principais cidades chinesas. Aparentemente o inimigo mirou a cabeça da civilização humana, e esta cabeça era a China.

Pequim estava furiosa. O Ministério da Defesa pedia a liberação do uso do armamento termonuclear. Eles intentavam fulminar o invasor com o fogo radioativo, nem que para isso eles tivessem que devastar centros urbanos inteiros.

Os generais viam como a situação era má. Pequim, Shanghai, Chongqing, Hong Kong, Chengdu, Guangzhou, Cantão... Todas as maiores cidades da China continental eram atacadas, e os chineses estavam perdendo. Mas para que o Ministério da Defesa pudesse usar seu arsenal nuclear, eles precisavam da liberação do alto comando de Shanghai.

Enquanto caminham pelo subterrâneo de Dachang, o Tenente-General Junlong discursa:

- Generais, antes de revelar meu projeto eu devo lhes contar a história da superação chinesa. Em 1958, durante o famoso programa “O Grande Salto Adiante” de Mao Zedong, a China exterminou os pardais, retratados pelo governo como uma das quatro pestes. A campanha ficou conhecida como “As Quatro Pestes”, com o governo promovendo o extermínio de ratos, moscas, mosquitos e pardais. – começa ele – A campanha se revelou um desastre, provocando a quase extinção dos pardais, a proliferação dos gafanhotos e o desequilíbrio ambiental. Por estas razões, o governo foi obrigado a abandonar a campanha.

Parando em frente a uma porta de aço anti ataque nuclear, ele passa seu olho em um scanner e continua:

- Mas a China superou esta adversidade, pois antes os pardais foram tirados do ar, mas hoje nossos caças e drones nos dão a superioridade aérea.

Então eles passam pela porta e continuam caminhando.

  - O programa espacial chinês começou em 1956, mas foi apenas em 1970 que lançamos nosso primeiro satélite ao espaço, o Dong Fang Hong 1[1]. Mais tarde, em 1993, é fundada a Administração Espacial Nacional da China, uma agência subalterna ao Ministério da Indústria e da Tecnologia da Informação. Em 2007 a China lança seu foguete Longa Marcha 3A, carregando a sonda espacial Chang’e, nome da deusa chinesa da Lua. A Chang’e orbitou a Lua e completou a missão lunar, tornando-se, desta maneira, um sucesso.

Parando em uma guarita de soldados, ele continua:

- Em 2020 a China lança seu foguete Longa Marcha 5, carregando a sonda Tianwen[2] 1 e o veículo motorizado Zhurong[3]. Em 2021 a espaçonave chega à Marte, e três meses depois o veículo Zhurong toca a superfície daquele planeta. Esta notável façanha torna a China a terceira nação a pousar em Marte e a estabelecer comunicação a partir da superfície marciana, junto com a União Soviética e os Estados Unidos.  

 Os soldados lhes permitem passagem.

- Em 2003, Yang Liwei foi ao espaço a bordo da Shenzhou 5, se tornando a primeira pessoa a subir pelo programa espacial chinês. Esta façanha fez da China o terceiro país a lançar humanos no espaço, e de maneira independente. Em 2008, Zhai Zhigang foi o primeiro taikonauta a realizar a caminhada espacial; Zhigang participava da missão Shenzhou 7. Em 2012 Liu Yang se torna a primeira mulher a ir ao espaço e também a primeira a entrar na estação espacial Tiangong 1; Yang tripulava a Shenzhou 7. Em 2021, Wang Yaping se torna a primeira chinesa a realizar a caminhada espacial; ela tripulava a Shenzhou 13.   

Atravessando um salão abarrotado de computadores e técnicos de comunicação, Junlong diz:

- Em 1998 surgiu o famoso termo “taikonauta”. O jornalista chinês malaio, Chiew Lee Yih, usou essa palavra pela primeira vez em grupos de notícias. De acordo com o jornal Diário do Povo, o termo reúne “naut”, que significa marinho em grego, e “taik”, derivado de “taikong”, ou “espaço” em chinês. Assim, “taikonauta” designa os astronautas chineses.

O grupo chega a um vasto hangar subterrâneo.

- Não apenas os taikonautas entraram para a História ao colocarem a China no grupo das potências espaciais, mas também seus admiráveis transportes. Me refiro ao Shenzhou. No chinês mandarim clássico, o significado literal da palavra é “Barca Divina”, ou “A barca divina no Rio Celestial”, que se trata da Via Láctea, a nossa galáxia.

Os generais se deparam com uma aeronave oculta sob lonas.

- Senhores, eu vos apresento o Wénzí[4].

Cientistas vestindo roupas e toucas brancas semelhante a cirurgiões tiram as lonas e revelam o protótipo de Junlong.

Intrigados, os generais contemplam a estranha espaçonave às suas frentes. Eles viam o que parecia ser um pequeno avião de cabine arredondada, asas retráteis e propulsores na fuselagem. Eles viam metralhadoras e canhões, como se fossem numerosos ferrões em uma única abelha. Mas o formato da nave era o que mais os intrigavam. Parecia-se com um inseto, mas não exatamente uma abelha; eles viam a um mosquito.

Junlong descreve o protótipo.

- Generais, este é o nosso novo protótipo, o Shenzhou 800. O protótipo é compatível com diversos armamentos, como a metralhadora Vulcan, raio laser, carregador de fóton, ogivas atômicas, lançamento de bombas, mísseis teleguiados e bombas incendiárias. Todos estes armamento podem ser equipado e assimilados pelo computador de bordo.

Os generais duvidam, sussurrando entre si. Eles têm dificuldade em acreditar que uma única nave pode fazer tudo aquilo.

- E por falar em computador de bordo, a nave conta com uma Inteligência Artificial avançada, desenvolvida especialmente para auxiliar o piloto durante a pilotagem e o combate. Com a avançada IA, a nave assimila e adapta inclusive a tecnologia do inimigo.

Neste momento, os generais se espantam.

- Como a nave foi projetada para voar por longos períodos, embutimos um sistema de reabastecimento em pleno voo. Um módulo de reabastecimento se conecta ao protótipo, mas não apenas o abastece. Desenvolvemos um sistema para que o módulo também realize a troca de armamentos no decorrer das missões, assim garantindo uma vantagem estratégica.

Extasiados, os generais batem palmas para o tenente-general e sua aeronave.

Alguém pergunta:

- O senhor disse que já tem alguém para pilotar o protótipo?

- Sim. – confirma ele – O piloto se chama Yang Haisheng e já está a caminho.

E então Li Fen, filha de Junlong, se incomoda.

Outro general diz:

- Pois diga-o para se apressar. O Alto Comando aguarda nossa liberação para lançar os mísseis Dongfeng[5]!

Junlong se preocupa. Se o seu protótipo falhar, o Alto Comando lançará bombas termonucleares no céu e no espaço, contaminando centros urbanos para sempre.

- Estou trabalhando nisso, senhor.

 

§

 

Finada a reunião, Junlong aguarda. Da janela de seu escritório, ele observa o Shenzhou Wénzi lá embaixo. O tenente-general está apreensivo. Os generais o pressionam; a cada minuto Shanghai é dizimada lá em cima. Ele pede paciência, mas a espera é terrível. Os minutos custam centenas de vidas.

- Se apresse, Yang! – sussurra ele.

Então alguém atrás dele abre a porta.

- Pai, posso falar com você?

Virando-se, ele vê Li Fen.

- O que foi, filha?

- Por que o senhor não me escalou? Por que o senhor convocou Yang Haisheng?

- Do que está falando, querida?

- Eu sou a pessoa que deve pilotar o Shenzhou Wénzi! – exclama ela.

Junlong se assusta.

- Não diga bobagem, Li Fen! Eu jamais a convocaria para pilotar o Wénzi!

- Por que não?!

Então ele hesita.

- Você não tem a experiência necessária em combate.

- É mentira! – exclama ela, novamente – É porque o senhor não quer me pôr em perigo, não é?

Li Fen está certa. Junlong jamais a colocaria em perigo.

- Li Fen, ouça... – diz ele, respirando fundo – Preciso de um piloto experiente para pilotar a nave. Lembre-se que é um protótipo. O risco é alto e muita coisa pode dar errado durante o voo.

- Como pode dar errado? O protótipo tem uma IA avançada para auxiliar na navegação!

- Não é tão simples. A segurança e integridade do conjunto piloto/aeronave também precisam de auxílio humano, mas remoto.

- Então está dizendo que, além da IA, o protótipo também precisa de um auxiliar de comunicação?

Junlong se surpreende. Além de ambiciosa, sua filha também sempre foi perspicaz.

- Sim.

Li Fen insiste:

- Eu sei que posso pilotar o Wénzi! Independente de qualquer risco!

Cansado de discutir, Junlong tem uma ideia.

- Coronel Li Fen Junlong, você está convocada para auxiliar o piloto Yang Haisheng na navegação do Shenzhou Wénzi.

Sua filha protesta.

- Eu, uma auxiliar de voo?! – indigna-se ela – Eu não quero auxiliar! Eu quero pilotar aquela nave!

- Mas não vai! Você o auxiliará a distância, fora da área de combates.

- Mas, pai...!

- Me deixe orgulhoso, coronel! – interrompe ele. Então ele se vira e, juntando suas mãos nas costas, ele conclui – Dispensada.

 

§

 

Yang atravessou uma Shanghai em ruínas. Os cruzadores espaciais pairam sobre a cidade e os enxames de naves reduzem os edifícios a escombros. Incêndios se alastram pelos bairros e carros com famílias inteiras são deixados nas rodovias sem socorro.

Felizmente para Yang, o subterrâneo de Shanghai está intacto. Oculto estrategicamente, os níveis inferiores agora são usados pelos militares para deslocamento de armamentos e inteligência.

Soldados e engenheiros trabalham ao longo dos túneis. Câmaras e mais câmaras surgem pelos trilhos enquanto Yang avança de trem. Apesar da infeliz tragédia na superfície, ali embaixo Yang se sente em segurança.

Mas não por muito tempo.

O subterrâneo secreto da base de Dachang é vasto. Junlong se reúne com a alta cúpula militar de Shanghai em sua sala. Ao olhar para cima, o jovem piloto o vê reunido com os generais. Eles lançam olhares desconfiados para Yang, e apenas seu tutor Junlong punha suas esperanças nele. Apreensivo, Yang percebe que uma grande responsabilidade repousava em seus ombros.

A Shenzhou Wénzi é fascinante. Yang nunca viu uma nave tão incrível quanto aquela. Sua tecnologia, seus armamentos e seu formato... Aquele design lhe lembrava um mosquito. Tudo em Wénzi era tão incrível que ele a compara com as próprias naves alienígenas. 

Yang veste um uniforme de piloto diferente. Parecia-se com um traje de taikonauta, mas mais compacto e cheio de sensores que transmitiam suas condições físicas ao computador de bordo.

Ao entrar na cabine, uma voz masculina e computadorizada o cumprimenta.

- Zǎoshang hǎo[6], piloto Haisheng. Eu me chamo Navcom; sou a Inteligência Artificial da Shenzhou Wénzi e vou auxilia-lo na navegação da nave. Prazer em conhece-lo.

- Bom dia, Navcom. – responde ele, sorrindo.

Ao colocar o capacete, uma voz feminina fala com ele. Yang reconhece uma voz familiar.

“Haisheng? Piloto Yang Haisheng...?”

- Li Fen, é você?

“Olá, Piloto Haisheng. Aqui é a Coronel Li Fen Junlong. Eu serei sua assistente de comunicações entre o Wénzi e o quartel-general”.

Li Fen lhe falava em um tom frio e muito formal para velhos conhecidos. Neste momento, Yang percebe sua profunda insatisfação.

As informações no visor de seu capacete lhe davam a impressão de poder pilotar a nave com meros comandos da mente. O enorme vidro da cabine o lembrava o das cabines dos helicópteros. Dentro do Wénzi, Yang se sentia suspenso no ar sem nem mesmo ter saído do chão.

Os técnicos no hangar lhe dão a liberação para ligar a nave. Não era necessário nenhum treinamento para pilota-lo; não havia tempo. Apesar da vasta experiência em voo do jovem piloto, a única coisa que o Wénzi necessitava era da maior virtude do ser humano: a coragem.

Yang inicia os motores e os propulsores se acionam. Naquele momento ele sente que o Wénzi era incrivelmente leve. Dois manches controlavam a nave; neles haviam botões para o disparo das armas e a decolagem. Ao apertar os botões, o Wénzi imediatamente deixa o solo, suspendendo-se a poucos centímetros no ar. Para voar, a nave não necessitava de pista de pouso ou de espaço ao ar livre.   

A liberação para sair foi dada. Os técnicos e engenheiros se reúnem para ver o protótipo partir. Eles querem ver seu ousado projeto finalmente ser usado em uma missão.

Uma porta de aço se abre e revela um túnel subterrâneo. Yang se surpreende, pois o túnel era estreito demais para aviões comuns. Mas Wénzi estava muito longe de ser um avião comum. Antes que pudesse partir, alguém aparece no alto do hangar e o encara.

Em uma plataforma elevada, o Tenente-General Junlong se põe diante de Yang. Três segundos depois, o militar honrosamente lhe bate continência. Comovido por tamanha demonstração de respeito, Yang se endireita e bate continência também.  

Finado a honrosa troca de gestos, Yang move os manches e deixa o hangar.

  



[1] “O leste é vermelho nº1” em chinês

[2] “Questões Celestiais” em chinês

[3] “Zhurong” é o deus do fogo na mitologia chinesa

[4] “Mosquito” em chinês

[5] “Vento Oriental” em chinês

[6] “Bom dia” em chinês

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