segunda-feira, 4 de outubro de 2021

Sonata - 56 - O Ministério da Propaganda

 


(Arte de Hugo Huleeb)


Pilotando a aeronave, Nasier leva Nathan e Laura para casa. A garota está ferida e exausta, esforçando-se para se manter acordada. Nathan se aproxima e tenta ajuda-la, mas é prontamente rejeitado. Persistente, ele se senta lado dela. Alguns minutos depois, Laura adormece em seu assento e o rapaz corajosamente a abraça.

Então algo inesperado acontece. 

Laura se deita no banco e, esticando suas pernas, adormece com sua cabeça no colo de Nathan. O rapaz não acredita. Com mãos trêmulas, ele acaricia seus cabelos enquanto ela dorme tranquilamente.

Observando discretamente pelo retrovisor, Nasier vê tudo e sorri. O Inimigo de Estado a amava.

Nathan vê a cidade pela cabine. Distritos inteiros estavam no escuro, tendo apenas as áreas públicas com iluminação. Surpreendentemente, megatorres inteiras estavam na escuridão. Aqueles letreiros e painéis de neon coloridos estavam totalmente apagados, causando muita estranheza no rapaz, e ele sabe quem foi o responsável por aquilo tudo.

“Os Clérigos do Recomeço”, sussurra ele.

De repente o líder purista pergunta:

- Você fez isso, não é, Nathan?

Distraído, o rapaz diz:

- Eu fiz isso o quê?

- O blecaute. – responde ele, tranquilamente – Foi você, não?

- Não! – nega ele – Foram os clérigos que fizeram.

Curioso, Nasier comenta:

- Eu vi os noticiários. Aquele profeta fundamentalista disse que você os ajudou a cortar o fornecimento. Inclusive disse que você se converteu à religião deles. Sabe... Eu nunca pensei que você fosse do tipo religioso...

O rapaz protesta.

- Eu não sou nenhum religioso! E não me converti à religião alguma!

- Foi o que ele disse. – responde ele, dando de ombros – Aliás, achei uma tremenda ousadia interromper o abastecimento de água. Muita gente poderá morrer.

- Eu não tive nenhuma participação nisso. Os clérigos se justificaram dizendo que as corporações nos infectavam através da água, mas não me consultaram antes de interrompê-lo. – ele conclui dizendo – Eles me usaram. Foi isso o que aconteceu.

- Te usaram? – duvida ele.

- Sim.

O líder assente.

- Nas imagens você parecia bem conivente.

- Eu não estava!

Nasier brincava com ele. Ele sabia que não havia inocentes nas facções. Na verdade, o único inocente na Rebelião inteira era o próprio Nathan.

- Tudo bem. Se você diz, eu acredito em você.

Meia hora se passa. A aeronave continua seu trajeto. Apesar da escuridão, o rapaz pode ver que eles se aproximava de seu destino.

Então o líder comenta:

- Há uma coisa que me intriga nisso tudo... Você diz que não participou do corte de fornecimento, certo? Mas isso vale para o dia em que você detonou uma bomba, explodindo um hospital inteiro no território ateísta?

Então Nathan arregala os olhos.

- Como você sabe disso?

Nasier sorri. O rapaz caiu em suas maldosas insinuações.

- O que é um corte de água e energia para quem explode um hospital inteiro, não é?

Antes que pudesse responder, uma voz na aeronave diz:

“Aproximando-se do destino”.      

Nathan se irrita, mas terá de deixar aquela discussão para depois.

Pousando sobre um heliporto apagado, Nasier abre as portas. Laura acorda, mas o rapaz tem a impressão de que ela estava acordada ouvindo tudo.

Saindo do veículo, o líder comenta:

- Mas que noite alucinante...

A garota fica em silêncio, mas o rapaz responde.

- Acho que sim.

- Ei, Laura. Acho que você tem algo que me pertence.

Com semblante sério, a garota tira o decodificador de sua mochila e o entrega.

- Boa garota.

Nasier observa o decodificador por um segundo. Rouba-lo teve um preço muito alto; a Resistência Purista agora estava em frangalhos. Mas ele sabe que, com a tecnologia corporativa, um novo período se iniciava na facção.

Em tom ameaçador, Laura diz:

- Minha dívida está paga. Agora suma daqui.

Satisfeito, o líder responde:

 - Até mais, senhores. – despede-se ele – E Nathan, independente das circunstâncias, eu estou orgulhoso de você.

O rapaz se intriga.

- Do que você está falando?

O líder simplesmente responde:

- Inimigo de Estado.

Em seguida ele dá as costas e volta para a aeronave. Ligando os motores, as turbinas sopram o vento e ela flutua, mudando sua direção e indo embora pela noite.

Tudo fica em silêncio novamente. Olhando para o lado, o rapaz se intriga. A garota ainda estava lá, não dando as costas e indo embora como ela sempre fazia. Inesperadamente ela diz:

- Obrigado.

Nathan se espanta. Ele jamais esperaria essa reação dela. Ele sente que estar em sua presença era como estar no paraíso. Controlando-se, ele responde:

- De nada.

O rapaz sabe que Laura é uma mulher de poucas palavras. Mas, apesar do blecaute e da escuridão, ele sente que o paraíso havia descido e que agora ele conversava com um anjo. Mesmo as estrelas brilhavam mais forte.

Finalmente Laura dá as costas. Antes de dar dois passos, Nathan a segura pelo braço e diz:

- Fique comigo.

Estranhamente, Laura parecia amolecer com seu toque.

- Eu preciso ir. – responde ela.

- E eu preciso de você.

A garota vira o rosto, parecendo se preocupar com algo.

- O que foi? – pergunta ele.

Laura se mantém em silêncio. Aproximando-se, Nathan a segura pela cintura e a beija. Desta vez a garota não resiste e o corresponde, beijando-o sob aquela noite de estrelas brilhantes. Os dois se seguram firmemente, compartilhando o calor mais sublime que só o amor pode provocar.

Nathan deseja que aquele momento dure para sempre, mas a garota o afasta e diz:

- Eu preciso ir.

Ela se afasta e o rapaz segura sua mão até elas se soltarem com a distância. Então ele diz:

- Eu te amo.

Laura continua caminhando. Ao chegar na beirada da megatorre, ela olha para trás e responde:

- Eu também.

E então ela vai embora. 

Um calor repentino surge em seu peito e se espalha por todo o seu corpo, como se estivesse em chamas. Nathan está tão eufórico que nem a escuridão podia apagar o fogo que ele sentia em seu coração.

 

§

 

No Submundo, Database assiste aos noticiários. Ardendo em chamas, a Cellgenesis não existia mais. Ele sorri.

Pouco antes dos puristas explodirem o edifício, uma aeronave havia partido. As câmeras filmaram um bizarro androide, um tipo mutagênico com capacidades regenerativas. Ele luta e facilmente destrói os soldados daquela facção, entretanto ele é derrotado no último minuto por uma corajosa garota. Database obviamente sabe de quem se trata: Laura.

Mas ela não fez isso sozinha. Nathan a ajudara.

Novamente agindo por si mesmo, o rapaz deixou o Submundo e imprudentemente foi sozinho para o combate.

“Por acaso ele tem sete vidas?!”, pergunta-se ele.

De repente um segurança entra em sua sala e diz:

- O Inimigo de Estado acabou de chegar. Devo chama-lo?

- Não. – responde ele – Deixe-o descansar um pouco.

O segurança assente e vai embora. Novamente sozinho, o chefe reproduz um vídeo em seu monitor. Nas imagens ele vê o rapaz beijando Laura sobre um terraço. Encostando-se em sua poltrona, ele fuma seu charuto e pensa no que fará a seguir.  

Caminhando pelo Submundo, os runners o congratulam pelo ousado resgate da garota. Do jeito que eles falavam, parecia que Nathan era muito corajoso como ela jamais pensou que fosse. Curiosamente, ele conhecia um pouco mais de si mesmo com o decorrer da Rebelião.

Em seu quarto, Nathan se deita, cruza as pernas e põe suas mãos atrás da cabeça. Profundamente feliz, ele olha para o teto e se perde em pensamentos. O rapaz se pergunta o que fez Laura mudar tanto. Ele não entende o que deu nela, na verdade ele achou que ela ia rejeita-lo com insultos como sempre, mas não foi isso o que aconteceu.

“Então ela me ama...”, reconhece ele. Após tanto tempo se humilhando, a garota finalmente o confessara seus sentimentos. Abraçando-se, o rapaz sussurra:

- Eu te amo muito mais, Laura.

Então ele respira fundo, preocupado. Sonata passava por seu momento mais crítico. Definitivamente aquela não era a hora certa para romances. Reconhecendo essa triste realidade, o rapaz se desanima.

Nathan se lembra que haviam outros problemas a resolver. Database instalara câmeras de espionagem em seu quarto. Não importa o quanto ele tente escapar, esses marginais e terroristas sempre encontrarão um jeito de manipula-lo.

“Até quando?”, pergunta-se ele.

Na manhã seguinte, o rapaz se levanta, toma um banho e se veste. Ele queria ver a garota. Enquanto se prepara para sair, seu celular toca. Database queria vê-lo. As interrupções do chefe o irritavam, mas sua coordenação era essencial para prosseguir com a Rebelião. O rapaz pensa em levar a evidência da câmera, mas, após o sublime encontro com a garota, ele não queria confronta-lo agora.

Entrando na sala de Database, o chefe diz:

- Nathan, me desculpe por interromper seu descanso tão cedo. Há uma mensagem importante para você.

Com semblante calmo, o rapaz responde:

- Pode dizer, Database.

- Não é minha. – esclarece ele – É da Frente Ateísta.

Em seguida o chefe aperta um botão e seus monitores formam o rosto de Bertrand Dawkins, o líder daquela facção.

- Olá, Nathan. Como vai?

Vendo a vídeo-chamada, o rapaz responde:

- Senhor Dawkins? O senhor gostaria de falar comigo?

- Sim. Preste atenção, pois é muito importante. Nós o convocamos para o próximo ataque que ocorrerá hoje à noite no Ministério da Propaganda. Nossas tropas já estão posicionadas e sua presença será imprescindível. E mais uma coisa. Venha sozinho.

Então o rapaz se intriga.

- Sozinho?

- Exato.

Ainda confuso, ele diz:

- Senhor Dawkins, eu preciso dos runners para o meu suporte e proteção.

Sorrindo, o ateísta responde:

- Você não precisou deles na 4 de Julho, na Cúpula Corporativa e ontem, na Corporação Cellgenesis.

Então o rapaz não sabe o que dizer.

Dirigindo-se ao chefe, o líder diz:

- Obrigado, Database. Até mais tarde.   

A vídeo-chamada se encerra. Antes que o rapaz pudesse falar alguma coisa, o chefe olha pare ele e brinca:

- Prepare-se, Nathan. Essa noite você vai aprender que a ciência é mais importante do que a religião.

Em seguida ele bebe um gole de seu uísque e ri. 

 

§

 

Haviam muitas viaturas de polícia no distrito de Cassiopeia, Setor P. Voando com os faróis desligados, o rapaz passa perigosamente por entre as megatorres e passarelas.

Apesar do blecaute, as vias públicas ainda conservavam energia. Nos prédios, Nathan via letreiros com frases de ordem das propagandas governamentais. Ele lê “obedeça as leis, respeite a autoridade”, “ajude a combater o terrorismo, denuncie os subversivos”, “trabalhe, consuma, coopere”, “colabore com as corporações e ajude a construir um novo amanhã”, etc. De fato, aquele distrito estava repleto com aquelas frases.

Aquele tipo de letreiro estava na metrópole inteira. As corporações se esforçavam para doutrinar seus habitantes, educando-os com muitos métodos. Nos noticiários, nas paredes, nos programas de TV, as frases de ordem estavam em toda parte. Entretanto, os letreiros eram os mais conhecidos, instalados em locais específicos com muito afluxo de pessoas.

A localização dos ateístas está próxima. O mapa no painel mostra que eles se concentram ao redor de um famoso prédio, o Ministério da Propaganda. Vendo a local indicado, ele pousa seu aerocarro.

Ao abrir a porta, ele é recebido pelos soldados da facção. Eles vestem armaduras pelo corpo, mas por baixo eles vestem terno e gravata. Os ateístas parecem estar furiosos, intimidando o rapaz, mas ele pensa ser só sua impressão.

Uma mulher o conduz até um andar vazio da megatorre. No interior ele vê apenas as vidraças da fachada e nada mais. Percorrendo aquele vasto ambiente, ele se encontra com o líder Dawkins perto da janela. Assim como os facciosos, o líder parecia muito irritado.

- Boa noite, senhor Nathan.

O cumprimento foi forçado, quase um rosnado de ódio. O rapaz responde:

- Boa noite, senhor Dawkins.

O líder lhe entrega algo. O rapaz vê um objeto cilíndrico e metálico com um botão. Perdendo a formalidade, Dawkins pergunta:

- Você sabe o que é isso, Nathan?

Observando-o, ele responde:

- É um detonador.

- Você já usou um antes?

- Eu... – o rapaz hesita por um segundo – Não. Eu nunca usei.

Os ateístas se entreolham, irritados. Dawkins respira fundo e diz:

- Pois, bem. Esta noite você irá usar. Está vendo aquele prédio? – ele aponta para o Ministério da Propaganda.

- Sim.

- Aperte o botão.

Nathan se assusta.

- O quê?

- Aperte o botão. – repete ele, indicando o detonador.

Ainda surpreso, o rapaz pergunta:

- O que vai acontecer?

- Pessoas morrerão. – responde ele, friamente.

Então suas mãos começam a tremer. Novamente ele se vê encurralado em uma situação de extremo desconforto. Suando frio, o rapaz enxuga sua testa e diz:

- Eu não sei se posso fazer isso.

- Algum problema? – pergunta o líder – Achei que agora você fosse o Inimigo de Estado.

Dawkins brincava com ele. Assim como todas as facções anteriormente, os ateístas o manipulavam para cometer assassinato.

- Senhor Dawkins...

- O que foi? Está esperando que algum milagre para te salvar?

Os facciosos riem. O líder continua:

- Me responda uma coisa, senhor Nathan. Até onde você iria para acabar com essa Rebelião?

O rapaz se lembra dessa pergunta, ela foi feita pelo profeta dos Clérigos do Recomeço.

- Eu... – ele hesita novamente – Faria o que fosse preciso.

Nathan se entristece, já sabendo qual será seu destino.

- Então aperte esse botão, senhor Nathan. E cumpra seu objetivo.

Enxugando o suor, o rapaz põe seu dedo sobre o botão e, respirando fundo, o aperta.

Uma espetacular sequência de explosões se sucedem, pulverizando a fachada de cima a baixo e iluminando os edifícios ao redor com a coloração ígnea. A onda de calor avança e o chão treme, sacudindo a vidraça e ofuscando suas vistas.

As viaturas próximas são atingidas pela onda de choque e se desestabilizam. Enxergando a oportunidade, Dawkins pega seu comunicador e ordena:

- Atacar!

Os ateístas deixam o local e embarcam em suas aeronaves. Os aerocarros aparecem e começam o combate aéreo, atacando as viaturas dos policiais aturdidos pela explosão. Da janela, o rapaz vê um drone cruzar o céu e disparar mísseis contra o ministério.

O líder pergunta:

- Você se lembra de meu drone, Nathan?

O rapaz o reconhece. Ele o viu na sede da facção.

- Sim. É o armamento de nome Yuri Gagarin.

Dawkins comenta:

- “Olhei para todos os lados, mas não vi Deus”, disse ele. Esta noite os defensores da corporações comprovarão o que o cosmonauta disse.

- Não. – refuta ele – Esta frase não é dele. Na verdade, foi uma falsa atribuição às suas falas enquanto ele esteve no espaço. O governo fez isso com um intuito político, uma propaganda estatal para promover o sistema soviético que tinha o ateísmo como sua “religião” oficial.

Encarando-o, os ateístas se surpreendem. Então o líder responde:

- Parabéns, Nathan. Você está correto. Mas eu tenho muita coisa em comum com os soviéticos. O ateísmo político, a propaganda estatal – ele aponta para o prédio do ministério – e outras coisas que eu te mostrarei a seguir. Vamos, meu jovem. Vamos conquistar mais uma vitória para minha causa e para a sua Rebelião.

Então eles sobem para o terraço e partem para a invasão.


 

 

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