(Arte de Jukka Lehto)
Enquanto avançam
sobre os canais subterrâneos, algo se movimenta no fundo e então algo acontece.
Aeronaves diferentes emergem das águas, atirando para todos os lados e, em
seguida, imergindo novamente. Yang e Junlong se esquivam bruscamente, evitando
seus projéteis de curso aleatório.
As águas se movem
e mais aeronaves emergem, atirando para todos os lados e em seguida imergindo.
Os dois se confundem. As aeronaves se assemelhavam a guarda-chuvas e, ao
atirarem, seus compartimentos se esvaziavam e elas voltavam para o fundo.
Não havia tempo
para reflexão. Yang se prontifica e atira de volta, esquivando-se e contra-atacando.
Ele nota que a inusitada arma instalada horas atrás era muito eficaz, e funcionava
conforme o esperado. O Canhão Xichang dispara seus lasers azulados e eles
ricocheteiam pelo túnel escuro, criando um espetáculo de cores e destruição. De
fato, o laser muda de direção várias vezes, tornando a vanguarda perigosa
inclusive para as aeronaves aliadas. Para o bem de todos, o Wénzi deveria ficar
na dianteira durante a operação.
Yang e Junlog se
atentam. A aparição do novo inimigo evidenciava que ele também havia se
infiltrado no subterrâneo de Pequim. Agora a segurança de toda a capital estava
comprometida; eles precisavam se apressar.
A formidável
agilidade do Wénzi novamente se evidencia e o piloto abate muitos inimigos.
Junlong, por sua vez, tem dificuldade em sua aeronave anfíbia e fica para trás.
Yang pergunta:
- Senhor, o
senhor precisa de ajuda?
“Negativo,
tenente Haisheng! Você tem uma missão para cumprir!”.
A aeronave de
Junlong é atingida e se sacode no ar.
- Mas, senhor...!
“Saia daqui!”,
exclama ele. “Isso é uma ordem!”.
O piloto pensa em
voltar, mas o tenente-general conclui:
“Câmbio e desligo”.
Em seguida o
canal de comunicação é desligado.
Yang avança destemidamente.
Logo os túneis estreitos se alargam e ele contempla a vasta capital
subterrânea. Pequim era uma cidade pulsante e colorida. Passarelas elevadas
conectavam os prédios, tirando a necessidade dos pedestres de descerem ao nível
do solo. O piloto vê praças nos terraços dos edifícios, semelhantes às praças
elevadas de Shenzhen.
Painéis solares
captavam a luz através de tubos conectados à superfície. Yang vê lâmpadas de
luz ultravioleta nos apartamentos e nas ruas. Aparentemente os pequineses
tinham grande preocupação com a falta de luz solar e a umidade.
Veículos
elétricos estavam por toda parte. Carros, motos e caminhões, todos os
automotores eram movidos a eletricidade e nenhum era movido a combustão,
considerado obsoleto pela China. O piloto percebe que a nova capital se
esforçava para manter a qualidade do ar.
Algo lhe chama a
atenção. Na nova Pequim, ele nota muitas pessoas pelas ruas e passarelas acima.
Nem em Hong Kong ele viu tantos prédios reunidos, espremidos no curtíssimo
espaço que lhes sobravam. Residências, comércios, escolas e prédios do governo,
todos dividiam o pequeno espaço com rígida organização. Em Pequim, a densidade
habitacional se aproximava à famigerada cidade murada de Kowloon, demolida
entre 1993 e 1994 em Hong Kong.
A área da cidade era
imensa. O espaço se assemelhava à famosa “Catedral Subterrânea” de Tóquio, uma megaestrutura
que escoava as águas da região metropolitana japonesa. Entretanto, a cidade
subterrânea de Pequim era vinte mil vezes maior.
A população
estava alvoroçada e se preparava para evacuar o subsolo. As vias públicas
estavam lotadas, mas as autoridades tentavam manter o controle. Diferente de
Shanghai que mergulhara no caos, em Pequim ainda havia ordem.
Yang avança por
entre as passarelas e prédios. Lá embaixo ele vê alguns prédios do governo e
também embaixadas estrangeiras. Diferente da superfície, desolada e contaminada
por gases tóxicos, a verdadeira capital do mundo encontrava-se no nível
inferior. De fato, Pequim nunca deixou de ser a capital de um império. No
passado ela abrigou dinastias; no presente ela abriga um novo império, muito
mais vasto e poderoso do que antes, que se estende pelo Sistema Solar.
De repente um
ataque acontece.
As fachadas dos
prédios se explodem, lançando estilhaços por toda parte. O som ensurdecedor
reverbera pelo subterrâneo, apavorando os pequineses. Com o ataque repentino,
as suspeitas se comprovam; o inimigo adentrara o subterrâneo. E então o caos se
alastra.
Os enxames surgem
entre os prédios. Acima e abaixo das passarelas, as fileiras de aeronaves
alienígenas sobrevoam a cidade, soltando suas bombas e espalhando a destruição.
Yang se vê
cercado de enxames. Sem hesitar, ele aperta o botão e atira, disparando o
azulado laser do Canhão Xichang. Como esperado, o laser destrói os inimigos,
mas continua seu percurso ricocheteando pelos edifícios. O piloto assiste
horrorizado o laser ricochetear e atingir as pessoas abaixo, imediatamente
incinerando-as vivas. Yang se paralisa.
A nave se
estremece.
"Escudos a 84%".
O susto o acorda
novamente. O Wénzi havia sido atingido.
Olhando ao redor,
os enxames atacavam impiedosamente. Eles não tinham um alvo específico, apenas
atiravam aleatoriamente nas ruas e prédios abarrotadas de pessoas. Yang
percebe, eles intentavam cometer um genocídio.
Manobrando o
Shenzhou Wénzi, Yang combate os enxames passando por cima e por baixo das passarelas.
A aeronave tem alta eficiência com o novo armamento; o tiro ricocheteia pelos
prédios e pilares, mas põe em perigo população pega no fogo cruzado.
O piloto é
obrigado a ignorar o trágico efeito colateral causado nos civis próximos.
Ricocheteando de um lado ao outro, o laser avança pela cidade, destruindo o
inimigo e torrando seres humanos. Naquele dia, a morte vinha em uma aeronave
humana e tinha seu manto iluminado de azul.
As autoridades
oferecem suporte. No topo dos prédios, o exército instala canhões antiaéreos.
Na superfície, tanques preparam sua torretas. Porém, os canhões são pouco usados,
pois há risco dos tiros danificarem as estruturas urbanas. A defesa ficaria
exclusivamente no Wénzi.
Abaixo, a
infantaria auxilia na evacuação dos civis. Alguns são impiedosamente
bombardeados pelos enxames. Da aeronave, Yang podia ouvir os gritos das vítimas
feridas pelo ataque. Sua agonia parte o coração do piloto.
Yang se
prontifica para ajudar, mas uma voz surge no comunicador de repente.
“Piloto Haisheng!
Aqui é o Tenente-General Junlong”.
- Junlong...?! –
espanta-se ele – O senhor está bem?
“Já estive
melhor”, responde ele. “Yang, prossiga para o seu objetivo. Repito. Prossiga
para o seu objetivo”.
- Mas, senhor! O
exército não tem a menor chance lá embaixo!
“É uma ordem, tenente!”.
Contrariado, o
piloto acata em silêncio. Junlong sempre foi um bom soldado e nunca
descumpriria uma missão.
Sem tempo a
perder. Yang manobra o Wénzi e continua seu percurso até o prédio do governo
mundial de Pequim.
§
O prédio do
governo era uma réplica adaptada do antigo Zhongananhai[1].
Ao lado, ele também vê o prédio do Parlamento, também uma réplica dos antigos
prédios da Praça da Paz Celestial. Na superfície, Yang localiza a escolta
oficial do presidente. O Politiburo, oficiais e demais autoridades do governo
chinês, querem fugir também e todos estão em pânico.
Seguranças armados
formam uma fileira na saída do Parlamento. Aeronaves com fuselagem reforçada
pousam por perto, aguardando o embarque dos oficiais. Bombas de energia se
explodem ao longe, provocando estrondos e assustando-os. Um tiroteio se forma.
Os enxames surgem de repente, serpenteando no ar em voos circulares e atirando
suas bombas de energia. Os seguranças respondem atirando com seus fuzis, mas
pouco podem fazer contra um inimigo incomum.
A comitiva do
Polituburo corre pela superfície se protegendo atrás dos seguranças. Bombas
atingem os carros no chão e se explodem, fazendo muitos voarem pelos ares. Em
meio às baixas, os oficiais correm desesperados, em pânico tentando alcançar as
aeronaves. Quando o último oficial entra, eles fecham as portas e ordenam a
decolagem. Os seguranças correm até as aeronaves e estapeiam as portas,
implorando para eles abri-las. Mas seu pedido nunca fora atendido. As aeronaves
levantam voo e vão embora. Em horror Yang percebe: o Politiburo usou os
seguranças como escudo humano e os deixou para trás.
A escolta do
presidente estava logo abaixo. Yang vê seis formidáveis aeronaves de combate.
Ele se impressiona com o armamento e a armadura das aeronaves. Aqueles veículos eram admiráveis e não seriam entregues a qualquer piloto. Mesmo Yang, com
seu imenso talento, poderia passar a vida inteira tentando uma oportunidade de
pilotá-las e, mesmo assim, nunca ser convocado. Mas como o
destino é imprevisível a todos os homens, hoje ele pilota uma nave que,
provavelmente, não será pilotada por mais ninguém.
O presidente é
levado para dentro do carro por um pelotão inteiro do exército. Yang não pode
deixar de se impressionar; ele só havia visto o presidente pela televisão. A
comitiva de aerocarros forma uma fileira, três na frente e três atrás do carro
presidencial. Um canal de comunicação se abre e o Navcom transmite a mensagem.
“Piloto Haisheng,
estamos prontos para partir”.
A cidade atrás
deles estava mergulhada no caos. Toda aquela pulsante paisagem subterrânea,
iluminada por holofotes e painéis de neon, agora era iluminada por fogo de
artilharia e explosões. Chamas subiam pelos prédios e escapavam por janelas
estilhaçadas. Por entre a negra fumaça e gritos dos inocentes, o numeroso
inimigo voava inclemente.
Yang diz:
- Líder da
escolta, não podemos voltar pela cidade! Não posso garantir a segurança da
comitiva por ali!
“Negativo,
piloto! Iremos tomar outro rumo”.
- Outro rumo?
Navcom recebe o
download de uma rota alternativa, um rota de fuga secreta a ser usada apenas
pela comitiva presidencial. No painel do Wénzi, Yang reconhece um túnel sinuoso
escondido abaixo de milhões de toneladas de concreto de toda Pequim.
Liderados por
Yang, eles seguem em direção do túnel secreto.
Enxames aparecem,
mas o piloto os combate bravamente. O Canhão Xichang novamente comprova seu
valor, ricocheteando pelas paredes e confundindo o inimigo. Atrás, a comitiva
segue Yang, mas tem certa dificuldade em acompanhar a manobrabilidade aguda do
Wénzi.
Os lasers do Canhão
Xichang ricocheteiam pelas passarelas abarrotadas. Muitas pessoas são atingidas,
sendo fulminadas pelo quentíssimo calor. Outros tiros ricocheteiam e entram
pelas janelas dos edifícios, vitimando dezenas de inocentes lá dentro.
Uma voz conhecida
surge no comunicador:
“Piloto Haisheng!
Aqui é o Secretário Geral do Partido! Ordeno que pare com essa carnificina
agora!”.
Yang sente um
frio na barriga.
- Senhor
Presidente...?! Eu...
“Ordeno que
controle o seu gatilho, piloto!”.
Respirando fundo,
Yang responde:
- Senhor, eu não
posso! A trajetória do laser não pode ser controlada!
De fato, o Canhão
Xichang tinha a função de exterminar, não distinguindo o que estava a sua
frente.
Pelo teto da
vasta cidade, haviam enormes hélices em constante movimento. Elas forneciam ar
para a cidade e outras sugavam para fora o calor, como um exaustor. Ao
sobrevoar uma hélice, Yang sente a poderosa corrente de ar empurrando-o para
baixo. Em outra hélice, o piloto tem que se acautelar para não ser sugado para
cima. Os enxames, por serem menores e mais leves, perdem o controle e se chocam
contra as hélices, explodindo e danificando as instalações de exaustão.
Navcom indica
precisamente o caminho. Yang ataca e é atacado, com dezenas de bombas de
energia cruzando sua vista. Tremores abalam a fuselagem do Wénzi; ele estava
sendo atingido.
“Escudos a 78%”.
“Piloto Haisheng,
o espaço aéreo ainda está muito carregado. Preciso que o torne seguro
imediatamente!”. – diz o líder da comitiva.
Sem opções, Yang
é forçado a contra-atacar. O belíssimo laser ricocheteia por toda parte,
ferindo e fulminando dezenas de pessoas lá embaixo.
A rota de fuga
presidencial os levam para uma maciça comporta, semelhante à dos abrigos
nucleares. Ao aproximar-se, luzes amarelas giram e uma sirene de alerta soa. A
comporta era tão pesada que seu simples movimento estremecia o chão e as
paredes ao redor.
A comitiva
aguarda a comporta se abrir e Yang combate os enxames logo atrás, abatendo-os
sem dificuldade. As numerosas bombas voam por toda parte, atingindo algumas aeronaves
da comitiva. Além do Wénzi, as aeronaves humanas não podiam resistir ao
inimigo.
“Piloto Haisheng,
a comporta se abriu. Entre antes que ela se feche!”.
Manobrando o Wénzi,
Yang se dirige à pequena abertura da comporta, uma pequena fenda aberta o
suficiente para a aeronave presidencial passar. Quatro aeronaves da comitiva
combatiam bravamente o inimigo, apesar de sua evidente desvantagem. Subitamente
a comporta começa a se fechar. Os pilotos se desesperam, eles estavam sendo
deixados para trás. Alguns se arremetem contra a fenda, mas era tarde demais. A
fenda se fecha e a aeronave se choca contra o maciço de aço, causando uma
enorme explosão.
Yang assiste
àquilo com espanto, mas não pode fazer nada. As únicas vidas que importavam era
a do alto escalão.
Passado o perigo,
o piloto olha para frente e contempla a rota de fuga presidencial. Um vasto
túnel negro se revela. Luzes amarelas e giratórias se acendem nas paredes,
revelando um túnel de aproximadamente 50 metros de diâmetro.
O silêncio era
assustador. Lá dentro, tudo era tão calmo e escuro que não parecia haver uma
terrível invasão ocorrendo logo atrás. Desta vez, a segurança parecia ser
garantida.
“Piloto Haisheng,
devemos prosseguir! Será uma longa viagem pela frente!”.
Ao ouvir o líder
da comitiva, o piloto pergunta:
- Para onde o
túnel nos leva?
“Para próximo do
Porto de Tianjin”.
Yang se
impressiona. A distância entre Pequim e a cidade de Tianjin são de quase 140
quilômetros; um pouco mais se considerarem até o porto.
As duas aeronaves
de escolta restantes se posicionam em formação, com a aeronave presidencial
protegida atrás. Yang toma a frente e então avança, guiando-os pelo longo túnel
e deixando a Pequim subterrânea para trás.

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