segunda-feira, 25 de dezembro de 2023

Shenzhou Wénzi - 04 - Provação


 

(Arte de Antarik Fox)


Dos subterrâneos da montanha de Xiaodian, uma escotilha se abre e Wénzi aparece.

O canal de comunicação recebe um chamado e Navcom transmite a mensagem ao capacete de Yang.

“Piloto Haisheng, aqui é o Tenente-General Junlong. Sua missão é repelir o invasor alienígena e liberar Shanghai. Repito: repelir o invasor alienígena e liberar Shanghai. Me deixe orgulhoso, filho. Câmbio e desligo”.

- Filho...? – repete Yang, sorrindo.

De fato, Junlong tinha grande estima pelo jovem piloto, pois mesmo passados tantos anos o tenente-general o estimava como um filho que ele nunca teve.

“Piloto Haisheng, aqui é sua assistente de comunicações, a Coronel Li Fen Junlong. Devo lembra-lo que Wénzi possui alta manobrabilidade e pode se movimentar livremente para qualquer direção. Os propulsores são rotativos e estão instalados por todo o corpo da nave. Também devo alertar que paradas bruscas e arrancadas podem provocar tontura e desmaios, mas isso não é problema para um piloto experiente como você, não é mesmo?”.

Yang percebe o tom provocativo na voz da mulher. Aparentemente ela quer descontar nele sua frustração por não ter sido escalada para pilotar o Wénzi.

- Afirmativo, coronel.

“Câmbio e desligo”.

Outra voz, uma mais formal e robótica, surge nos fones de seu capacete. Ele reconhece a Inteligência Artificial Navcom.

- Inimigo a um minuto, senhor.    

- Como está o status da nave, Navcom?

- Tanque de combustível cheio. Reservatório de oxigênio cheio. Nível de suporte a vida cheio. Saúde do piloto, ok. Armamentos carregados e prontos para atirar, senhor.

Respirando fundo, Yang se tranquiliza dizendo:

- Que os deuses me ajudem.

Dizer aquilo foi algo confuso para o jovem piloto, pois ele era um ateísta e, quanto as religiões, ele seguia as diretrizes do Partido. Para o governo, as religiões eram movimentos potencialmente sediciosas e o Partido condenava suas organizações, classificando-as como supersticiosas.

Uma densa fumaça de incêndio encobre o centro financeiro de Shanghai. Ao atravessa-la, Yang encontra a cidade devastada pelos enxames. Aqueles cruzadores espaciais hediondos ainda pairavam no alto, como se fossem deuses malignos vindos do abismo mais profundo do cosmos.

Enquanto avança, prédios cedem e desabam sobre si mesmos. Yang percebe em pânico que ainda haviam pessoas dentro dos edifícios. Junlong tinha razão, o preço da espera veio ao custo de milhares de vidas humanas.

Circulando ao redor dos prédios, os enxames surgem no meio do fogo. Aquela era a hora da verdade. Com o inimigo a vista, o tão aguardado momento chegara; Wénzi finalmente seria usado em combate.

Yang atira e se surpreende. As metralhadoras eram leves e o empuxo não afetava o voo. As naves inimigas sofrem dano e se explodem, sendo abatidas uma a uma.

A alta capacidade de manobra dos alienígenas se revela e os enxames se curvam no ar. Enquanto elas se esquivam e se esgueiram, Yang esterça os manches e corrige bruscamente sua trajetória. A virada foi tão improvável que qualquer aeronave de caça teria se despedaçado em seu lugar.

Yang segue o inimigo pelo interior dos prédios. Tanto o enxame quanto Wénzi eram minúsculos e podiam entrar facilmente em passagens estreitas. Enquanto segue o inimigo, Yang passa por apartamentos e escritórios. Aquilo era surreal para Yang, pois em seu voo eles atropelavam escrivaninhas e computadores.

- Legal! – extasia-se ele.

Atirando sua metralhadora, o enxame é abatido impiedosamente. O inimigo se esquiva e tenta se esgueirar por outras passagens, mas logo percebe que havia perdido sua vantagem.

Do enxame, aquelas bombas de energia são lançadas. Yang as reconhece da última vez. Seu súbito tiro pode confundir até os pilotos experientes. Ele se esquiva habilmente, mas percebe espantado que as mesmas manobras evasivas seriam impossíveis em um avião comum.

O primeiro enxame é destruído; Yang se manteve firme em seu encalço e não os deixou escapar. Animado, ele enxuga o suor de sua testa.

Ascendendo o Wénzi ao céu, ele olha para a cidade e percebe: ainda haviam dezenas de enxames pelos prédios.

De repente uma explosão balança a lateral da nave. Olhando para a direita, uma daquelas bombas de energia o haviam atingido. Para sua sorte, os escudos de Kinect o protegeram.

- Fomos atingidos, senhor. – informa Navcom.

- Qual é a magnitude dos danos?

- Mínimos, senhor.

Um enxame se elevava dos prédios e o perseguia no céu. Yang vira o Wénzi e desce em um rasante. O inimigo o persegue tenazmente; acelerando a nave, o piloto se esquiva dos outdoors e painéis de neon. Bombas de energia são lançadas, mas se explodem pelas fachadas de concreto e vidro; elas não conseguiam alcançar Yang.     

Na superfície havia a avenida Wusong. Carros e mais carros engarrafavam o trânsito; os habitantes estavam desesperados para deixar a cidade. Um casal aguarda em seu carro quando, repentinamente, o Shenzhou Wénzi desce embicado em sua direção. O casal grita e, no último segundo, o Wénzi muda de direção, assoprando seus propulsores e levantando uma onda de poeira no trânsito.

A nave arremete novamente e deixa rapidamente o local. O enxame, que seguia logo atrás, não consegue frear a tempo e colide contra os carros e os prédios, provocando uma série de explosões. O casal de habitantes se salva, mas assiste atônito os carros e as pessoas serem devastadas pelo fogo.

Yang volta às alturas. O segundo enxame havia sido destruído. Olhando ao redor, ele encontra um terceiro bombardeando um edifício. Ao recarregar suas armas, ele avança contra o inimigo.

Ativando seus mísseis teleguiados, Yang os espera se concentrarem e então atira. Os mísseis voam espiralados pelo ar e atingem o enxame. Algumas naves sobrevivem ao impacto, mas outras descem em chamas e colidem contra os prédios, fazendo-os se fragmentarem. Yang assiste horrorizado os escombros caírem e esmagarem as pessoas no trânsito lá embaixo.

Os inimigos restantes tentam se replicar e fugir, mas o piloto os segue logo atrás. Os tiros de metralhadora atingem as naves inimigas, interrompendo o seu voo. Algumas colidem contra os prédios e outras caem desgovernadas, atingindo os carros nas ruas. Naquela batalha Yang percebe que, mesmo abatidas, as naves eram como adagas dilacerando o peito dos incautos chineses.

Havia morte em toda parte, mas não era o momento para se lamentar. Avistando o quarto enxame, Yang se anima. Com Wénzi em seu comando, o inimigo podia ser abatido.

De repente aviões passam ao seu lado, assustando-o. Yang olha ao redor e reconhece caças da Kōngjūn.   

O canal de comunicação é aberto.

“Piloto Haisheng, aqui é o líder da Esquadrilha Um. Viemos aqui para auxilia-lo em combate”.

- Vocês não haviam sido tirados de serviço? – pergunta ele.

“Fomos chamados de volta. O Alto Comando quer vê-lo em ação, senhor. Viemos para te dar cobertura”.

- Cobertura? Mas eu não preciso de cobertura! Apenas o Shenzhou Wénzi tem chance de acabar com o Yīqún!

“Negativo, senhor! Seu alvo foi mudado para os cruzadores espaciais. O Alto Comando os quer fora de operação imediatamente. Nós assumiremos os enxames daqui”.

Yang não entende. Os caças rápidos e pesados são poderosos, mas ineficazes contra o habilidoso inimigo. De qualquer forma, ele não pode desobedecer a uma ordem superiora.

Desta maneira, a batalha contra a frota alienígena muda de rumo.

Os cruzadores estão a dois mil pés do solo. Enquanto tenta se direcionar, o quarto enxame o intercepta e atira suas bombas contra ele. Yang se esquiva em um piscar de olhos; seus reflexos do tênis de mesa se provam essenciais para ele. 

Antes que pudesse contra-atacar, os caças atiram seus mísseis e os atingem, dispersando-os.

- Obrigado. – agradece Yang.

O piloto de caça lhe faz o sinal do polegar em pé.

Com a batalha comandada pela esquadrilha lá embaixo, Yang continua a subir ao nível dos cruzadores.   

As nuvens cinzentas dos incêndios ofuscam sua vista, mas ainda é possível ver. Os cruzadores eram imensos e flutuavam ao lado das nuvens brancas da troposfera. Yang conta cinco daquelas imensas aeronaves.

Ao se aproximar da primeira, Yang é recebido com fogo de artilharia. Do corpo do cruzador, canhões se formam e atiram contra ele, disparando uma saraivada de bombas semelhante às dos enxames. O piloto se esquiva habilmente, movendo-se para todas as direções. Tais manobras seriam impossíveis para os aviões de caça da Força Aérea, mas além da manobrabildade, os reflexos do piloto eram necessários. E assim os reflexos de Yang se comprovam cruciais para a missão.

Prontificando seus mísseis, Yang os mira sobre os canhões e atira. Quatro mísseis voam em direção ao alvo; um é atingido pela bomba de energia e se explode e os outros seguem espiralados até o cruzador. O impacto atinge o inimigo, abrindo buracos em sua carcaça.

Mais bombas são lançadas, tornando o espaço aéreo um inferno de balas. Yang carrega mais mísseis e, esperando o momento certo, os atira. As explosões abrem buracos na fuselagem do cruzador, provocando incêndios no lado de dentro.

Neste momento Yang percebe: o inimigo tinha defesas ineficazes contra o Wénzi. Deixando de atirar, o cruzador parece incapacitado. Intentando eliminar os outros quatro, Yang não perde tempo e o deixa para trás.

O próximo cruzador o recebe com a mesma intensidade de bombas. Yang muda de armamentos e pretende provocar um incêndio mais rápido no inimigo. Ele carrega bombas de fósforo branco incendiárias, e se prepara para lança-las do bordo inferior de sua nave.

Fazendo um rasante sobre o cruzador, Yang aperta o botão e libera o lançamento das bombas. As bombas atingem o alvo e imediatamente se incendeiam, multiplicando-se como clusters[1].

O material volátil do cruzador é atingido pelo fogo e se explode, incapacitando-o juntamente com o primeiro.

Yang se anima. Carecendo escudos e defesas apropriadas, os cruzadores se mostram vulneráveis. O sucesso da missão se aproxima.

Então algo inesperado acontece.

Todos os cruzadores, incluindo os incapacitados, abrem suas comportas e liberam novas ondas de enxames. Shanghai, que já sucumbia com os existentes, recebe dezenas de outros inimigos. Yang assiste em choque aquelas naves hediondas descerem e devastarem a cidade. Ele sabe o que aquilo significa; os caças da Força Aérea jamais conseguirão resistir ao inimigo. 

- Eles serão dizimados...! – consterna-se ele.

Navcom diz:

- Piloto Haisheng, recalculando sua probabilidade de vitória, de 78 sua probabilidade cai para 12%.

Yang treme.

O terceiro cruzador avista o Wénzi e atira. Distraído ao ver a nova onda de enxames, uma bomba atinge a nave e a estremece. De repente os enxames se aproximam e atiram também, atingindo-o com sua bomba de energia. Um alarme soa dentro da cabine, despertando-o de seu transe.

- Piloto Haisheng, escudos estão a 56%.

Navcom o alertava com a tranquilidade de uma máquina.

Yang manobra e se afasta dos cruzadores. Agora ele tem que fugir de seus tiros e dos enxames logo atrás.

“Senhor, o que é que está havendo?! Estávamos combatendo o Yīqún, mas agora outros apareceram! Não podemos manter o combate com esse número elevado!”.

O piloto de caça falava com ele. Yang ia responder quando ouve uma explosão sobre os prédios.

“Fui atingido! Fui atingido! Aaaaaaaaaaaaaahhh...!”.

O caça se transforma em uma bola de fogo e se explode no ar.

- Não!!! – grita ele.

O inimigo inunda o espaço aéreo. Yang deve se afastar imediatamente se quiser viver.

Lá embaixo, os novos enxames continuam sua devastação. Shanghai ardia em chamas. Incapazes de combater o ágil inimigo, os caças são abatidos um a um. A população, que antes tentava fugir, agora se desespera nas avenidas, correndo freneticamente pelo trânsito e tentando sobreviver.

Yang se afasta dos cruzadores, mas os enxames ainda o perseguiam. Ele desce ao nível dos prédios e se esgueira dentro dos andares. Simulando a estratégia inimiga, ele invade escritórios e se desvia de pilares e mobílias. Algumas vezes ele tem de abrir passagem nas paredes com seus mísseis.

Uma voz surge em seu canal de comunicação. Era Li Fen.

“Piloto Haisheng...”.

- Me chame de Yang! – exclama ele, esquivando-se desesperadamente dos obstáculos à sua frente.

“A missão falhou; o inimigo é numeroso demais. Você tem novas ordens. O Alto Comando quer acesso seguro ao espaço durante a sua fuga da Terra”.

- O quê?! – protesta ele – Eu estou sozinho aqui embaixo! Eu não faço milagres!

Ignorando-o, Li Fen responde:

“Câmbio e desligo”.

Entrando em um túnel, Yang passa pelo engarrafamento de carros e a população alvoroçada. O enxame o segue logo atrás e atira suas bombas, atingindo os carros e causando explosões. Assim mais vítimas eram feitas pelo flagelo alienígena.

Yang conhecia aquele túnel; ele terminava em uma bifurcação em T. Movendo os manches, ele pede aceleração máxima.

Os propulsores brilham em um azul hipnótico, provocando um assovio agudo. Tendo em seu banco de dados o mapa da região, Navcom alerta:

- Piloto Haisheng...

- Me chame de Yang, você também!

- Iminência de colisão adiante. Sugiro desaceleração.

- Não! – nega ele – Potência máxima!

O Wénzi voa pelo túnel. Ao chegar ao fim, Yang vira bruscamente o manche. A pressão centrífuga é tão grande que a carcaça da nave se estrala e ele sente que vai desmaiar. Ele muda de direção ao ar livre e continua seu voo. O enxame atrás dele não consegue frear a tempo e se espatifa no prédio à frente, destruindo uma a uma as suas naves.

- Navcom! Relatório de armamentos, agora!

- Munição de metralhadora a 60%. Mísseis teleguiados a 40%. Bombas de fósforo branco a 75%.

- Isso deve dar! – afirma ele.

Yang arremete e segue em direção aos cruzadores novamente. Preocupado, Navcom informa:

- Piloto Haisheng...

- Como é? – interrompe ele.

- Yang... Vejo que se dirige novamente aos cruzadores inimigos. Devo relembra-lo que suas chances de vitória são de 12%.

- Não importa. – responde ele – Sou um soldado e tenho que cumprir minha missão.

Wénzi sobe ao céu. Ao olhar para os lados, Yang percebe que os enxames não o seguem mais. Aparentemente eles se ocupavam de destruir a cidade, como se desejassem uma devastação sistemática.

Yang se aproxima dos cruzadores restantes e prepara suas armas. Utilizando seus reflexos e sua raiva, ele atira contra o terceiro cruzador. Os mísseis perfuram sua fuselagem e a explosão provoca uma reação em cadeia. Uma série de explosões internas se sucedem e o casco se parte em dois, fazendo a enorme nave ir abaixo. O cruzador se choca contra um bairro residencial e devasta as casas ao redor, ardendo-as com o fogo titânico.

Mais dois cruzadores restam. Yang lança suas bombas no quarto inimigo e o assiste queimar. As chamas dançantes o hipnotizam e então ele é atingido por um tiro de canhão. O tranco é tão forte que lhe causa dores no corpo.

- Yang, o escudo está em 9%. Temo que se o próximo tiro for desta magnitude, ele atravessará nossa fuselagem e nos abaterá.

- Então que a boa sorte esteja com a gente!

O intrépido piloto manobra sua nave e se dirige ao último cruzador. Ele é logo recebido pela artilharia inimiga. Cerrando os dentes, Yang se esquiva freneticamente de um lado ao outro. De repente ele dispara seus mísseis e, para o seu assombro, eles são abatidos no ar. Ao disparar outra vez, Navcom o informa que acabara o estoque. Apenas as bombas incendiárias restaram, mas para usá-las ele teria de se aproximar dos canhões ativos. Yang se preocupa.

Controlando o medo, ele faz um exercício mental. Yang mentaliza o cruzador como uma mesa de tênis e, ao invés de bombas, os canhões lançam bolas, mas desta vez ele não deveria rebatê-las e sim se esquivar delas. Preparando-se, ele se lança ao inimigo.

Yang se esquiva das bombas. Navcom emite sirenes e alertas; apenas um tiro lhe será fatal. Yang grita e, abrindo as comportas, libera o lançamento das bombas.

A chama se forma sobre o cruzador e o fósforo corrói sua carcaça. Um minuto depois o fogo corrosivo alcança os materiais voláteis e uma reação em cadeia se forma, explodindo todo o seu interior e partindo-o em dois.

O quinto cruzador desce em chamas pelo céu, colidindo-se contra uma avenida cheia de carros. A provação de Shenzhou Wénzi estava concluída; a nave e seu piloto passaram no teste.

Chineses e alienígenas queimavam lá embaixo, mas pelo menos a ameaça da invasão estava contida.

Ou pelo menos era isso o que Yang pensava.

 

 



[1] Nome dado a bombas de dispersão em inglês

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