terça-feira, 12 de outubro de 2021

Sonata - 57 - O Método Revolucionário

 


(Arte de Banszi)


O combate aéreo prosseguia com força total. As viaturas de polícia e os aerocarros da facção trocavam tiros e voavam desordenadamente, tornando o espaço aéreo perigosíssimo.

Mas Dawkins não se importava com isso. Emitindo a ordem ao seu motorista, o aerocarro avança imprudentemente pelo céu.

Os aerocarros voam ao redor atirando para todos os lados. Nathan se assusta e teme ser explodido em uma colisão. Então uma viatura voa em sua direção e se desvia por um triz. Ele exclama:

- Mas que inferno!

Ao ouvi-lo, o líder ri.

- Inferno...?! – ironiza ele – Por acaso você acredita nessa fantasia, Nathan?

O rapaz não responde. Acima, tiros são disparados e um aercarro se explode. Dawkins continua:

- No mundo pre-catástrofe, todas as maiores religiões tinham seu próprio inferno. Não é estranho que, em crenças baseadas no amor divino, haja um local de eterno sofrimento para aqueles que não o amam?

Um aerocarro passa e atira contra eles, atingindo toda a lataria do veículo. O rapaz grita:

- Cuidado!

- E por que toda religião tem um inferno? – pergunta ele – Se elas são baseadas no amor, por que quem não segue as regras é lançado lá para queimar para sempre? Esta é a justiça divina?

Uma viatura tromba contra eles, desestabilizando-os.

- Senhor Dawkins, temos que voltar!

- Se houvesse alguma justiça, esse deus respeitaria o livre arbítrio no mundo. E, certamente, o inferno não seria esse abismo terrível criado para o tormento daqueles que o rejeitam.

No escuro blecaute, Nathan via os projéteis atravessarem o céu. De repente um tiro atinge o para-brisa, trincando-o.

- O inferno não é um lugar e sim uma ferramenta, jovem Nathan! As religiões não são baseadas no amor e sim no medo! Essa é a verdade que os crentes e os supersticiosos não admitem.

A visibilidade estava seriamente comprometida, mas nenhum dos ateístas pareciam se importar.

- Temos que sair daqui! – apela ele.

- Todas as religiões se utilizam do medo, este é seu ardil! Primeiro elas te convencem de que você é doente, um infiel maculado pelo pecado original... E depois lhe revelam que apenas eles têm a cura para o seu intrínseco defeito: a conversão, o batismo, o autossacrifício... Então eles te coagem a manter essa salvação, porque ela tem um preço para deus: um décimo do seu dinheiro em uma igreja para sempre. E você sabe o que eles fazem para manter esses pobres coitados presos a essa rasa crença?

Tiros atingem a porta ao lado de Nathan. Se não fosse pelo vidro a prova de balas, ele estaria morto naquele momento.

- Senhor Dawkins!

- Exatamente! – exclama ele, ignorando-o – A ameaça do terrível inferno, o castigo eterno para aqueles que praticarem a apostasia. Por esta razão os séculos passados foram marcados pelas perseguições, inquisições, cismas e guerras santas. Porque, quando o medo do castigo eterno não mais funciona, é necessário puni-los aqui mesmo na Terra, onde tudo existe e é real. Milhares morreram nas fogueiras e ao fio da espada, decapitados nas jihads.

Um aerocarro se explode à sua frente, ofuscando-o com o clarão. O veículo treme e atravessa as chamas, assustando-o. Temendo que o calor chegasse ao tanque de combustível, o rapaz teme morrer queimado.

- Nós vamos morrer! – grita ele.

- Vamos! – concorda o líder, totalmente tomado em seus argumentos – Todos vamos um dia! Se permitirmos, a superstição religiosa vai nos matar. Não devemos dar poder aos ignorantes! Seu fanatismo é brutal e sem limites. Como disse Voltaire: “aquele que te convence a acreditar em absurdos também te convence a cometer atrocidades”.

Suando em desespero, o rapaz sente que está em um Zero com o líder da Bushido. “Isto é um ataque suicida!”, pensa ele.

Outra viatura se tromba contra seu aerocarro. Olhando para o lado, Nathan ouve a sirene e vê as luzes coloridas iluminarem o interior do veículo. Ele se espanta ao ver dois policiais mortos na viatura, caídos em seus bancos.

Dawkings continua:

- Não há inferno. Não há Paraíso. Não há diabo. Não há deus. Não há nenhuma dessas crenças limitantes! Há apenas o Universo, o equilíbrio e a matéria que vemos e percebemos. Os mistérios são as respostas que ainda não temos, como a matéria e energia negra. Todo o mais é pura ignorância e superstição.   

Alguns andares do Ministério da Propaganda estavam em chamas. Ao longe, o rapaz via aeronaves pousarem em seu terraço. Apesar do intenso combate aéreo, as forças policiais pareciam oferecer pouca resistência. Mas ainda não era o momento para tranquilidade. Olhando para seu motorista, o líder ordena:

- Aumente a velocidade.

O ateísta pisa no acelerador e o aerocarro avança perigosamente contra o edifício. Nathan se desespera mais uma vez.

- Isto é suicídio!

- Não se não morrermos no fim!

Atravessando o céu, eles passam por viaturas e aerocarros vindos de todos os lados e atirando uns contra os outros. O rapaz consegue ouvir dezenas de balas atingindo a lataria e os vidros, mas não era isso que o preocupava. A fachada do prédio se aproxima. Ele consegue ver as pessoas lá dentro correndo para longe, afastando-se do aerocarro ateísta. Então ele se choca contra uma janela e a estoura em milhares de pedaços. O veículo adentra o prédio, atropelando inúmeras mesas de escritório espalhadas pelo andar. O rapaz via mesas, cadeiras e computadores se colidindo contra o para-brisa, espalhando canetas e papéis. Após alguns segundos, o aerocarro aterrissa, se arrastando pelo andar. E assim eles encerram aquela incursão insana.

Dawkins deixa o aerocarro e os ateístas o acompanham com armas em mãos. Policiais ouvem o barulho e vêm ao seu encontro. Como se estivesse enfurecido, o líder aponta sua arma e exclama:

- Atacar!

Os ateístas atiram freneticamente, liberando as cápsulas vazias e espalhando-as pelo escritório. Os policiais revidam, protegendo-se atrás das mobílias. Balas atingem as luzes e o ambiente fica no escuro, iluminado apenas pelos disparos incessantes das armas de fogo.

Após alguns minutos, os policiais perdem o confronto. Mesmo em menor número, os soldados da facção eram muito organizados.  

Vendo que o rapaz ainda estava apavorado dentro do veículo, o líder diz:

- E agora, Nathan? Vai me dizer que foi um milagre que o salvou?

Ofegante, ele não consegue se mexer. Dawkins o agarra pelas roupas e o arranca dali. Em seguida ele diz:

- Vamos, meu jovem. Este confronto ainda não acabou.

Avançando pelo local, eles se encontram com os demais ateístas espalhados pelo interior do prédio. Os policiais e os seguranças tentavam repelir os invasores, mas eles eram muitos. As metralhadoras de teto e os bots de segurança ofereciam certa resistência, mas eram facilmente sabotados pelos hackers da facção.

Alguns andares estavam em chamas, totalmente devastados pelas bombas. Os espiões ateístas a implantaram dias atrás, preparando o ataque surpresa. Os defensores não contaram com isso, tendo suas defesas irremediavelmente enfraquecidas pela facção. Para Nathan, a vitória facciosa era uma questão de tempo.

Enquanto avançam, muitos policiais erguiam as mãos e se rendiam. Ao se lembrar dos sanguinários líderes das outras facções, o rapaz esperava um banho de sangue. Mas não foi isso o que aconteceu. Os ateístas os capturam e os escoltam para fora do edifício. Nathan se confunde.   

Aproximando-se, o líder ordena:

- Rápido, levem-nos para as aeronaves tripuladas e os tirem daqui!

O rapaz não entende por que Dawkins demonstra misericórdia, mas não havia tempo para pensar a respeito. Tiros são ouvidos no andar de cima. Pegando uma arma no chão, ele se prepara para o confronto. Então o líder diz:

- Espere um pouco, meu jovem. Isto aí não é brinquedo.

Nathan se intriga.

- Por que me diz isso? Eu sei me virar!

- Não. – proíbe ele – Eu tenho meus soldados para te proteger. Apenas os siga e fique longe dos confrontos.

- Você vai me deixar desarmado no meio de uma invasão?

Meneando negativamente a cabeça, o líder responde:

- Para você esta é sua Rebelião, mas aqui esta batalha é nossa. Nós somos a Frente Ateísta, senhor Nathan. Não seremos usados pelo Submundo.

Tomando a arma de sua mão, Dawkins dá as costas e continua seu caminho.

A facção continua avançando. Os policiais resistem, mas são derrotados pelo caminho. Os sobreviventes são levados para fora, capturados pelos facciosos. Então um ateísta se aproxima e diz:

- Senhor Dawkins, nós encontramos a sala do ministro.

- Ótimo. – alegra-se ele – Nos leva até lá.

Subindo as escadas, o rapaz nota que o combate aéreo se encerrara lá fora. Sons de fogos de artifício são ouvidos. Olhando pela janela, ele vê uma multidão ensandecida atear fogo na entrada do edifício. Nathan sabe do que se trata. Database convocara uma manifestação em frente ao ministério.

“Essas pessoas são escudo humano para os confrontos”, pensa ele. “Database as usa estrategicamente, arriscando suas vidas para o progresso da Rebelião”.

Lembrando-se do quão imoral era o mundo da superfície e das facções, o rapaz se enoja.

“São bandidos, eles são todos uns bandidos!”, pensa ele. Nathan sente desprezo ao reconhecer essa verdade.

Os ateístas se concentram em frente à sala do ministro. Um faccioso empunha um lança-mísseis e atira, explodindo a porta em centenas de pedaços. Enquanto a poeira se eleva, eles comemoram acaloradamente. Então algo acontece.

Inesperadamente dois Securitrons saem pela passagem. Ativando seus canhões de ombro e girando suas metralhadoras, os robôs atiram contra os invasores. Como bonecos de pano, os ateístas caem um a um, impiedosamente metralhados pelas balas. Atirando com seus canhões, os robôs lançam seus mísseis e eles se explodem nas paredes, pulverizando o andar.

Exasperado, o líder diz:

- Preparem os lança-mísseis! Vamos nos organizar!

No último momento, os ateístas sofriam pesadas baixas. Eles estava embriagados pela vitória fácil, sendo pegos desprevenidos pela última defesa corporativa.

A poeira abaixa e o rapaz vê dezenas de cadáveres pelo chão. Nenhum dos soldados resistiu ao ataque surpresa. Os sobreviventes corriam de um lado ao outro, atordoados pelas explosões. Então o líder diz:

- Jovem Nathan, você já atirou com um desse?

Dawkins lhe mostrava um moderno lança-mísseis. O rapaz responde:

- Não, senhor.

- Então hoje é seu dia de sorte. Mire naqueles robôs e atire!

O rapaz se confunde.

- O que aconteceu com aquela conversa de que as armas não são brinquedos e que seus soldados estão aqui para me proteger?

- Eles estão a caminho. – assegura ele – Agora atire, meu jovem! Por acaso você quer morrer aqui?

Outra explosão é ouvida, levantando uma nuvem de poeira. Os robôs avançavam pelos detritos e pelos soldados caídos. Nathan pergunta:

- E por que você não atira...?

Mas, ao olhar ao redor, o líder havia desaparecido.

O rapaz levanta a arma e a acha incrivelmente leve. Espiando por cima da mobília, ele vê os Securitrons atirando incessantemente pelo escritório. Esperando o tempo de resfriamento de suas armas, Nathan se levanta e empunha seu lança-mísseis no ombro. O visor se trava em seu alvo e atira, liberando toda a bateria de mísseis de seu compartimento.

O empuxo repentino o desequilibra e ele cai no chão. Os mísseis voam e então se explodem contra o Securitron, neutralizando-o e destruindo-o. O rapaz se levanta e comemora, feliz com seu sucesso. Mas ainda havia outro vindo em sua direção.

- Ei, garoto! Se abaixe!

Um ateísta o empurra e se deita sobre ele, protegendo-o das novas explosões. Ao final do impacto, o rapaz estava atordoado e coberto de poeira. O robô restante havia atirado contra eles.

Enquanto a poeira se abaixa, um homem aparece entre os detritos e, empunhando outro lança-mísseis, atira contra o inexorável robô. Os mísseis são disparados sequencialmente e se explodem contra o inimigo, despedaçando-o e tombando-o em meio a descargas elétricas. Então o homem gargalha.

A poeira se dissipa e o rapaz consegue vê-lo. Aquele homem era Dawkins.

- Senhor Dawkins! – alegra-se ele – Eu pensei que tivesse me abandonado!

O líder sorri e responde:

- Quem você pensa que eu sou? O seu deus?

Finado o confronto, o rapaz pensa no que aconteceu. A batalha pelo ministério já estava vencida, mas os policiais lançaram um último ataque desesperado para protege-lo. Os Securitrons não iam vencer o confronto, mas dificultariam a vitória inimiga. De maneira heroica, eles apenas adiavam o inevitável fim.

Invadindo a sala do ministro, eles o encontram sentado tranquilamente à sua mesa. Sem mais esperanças de sair vivo dali, ele aproveitava seu último momento para tomar seu uísque.

Os ateístas avançam com seus fuzis apontados para ele. O ministro diz:

- Boa noite, senhores.

O líder responde:

- Ministro Sócrates.

- Se vão me matar, me deixem tomar meu uísque antes.

Dawkins levanta o braço e pede para todos abaixarem suas armas.

- Tenho algumas perguntas antes.

- Para mim?! – intriga-se ele – E que importância tem esse ministério para sua facção?

- Muita. – esclarece ele – Mais do que imagina.

- Pois, sente-se então! – responde ele, indicando uma poltrona – O senhor quer um uísque?

O ministro pega um copo e o serve.

- Sem gelo, por favor.

- Ora, para que mais gelo nesse coração gelado, não? – brinca ele.

Como um paspalho no meio de uma situação séria, o rapaz ri. Imediatamente os ateístas olham para ele, fazendo-o segurar o riso.

- Você deve ser o Nathan, não? O famoso Inimigo de Estado?

Um pouco sem jeito, ele responde:

- Sim.

- Eu te vi não prisão, sabia? Eu estava lá quando o ministro Galileu o interrogava. – bebendo seu uísque, ele pergunta – Me diga uma coisa, Inimigo de Estado. O que aconteceu com o meu amigo?

O rapaz lamenta.

- Ele está morto. Foi decapitado pelos samurais da Bushido.

Ao ouvi-lo, o ministro assente com a cabeça. Friamente ele reconhece que não havia esperança para ele.

Dawkins pergunta:

- Ministro Sócrates, recentemente foi revelado sobre o Protótipo #8, o Projeto Gemini e os arquivos ultrassecretos do Ministério da Informação. As corporações conspiravam contra o povo, inclusive sujeitando-o ao genocídio. O senhor tinha conivência com isso?

- E isso importa? – responde ele, desafiante – Está vendo estes soldados? Eu sou um soldado também, mas das corporações. Estamos em lados opostas de uma guerra, nada mais.

Em silêncio, Nathan acha admirável sua resposta.

- Se não fosse pelo Inimigo de Estado, nós morreríamos por envenenamento, banimento ou pior. Sabendo de tamanha atrocidade, como pôde continuar defendendo o regime?

- Atrocidade...?! – ironiza ele – Olhe ao redor, senhor Dawkins. Meus policiais e seguranças estão mortos aqui! Muitos eram inocentes, inclusive pais de família que, infelizmente, não voltarão para casa hoje à noite.   

Sócrates tentava apelar para o lado emocional. O rapaz desconfia, pois muitos que combatiam eram mercenários inescrupulosos que se interessavam apenas pelo dinheiro.

- As suas propagandas se espalharam por toda a metrópole, consolidando o regime e ocultando a corporação fundadora, Sonata. Diga-me: como conseguiu controlar a população por tanto tempo?

O ministro põe sua mão sob a mesa. Os ateístas se alertam e apontam suas armas. Acalmando-os, Sócrates abre sua gaveta e revela um pequeno estojo de charutos. Com um isqueiro, ele o acende e começa a fumar. O rapaz percebe que uísque e charutos eram hábitos comuns entre os poderosos, um vício elegante por assim dizer.

- E como o senhor controla a população do seu distrito, senhor Dawkins? Por acaso essas armas apontadas para o meu rosto são de brinquedo?

Então o líder entende. Aquele ministério propagava o medo.

- Isso não é o bastante. Se o governo tivesse mais armas, vocês estariam vencendo a Rebelião.  

Expelindo fumaça, o ministro responde:

- É como Sun Tzu disse: “a suprema arte da guerra é derrotar o inimigo sem lutar”. Se não fosse o Inimigo de Estado, nosso governo duraria um milênio.

“Genial!”, pensa Nathan.

Mudando de assunto, Dawkins pergunta:

- O senhor promovia o ateísmo e o Estado antirreligioso em seu ministério?

Sócrates se encosta em sua poltrona. 

- Em nossa sociedade materialista apenas um deus deve existir, o "panteão" corporativo. É para a segurança de todos. Mesmo o Sócrates, do qual eu empresto o nome, foi acusado de corromper a juventude e de propagar o ateísmo. Apesar de serem falsas as acusações, foi o suficiente para desestabilizar a ordem e causar um clamor em Atenas. Não queremos dar a liberdade religiosa ao povo, porque o povo adorará aos seus deuses e deixarão de obedecer a nós, seus verdadeiros governantes.

O líder sorri, parecendo se alegrar com sua resposta.

- Então as propagandas criadas neste ministério serviam apenas para a manutenção do regime? Não correspondiam, muitas vezes, com a própria verdade? – o líder se referia às frases induzindo o povo à obediência, ao consumo e ao trabalho.

Sócrates sorri.

- Ora, mas que pergunta mais ingênua! Por acaso o senhor exporia as fragilidades de sua facção?

- Mas o senhor espalhou mentiras pela metrópole, enganando o povo e fazendo-os acreditar que vocês mantinham o poder absoluto, que o banimento era uma lenda urbana e que a vida no exterior não existia. E recentemente descobrimos que nos infectavam pela água e pelos alimentos. O senhor não sente vergonha?

Meneando negativamente a cabeça, Sócrates responde:

- Quando se quer vender algo, a propaganda é a alma do negócio. Nós demos ao povo exatamente o que ele queria ouvir; que as corporações tinham tudo sob controle. Havia ditadura, mas havia fartura. Havia autoritarismo, mas havia ordem. Havia opressão, mas havia trabalho. Ninguém passava necessidades, a não ser, é claro, esses marginais da superfície.

- O senhor vendia uma mentira.

- Como disse Joseph Goebbels: “uma mentira repetida mil vezes torna-se verdade”. Antes da Rebelião, alguém ousava questionar as corporações?

Sócrates citava o ministro da propaganda nazista. De fato, as corporações aprenderam bem com o totalitarismo.

- Então o Ministério da Propaganda era uma ferramenta de controle, uma coerção social?

- É uma metrópole populosa, senhor Dawkins. O senhor poderia controla-la com um efetivo correspondente a um décimo de sua população?

Colocando a mão no queixo, o líder se silencia, parecendo pensar um pouco. Passado um minuto, ele finalmente diz:

- Certo. Podem leva-lo.

O ministro se confunde. Colocando as mãos sobre a mesa, ele pergunta:

- Espere um pouco. Vocês não vão me matar?

Desta vez é Dawkins quem bebe o uísque, apreciando-o em seguida.

- Não.

- O que vocês vão fazer então?

- Nós temos outros planos.  

Lembrando-se de Galileu, o ministro teme por sua integridade física.

- Que tipo de planos?

- Não se preocupe. O senhor não está falando com nenhum selvagem dos tempos feudais aqui. – olhando para seus soldados, o líder ordena – Podem leva-lo.

Então os ateístas o seguram pelos braços e o levam dali. Nathan vê tudo aquilo e também se confunde, se perguntando o que acontecerá a seguir.

Ao pegarem espólios da luxuosa sala de Sócrates, os facciosos deixam o lugar. Dawkins se aproxima e diz:

- Hora de ir.

Enquanto sobe as escadas, o rapaz se enche de perguntas. Distraído, ele não percebe que os ateístas olhavam afoitos para ele.

No terraço, os facciosos tripulavam as aeronaves e se preparavam para ir embora. O líder o espera ao lado de uma aeronave. Novamente sem sua eloquência, ele diz:

- Você está cheio de dúvidas, não é? Lembra-se que eu disse ter muita coisa em comum com os soviéticos?

Com um pouco de frio, o rapaz responde:

- Sim.

- O que você chama de Rebelião, eu chamo de Revolução. Não há método mais eficiente de arregimentar o povo do que convencê-lo de que o antigo regime é pior do que se aventurar na instauração de um novo. E que melhor método do que a propaganda?

Intrigado, Nathan pergunta:

- O que quer dizer?

- Como o pai da Revolução, Vladimir Lênin, disse: “usaremos o idiota útil na linha de frente. Incitaremos o ódio de classes. Destruiremos sua base moral, a família e a espiritualidade. Comerão as migalhas que caírem de nossas mesas. O Estado será Deus”.

Nathan se horroriza.

- Está querendo transformar o povo em uma classe odiosa, uns “idiotas úteis”?

Apontando para as plataformas abaixo, ele responde:

- Eles já odeiam seus governantes, mas não os nobres ou os burgueses dos tempos czaristas, mas as corporações.

Então o rapaz ouve o vandalismo e os rojões se estourando lá embaixo.

- Logo o senhor falando em fundar um Estado na figura de Deus.

- Talvez o profeta John August esteja certo e a humanidade tenha a necessidade de adorar algo. Eu os darei algo para adorar; o Estado fundado por nós, a Frente Ateísta.

- Então é isso? O senhor quer fundar um Estado ateísta nos moldes leninistas?

- Por que a surpresa? Não é nenhum absurdo o que pretendo. Mesmo Einstein elogiou Lênin.

O líder se referia à famosa citação de Einstein em 1925, dizendo: “eu honro a Lênin como um homem que se sacrificou completamente e devotou toda sua energia à realização da justiça social. Eu não considero seus métodos praticáveis, mas uma coisa é certa: homens de seu tipo são os guardiões e restauradores da consciência humana”.

O rapaz insiste.

- Dawkins, a História mostrou que o socialismo não dá certo. Milhões morreram.

- Oh, eu não sou um socialista! – ri ele – Eu sou um ateísta, senhor Nathan! Um autêntico homem de ciência! O que tenho em comum com esses homens é o ateísmo, e sua forma mais moderada, o agnosticismo. Maynard Keynes, Milton Friedman e Friedrich Hayek eram todos agnósticos. Mesmo Adam Smith foi acusado de agnosticismo um dia. E eles eram todos economistas liberais.

Com muita desconfiança o rapaz finge entender. 

As aeronaves fecham suas portas e começam a partir. Dawkins e um punhado de ateístas ficam para trás, confundindo-o. Então os soldado o cercam e o líder diz:

- Vamos, Nathan. Vamos conversar um pouco.

 

 

 

 

 

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