(Imagem do filme chinês "Shanghai Fortress")
O ano é 2460 e.C,
ou 511 pós revolução maoísta.
No século 25, a
nova sede da ONU localiza-se em Pequim, mas é fortemente controlada pela China.
Yang Haisheng é
um jovem piloto de caça na Kōngjūn[1]
chinesa. Com apenas dezoito anos ele se tornou campeão de tênis de mesa,
trazendo orgulho para o seu país, e sua grande façanha atraiu a atenção de homens
poderosos no alto escalão militar chinês.
Zhōng jiàng[2] Junlong, comandante da base aérea em Shangai, aprecia o esporte e o elogia
por seus bons reflexos, assim convidando-o para ser piloto na Força Aérea. Yang se
sente lisonjeado, pois ele era só mais um dentre milhões de chineses
residindo a cidade, e nunca pensou que algo que ele fazia por diversão lhe fosse
abrir portas. E com tamanha oportunidade, o humilde rapaz aceita o convite. Desta maneira ele passa a ter
perspectiva de futuro.
Na academia de
pilotos, Yang conhece Li Fen, filha de Junlong. Eles nunca foram amigos, mas devido a sua proximidade com o Tenente General, Yang a via
esporadicamente na base aérea de Dachang.
Yang se lembra
que Junlong costumava contar histórias mitológicas à sua filha. Segundo Junlong, a
mitologia chinesa era radicalmente diferente das do Ocidente. Na China, os
dragões e deuses eram seres benéficos, diferentes dos deuses vingativos e
egoístas da mitologia grega, principalmente. Sendo um patriota, o
Tenente General tinha um profundo conhecimento cultural de seu país, incluindo o
confucionismo, o taoísmo e a mitologia.
Li Fen chorava
pois queria ser uma oficial da Força Aérea como seu pai. Preocupado com a
ambição inabalável de sua filha, Junlong lhe conta a história de Lü Dongbin, um dos
Oito Imortais da mitologia chinesa.
Lü Dongbin era um
homem erudito que vivia para transmitir o conhecimento taoísta para iluminar as
pessoas. Certa noite, enquanto cozinhava uma sopa, Lü Dongbin caiu no sono e
adormeceu, tendo um interessante sonho. No sonho ele teve uma ascensão
meteórica, chegando ao cargo de Primeiro Ministro, casando-se com a filha do
imperador e tendo dois filhos. Seu sucesso atraiu a inveja da corte e ele foi
falsamente caluniado, sendo traído por sua esposa, tendo seus filhos mortos por
bandidos e ultimamente sendo exilado do país. A rápida ascensão chega a um
triste fim, pois o sábio erudito morre miseravelmente na sarjeta.
Li Fen não
entende o que seu pai quer dizer, e então ele explica. Lü Dongbin acorda e se
assusta ao ver que sua sopa começara a ferver, então ele reflete como uma vida
inteira pode se passar dentro de um sonho no pequeno espaço de tempo em que a água começa a ferver. Neste momento Zhongli Quan, um outro imortal, aparece e lhe revela que
foi ele quem lhe colocou esse sonho. Zhongli Quan queria que ele compreendesse
que todas as coisas na vida são transitórias e que ele deveria buscar algo mais
duradouro em sua existência, como a espiritualidade e a eternidade.
Junglong conclui
dizendo que sua filha não queria a carreira militar por vocação, mas para
seguir os passos do pai. O Tenente General adverte que a carreira militar é
perigosa e que ela pode se ferir nos numerosos conflitos pelo mundo.
Preocupado, o pai a aconselha a procurar carreiras que a levassem à erudição e
ao conhecimento. Li Fen protesta, mas não é ouvida pelo pai.
§
Dia 26 de
novembro de 2460 (511 no calendário revolucionário chinês). 8:04 da manhã.
Alarmes soam por
toda Shangai. No distrito financeiro de Pudong, as pessoas olham para o céu e se
perguntam: “não é esta a sirene de ataque aéreo?”.
Sobre os prédios aparecem enormes aeronaves, tão colossais que as próprias nuvens se deformavam
enquanto elas passavam.
Yang Haisheng reconhece cruzadores espaciais,
mas sua aparência era tão estranha que ele não se lembra ter visto tal formato na base aérea.
Eram aeronaves pretas e roxas, semelhantes a couraçados com o formato
insectóide.
Nos telões dos
prédios, as emissoras estatais interrompem sua programação para noticiar as estranhas aeronaves. Nas bases militares, os comandantes exclamavam
enfurecidos pedindo esclarecimentos sobre quem ou o que era aquela frota. Mas
os esclarecimentos viriam tarde demais.
Ainda confusos,
os chineses estavam diante de um novo inimigo; uma raça não-humana. Aquela
era a invasão de um inimigo desconhecido, e ele enviara sua frota para Shanghai.
A frota projeta
assustadoras sombras pela cidade. Descendo à altura do prédio Torre de
Shanghai, os cruzadores abrem suas comportas e os chineses veem o que parecem
ser morcegos pendurados em seu interior. De repente os “morcegos” se soltam
e revelam ser minúsculas naves, voando em conjunto como drones.
Separando-se em
pequenos grupos, as estranhas naves rasgam o céu em voos espiralados. De repente as naves lançam bombas e destroem a fachada dos
edifícios, causando grande pânico e confusão com o súbito ataque.
Os cidadãos, que
observavam tudo nas ruas, se desesperam e correm, fugindo do inimigo desconhecido. Destroços caem dos prédios como uma avalanche de concreto fragmentado e vidros estilhaçados, ferindo os cidadãos nas ruas e causando vítimas
fatais.
O ataque é rápido
e ordenado. O enxame de naves voa em espiral soltando bombas, como serpentes
voadoras portadoras da destruição. Os edifícios são arrasados e destruídos; as
fachadas de vidro se estilhaçam e a estrutura se abala. Incêndios aparecem e
alguns prédios desabam, levantando uma onda monstruosa de poeira pelas ruas.
As forças armadas
emitem o ordem e os militares se prontificam para o combate. Na base aérea de
Dachang, o jovem Yang corre apressadamente pela pista de pouso. Subindo em seu
caça aéreo Chengdu J-200, ele fecha a cabine e recebe a permissão para decolar.
Um minuto depois,
Yang e mais cinco outros caças voam em formação sobre Shanghai. Os colossais cruzadores
os assombram; nem no espaço eles viram naves tão grandes assim. O alto
comando não autorizou ataca-las; eles pretendem estuda-las primeiro. Mirando os
enxames, a formação se separa e cada caça persegue o seu alvo.
Yang persegue
aqueles grupos espiralados. Ele coloca as minúsculas naves no alvo e se prepara para atirar. O computador de seu caça tem dificuldade para
travar o alvo, pois as naves são numerosas e confundem o visor. Yang finalmente
atira e o míssil destrói alguns inimigos, rompendo o que parece ser um cordão. Para sua surpresa, outras naves surgem do próprio enxame e restauram
o rompimento, como se tivessem se multiplicado.
Aquela espiral
aérea arremete contra Yang e o ataca. Eles soltam suas bombas e o
jovem piloto se esquiva por um triz. Ele nota que aquelas não eram bombas comuns, mas esferas de
energia pura altamente voláteis. Realizando manobras evasivas, ele se
afasta daquele enxame.
Enquanto pilota,
ele nota como o inimigo combatia. As minúsculas naves não voavam como os caças
chineses; era como se elas flutuassem no ar sustentadas por propulsores magnéticos.
Devido ao seu alto número, ele não podia ver como elas atiravam aquelas bombas de
energia esférica; Yang vê apenas um enxame espiralado serpenteando o ar,
provocando hipnose em sua vítima. O lançamento das bombas ocorria
tão rápido que era quase impossível de se esquivar. Mais uma vez, os reflexos
de Yang o favoreciam.
Uma explosão é
ouvida ao seu lado. Próximo ao edifício Torre Pérola Oriental, um caça chinês é
abatido. Yan se consterna; o piloto não foi capaz de resistir ao hipnótico ataque.
O novo inimigo
tem um modo diferente de dog fight[3].
Voando em grupos ordenados, eles encobrem o espaço aéreo com suas minúsculas
naves, atacando em espiral como enxames.
O combate aéreo
prossegue. Os caças chineses, sustentados pela força das turbinas, são incapazes
de acompanhar as manobras fechadas do inimigo. Surpreso, Yang sussurra:
- Eles não são inimigos
comuns. Eles são alienígenas!
Os caças são abatidos
um a um. Em sua nova forma de combater, os enxames sobrecarregam e desgastam a esquadra chinesa. Alguns são atingidos pelas bombas de energia e outros não conseguem
se esquivar, colidindo-se contra os enxames. Yang vê estarrecido os enxames se
restaurarem e os caças sendo destruídos.
O computador de seu
caça tem dificuldade em travar apenas um inimigo. Os mísseis se comprovam
lentos e ineficientes, e a metralhadora é simplesmente inútil. Em poucos
minutos, o combate deixa de ser defensivo para ser por sobrevivência.
Surgindo abaixo
de si, os enxames arremetem contra Yang. Ele se esquiva e
sente as naves passando pela fuselagem de raspão. Os prédios estavam em chamas e alguns desabavam produzindo terríveis sons. Sirenes de emergência eram ouvidas lá embaixo... Sobrepujado,
o piloto sabe que se continuar ali será o seu fim.
Recebendo a ordem
em seu rádio, ele escuta: “recuar!”.
Novamente evadindo, ele se afasta do centro financeiro de Shanghai e voa para a base
aérea de Dachang. Ao chegar lá, ele tem uma terrível surpresa; a base estava
tomada pelo inimigo. Cruzadores alienígenas sobrevoavam a pista e os enxames
dizimavam os hangares. Temendo por sua aeronave, ele dá meia volta e se dirige
à outra pista de voo: a base aérea na nova província chinesa de Taiwan.
E assim o jovem
piloto realiza sua fuga de Shanghai.
§
Do estreito de
Taiwan, o alto comando da Força Aérea vê Shanghai ser subjugada e destruída. Desde
a Segunda Guerra Mundial que Shanghai não era conquistada, e sua humilhante derrota
afeta o orgulho chinês.
Em meio a imagens
confusas de incêndios e desabamentos, os generais veem enxames de minúsculas
naves atravessando a fumaça e a poeira. Acima, os silenciosos cruzadores observavam,
imponentes, suas naves causarem a destruição.
Relatórios e mais
relatórios chegam à mesa. Os generais olham estarrecidos para os números; a perda material e em vidas foram enormes. Zhōng jiàng Junlong informa que, com seu modelo
de combate, caças e drones não podem enfrentar os enxames.
- Yīqún[4]...?
– perguntam os generais.
E assim o novo inimigo fica apelidado “enxame”.
Os generais
argumentam que a aerodinâmica inimiga era tão avançada que só poderia ser uma raça alienígena. Aeronaves movidas a turbinas não teriam chance contra eles, e a
única esperança era combater o inimigo no espaço. Mas havia um problema. Os cruzadores
patrulhavam o céu e o Exército de Liberação Popular da China tinha a obrigação de
proteger seus cidadãos na Terra.
Com tecnologia
inferior e presos na Terra, o alto comando não sabe o que fazer. Então Junlong
toma a palavra e diz:
- Existe um protótipo
experimental, um novo tipo de aeronave de combate... Semelhante ao enxame... – informa ele.
Intrigados, os
generais perguntam:
- Semelhante ao enxame?
- Sim. Com propulsores antigravitacionais e manobrabilidade revolucionários. Mas ele foi abandonado há alguns anos.
Ainda intrigados, eles perguntam:
- Por que ele foi
abandonado?
- Por ser fase de
teste, há um enorme risco de lesão grave e até morte do piloto.
Um dos generais
pergunta:
- O senhor
acredita que esse protótipo possa nos dar vantagem ao combater o inimigo?
- Bem, o
protótipo nunca foi usado em combate. Apesar de possuir um computador de bordo avançado que auxilia na navegação, o alto risco com a vida do piloto desencoraja a realização de testes. Por estes motivos, eu não sei dizer, senhor.
Então o alto
comando discute o assunto. Apesar do risco, eles precisam de todos os recursos possíveis
para conter a invasão. Eles estavam dispostos a sacrificar uma vida no processo, pois argumentavam que este é o destino esperado de um militar chinês que escolheu servir ao seu país.
- Apenas o melhor
dos melhores pode pilotar esse protótipo. – comenta um general – Alguém com um corpo saudável e habilidade impecável para suporta-lo.
- Há milhares de
bons pilotos na China continental, general. Mas temo que a quantidade esteja diminuindo
enquanto falamos.
- Não podemos permitir que nossa última esperança recaia nas mãos de um piloto inexperiente.
Então uma mensagem
chega ao celular de Junlong. Seus subordinados informam que seu pupilo, Yang Haisheng, acaba de chegar à base aérea de Taiwan. Para sua surpresa,
Haisheng saíra ileso do primeiro ataque da invasão. Então ele divaga por um
momento.
Percebendo seu
silêncio, o alto comando olha para Junlong e pergunta:
- Zhōng jiàng, o
senhor conhece alguém que possa pilotar o protótipo?
Endireitando-se, Junlong imponentemente responde:
- Eu conheço alguém.

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