(Arte de Antarik Fox)
Dos subterrâneos
da montanha de Xiaodian, uma escotilha se abre e Wénzi aparece.
O canal de
comunicação recebe um chamado e Navcom transmite a mensagem ao capacete de
Yang.
“Piloto Haisheng,
aqui é o Tenente-General Junlong. Sua missão é repelir o invasor alienígena e
liberar Shanghai. Repito: repelir o invasor alienígena e liberar Shanghai. Me
deixe orgulhoso, filho. Câmbio e desligo”.
- Filho...? –
repete Yang, sorrindo.
De fato, Junlong
tinha grande estima pelo jovem piloto, pois mesmo passados tantos anos o tenente-general
o estimava como um filho que ele nunca teve.
“Piloto Haisheng,
aqui é sua assistente de comunicações, a Coronel Li Fen Junlong. Devo lembra-lo
que Wénzi possui alta manobrabilidade e pode se movimentar livremente para
qualquer direção. Os propulsores são rotativos e estão instalados por todo o
corpo da nave. Também devo alertar que paradas bruscas e arrancadas podem
provocar tontura e desmaios, mas isso não é problema para um piloto experiente
como você, não é mesmo?”.
Yang percebe o
tom provocativo na voz da mulher. Aparentemente ela quer descontar nele sua
frustração por não ter sido escalada para pilotar o Wénzi.
- Afirmativo,
coronel.
“Câmbio e
desligo”.
Outra voz, uma
mais formal e robótica, surge nos fones de seu capacete. Ele reconhece a
Inteligência Artificial Navcom.
- Inimigo a um
minuto, senhor.
- Como está o
status da nave, Navcom?
- Tanque de
combustível cheio. Reservatório de oxigênio cheio. Nível de suporte a vida
cheio. Saúde do piloto, ok. Armamentos carregados e prontos para atirar,
senhor.
Respirando fundo,
Yang se tranquiliza dizendo:
- Que os deuses
me ajudem.
Dizer aquilo foi
algo confuso para o jovem piloto, pois ele era um ateísta e, quanto as
religiões, ele seguia as diretrizes do Partido. Para o governo, as religiões
eram movimentos potencialmente sediciosas e o Partido condenava suas
organizações, classificando-as como supersticiosas.
Uma densa fumaça de incêndio encobre o centro financeiro de
Shanghai. Ao atravessa-la, Yang encontra a cidade devastada pelos enxames.
Aqueles cruzadores espaciais hediondos ainda pairavam no alto, como se fossem
deuses malignos vindos do abismo mais profundo do cosmos.
Enquanto avança,
prédios cedem e desabam sobre si mesmos. Yang percebe em pânico que ainda
haviam pessoas dentro dos edifícios. Junlong tinha razão, o preço da espera
veio ao custo de milhares de vidas humanas.
Circulando ao
redor dos prédios, os enxames surgem no meio do fogo. Aquela era a hora da
verdade. Com o inimigo a vista, o tão aguardado momento chegara; Wénzi
finalmente seria usado em combate.
Yang atira e se
surpreende. As metralhadoras eram leves e o empuxo não afetava o voo. As naves
inimigas sofrem dano e se explodem, sendo abatidas uma a uma.
A alta capacidade
de manobra dos alienígenas se revela e os enxames se curvam no ar. Enquanto
elas se esquivam e se esgueiram, Yang esterça os manches e corrige bruscamente
sua trajetória. A virada foi tão improvável que qualquer aeronave de caça teria
se despedaçado em seu lugar.
Yang segue o inimigo
pelo interior dos prédios. Tanto o enxame quanto Wénzi eram minúsculos e podiam
entrar facilmente em passagens estreitas. Enquanto segue o inimigo, Yang passa
por apartamentos e escritórios. Aquilo era surreal para Yang, pois em seu voo
eles atropelavam escrivaninhas e computadores.
- Legal! – extasia-se ele.
Atirando sua
metralhadora, o enxame é abatido impiedosamente. O inimigo se esquiva e tenta
se esgueirar por outras passagens, mas logo percebe que havia perdido sua
vantagem.
Do enxame,
aquelas bombas de energia são lançadas. Yang as reconhece da última vez. Seu
súbito tiro pode confundir até os pilotos experientes. Ele se esquiva
habilmente, mas percebe espantado que as mesmas manobras evasivas seriam
impossíveis em um avião comum.
O primeiro enxame
é destruído; Yang se manteve firme em seu encalço e não os deixou escapar. Animado,
ele enxuga o suor de sua testa.
Ascendendo o
Wénzi ao céu, ele olha para a cidade e percebe: ainda haviam dezenas de enxames
pelos prédios.
De repente uma
explosão balança a lateral da nave. Olhando para a direita, uma daquelas bombas
de energia o haviam atingido. Para sua sorte, os escudos de Kinect o
protegeram.
- Fomos atingidos,
senhor. – informa Navcom.
- Qual é a
magnitude dos danos?
- Mínimos,
senhor.
Um enxame se
elevava dos prédios e o perseguia no céu. Yang vira o Wénzi e desce em um
rasante. O inimigo o persegue tenazmente; acelerando a nave, o piloto se
esquiva dos outdoors e painéis de
neon. Bombas de energia são lançadas, mas se explodem pelas fachadas de
concreto e vidro; elas não conseguiam alcançar Yang.
Na superfície
havia a avenida Wusong. Carros e mais carros engarrafavam o trânsito; os
habitantes estavam desesperados para deixar a cidade. Um casal aguarda em seu
carro quando, repentinamente, o Shenzhou Wénzi desce embicado em sua direção. O
casal grita e, no último segundo, o Wénzi muda de direção, assoprando seus
propulsores e levantando uma onda de poeira no trânsito.
A nave arremete
novamente e deixa rapidamente o local. O enxame, que seguia logo atrás, não
consegue frear a tempo e colide contra os carros e os prédios, provocando uma série
de explosões. O casal de habitantes se salva, mas assiste atônito os carros e
as pessoas serem devastadas pelo fogo.
Yang volta às
alturas. O segundo enxame havia sido destruído. Olhando ao redor, ele encontra
um terceiro bombardeando um edifício. Ao recarregar suas armas, ele avança contra
o inimigo.
Ativando seus
mísseis teleguiados, Yang os espera se concentrarem e então atira. Os mísseis
voam espiralados pelo ar e atingem o enxame. Algumas naves sobrevivem ao
impacto, mas outras descem em chamas e colidem contra os prédios, fazendo-os se
fragmentarem. Yang assiste horrorizado os escombros caírem e esmagarem as
pessoas no trânsito lá embaixo.
Os inimigos
restantes tentam se replicar e fugir, mas o piloto os segue logo atrás. Os
tiros de metralhadora atingem as naves inimigas, interrompendo o seu voo.
Algumas colidem contra os prédios e outras caem desgovernadas, atingindo os
carros nas ruas. Naquela batalha Yang percebe que, mesmo abatidas, as naves
eram como adagas dilacerando o peito dos incautos chineses.
Havia morte em
toda parte, mas não era o momento para se lamentar. Avistando o quarto enxame,
Yang se anima. Com Wénzi em seu comando, o inimigo podia ser abatido.
De repente aviões
passam ao seu lado, assustando-o. Yang olha ao redor e reconhece caças da Kōngjūn.
O canal de
comunicação é aberto.
“Piloto Haisheng,
aqui é o líder da Esquadrilha Um. Viemos aqui para auxilia-lo em combate”.
- Vocês não
haviam sido tirados de serviço? – pergunta ele.
“Fomos chamados
de volta. O Alto Comando quer vê-lo em ação, senhor. Viemos para te dar
cobertura”.
- Cobertura? Mas
eu não preciso de cobertura! Apenas o Shenzhou Wénzi tem chance de acabar com o
Yīqún!
“Negativo,
senhor! Seu alvo foi mudado para os cruzadores espaciais. O Alto Comando os
quer fora de operação imediatamente. Nós assumiremos os enxames daqui”.
Yang não entende.
Os caças rápidos e pesados são poderosos, mas ineficazes contra o habilidoso
inimigo. De qualquer forma, ele não pode desobedecer a uma ordem superiora.
Desta maneira, a
batalha contra a frota alienígena muda de rumo.
Os cruzadores
estão a dois mil pés do solo. Enquanto tenta se direcionar, o quarto enxame o
intercepta e atira suas bombas contra ele. Yang se esquiva em um piscar de
olhos; seus reflexos do tênis de mesa se provam essenciais para ele.
Antes que pudesse
contra-atacar, os caças atiram seus mísseis e os atingem, dispersando-os.
- Obrigado. –
agradece Yang.
O piloto de caça
lhe faz o sinal do polegar em pé.
Com a batalha
comandada pela esquadrilha lá embaixo, Yang continua a subir ao nível dos
cruzadores.
As nuvens
cinzentas dos incêndios ofuscam sua vista, mas ainda é possível ver. Os
cruzadores eram imensos e flutuavam ao lado das nuvens brancas da troposfera.
Yang conta cinco daquelas imensas aeronaves.
Ao se aproximar
da primeira, Yang é recebido com fogo de artilharia. Do corpo do cruzador,
canhões se formam e atiram contra ele, disparando uma saraivada de bombas
semelhante às dos enxames. O piloto se esquiva habilmente, movendo-se para
todas as direções. Tais manobras seriam impossíveis para os aviões de caça da
Força Aérea, mas além da manobrabildade, os reflexos do piloto eram
necessários. E assim os reflexos de Yang se comprovam cruciais para a missão.
Prontificando
seus mísseis, Yang os mira sobre os canhões e atira. Quatro mísseis voam em
direção ao alvo; um é atingido pela bomba de energia e se explode e os outros
seguem espiralados até o cruzador. O impacto atinge o inimigo, abrindo buracos
em sua carcaça.
Mais bombas são
lançadas, tornando o espaço aéreo um inferno de balas. Yang carrega mais
mísseis e, esperando o momento certo, os atira. As explosões abrem buracos na
fuselagem do cruzador, provocando incêndios no lado de dentro.
Neste momento
Yang percebe: o inimigo tinha defesas ineficazes contra o Wénzi. Deixando de
atirar, o cruzador parece incapacitado. Intentando eliminar os outros quatro,
Yang não perde tempo e o deixa para trás.
O próximo
cruzador o recebe com a mesma intensidade de bombas. Yang muda de armamentos e
pretende provocar um incêndio mais rápido no inimigo. Ele carrega bombas de
fósforo branco incendiárias, e se prepara para lança-las do bordo inferior de
sua nave.
Fazendo um
rasante sobre o cruzador, Yang aperta o botão e libera o lançamento das bombas.
As bombas atingem o alvo e imediatamente se incendeiam, multiplicando-se como clusters[1].
O material
volátil do cruzador é atingido pelo fogo e se explode, incapacitando-o
juntamente com o primeiro.
Yang se anima.
Carecendo escudos e defesas apropriadas, os cruzadores se mostram vulneráveis.
O sucesso da missão se aproxima.
Então algo
inesperado acontece.
Todos os
cruzadores, incluindo os incapacitados, abrem suas comportas e liberam novas
ondas de enxames. Shanghai, que já sucumbia com os existentes, recebe dezenas
de outros inimigos. Yang assiste em choque aquelas naves hediondas descerem e
devastarem a cidade. Ele sabe o que aquilo significa; os caças da Força Aérea
jamais conseguirão resistir ao inimigo.
- Eles serão
dizimados...! – consterna-se ele.
Navcom diz:
- Piloto
Haisheng, recalculando sua probabilidade de vitória, de 78 sua probabilidade
cai para 12%.
Yang treme.
O terceiro
cruzador avista o Wénzi e atira. Distraído ao ver a nova onda de enxames, uma
bomba atinge a nave e a estremece. De repente os enxames se aproximam e atiram
também, atingindo-o com sua bomba de energia. Um alarme soa dentro da cabine, despertando-o
de seu transe.
- Piloto
Haisheng, escudos estão a 56%.
Navcom o alertava
com a tranquilidade de uma máquina.
Yang manobra e se
afasta dos cruzadores. Agora ele tem que fugir de seus tiros e dos enxames logo
atrás.
“Senhor, o que é
que está havendo?! Estávamos combatendo o Yīqún,
mas agora outros apareceram! Não podemos manter o combate com esse número
elevado!”.
O piloto de caça
falava com ele. Yang ia responder quando ouve uma explosão sobre os prédios.
“Fui atingido!
Fui atingido! Aaaaaaaaaaaaaahhh...!”.
O caça se
transforma em uma bola de fogo e se explode no ar.
- Não!!! – grita ele.
O inimigo inunda
o espaço aéreo. Yang deve se afastar imediatamente se quiser viver.
Lá embaixo, os
novos enxames continuam sua devastação. Shanghai ardia em chamas. Incapazes de
combater o ágil inimigo, os caças são abatidos um a um. A população, que antes
tentava fugir, agora se desespera nas avenidas, correndo freneticamente pelo
trânsito e tentando sobreviver.
Yang se afasta
dos cruzadores, mas os enxames ainda o perseguiam. Ele desce ao nível dos
prédios e se esgueira dentro dos andares. Simulando a estratégia inimiga, ele
invade escritórios e se desvia de pilares e mobílias. Algumas vezes ele tem de
abrir passagem nas paredes com seus mísseis.
Uma voz surge em
seu canal de comunicação. Era Li Fen.
“Piloto
Haisheng...”.
- Me chame de
Yang! – exclama ele, esquivando-se desesperadamente dos obstáculos à sua
frente.
“A missão falhou;
o inimigo é numeroso demais. Você tem novas ordens. O Alto Comando quer acesso
seguro ao espaço durante a sua fuga da Terra”.
- O quê?! –
protesta ele – Eu estou sozinho aqui embaixo! Eu não faço milagres!
Ignorando-o, Li
Fen responde:
“Câmbio e
desligo”.
Entrando em um
túnel, Yang passa pelo engarrafamento de carros e a população alvoroçada. O
enxame o segue logo atrás e atira suas bombas, atingindo os carros e causando
explosões. Assim mais vítimas eram feitas pelo flagelo alienígena.
Yang conhecia
aquele túnel; ele terminava em uma bifurcação em T. Movendo os manches, ele
pede aceleração máxima.
Os propulsores
brilham em um azul hipnótico, provocando um assovio agudo. Tendo em seu banco
de dados o mapa da região, Navcom alerta:
- Piloto
Haisheng...
- Me chame de
Yang, você também!
- Iminência de
colisão adiante. Sugiro desaceleração.
- Não! – nega ele
– Potência máxima!
O Wénzi voa pelo
túnel. Ao chegar ao fim, Yang vira bruscamente o manche. A pressão centrífuga é
tão grande que a carcaça da nave se estrala e ele sente que vai desmaiar. Ele
muda de direção ao ar livre e continua seu voo. O enxame atrás dele não
consegue frear a tempo e se espatifa no prédio à frente, destruindo uma a uma
as suas naves.
- Navcom!
Relatório de armamentos, agora!
- Munição de
metralhadora a 60%. Mísseis teleguiados a 40%. Bombas de fósforo branco a 75%.
- Isso deve dar!
– afirma ele.
Yang arremete e
segue em direção aos cruzadores novamente. Preocupado, Navcom informa:
- Piloto
Haisheng...
- Como é? –
interrompe ele.
- Yang... Vejo
que se dirige novamente aos cruzadores inimigos. Devo relembra-lo que suas
chances de vitória são de 12%.
- Não importa. –
responde ele – Sou um soldado e tenho que cumprir minha missão.
Wénzi sobe ao
céu. Ao olhar para os lados, Yang percebe que os enxames não o seguem mais.
Aparentemente eles se ocupavam de destruir a cidade, como se desejassem uma
devastação sistemática.
Yang se aproxima
dos cruzadores restantes e prepara suas armas. Utilizando seus reflexos e sua
raiva, ele atira contra o terceiro cruzador. Os mísseis perfuram sua fuselagem
e a explosão provoca uma reação em cadeia. Uma série de explosões internas se
sucedem e o casco se parte em dois, fazendo a enorme nave ir abaixo. O cruzador
se choca contra um bairro residencial e devasta as casas ao redor, ardendo-as
com o fogo titânico.
Mais dois
cruzadores restam. Yang lança suas bombas no quarto inimigo e o assiste
queimar. As chamas dançantes o hipnotizam e então ele é atingido por um tiro de
canhão. O tranco é tão forte que lhe causa dores no corpo.
- Yang, o escudo
está em 9%. Temo que se o próximo tiro for desta magnitude, ele atravessará nossa
fuselagem e nos abaterá.
- Então que a boa
sorte esteja com a gente!
O intrépido
piloto manobra sua nave e se dirige ao último cruzador. Ele é logo recebido pela
artilharia inimiga. Cerrando os dentes, Yang se esquiva freneticamente de um
lado ao outro. De repente ele dispara seus mísseis e, para o seu assombro, eles
são abatidos no ar. Ao disparar outra vez, Navcom o informa que acabara o
estoque. Apenas as bombas incendiárias restaram, mas para usá-las ele teria de
se aproximar dos canhões ativos. Yang se preocupa.
Controlando o
medo, ele faz um exercício mental. Yang mentaliza o cruzador como uma mesa de
tênis e, ao invés de bombas, os canhões lançam bolas, mas desta vez ele não
deveria rebatê-las e sim se esquivar delas. Preparando-se, ele se lança ao
inimigo.
Yang se esquiva
das bombas. Navcom emite sirenes e alertas; apenas um tiro lhe será fatal. Yang
grita e, abrindo as comportas, libera o lançamento das bombas.
A chama se forma
sobre o cruzador e o fósforo corrói sua carcaça. Um minuto depois o fogo
corrosivo alcança os materiais voláteis e uma reação em cadeia se forma,
explodindo todo o seu interior e partindo-o em dois.
O quinto cruzador
desce em chamas pelo céu, colidindo-se contra uma avenida cheia de carros. A provação
de Shenzhou Wénzi estava concluída; a nave e seu piloto passaram no teste.
Chineses e
alienígenas queimavam lá embaixo, mas pelo menos a ameaça da invasão estava
contida.
Ou pelo menos era
isso o que Yang pensava.

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