domingo, 21 de janeiro de 2024

Shenzhou Wénzi - 06 - Pequim 2460 EC

 


(Arte de Antarik Fox)


Pequim, 2460 EC, ou 511 após a Revolução Maoísta.

Nuvens amarelas encobrem o céu de Pequim. Desde o final do século 20 a cidade sofria com a pesada poluição do ar. A rápida industrialização, propiciada nos anos de 1980 pelo secretário-geral Deng Xiao, obrigou o governo a explorar velhas fontes de energia, como o carvão. A consequência de tal decisão perseguiu a sociedade chinesa por anos. Problemas de saúde estouraram entre os chineses; estatísticas de doenças pulmonares e cardiovasculares surgiram, assim como casos de diabetes, hipertensão e câncer.    

Mas a capital, de até então 100 milhões de habitantes, ainda teria mais um flagelo pela frente.

Em 2040 os Estados Unidos entram em guerra com a China. Os americanos não conseguiram realizar um ataque nuclear, mas suas ogivas foram interceptadas nos céus de Pequim, espalhando radiação na estratosfera.  

Finada a guerra, a radiação permaneceu no céu pequinês. O governo chinês estimou que a contaminação ficaria no ar pelos próximos mil anos, e então eles tiveram uma audaciosa ideia: transferir a sociedade para o subterrâneo de Pequim.

A construção das vastas galerias subterrâneas foi a maior obra que a humanidade já realizou. Abaixo do solo, cerca de 5 mil quilômetros quadrados foram explorados, dando o nascimento a uma nova cidade, com reservatórios de água limpa, ar despoluído, prédios, escolas, mercados e transporte público. Na superfície, apenas serviços essenciais permaneceram, como prédios governamentais e instalações industriais.

Desta maneira, a sociedade pequinesa estava a salvo da contaminação acima.

 

§

 

Enquanto avança pelas nuvens amarelas, Yang se recorda de seu último encontro com Li Fen.

No módulo espacial horas atrás, ele se prepara para a missão. É um pouco difícil se vestir em gravidade zero, mas ele já está acostumado. Ele veste seu avançado traje e segue pelo módulo. Os engenheiros preparam o Wénzi no lado de fora, reparando suas avarias e revisando os sistemas de navegação. Ele pensa como, séculos antes, ser um taikonauta era algo fantástico. Toda a humanidade gostaria de conhecer o espaço, mas hoje aquilo era totalmente corriqueiro e poucos ainda se interessavam pela profissão.

Então ele vê Li Fen passando atrás dele. Apressando-se, ele a alcança e diz:

- Xiàwǔ hǎo[1], Li Fen. Como vai?

Com olhar sério, ela responde:

- Piloto Haisheng? O que quer?

- Na verdade é sobre isso o que eu quero lhe falar. Escute, não precisa me chamar de “Piloto Haisheng” o tempo todo. Somos amigos, lembra-se?

- Amigos? Do que você está falando?

- Nós somos amigos de infância! Não precisa manter a formalidade comigo. Eu não sei por que me chama assim, talvez queira passar uma boa impressão para o Alto Comando, mas não precisa ser tão fria comigo. Nós somos amigos e eu gostaria que continuasse assim.

Apesar do semblante sério, os olhos de Li Fen parecem corar.

- Escute aqui, seu moleque! Nós não somos amigos; nunca fomos! Você é só um batedor de bolas que, por alguma razão, chamou a atenção do meu pai! Ele é seu amigo; não eu. – afirma ela – Você pode continuar se achando um “herói” pelo que fez em Shanghai, mas eu ainda sou sua superiora e é melhor você me tratar como tal, está entendendo?

Yang se espanta.

- Li Fen, por que está falando assim?

- Zhong xiao[2] Li Fen. – corrige ela – E você é só um Zhong Wei[3] aviador. Portanto, me respeite senão você voltará a jogar tênis de mesa para sobreviver, está me ouvindo?

- Mas Li Fen...!

- Eu perguntei, está me ouvindo?! – repete ela, impondo sua autoridade.

Desanimado, Yang respira fundo e responde:

- Sim, Tenente-Coronel.

- Ótimo.

Então Li Fen lhe presta continência e lhe dá as costas, indo embora em seguida.

Yang ouve uma explosão abaixo de sua nave, quebrando-o de sua distração. Navcom informa:

- Yang, detecto presença inimiga na cidade abaixo.

- Entendido, Navcom. Prepare os armamentos. Nós vamos descer.

Torres de instalações industriais atravessam as nuvens amarelas. Movendo os manches, o piloto mergulha pelos gases tóxicos em direção à cidade. O Wenzí atravessa o véu amarelo e, ao sair, Yang contempla a fascinante capital do mundo.

Pequim estava mergulhada em poluição. Instalações industriais se estendiam por toda parte, com suas chaminés soltando fogo e fumaça. Abaixo, os prédios da velha cidade permaneciam cobertos por um véu de fuligem. Alguns aparentavam funcionamento, mas a maioria parecia desabitado e abandonado há décadas. Yang vê alguns prédios iluminados a frente; eram as sedes dos prédios oficiais do governo.

As avenidas estavam desertas. As árvores arduamente sobreviviam em meio à poluição. Os rios fluíam livremente sem a presença humana. Em contraste com o abandono, Yang vê apenas carros próximos aos prédios oficiais, mas eram poucos.

Yang se impressiona. Era como se a capital chinesa tivesse se tornado um vasto pátio industrial. Poucas vezes ele teve a chance de visitar a cidade durante sua carreira de piloto. Quando veio, ele ficou em bases afastadas, longe do manto tóxico de poluição. Mas agora, ao penetrar o coração da cidade, era como se ele estivesse lhe desvendando segredos.

A megalópole era imensa; Yang passava apenas em seus arrabaldes. Ao se aproximar do centro, ele finalmente vê. Acima das altas torres, os temíveis cruzadores pairavam sobre Pequim. O centro financeiro de negócios estava em chamas. O topo da torre CITIC, também conhecido como “China Zun”, queimava livremente, sem ninguém para apagar o incêndio. A fachada do belíssimo CCTV estava toda quebrada e estilhaçada. A famosa Cidade Proibida, de onde Mao proclamou a Revolução, teve seus telhados bombardeados e arruinados. Lamentavelmente todo o distrito de Chaoyang era dominado pelo inimigo.

Os enxames surgem entre o fogo. Eles flagelavam a cidade com suas bombas de energia, reduzindo-a a cinzas. Yang avista o Grande Salão do Povo, a imponente sede do Parlamento chinês. Baterias de artilharia antiaérea protegiam a entrada, mas eram pouco eficientes contra as ágeis aeronaves alienígenas. O piloto também vê tanques e artilharia antiaérea espalhados pela Praça da Paz Celestial, em sua maioria destruída pelo inimigo. Drones chineses bombardeavam os enxames, providenciando um modesto suporte aéreo. Entretanto, ele não pode ver os caças da Força Aérea em lugar algum.

Yang nota que no topo de um prédio havia artilharias chinesas combatendo os enxames. De repente um facho de laser desce do céu e arrasa o prédio, queimando o equipamento com sua brilhante luz. O piloto olha para cima e se estarrece ao ver que o laser veio de um cruzador.

Diferente dos cruzadores de Shanghai, em Pequim eles atacavam ativamente a cidade. Seu ataque feroz se assemelhava ao fulminante laser do Tiān Jiāng, apelido dado pelo Alto Comando ao general das forças de invasão de sua cidade.

Yang relembra sua missão. Com o Shenzhou Wenzí, ele deve limpar o espaço aéreo de Chaoyang e proteger a fuga do presidente chinês.

- Preparando-me para atacar o inimigo. Câmbio. – informa Yang.

O piloto aperta os botões e destrói três naves alienígenas. Fazendo ousadas manobras, ele persegue um enxame e os aniquila, salvando uma fileira de tanques na rua. Ao vê-lo, as equipes abrem suas escotilhas e acenam, agradecendo ao jovem herói de Shanghai.

No topo de um prédio, uma equipe de artilharia antiaérea sofre para resistir ao inimigo. As bombas de energia se aproximam como esferas da morte, destruindo o equipamento e encurralando-os contra a parede; os enxames brincavam com eles. Mas de repente, se elevando atrás deles, o Wenzí dispara mísseis teleguiados e os pulveriza no ar.

Desta maneira, o Wenzí segue pelo céu de Pequim. Yang salva as equipes de artilharia. Lentas e pesadas, elas não tem a menor chance contra os enxames. Então os soldados hasteiam bandeiras da China sobre os terraços, simbolizando a esperança.

Os drones tentam, mas não conseguem abater os robustos cruzadores com seus mísseis. Então lasers descem do céu e arrasam a Praça da Paz Celestial, avariando o exército chinês concentrado naquela posição. Preocupado, Yang fala ao comunicador:

- Piloto para base. Eu vou atacar os cruzadores sobre a praça. Câmbio.

“Negativo, tenente”.

Yang se assusta; ele reconhece aquela voz. Ao olhar para o lado, uma brigada de caças cruza o céu. Intrigado, ele pergunta:

- Pode repetir a mensagem, por favor?

“Yang, sou eu, Junlong. É bom estar voando de novo”.

Espantado, ele responde:

- Tenente-General? O senhor voando? Como?

“Com essa guerra, não existem mais pilotos disponíveis, então eu me voluntariei”.

Yang se intriga.

- E eles o deixaram vir?

Junlong humoradamente responde:

“Não”.

Ambos riem.

- Senhor, caças Chengdu e Shenyang não são eficazes contra os enxames. A China precisa empregar novas armas contra os alienígenas, como o Wenzí.

“Ora, deixe esta velha raposa voar!”, pede ele. “Além disso, a China não estava preparada para um inimigo vindo do espaço. Ninguém na Terra poderia prever esta tecnologia alienígena. Coincidentemente, ao projetarmos o Shenzhou Wenzí, nós apenas brincávamos com as novas tecnologias no mercado. A vinda do enxame foi apenas uma coincidência”.

Então Yang reconhece; o verdadeiro herói era Junlong, e não ele.

- Fico feliz em ter um excepcional tutor e um amigo, senhor!

“Sem bajulações!”, ordena ele, brincando. “Piloto Haisheng, você tem novas ordens. O presidente não está aqui; ele está no subsolo. O inimigo conseguiu se infiltrar no nível inferior da cidade. Suas novas ordens são limpar o local e assegurar a fuga do presidente”.

- Entendido. Devo partir imediatamente?

“Ainda não”, responde ele. “Vá para o Aeroporto Internacional de Pequim. Os militares desenvolveram uma nova arma e querem instala-la no Wenzí. Disseram que é ultra eficiente em locais fechados, como o subterrâneo. Li Fen lhe passará as coordenadas”.

Então, sem nenhuma palavra da assistente, Yang recebe a localização. Tratava-se de um hangar oculto no aeroporto da cidade.

- Entendido, senhor. E obrigado.

“Boa sorte, garoto. Me deixe orgulhoso”.

Em seguida Junlong manobra seu caça Chengdu e se afasta.

Yang deixa o espaço aéreo da praça Tiananmen[4]. Enquanto se afasta, a brigada de Junlong combate bravamente os enxames.

O aeroporto se aproxima. O piloto vê os terminais arrasados e em chamas. Os aviões comerciais jaziam destruídos na pista e os hangares tiveram seus telhados derrubados pelas bombas inimigas. Aparentemente os invasores quiseram impedir qualquer chance de fuga dos habitantes.

Uma voz robótica surge em seu comunicador.

“Piloto Haisheng do Shenzhou Wenzí. Entrada permitida”.

Uma escotilha secreta se abre atrás de um hangar. A tampa de concreto da própria pista se move e revela um túnel vertical negro, iluminado por holofotes verdes. Yang se impressiona.

Enquanto desce, a escotilha se fecha e o encerra lá embaixo. Com a invasão, Yang conhecia bases que eram ocultas até a pilotos experientes como ele.

Ao chegar lá embaixo, ele vê uma instalação secreta com centenas de militares e engenheiros. Haviam protótipos de aviões pelo lugar, mas nenhum tão fora do convencional quanto o Wenzí. Ele também vê mísseis balísticos intercontinentais lá embaixo, adormecidos em seus silos como deuses mitológicos hibernando, aguardando o momento de despertarem para punir a humanidade.

“Piloto Haisheng, aqui é Zhang, o engenheiro chefe desta instalação. Bem-vindo à base secreta de Pequim”.

Yang lentamente pousa o Wenzí. Ao descer da nave, os engenheiros se aproximam, cercando-a para vê-la. Eles conversam entre si, uns contemplando e outros admirando a aeronave às suas frentes.

O engenheiro chefe se aproxima e diz:

- Olá, Piloto Haisheng. Prazer em conhece-lo.

Yang tira seu capacete e responde:

- O prazer é todo meu, Zhang.

- Creio que o Tenente-General Junlong já te informou da razão de estar aqui.

- Sim, senhor.

Indicando o caminho, o chefe dos engenheiros diz:

- Acompanhe-me, por favor.

Os dois então andam pela instalação subterrânea. Zhang comenta:

- No centro espacial de Xichang, nossa equipe desenvolveu um armamento inovador nunca antes testado em combate. Ele foi projetado para ser usado em ambientes fechados, confinados por paredes duras, como o concreto, ou mesmo a rocha, como as cavernas. – indicando um equipamento sobre a mesa, ele continua – O armamento dispara lasers que ricocheteiam contra as paredes, avançando em trajetórias distintas, mas sempre em frente contra o inimigo. Deixe-me fazer uma demonstração.

Zhang ativa o equipamento. Ao concentrar uma fortíssima luz em sua ponta, o cano dispara contra um estreito túnel artificial. Yang vê impressionado o laser batendo nas paredes e então prosseguindo novamente, mudando apenas de trajetória, mas nunca de direção.

- Incrível...!

- Obviamente não colocaremos um protótipo tão pequeno em sua nave. Ao contrário, aqui nós temos algo mais adequado para elevar o Wenzí ao seu mais alto potencial.

Ao olhar para trás, Yang vê engenheiros soldando e parafusando estruturas complementares, adaptando-as na fuselagem do Shenzhou Wenzí. Em seguida os engenheiros se aproximam com o novo armamento. Yang vê dois dispositivos cônicos, formando dois longos canos, um em cada lado da nave. 

- Utilize-o com cuidado, Piloto Haisheng. Por ter um ricochete altamente letal, o laser pode causar fogo amigo. Na esquadrilha é aconselhável que você vá na frente.

Com olhar ainda surpreso, Yang responde:

- Sim, senhor. Obrigado, senhor.

 

§

 

Yang retorna à superfície.

Ao passar pela escotilha, aviões de caça e naves do enxame cruzam o céu; a batalha continua no ar.

As nuvens amarelas obstruem a luz do sol, mas o piloto pode ver. A brigada de Junlong lutava bravamente, apesar da evidente desvantagem tecnológica. Yang percebe que, sem a ajuda dos canhões antiaéreos sobre os prédios, os caças já teriam sido abatidos facilmente. Enfrentar os enxames com caças era desastroso, não importava o quão avançados fossem.

- Tenente-General Junlong, solicito permissão para auxiliá-lo em combate.

“Negativo, Piloto Haisheng! Você deve seguir imediatamente para o subterrâneo de Pequim”.

- Mas e quanto a aeronáutica e o exército?

“Eles assumem daqui. Agora apresse-se! A comporta logo vai se abrir”.

Li Fen lhe passa as coordenadas. Yang então segue para os arredores de Pequim. Lá ele se depara com um paredão rochoso na montanha. De repente uma porta gigantesca se abre, soprando o gás amarelo da atmosfera para longe. Enquanto se abre, uma luz giratória vermelha ofusca sua vista, mas ele consegue ver. O interior era vasto e escuro, cuja profundidade lhe era intimidadora.

Alguém no comunicador diz:

“Piloto Haisheng! Entre, por favor. Esta comporta não pode ficar aberta por muito tempo”.

Yang passa pela enorme entrada e desce em direção às entranhas da Terra.

Mais abaixo, ele ouve sons de água jorrando em torrentes. Navcom liga automaticamente as luzes e o piloto vê reservatórios de água contidas em grossas paredes de concreto. Ao observar bem, ele reconhece canais subterrâneos; era o abastecimento de Pequim.

De repente a voz de Junlong surge no comunicador.

“Yang, você sabe como surgem os dragões?”.

Intrigado com a súbita pergunta, ele responde:

- Não, senhor.

“Na mitologia chinesa, a água é a formadora dos dragões. Eles não nascem assim, mas têm sua origem nos peixes e nas serpentes dos rios. Esses animais se tornam dragões a partir de descargas elétricas vindas do céu, como raios. Estas descargas são o último estágio antes de se tornar um dragão, e se o peixe ou a serpente sobreviver, ele efetivamente se torna um”.

Fazendo uma breve pausa, ele continua.

“Diferente das mitologias ocidentais, na China os dragões não são maus. Aqui eles são benevolentes e protetores, e cada um tem uma função específica, prestando auxílio para aqueles que os invocam”.  

- Muito interessante, senhor. – responde Yang.

De fato, seu tutor era muito erudito na cultura chinesa.

Um minuto depois, algo acontece. Um ruído diferente surge junto com o fluxo das águas. Ao olhar para o lado, o piloto vê uma aeronave anfíbia voando sobre os canais. Então a voz no comunicador diz:

“Olá de novo, Yang”.

Intrigado, o piloto pergunta:

- Junlong?!

A aeronave se aproxima do Wenzí. Os holofotes na carenagem o ofuscam, mas ele consegue ver. Junlong estava lá dentro, em pé atrás dos assentos dos condutores na cabine.

Surpreso, Yang pergunta:

- Junlong, o que está fazendo aqui?

Sorrindo, o tenente-general leva seu comunicador ao rosto e responde:

- Você pensou que eu perderia a chance de me tornar um dragão?

 

          



[1] “Boa tarde” em chinês

[2] “Tenente-Coronel” em chinês

[3] “Primeiro-Tenente” em chinês

[4] “Paz celestial” em chinês

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