Yang verifica
seus estoques. Os armamentos haviam se esgotado; o combustível estava a meio
reservatório e as cargas de escudo estavam perigosamente baixas. Ainda haviam
enxames lá embaixo; para combatê-los, ele solicita a Li Fen a aeronave de
reabastecimento.
Minutos depois a
interessante aeronave chega. Yang vê o que o Alto Comando chama de “módulo de
reabastecimento”. O módulo plaina no ar semelhante ao Wénzi; ele também era
movida a propulsores ao longo de sua fuselagem. Parando abaixo de sua nave, o
módulo estica braços retráteis e abre os compartimentos. Em seguida, os braços
se aproximam e repõem os armamentos. Yang os ouve sendo instalados abaixo de
si. Um braço retorna trazendo mais um recurso; desta vez eram as cargas do
escudos Kinect. Yang ouve o som das cargas energizarem o corpo da nave.
Por último, um
mangote se conecta ao reservatório de combustível e o abastece. Como nos
foguetes, o Wénzi é movido a propelente, este desenvolvido especialmente para a
nave. Diferente dos propelentes do século 20 e 21, o propelente do Wénzi não e
cancerígeno e, se exposto ao ser humano, tem índice mínimo de letalidade, tudo
para garantir a saúde do piloto no interior da aeronave.
De repente algo
acontece; Navcom emite um sirene de alerta. Assustando, Yang o ouve repetidamente
dizer:
- Aeronave imensa
se aproximando! Repito! Aeronave imensa se aproximando...!
O piloto olha ao
redor, mas não entende. Os dois cruzadores restantes plainavam no ar, mas
estavam danificados e fora de operação, ficando apenas a soltar fumaça pela
atmosfera. Então as nuvens se reviram no céu, sendo arrastadas por algo
espantosamente grande atrás delas.
“Piloto Haisheng!
Esta mensagem é para informar que uma aeronave muito grande acaba de penetrar a
órbita terrestre. O Alto Comando pede precaução”.
Sussurrando, Yang
responde:
- Afirmativo,
assistente Li Fen... Eu estou vendo esta aeronave agora mesmo...
Um cruzador maior
aparece. O piloto vê uma aeronave massiva de fuselagem curvilínea e ramificações
como patas em seu entorno. Sua cor era temivelmente negra e ele projetava uma
larga sombra na cidade. De maneira aproximada, o cruzador se assemelhava a um
caranguejo.
Por seu tamanho e
aparência nefasta, Yang estima ser a aeronave do general alienígena, aquele
responsável pela invasão de Shanghai.
“Piloto Haisheng,
detecto a aeronave próxima da sua posição! Informe!” – ordena Li Fen.
Ainda perplexo,
Yang responde:
- Vejo um enorme
cruzador, tão grande quanto uma nuvem negra de tempestade! Estranhamente ele se
parece com um pángxiè[1].
O cruzador se
aproxima do Wénzi. Yang percebe que, de fato, sua nave se parecia com um
mosquito perto daquela fortaleza aérea. Centenas de torretas são visíveis acima
e abaixo da aeronave; em suas patas haviam imensos propulsores e um enorme
canhão de energia no meio de seu corpo. Estranhamente ele não vê portas ou
janelas; era como se o cruzador se selasse completamente ao entrar em combate.
De sua carenagem,
um scanner laser faz uma varredura no pequeno Wénzi. A luz vermelha percorre o
interior da cabine e ofusca os olhos de Yang. Petrificado, ele não sabe o que
fazer.
De repente uma
interferência surge em seu comunicador, quebrando-o de seu transe. Uma voz
aguda e um pouco gutural fala em um idioma ininteligível. Pela primeira vez
desde a invasão de Shanghai, Yang ouve a voz do invasor alienígena.
Confuso com a
estranha mensagem, Yang ouve um ruído metálico vindo do cruzador e então
percebe: ele estava apontando seus canhões para o Wénzi. Tiros são disparados e
então o céu se enche das bombas de energia. Os canhões disparavam
coordenadamente, com fileiras atirando enquanto outras se recarregavam.
Assustando-se, Yang se depara com uma avalanche de projéteis; ele novamente estava
em um inferno de balas.
Movendo os
manches em um impulso, ele se esquiva rapidamente. Centenas de bombas voavam
pelo ar. Esquivando-se freneticamente, ele novamente percebe: no controle do
Wénzi, os reflexos eram imprescindíveis.
Algumas bombas o
atinge, trepidando-o e fazendo Navcom emitir um aviso. Para seu alívio, os
escudos Kinect absorviam o impacto, com as bombas lhe causando poucos danos.
Evadindo do topo
da aeronave, Yang busca abrigo em seu bordo inferior. Ele se espanta ao
constatar que ali embaixo também haviam canhões, e todos apontavam para ele. O
piloto não podia continuar apenas se esquivando, ele tinha de contra-atacar
imediatamente.
Yang pensa. A
metralhadora faria pouco dano na fuselagem metálica do cruzador. As bombas
apenas teriam vantagem se fosse lançados em cima. Então ele escolhe. Os mísseis
podem ser interceptados pelas bombas antes de chegarem ao alvo, mas era sua
única opção ali embaixo.
Carregando seus
armamentos, ele se aproxima do cruzador e atira. Os mísseis avançam
furiosamente pelo ar; alguns são abatidos, infelizmente, mas outros atingem os
canhões. A explosão danifica as torretas, tirando-as de operação.
Ainda se
desviando dos tiros, Yang faz um voo espiralado e aperta os botões. Mais
mísseis são lançados e atingem o bordo inferior da aeronave. As explosões
alcançam o estoque de munições e causam uma reação em cadeia, abrindo um rasgo
no cruzador.
O espaço aéreo
ali embaixo se alivia. Yang pode voar com mais calma, mas ainda não era o
momento para descansar.
Enquanto retorna
para a parte superior, uma das patas do cruzador se estica e o atinge. Yang
grita; o impacto é tão forte que o Wénzi poderia se despedaçar. Navcom
imediatamente o alerta:
- Yang, o
disparador de mísseis foi danificado e está fora de operação. Tempo de reparo
estimado: cinco minutos. Escudos Kinect a 53%.
O piloto se
surpreende; o imenso cruzador usava seu próprio corpo para atacar. Perplexo,
ele percebe que, em combate, o invasor usava táticas não convencionais e
desconhecidas no planeta Terra.
“Piloto Haisheng,
eu ouvi um grito! O que houve?”.
- Li Fen, o
cruzador pode atacar utilizando sua própria fuselagem! Eles não são como nós!
O jovem piloto
quer dizer que utilizar o corpo da aeronave em pleno voo para bater nos
inimigos significa morte certa. Li Fen, sendo também uma piloto, sabe disso.
A assistente
demora um pouco para responder.
“Entendido. Eu
informarei o Alto Comando. Câmbio e desligo”.
E então Yang vê o
cruzador movendo suas patas articuladas como um imenso caranguejo. Em meio a
centenas de bombas de energia, ele teria de tomar cuidado para não ser abatido com
um golpe.
Olhando bem, Yang
identifica mangueiras nas articulações das patas. Ele seleciona sua metralhadora
e alinha o Wénzi. Apertando o botão, os projéteis cruzam o céu e atingem as
mangueiras. Para a surpresa do piloto, os tiros abrem furos nas mangueiras e
óleo se espirra, contaminando as nuvens. Um míssil bem dado ali romperia as
patas da aeronave. Ele se alegra.
Voando sobre a
nave, Yang nota uma luz forte e amarelada emanando do canhão no meio do
cruzador. Ocupado demais com as patas e as bombas, ele não tem tempo de lhe dar
atenção. De repente um raio concentrado e intenso passa por detrás do Wénzi. O
calor infernal o aflige e Navcom imediatamente intervém, liberando ar gelado na
cabine.
O laser colossal
atinge os prédios lá embaixo, pulverizando-os como se uma criança brincasse com
uma lupa gigante. Yang fica boquiaberto.
O piloto não pode
deixar aquele raio atingir sua nave. O assombroso poder do laser arrasa prédios
de concreto e aço. Se atingi-lo, o Wénzi se consumirá no ar.
Ponderando, ele
reconhece. Com as patas do cruzador ativas, aproximar-se do canhão laser seria
impossível. Ele é obrigado a atirar nos pontos fracos das articulações, isso
enquanto se esquiva das bombas de energia.
Em seu voo, ele
usa sua metralhadora. Os tiros são ineficazes; as balas ricocheteiam no corpo
metálico da aeronave, mas ele não tem escolha, o disparador de mísseis ainda
não estava reparado.
Enquanto se
desvia das bombas, ele se alegra ao ver que as patas danificadas perdiam a
força e se movimentavam lentamente. Então ele ouve outro som.
O enorme canhão
se energiza e dispara o laser. Yang move os manches e tira o Wénzi da trajetória.
O laser continua seu caminho e torra outra parte da cidade abaixo. Agora os
incêndios estavam por toda parte.
- Yang,
disparador de mísseis reparado com sucesso.
A voz robótica de
Navcom surge como a de um anjo salvador.
- Obrigado,
Navcom.
Aproximando-se das
patas danificadas, Yang é atingido algumas vezes, mas continua obstinado ao seu
alvo. Apertando os botões, ele atira os mísseis e se afasta. As explosões são
fortes e capazes de romper a articulação do cruzador. A pata se desconecta e se
solta do corpo da nave, caindo livremente pelo céu e se espatifando no trânsito
lá embaixo.
O canhão se
energiza novamente e o cruzador atira. O raio mortal passa pelo Wénzi e devasta
a cidade, desta vez pulverizando os prédios do distrito de Minhang. As outras patas
defendiam o canhão. Yang não tinha tempo a perder; o laser estava reduzindo
Shanghai a cinzas.
Avançando sobre o
cruzador, Yang é atingido mais vezes. Wénzi trepidava e balançava; ao mesmo
tempo, Navcom lhe informava os danos.
“Escudos a 47%”.
“Escudos a 39%”.
“Escudos a 31%”.
Seus mísseis voam
pelo ar. A explosão desconecta outra pata e ele cai na cidade.
Assim Yang
prossegue em combate, esquivando-se das bombas, do raio mortal e dos golpes do
próprio cruzador. Mais patas são destruídas, abrindo caminho para o canhão. Mas
ainda não era seguro ataca-lo. Os canhões menores o atrapalhavam com sua
saraivada de bombas. Ele tinha de neutraliza-los primeiro.
Sobrevoando o
cruzador, ele espera o raio laser e então avança entre as bombas. Selecionando
suas bombas de fósforo branco, ele aperta o botão e então as libera pelo topo
da aeronave inimiga.
As explosões
devastam os canhões, soltando uma asfixiante fumaça branca em seguida. Enquanto
o fósforo corrói o metal, Yang constata: tanto as patas quanto seus canhões
menores não lhe representavam mais ameaça.
Manobrando o
Wénzi, Yang se dirige ao canhão laser e se prepara. O laser novamente é
disparado, provocando a pulverização de mais um prédio cheio de inocentes. Yang
nota que o canhão não podia mais lhe fazer mal algum, pois voava por detrás
dele e além de seu alcance.
Selecionando seus
mísseis, Yang aponta para a base do terrível canhão e atira. As explosões
iluminam o céu, alcançando as cargas de energia dentro do cruzador. Um fogo
intenso incendeia seu interior e uma fumaça preta se exala pelas nuvens. O
canhão se deforma e se tomba, desconectando-se em uma sequência de explosões
destruidoras.
O cruzador entra
em estado crítico. Quem quer que fosse seu comandante, padecia nas enormes
temperaturas provocadas pelos incêndios. E então algo imprevisível acontece.
Após os danos,
compartimentos se abrem e expõem os núcleos de energia dentro do cruzador. Yang
vê gigantescos condutores brilhantes percorrendo a aeronave. Ele estima que o
comandante abriu os compartimentos para liberar o calor, mas sua abertura seria
fatídica.
Yang seleciona
suas bombas e, fazendo um perigoso rasante sobre a aeronave inimiga, as libera
sobre os núcleos de energia.
Antes que pudesse
contemplar o efeito das bombas, uma ofuscante luz afeta os seus olhos e ele
grita, tapando-os com as mãos. A explosão dos núcleos é tão forte que se
assemelha à detonação de uma bomba nuclear. O clarão o cega momentaneamente e
ele apenas ouve sons abafados implodindo o cruzador por dentro.
E assim Yang
vence o cruzador com formato de caranguejo. Em chamas, o inimigo se desaba do
céu, caindo livremente até se espatifar nas águas do Rio Huangpu.
Um silêncio
triunfante paira no ar. Yang flutua nas nuvens, cansado, mas satisfeito com o
que fizera.
Um minuto depois,
uma mensagem chega ao seu comunicador.
“Piloto Haisheng?
Está na escuta? Piloto Haisheng? Responda-me!”.
Limpando os
olhos, Yang responde:
- Estou na
escuta, assistente Li Fen! Pode falar!
“Abortar a
missão! Eu repito: abortar a missão!”.
- O quê?! Do que
está falando? Câmbio.
“A missão
fracassou! A invasão não está no fim! Você deve recuar!”.
Yang ainda não
consegue entender, mas não era mais necessário o entendimento.
Olhando para
cima, mais dez cruzadores descem pelo céu. Yang se estarrece. Sabendo da
quantidade exorbitante de enxames que viriam, ele reconhece: não havia mais
esperança.
E assim ele
responde:
- Afirmativo, assistente
Li Fen! Eu vou recuar...!
Abalado, ele
manobra o Wénzi e foge da cidade, abandonando Shanghai.
§
O Alto Comando
deixa definitivamente Shanghai para trás. Da janela da nave, o Tenente General
Junlong contempla a devastação de sua cidade. Shanghai havia sucumbido ao
inimigo e agora agonizava em chamas. Os demais generais também se lamentam, mas
todos mantém seu silêncio férreo, rígidos em postura militar, diante da maior
hecatombe na cidade desde a Segunda Guerra Mundial.
As naves
tripuladas ascendem pelas nuvens e atravessam a mesosfera, chegando finalmente
em órbita. Do espaço, o Alto Comando tem o escopo real da invasão; todo o leste
da China era devastado pelo invasor alienígena. As maiores cidades caíam sob
seu poder superior.
Uma hora depois,
o Shenzhou Wénzi se aproxima e se atraca à nave lá fora. O espaço não era um
local seguro; eles precisam se apressar.
Em uma sala de
guerra improvisada, Yang e os generais estudam o Yiqún. Eles constatam que os cruzadores não eram exatamente naves
de combate, e sim transportadores de enxames. Os cruzadores não esperavam um
contra-ataque, sobretudo de naves como o Wénzi, e não estavam preparadas para o
confronto.
O Alto Comando
também constata a soberba dos alienígenas, pois eles desprezavam a resistência
terráquea, esta liderada pela China. Os invasores contavam apenas com sua
superioridade tecnológica e bélica para a invasão. Por esta razão, seus
cruzadores não possuíam qualquer escudo ou barreira de energia, e estavam
inteiramente vulneráveis a ataques surpresa vindos dos humanos.
Yang comenta que
suas armas foram altamente eficazes contra o inimigo, e que conseguiu abater
cruzadores imensos com armamentos comuns. Os enxames, embora numerosos, não
conseguiram abatê-lo, pois sua vantagem era sobre os aviões de caça
convencionais. Para a humanidade, o Wénzi foi seu maior trunfo.
O jovem piloto
também comenta sobre a voz alienígena no seu comunicador. Ele a descreve com
confusão e dificuldade, pois nunca havia ouvido algo tão distinto. Ele a
descreve como palavras formadas por algo além das cordas vocais.
Uma chamada de
emergência interrompe a reunião. O Alto Comando de Shanghai recebia uma ligação
diretamente de Pequim.
Pequim estava
satisfeita com o sucesso do Wénzi, mas não era o suficiente para conter a invasão.
O Ministério da Defesa Nacional pretende bombardear o espaço aéreo das grandes
cidades. Eles querem usar mísseis balísticos carregados com ogivas
termonucleares nos foguetes Dongfeng.
Hologramas se formam sobre a mesa para todos visualizarem. Mas antes de
iniciarem o ataque, Pequim ordena a extração do Presidente em segurança, e para
limpar o caminho eles solicitam o apoio do Wénzi.
Os generais
recebem a ordem, respondendo em seguida ao Ministro:
- Shi de xiānshēng![2]
Todos se
prontificam; não havia tempo a perder.
Então Yang veste
seu capacete e se prepara para a missão.

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