(Arte de Banszi)
O combate aéreo
prosseguia com força total. As viaturas de polícia e os aerocarros da facção
trocavam tiros e voavam desordenadamente, tornando o espaço aéreo perigosíssimo.
Mas Dawkins não
se importava com isso. Emitindo a ordem ao seu motorista, o aerocarro avança
imprudentemente pelo céu.
Os aerocarros voam ao redor atirando para todos os lados. Nathan se assusta e teme ser
explodido em uma colisão. Então uma viatura voa em sua direção e se desvia por
um triz. Ele exclama:
- Mas que
inferno!
Ao ouvi-lo, o
líder ri.
- Inferno...?! –
ironiza ele – Por acaso você acredita nessa fantasia, Nathan?
O rapaz não
responde. Acima, tiros são disparados e um aercarro se explode. Dawkins
continua:
- No mundo
pre-catástrofe, todas as maiores religiões tinham seu próprio inferno. Não é
estranho que, em crenças baseadas no amor divino, haja um local de eterno sofrimento para aqueles que não o amam?
Um aerocarro
passa e atira contra eles, atingindo toda a lataria do veículo. O rapaz
grita:
- Cuidado!
- E por que toda
religião tem um inferno? – pergunta ele – Se elas são baseadas no amor, por que
quem não segue as regras é lançado lá para queimar para sempre? Esta é a justiça divina?
Uma viatura
tromba contra eles, desestabilizando-os.
- Senhor Dawkins,
temos que voltar!
- Se houvesse
alguma justiça, esse deus respeitaria o livre arbítrio no mundo. E,
certamente, o inferno não seria esse abismo terrível criado para o tormento
daqueles que o rejeitam.
No escuro blecaute, Nathan via os projéteis atravessarem o céu. De repente um tiro atinge
o para-brisa, trincando-o.
- O inferno não é
um lugar e sim uma ferramenta, jovem Nathan! As religiões não são baseadas no
amor e sim no medo! Essa é a verdade que os crentes e os supersticiosos não admitem.
A visibilidade
estava seriamente comprometida, mas nenhum dos ateístas pareciam se importar.
- Temos que sair
daqui! – apela ele.
- Todas as
religiões se utilizam do medo, este é seu ardil! Primeiro elas te convencem de
que você é doente, um infiel maculado pelo pecado original... E
depois lhe revelam que apenas eles têm a cura para o seu intrínseco defeito: a
conversão, o batismo, o autossacrifício... Então eles te coagem a manter essa
salvação, porque ela tem um preço para deus: um décimo do seu
dinheiro em uma igreja para sempre. E você sabe o que eles fazem para manter
esses pobres coitados presos a essa rasa crença?
Tiros atingem a
porta ao lado de Nathan. Se não fosse pelo vidro a prova de balas, ele estaria
morto naquele momento.
- Senhor Dawkins!
- Exatamente! –
exclama ele, ignorando-o – A ameaça do terrível inferno, o castigo eterno para
aqueles que praticarem a apostasia. Por esta razão os
séculos passados foram marcados pelas perseguições, inquisições, cismas e guerras
santas. Porque, quando o medo do castigo eterno não mais funciona, é necessário
puni-los aqui mesmo na Terra, onde tudo existe e é real. Milhares morreram nas fogueiras e ao fio da espada, decapitados nas jihads.
Um aerocarro se
explode à sua frente, ofuscando-o com o clarão. O veículo treme e atravessa as
chamas, assustando-o. Temendo que o calor chegasse ao tanque de combustível, o
rapaz teme morrer queimado.
- Nós vamos
morrer! – grita ele.
- Vamos! –
concorda o líder, totalmente tomado em seus argumentos – Todos vamos um dia! Se
permitirmos, a superstição religiosa vai nos matar. Não devemos dar poder aos
ignorantes! Seu fanatismo é brutal e sem limites. Como disse Voltaire: “aquele
que te convence a acreditar em absurdos também te convence a cometer
atrocidades”.
Suando em
desespero, o rapaz sente que está em um Zero com o líder da Bushido. “Isto é um ataque suicida!”, pensa ele.
Outra viatura se
tromba contra seu aerocarro. Olhando para o lado, Nathan ouve a sirene e vê as
luzes coloridas iluminarem o interior do veículo. Ele se espanta ao ver dois
policiais mortos na viatura, caídos em seus bancos.
Dawkings
continua:
- Não há inferno.
Não há Paraíso. Não há diabo. Não há deus. Não há nenhuma dessas crenças
limitantes! Há apenas o Universo, o equilíbrio e a matéria que
vemos e percebemos. Os mistérios são as respostas que ainda não temos, como a
matéria e energia negra. Todo o mais é pura ignorância e superstição.
Alguns andares do
Ministério da Propaganda estavam em chamas. Ao longe, o rapaz via aeronaves
pousarem em seu terraço. Apesar do intenso combate aéreo, as forças policiais
pareciam oferecer pouca resistência. Mas ainda não era o momento para
tranquilidade. Olhando para seu motorista, o líder ordena:
- Aumente a
velocidade.
O ateísta pisa no
acelerador e o aerocarro avança perigosamente contra o edifício. Nathan se
desespera mais uma vez.
- Isto é
suicídio!
- Não se não
morrermos no fim!
Atravessando o céu, eles passam por viaturas e aerocarros vindos de todos os lados e atirando uns contra os outros. O rapaz consegue ouvir dezenas de balas atingindo a
lataria e os vidros, mas não era isso que o preocupava. A fachada do prédio se
aproxima. Ele consegue ver as pessoas lá dentro correndo para longe, afastando-se do
aerocarro ateísta. Então ele se choca contra uma janela e a estoura em milhares
de pedaços. O veículo adentra o prédio, atropelando inúmeras mesas de
escritório espalhadas pelo andar. O rapaz via mesas, cadeiras e computadores se
colidindo contra o para-brisa, espalhando canetas e papéis. Após alguns segundos, o aerocarro aterrissa, se arrastando pelo andar. E assim eles encerram aquela incursão insana.
Dawkins deixa o aerocarro e os ateístas o acompanham com armas em mãos. Policiais
ouvem o barulho e vêm ao seu encontro. Como se estivesse enfurecido, o líder
aponta sua arma e exclama:
- Atacar!
Os ateístas
atiram freneticamente, liberando as cápsulas vazias e espalhando-as
pelo escritório. Os policiais revidam, protegendo-se atrás das mobílias. Balas
atingem as luzes e o ambiente fica no escuro, iluminado apenas pelos disparos
incessantes das armas de fogo.
Após alguns
minutos, os policiais perdem o confronto. Mesmo em menor número, os soldados da
facção eram muito organizados.
Vendo que o rapaz
ainda estava apavorado dentro do veículo, o líder diz:
- E agora,
Nathan? Vai me dizer que foi um milagre que o salvou?
Ofegante, ele não consegue se mexer. Dawkins o agarra pelas roupas e o arranca
dali. Em seguida ele diz:
- Vamos, meu
jovem. Este confronto ainda não acabou.
Avançando pelo
local, eles se encontram com os demais ateístas espalhados pelo interior do prédio. Os policiais e os seguranças tentavam repelir os
invasores, mas eles eram muitos. As metralhadoras de teto e os bots de
segurança ofereciam certa resistência, mas eram facilmente sabotados pelos
hackers da facção.
Alguns andares
estavam em chamas, totalmente devastados pelas bombas. Os espiões
ateístas a implantaram dias atrás, preparando o ataque surpresa. Os defensores não contaram com isso, tendo suas
defesas irremediavelmente enfraquecidas pela facção. Para Nathan, a vitória
facciosa era uma questão de tempo.
Enquanto avançam,
muitos policiais erguiam as mãos e se rendiam. Ao se lembrar dos sanguinários
líderes das outras facções, o rapaz esperava um banho de sangue. Mas não foi
isso o que aconteceu. Os ateístas os capturam e os escoltam
para fora do edifício. Nathan se confunde.
Aproximando-se, o
líder ordena:
- Rápido,
levem-nos para as aeronaves tripuladas e os tirem daqui!
O rapaz não
entende por que Dawkins demonstra misericórdia, mas não havia tempo para pensar
a respeito. Tiros são ouvidos no andar de cima. Pegando uma arma no chão, ele
se prepara para o confronto. Então o líder diz:
- Espere um pouco, meu
jovem. Isto aí não é brinquedo.
Nathan se
intriga.
- Por que me diz
isso? Eu sei me virar!
- Não. – proíbe
ele – Eu tenho meus soldados para te proteger. Apenas os siga e fique longe dos
confrontos.
- Você vai me
deixar desarmado no meio de uma invasão?
Meneando
negativamente a cabeça, o líder responde:
- Para você esta
é sua Rebelião, mas aqui esta batalha é nossa. Nós somos a Frente Ateísta,
senhor Nathan. Não seremos usados pelo Submundo.
Tomando a arma de
sua mão, Dawkins dá as costas e continua seu caminho.
A facção continua
avançando. Os policiais resistem, mas são derrotados pelo caminho. Os
sobreviventes são levados para fora, capturados pelos facciosos. Então um
ateísta se aproxima e diz:
- Senhor Dawkins,
nós encontramos a sala do ministro.
- Ótimo. –
alegra-se ele – Nos leva até lá.
Subindo as
escadas, o rapaz nota que o combate aéreo se encerrara lá fora. Sons de fogos
de artifício são ouvidos. Olhando pela janela, ele vê uma multidão ensandecida
atear fogo na entrada do edifício. Nathan sabe do que se trata. Database
convocara uma manifestação em frente ao ministério.
“Essas pessoas
são escudo humano para os confrontos”, pensa ele. “Database as usa
estrategicamente, arriscando suas vidas para o progresso da Rebelião”.
Lembrando-se do
quão imoral era o mundo da superfície e das facções, o rapaz se enoja.
“São bandidos,
eles são todos uns bandidos!”, pensa ele. Nathan sente desprezo ao reconhecer
essa verdade.
Os ateístas se
concentram em frente à sala do ministro. Um faccioso empunha um lança-mísseis e
atira, explodindo a porta em centenas de pedaços. Enquanto a poeira se eleva,
eles comemoram acaloradamente. Então algo acontece.
Inesperadamente
dois Securitrons saem pela passagem. Ativando seus canhões de ombro e girando
suas metralhadoras, os robôs atiram contra os invasores. Como bonecos de pano,
os ateístas caem um a um, impiedosamente metralhados pelas balas. Atirando com
seus canhões, os robôs lançam seus mísseis e eles se explodem nas
paredes, pulverizando o andar.
Exasperado, o
líder diz:
- Preparem os
lança-mísseis! Vamos nos organizar!
No último
momento, os ateístas sofriam pesadas baixas. Eles estava embriagados pela
vitória fácil, sendo pegos desprevenidos pela última defesa corporativa.
A poeira abaixa e
o rapaz vê dezenas de cadáveres pelo chão. Nenhum dos soldados resistiu ao
ataque surpresa. Os sobreviventes corriam de um lado ao outro, atordoados pelas
explosões. Então o líder diz:
- Jovem Nathan,
você já atirou com um desse?
Dawkins lhe
mostrava um moderno lança-mísseis. O rapaz responde:
- Não, senhor.
- Então hoje é
seu dia de sorte. Mire naqueles robôs e atire!
O rapaz se
confunde.
- O que aconteceu
com aquela conversa de que as armas não são brinquedos e que seus soldados estão
aqui para me proteger?
- Eles estão a
caminho. – assegura ele – Agora atire, meu jovem! Por acaso você quer morrer aqui?
Outra explosão é
ouvida, levantando uma nuvem de poeira. Os robôs avançavam pelos detritos e
pelos soldados caídos. Nathan pergunta:
- E por que você
não atira...?
Mas, ao olhar ao
redor, o líder havia desaparecido.
O rapaz levanta a
arma e a acha incrivelmente leve. Espiando por cima da mobília, ele vê os
Securitrons atirando incessantemente pelo escritório. Esperando o tempo de
resfriamento de suas armas, Nathan se levanta e empunha seu lança-mísseis no
ombro. O visor se trava em seu alvo e atira, liberando toda a bateria de
mísseis de seu compartimento.
O empuxo
repentino o desequilibra e ele cai no chão. Os mísseis voam e então se explodem
contra o Securitron, neutralizando-o e destruindo-o. O rapaz se levanta e
comemora, feliz com seu sucesso. Mas ainda havia outro vindo em sua
direção.
- Ei, garoto! Se
abaixe!
Um ateísta o
empurra e se deita sobre ele, protegendo-o das novas explosões. Ao final do impacto,
o rapaz estava atordoado e coberto de poeira. O robô restante
havia atirado contra eles.
Enquanto a poeira
se abaixa, um homem aparece entre os detritos e, empunhando outro
lança-mísseis, atira contra o inexorável robô. Os mísseis são disparados
sequencialmente e se explodem contra o inimigo, despedaçando-o e tombando-o em
meio a descargas elétricas. Então o homem gargalha.
A poeira se
dissipa e o rapaz consegue vê-lo. Aquele homem era Dawkins.
- Senhor Dawkins!
– alegra-se ele – Eu pensei que tivesse me abandonado!
O líder sorri e
responde:
- Quem você pensa
que eu sou? O seu deus?
Finado o
confronto, o rapaz pensa no que aconteceu. A batalha pelo ministério já estava
vencida, mas os policiais lançaram um último ataque desesperado para
protege-lo. Os Securitrons não iam vencer o confronto, mas dificultariam a vitória
inimiga. De maneira heroica, eles apenas adiavam o inevitável fim.
Invadindo a sala
do ministro, eles o encontram sentado tranquilamente à sua mesa. Sem mais
esperanças de sair vivo dali, ele aproveitava seu último momento para tomar seu
uísque.
Os ateístas
avançam com seus fuzis apontados para ele. O ministro diz:
- Boa noite,
senhores.
O líder responde:
- Ministro
Sócrates.
- Se vão me
matar, me deixem tomar meu uísque antes.
Dawkins levanta o
braço e pede para todos abaixarem suas armas.
- Tenho algumas
perguntas antes.
- Para mim?! –
intriga-se ele – E que importância tem esse ministério para sua facção?
- Muita. –
esclarece ele – Mais do que imagina.
- Pois, sente-se
então! – responde ele, indicando uma poltrona – O senhor quer um uísque?
O ministro pega
um copo e o serve.
- Sem gelo, por
favor.
- Ora, para que
mais gelo nesse coração gelado, não? – brinca ele.
Como um paspalho
no meio de uma situação séria, o rapaz ri. Imediatamente os ateístas olham para
ele, fazendo-o segurar o riso.
- Você deve ser o
Nathan, não? O famoso Inimigo de Estado?
Um pouco sem
jeito, ele responde:
- Sim.
- Eu te vi não
prisão, sabia? Eu estava lá quando o ministro Galileu o interrogava. – bebendo
seu uísque, ele pergunta – Me diga uma coisa, Inimigo de Estado. O que
aconteceu com o meu amigo?
O rapaz lamenta.
- Ele está morto.
Foi decapitado pelos samurais da Bushido.
Ao ouvi-lo, o
ministro assente com a cabeça. Friamente ele reconhece que não havia esperança
para ele.
Dawkins pergunta:
- Ministro
Sócrates, recentemente foi revelado sobre o Protótipo #8, o Projeto Gemini e os
arquivos ultrassecretos do Ministério da Informação. As corporações conspiravam
contra o povo, inclusive sujeitando-o ao genocídio. O senhor tinha conivência com isso?
- E isso importa?
– responde ele, desafiante – Está vendo estes soldados? Eu sou um soldado
também, mas das corporações. Estamos em lados opostas de uma guerra, nada mais.
Em silêncio,
Nathan acha admirável sua resposta.
- Se não fosse
pelo Inimigo de Estado, nós morreríamos por envenenamento, banimento ou pior.
Sabendo de tamanha atrocidade, como pôde continuar defendendo o regime?
- Atrocidade...?!
– ironiza ele – Olhe ao redor, senhor Dawkins. Meus policiais e seguranças estão mortos aqui! Muitos eram inocentes, inclusive pais de família que, infelizmente, não voltarão para casa hoje à noite.
Sócrates tentava
apelar para o lado emocional. O rapaz desconfia, pois muitos que combatiam eram
mercenários inescrupulosos que se interessavam apenas pelo dinheiro.
- As suas
propagandas se espalharam por toda a metrópole, consolidando o regime e
ocultando a corporação fundadora, Sonata. Diga-me: como conseguiu controlar a
população por tanto tempo?
O ministro põe
sua mão sob a mesa. Os ateístas se alertam e apontam suas armas. Acalmando-os,
Sócrates abre sua gaveta e revela um pequeno estojo de charutos. Com um
isqueiro, ele o acende e começa a fumar. O rapaz percebe que uísque e charutos
eram hábitos comuns entre os poderosos, um vício elegante por assim dizer.
- E como o senhor
controla a população do seu distrito, senhor Dawkins? Por acaso essas armas
apontadas para o meu rosto são de brinquedo?
Então o líder
entende. Aquele ministério propagava o medo.
- Isso não é o bastante. Se o governo tivesse mais armas, vocês estariam vencendo a Rebelião.
Expelindo fumaça,
o ministro responde:
- É como Sun Tzu
disse: “a suprema arte da guerra é derrotar o inimigo sem lutar”. Se não fosse
o Inimigo de Estado, nosso governo duraria um milênio.
“Genial!”, pensa
Nathan.
Mudando de assunto, Dawkins pergunta:
- O senhor
promovia o ateísmo e o Estado antirreligioso em seu ministério?
Sócrates se encosta em sua poltrona.
- Em nossa
sociedade materialista apenas um deus deve existir, o "panteão" corporativo. É para
a segurança de todos. Mesmo o Sócrates, do qual eu empresto o nome, foi acusado
de corromper a juventude e de propagar o ateísmo. Apesar de serem falsas as acusações,
foi o suficiente para desestabilizar a ordem e causar um clamor em Atenas. Não queremos
dar a liberdade religiosa ao povo, porque o povo adorará aos seus deuses e
deixarão de obedecer a nós, seus verdadeiros governantes.
O líder sorri, parecendo
se alegrar com sua resposta.
- Então as
propagandas criadas neste ministério serviam apenas para a manutenção do regime? Não
correspondiam, muitas vezes, com a própria verdade? – o líder se referia às
frases induzindo o povo à obediência, ao consumo e ao trabalho.
Sócrates sorri.
- Ora, mas que
pergunta mais ingênua! Por acaso o senhor exporia as fragilidades de sua
facção?
- Mas o senhor
espalhou mentiras pela metrópole, enganando o povo e fazendo-os acreditar que
vocês mantinham o poder absoluto, que o banimento era uma lenda urbana e que a
vida no exterior não existia. E recentemente descobrimos que nos infectavam pela
água e pelos alimentos. O senhor não sente vergonha?
Meneando
negativamente a cabeça, Sócrates responde:
- Quando se quer
vender algo, a propaganda é a alma do negócio. Nós demos ao povo exatamente o
que ele queria ouvir; que as corporações tinham tudo sob controle. Havia
ditadura, mas havia fartura. Havia autoritarismo, mas havia ordem. Havia
opressão, mas havia trabalho. Ninguém passava necessidades, a não ser, é claro,
esses marginais da superfície.
- O senhor vendia
uma mentira.
- Como disse
Joseph Goebbels: “uma mentira repetida mil vezes torna-se verdade”. Antes da
Rebelião, alguém ousava questionar as corporações?
Sócrates citava o
ministro da propaganda nazista. De fato, as corporações aprenderam bem com o
totalitarismo.
- Então o
Ministério da Propaganda era uma ferramenta de controle, uma coerção social?
- É uma metrópole
populosa, senhor Dawkins. O senhor poderia controla-la com um efetivo
correspondente a um décimo de sua população?
Colocando a mão
no queixo, o líder se silencia, parecendo pensar um pouco. Passado um minuto,
ele finalmente diz:
- Certo. Podem
leva-lo.
O ministro se
confunde. Colocando as mãos sobre a mesa, ele pergunta:
- Espere um
pouco. Vocês não vão me matar?
Desta vez é
Dawkins quem bebe o uísque, apreciando-o em seguida.
- Não.
- O que vocês vão
fazer então?
- Nós temos
outros planos.
Lembrando-se de
Galileu, o ministro teme por sua integridade física.
- Que tipo de
planos?
- Não se
preocupe. O senhor não está falando com nenhum selvagem dos tempos feudais
aqui. – olhando para seus soldados, o líder ordena – Podem leva-lo.
Então os ateístas
o seguram pelos braços e o levam dali. Nathan vê tudo aquilo e também se
confunde, se perguntando o que acontecerá a seguir.
Ao pegarem
espólios da luxuosa sala de Sócrates, os facciosos deixam o lugar. Dawkins se
aproxima e diz:
- Hora de ir.
Enquanto sobe as
escadas, o rapaz se enche de perguntas. Distraído, ele não percebe que os
ateístas olhavam afoitos para ele.
No terraço, os
facciosos tripulavam as aeronaves e se preparavam para ir embora. O líder o
espera ao lado de uma aeronave. Novamente sem sua eloquência, ele diz:
- Você está cheio
de dúvidas, não é? Lembra-se que eu disse ter muita coisa em comum com os
soviéticos?
Com um pouco de
frio, o rapaz responde:
- Sim.
- O que você
chama de Rebelião, eu chamo de Revolução. Não há método mais eficiente de
arregimentar o povo do que convencê-lo de que o antigo regime é pior do que se
aventurar na instauração de um novo. E que melhor método do que a propaganda?
Intrigado, Nathan
pergunta:
- O que quer
dizer?
- Como o pai da
Revolução, Vladimir Lênin, disse: “usaremos o idiota útil na linha de frente.
Incitaremos o ódio de classes. Destruiremos sua base moral, a família e a
espiritualidade. Comerão as migalhas que caírem de nossas mesas. O Estado será
Deus”.
Nathan se
horroriza.
- Está querendo
transformar o povo em uma classe odiosa, uns “idiotas úteis”?
Apontando para as
plataformas abaixo, ele responde:
- Eles já odeiam
seus governantes, mas não os nobres ou os burgueses dos tempos czaristas, mas as corporações.
Então o rapaz
ouve o vandalismo e os rojões se estourando lá embaixo.
- Logo o senhor
falando em fundar um Estado na figura de Deus.
- Talvez o
profeta John August esteja certo e a humanidade tenha a necessidade de adorar
algo. Eu os darei algo para adorar; o Estado fundado por nós, a Frente Ateísta.
- Então é isso? O
senhor quer fundar um Estado ateísta nos moldes leninistas?
- Por que a
surpresa? Não é nenhum absurdo o que pretendo. Mesmo Einstein elogiou Lênin.
O líder se
referia à famosa citação de Einstein em 1925, dizendo: “eu honro a Lênin como
um homem que se sacrificou completamente e devotou toda sua energia à
realização da justiça social. Eu não considero seus métodos praticáveis, mas
uma coisa é certa: homens de seu tipo são os guardiões e restauradores da
consciência humana”.
O rapaz insiste.
- Dawkins, a
História mostrou que o socialismo não dá certo. Milhões morreram.
- Oh, eu não sou
um socialista! – ri ele – Eu sou um ateísta, senhor Nathan! Um autêntico homem
de ciência! O que tenho em comum com esses homens é o ateísmo, e sua forma
mais moderada, o agnosticismo. Maynard Keynes, Milton Friedman e Friedrich
Hayek eram todos agnósticos. Mesmo Adam Smith foi acusado de agnosticismo um
dia. E eles eram todos economistas liberais.
Com muita desconfiança o rapaz finge entender.
As aeronaves
fecham suas portas e começam a partir. Dawkins e um punhado de ateístas ficam
para trás, confundindo-o. Então os soldado o cercam e o líder diz:
- Vamos, Nathan. Vamos
conversar um pouco.
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