Apesar da ressaca do dia anterior, Gunther controla seus passos e
caminha obstinadamente pelas ruas. Chegando ao seu destino, ele se depara com o
prédio diante de si, a sede da Liga das Mulheres Democráticas Alemãs.
Ao subir as escadarias, ele abre a porta e adentra a reunião. Tentando
ao máximo ser silencioso e discreto, ele não percebe que seus movimentos são
estabanados e grosseiros, se esbarrando constantemente na mobília. Antes de se
sentar, ele olha ao redor e se petrifica ao ver que todos estão olhando
irritados para ele.
As ativistas falam sobre suas pautas sociais e políticas normalmente.
Gunther está ansioso e deseja encontrar alguém, precisando urgentemente vê-la.
Esticando-se em seu assento, ele curva seu pescoço, tentando avistar Anneliese. Sentada mais a frente, ele a encontra. Seu coração
se conforta.
Aparentemente na Alemanha Oriental há mais burocratas e ativistas do que
trabalhadores que realmente produzem. Os comunistas são tão ferrenhamente
contra a burguesia que se ocupam de não produzir, tornando-se os mais
brilhantes e enérgicos ideólogos da Revolução, mas os mais ociosos quanto à
construção efetiva de sua própria utopia proletária.
Aguardando pacientemente a
reunião acabar, as pessoas se levantam e ele se levanta também, caminhando
apressadamente até a mesa das dirigentes. Ao se aproximar, algumas pessoas o
veem e sussurram entre si:
- Ei, esse não é o cara da rosa de sangue?
“Blutige Rose?![1]”,
surpreende-se Gunther.
- De quem estão falando? – pergunta alguém.
- Certa vez ele veio aqui trazendo uma rosa em sua mão, mas sua mão
estava encharcada de sangue. Era tanto que escorria por seu braço, ensanguentando
inclusive o piso. Ficamos uma semana lavando aquela mancha nojenta depois. E o
mais interessante é que o rapaz sequer o notava...
As dirigentes do DFD o veem e imediatamente sentem repulsão,
lembrando-se daquele bizarro dia. Anneliese se depara com ele e, assim como
elas, tem uma desfavorável reação.
- Guten tag, frau Anneliese. – o rapaz inconscientemente lhe estende a
mão, mas a garota lhe expressa repugnância.
- O que você quer, Gunther?
- Eu precisava muito te ver.
- Por quê? – intriga-se ela.
- Porque eu te amo.
Ao dizer aquilo, as pessoas ao redor arregalam os olhos. A garota se emudece.
- Was hast du gesagt...?[2]
– pergunta ela, quebrando o desconfortável silêncio.
- Anneliese, eu... – e então as pessoas se ajuntam, apertando-se ao seu
redor – Eu meu apaixonei por você. Na verdade, acho que eu já te amava desde os
tempos do colégio.
Arregalando discretamente os olhos, ela pergunta:
- Tempos do colégio?
- Sim. Conforme conversado anteriormente, estudamos juntos e eu me
apaixonei por você desde a primeira vez que te vi.
A garota faz um olhar de quem não entende porque alguém se apaixonaria
por ela tão seriamente. Mesmo as mulheres da Liga olham para o seu corpo, não vendo
alguém que despertasse tamanha emoção em um homem.
- Por quê? – pergunta alguém entre eles, quebrando a conversa e
perguntando o que a própria Anneliese queria saber. Mas as pessoas o repreendem
com um cômico chiado com o dedo nos lábios.
- Você é linda, Anneliese. Eu amo o seu rosto, os seus olhos, os seus
cabelos... Amo como você é sempre simpática, alegre e educada para falar
comigo. Amo como você é espontânea no jeito como você fala e se veste. E,
aliás, amo como você não se importa muito com sua aparência.
- O que você quer dizer com isso? – interrompe ela.
- Eu... – ele hesita, percebendo que falou besteira – Eu amo sua
simplicidade na falta de estética, estilo e maquiagem, coisas desse tipo.
O rapaz a olha de cima a baixo, evidenciando como ela se veste mal. As
pessoas pigarreiam, arduamente segurando o riso. Os olhos da garota parecem
flamejar.
- Maquiagem e estética...?
- O que eu quero dizer é que a personalidade é a parte mais magnífica em você, pois é lá onde a verdadeira beleza se encontra.
Gunther tenta ser poético em suas palavras, mas a garota, já corando de
ódio, parece não escutar.
- Está dizendo que eu sou feia?
- Não! – protesta ele – O que eu estou dizendo é... – nesse momento ele
enxuga o suor de sua testa e pergunta – Anneliese, você quer ser minha
namorada?
A garota sorri de indignação e surpresa.
- Não.
O rapaz é atropelado pela decepção. Mas ele não desiste.
- Você quer sair comigo na sexta à noite?
- Não.
- Aceita ir passear depois da reunião?
- Não.
- Você quer ser minha amiga?
- Não.
Desanimado, ele se encurva e lamenta o seu fracasso. Dando-lhe as
costas, ele se vira e tenta ir embora.
- Espere! – interrompe a garota.
Gunther se volta exultante, sorrindo com alegria no olhar.
- Você se esqueceu de perguntar se eu te amo.
O rapaz transborda de euforia, como uma criança ao ganhar um doce.
Controlando-se, ele a pergunta:
- Você me ama?
Imóvel enquanto segura a alça de sua bolsa com as duas mãos, Anneliese
simplesmente responde:
- Não.
Então todos caem na risada, gargalhando ao ver a face envergonhada de
Gunther. Virando-se, ele retoma seu caminho e se arrasta para fora, levando
consigo os cacos de seu coração.
§
Gunther bebe. Passando o resto do dia em um bar escuro como um
calabouço, o rapaz bebe doses e mais doses de vodca barata.
- Maldita Anneliese... – sussurra ele – Eu amei você...
Apoiando-se no balcão, seu cotovelo se escorrega e ele bate o queixo na
madeira. Ele pensa ter sentido a dor, mas seu corpo estava tão dormente devido
ao álcool que ele não tem certeza. Então alguém pergunta:
- Ei, cara. Você já não bebeu demais?
O rapaz levanta sua cabeça. O atendente fala com ele, mas Gunther vê
três dançando à sua frente.
- O quê?
- Eu disse que você já bebeu demais.
- Ora essa! Cuide da sua vida, canalha!
- Do que você me chamou?
- Eu o chamei de canalha! – vocifera o rapaz enquanto se esforça para
encara-lo.
- Escute aqui, cara. É melhor você sair desse bar.
- Como pode mandar um freguês sair? Você não vive de vender bebidas a
eles? E se eu quisesse ficar aqui e beber um tonel inteiro de vinho? Você não
estaria lucrando com isso?
Saliva se escorre de sua boca enquanto ele resmunga para o atendente.
- Eu vou falar só mais uma vez. É melhor você ir embora, agora!
- Hah! – ri Gunther – Ou você é um mau empreendedor ou é só muito
burro mesmo...
Nesse instante o atendente se aproxima, o agarra pelas roupas e, apesar
da patética resistência do rapaz, o arrasta para fora. Gunther é empurrado para
a rua e então cai, rolando pela calçada como um saco de lixo. Por último, o
atendente joga uma garrafa de cerveja sobre o rapaz, caindo sobre seu corpo
desacordado.
Meia hora se passa. Ao acordar, o rapaz olha para cima e vê as estrelas do
lindo céu noturno. E então ele vomita, espalhando o líquido quente em seus
cabelos e suas roupas. Recuperando-se, o rapaz se levanta e vai embora,
percorrendo as ruas apesar da terrível tontura.
- Anneliese... Por que você não me deixou te amar...?
Gunther chora tristemente, lágrimas sinceras de quem amou de verdade. As
pessoas passam ao redor e o ridicularizam, tratando-o como mais um vagabundo
bêbado e chorão. O rapaz lamenta, pois reconhece que quase ninguém entende que
alguns homens precisem do estimulante alcóolico para chorarem e, assim,
aliviarem sua dor.
Chegando ao prédio onde se localiza a sede da DFD, o rapaz olha para
cima e sua tristeza transforma-se em raiva.
- Maldita Anneliese...! – vocifera ele – Eu amei você!
Pegando sua garrafa, Gunther a joga contra a janela da sede. O vidro se
estoura em centenas de pedaços, como seu coração ao ouvir a terrível rejeição
da garota. O rapaz se sente bem, pois o vandalismo soa como a merecida
vingança.
- Isso é pelo vexame que você fez eu passar, maldita Annelise... – a
raiva na respiração cessa e o sentimento retorna novamente – Meu amor
Anneliese...
Com as mãos no rosto, ele sussurra por fim. “Queria tanto te ver agora...”.
Satisfeito com seu ato, Gunther se arruma e caminha novamente pelas ruas
berlinenses. A tontura o desorienta, mas algo o incomoda atrás dele.
Virando-se, ele olha para o fim da rua e tem a impressão de vê-la tremer. O som
abafado é ouvido e, ao olhar para uma poça d’água no chão, ele nota a vibração
ao ritmo de passos.
O rapaz se confunde. “O que poderia ser tão grande para causar tal
impressão?”, pensa ele. “Estariam os soviéticos testando um novo armamento tão
grande como um, eu não sei... Tiranossauro Rex?”.
De repente suas suspeitas se esclarecem. Petrificado de horror, ele vê
uma mulher gigante se aproximando no fim da rua. Tão alta como os próprios prédios, suas
pernas tropeçam nos postes, destruindo-os, e seus passos esmagam os apertados
carros russos como se fossem de papel.
Gunther está pálido de medo. A mulher se agacha perto dele e diz:
- Olá, Gunther.
O enorme rosto dela se revela e o rapaz a reconhece.
- Anneliese...?!
- Você queria me ver?
O rapaz vê que ela veste um vestido branco e nada mais. Seus cabelos estão
soltos e seus pés descalços no asfalto.
- Mein Gott... – se espanta ele – O que é você...?
- Sou o seu amor Anneliese. Não foi isso o que disse minutos atrás?
- Não! – responde ele – Você não é Anneliese... Você é um monstro...!
Percebendo a rejeição, a gigante levanta sua mão e intenta esmaga-lo.
Gunther se lança para trás pouco antes de ter seu corpo destruído pela mulher.
Uma cratera se forma sob o punho dela, quebrando a calçada e fazendo a água
jorrar dos tubos no piso.
Vendo que ela se prepara para golpeá-lo de novo, o rapaz se arrasta para
trás e levanta-se, correndo desesperadamente.
- Você não disse que queria me ver? Mas só se esqueceu de dizer “como”?
A gigante ri. O rapaz corre por sua vida. A embriaguez parece se amenizar
com a explosão de adrenalina em seu corpo.
- E lá vai você, correndo de sua nova condição de realidade, vagando
entre os planos de existência, vítima de seu próprio desejo... – comenta ela,
deixando-o confuso.
De repente ele ouve um estrondo atrás de si. A gigante havia lançado um
carro nele, fazendo-o se estraçalhar entre uma árvore e a parede de um prédio.
- “Eu precisava muito te ver, Anneliese”. – diz ela – “Por que eu te
amo”.
Gunther se lembra dessa conversa. Foi o que ele mesmo disse horas atrás.
- “Eu meu apaixonei por você. Na verdade, acho que eu já te amava desde
os tempos do colégio”. – repete ela.
- Me deixe em paz!
O rapaz tropeça e cai. O efeito do álcool ainda é muito forte e ele não
consegue se levantar. Aproximando-se, a gigante se agacha e o encara
diretamente nos olhos. O coração de Gunther pulsa tão forte que parece que vai
sair pela boca. Então a gigante ri.
- Você é tão pequeno que eu poderia inseri-lo em minha vagina.
Apavorando-se, ele se levanta e corre novamente.
Alguns quarteirões mais adiante, ele alcança o centro nevrálgico de
Berlim Oriental, o famoso Alexanderplatz. Atravessando-o, ele vê a vasta praça
com seus inconfundíveis pontos turísticos. À sua esquerda, ele encontra um
grupo de pessoas conversando e, ao se aproximar, nota que são turistas
ouvindo seu guia turístico.
“Mas que estranho”, pensa ele. “Não está meio tarde para passeios
turísticos?”.
O guia turístico diz:
- Neste local, originalmente, havia uma feira de gado e por isto se
chamava Ochsenmarkt ou Ochsenplatz. Em novembro de 1805, recebeu seu nome atual
devido à homenagem ao czar russo Alexander I, que havia visitado a cidade
em 25 de outubro daquele ano, sendo recebido neste local. Atualmente, os
berlinenses a chamam pelo nome abreviado de Alex”.
Mas ao olhar melhor, Gunther vê que aquelas pessoas não tem rosto. Ele
tropeça com o susto, perplexo ao ver aquelas faces lisas como as de um
manequim. A gigante surge atrás deles e, com seu pé, os esmaga impiedosamente.
O rapaz se levanta e continua a fugir.
Passando pela Fonte da Amizade Internacional, ele bebe um pouco daquela
água, sem se importar com a limpeza, assim recuperando o fôlego. Então ele ouve
uma voz vindo do chão. Intrigado, ele olha para baixo e vê a cabeça do guia
turístico, com seu liso rosto sem olhos, nariz e boca, dizendo:
- A Brunnen der Völkerfreundschaft[3]
tem cerca de 23 metros de diâmetro e também é um orgulho arquitetônico da
República Democrática Alemã”.
Deixando aquela cabeça para trás, ele se afasta dali. A gigante aparece
logo em seguida, parando ao lado da fonte. Ela se agacha e pergunta para
Gunther:
- Você quer que eu passe um pouco de água no meu vestido para você ver
melhor os meus seios? – então ela molha seu peito, deixando seus mamilos mais
sobressalientes e visíveis sob a roupa.
O rapaz chega ao local onde o famoso Relógio Mundial Urânia se encontra.
Uma plaqueta com a forma da cabeça do guia turístico diz:
- O relógio foi construído em 1969, pouco antes do aniversário de 20
anos da RDA, e marca o horário de 148 grandes cidades do mundo.
Ao olhar para o fascinante monumento, Gunther nota aquela exótica
aparência de átomo no topo, mas há algo estranho nos relógios. Ao invés de
mostrar as horas, nos respectivos espaços há acontecimentos históricos da
própria vida de Gunther. No relógio ele vê sua data de nascimento, quando
apareceu seu primeiro dente, quando entrou na escola infantil, quando se
masturbou pela primeira vez... Arregalando os olhos, ele se afasta.
- Então você está aí, meu amor?
A gigante olha para ele. Gunther foge. A mulher para ao lado do relógio e,
ao ver as horas, diz:
- Boas notícias, Gunther. Aqui consta que eu não estou no meu período
menstrual. Você vai poder me foder esta noite.
- Me deixe em paz! – repete ele.
- O que foi? Não gostou do meu vocabulário? Pensei que você valorizasse
mais minha personalidade do que minha aparência. Afinal, minha falta de estilo,
maquiagem e estética faz com que você mesmo me ache feia.
O rapaz corre em direção à Alexanderplatz Banhof[4].
Ao chegar lá, ele tem uma terrível surpresa. Todos os portões estão fechados.
“Impossível!”, pensa ele. “Tanto os cidadãos quanto a Volkspolizei usam essa
estação 24 horas por dia”.
Alguém fala nos falantes da estação ferroviária. Ele reconhece a voz do
guia turístico sem face. O guia diz:
“A Alexanderplatz Banhof foi inaugurada em 7 de fevereiro de 1882 e o
hall da estação, com suas duas plataformas e quatro linhas, foi construído em
1926. A estação foi fortemente destruída durante a Segunda Guerra Mundial, mas
reabriu seus serviços em 4 de novembro de 1945 enquanto que a reconstrução de
seu hall durou até 1951”.
O guia continua narrando a história do local, mas Gunther não quer dar atenção.
A gigante se aproxima. Apavorado, o rapaz se põe de costas contra a parede
como uma lagartixa. Ao seu lado ele ouve um telefone público tocar. Sua
respiração estava tão alta que ele mal consegue ouvir o toque. Alcançado o
telefone, ele o atende.
- Socorro! – grita ele.
- Gunther, suba a Fernsehrturm[5]!
- Por quê?!
Antes que pudessem responde-lo, a gigante arranca a cabine do chão e, em
seguida, a lança contra a cidade. O rapaz aproveita para fugir.
- Não fuja de mim, Gunther! Você não queria ser meu namorado?
O rapaz corre em direção a torre. Cansado e embriagado, ele tropeça e
cai nos degraus de entrada, mas não para de correr. Ao entrar no belo salão,
ele o encontra vazio e deserto, mas com sussurros vindos de todos os cantos.
Aproximando-se do elevador, as portas sinistramente se abrem sozinhas. O rapaz
hesita.
- Quem está aí? – pergunta ele.
Então as portas de entrada se estouram e um braço gigante se estica para
apanha-lo. Em um salto, Gunther se lança dentro do elevador. Em desespero, ele
assiste aquela mão gigante se movendo enquanto as portas lentamente se fecham.
O elevador sobe. O rapaz ouve sons no lado de fora. Alguma coisa bate
violentamente contra a torre e ele já sabe quem, ou o que, era: Anneliese.
Chegando ao último andar, ele deixa o elevador e percorre o andar onde o
restaurante e o observatório se encontram. Enquanto caminha, uma televisão no
teto se acende e aquele guia turístico sem face diz:
“Construída entre 1965 e 1969, a Torre de Televisão foi intencionalmente
erigida como um símbolo da cidade e do poder comunista. Com altura de 368 metros,
a torre permanece como a maior estrutura da Alemanha. Em 1979, a RDA concedeu à
torre o título de monumento cultural e histórico que permanece até os dias de
hoje”.
A torre treme. Ao ver uma luneta, o rapaz tem vontade de olhar através
dela. Para sua surpresa, não é a cidade de Berlim que ele vê, mas a inexorável
gigante escalando a torre.
- A maldita é um King Kong...?! – intriga-se ele.
- King Kong?! – exclama ela – Além de feia, é disso que você me chama?
Gunther não acredita. “Ela consegue me ouvir?!”, pensa ele.
Sobre o balcão, um telefone toca. Correndo para atende-lo, suas mãos
seguram o receptor, mas antes de leva-lo ao rosto, as janelas se estilhaçam em
milhares de pedaços. Protegendo-se, o rapaz olha para trás e vê as mãos da
gigante segurando a beirada do restaurante e seus olhos surgindo logo depois,
furiosamente encarando-o.
O rapaz está paralisado. A gigante estica seu braço com a intenção de
despedaça-lo com as unhas.
- Das ist mein Ende[6]...
– sussurra ele, impotente diante da morte.
Então, mãos plásticas surgem do receptor e, agarrando seu rosto, o puxam
para dentro do telefone. Distraído demais para entender, o rapaz não percebe
que seu corpo havia se transformado em uma energia maleável e esverdeada,
sugada para dentro do aparelho e transportada pelas linhas de transmissão telefônicas
debaixo de toda Berlim.
O quarto de Gunther está escuro e deserto. No meio da noite, apenas a
luz do holofote de vigilância passa por sua janela. De repente o telefone se
mexe e o rapaz é catapultado para fora do receptor, caindo desajeitado sobre
sua cama.
Ainda tomado pelo susto, ele vomita várias vezes no piso. Em lamentação ele sabe que aquele cheiro horrível demorará semanas para sair dali. Erguendo sua cabeça, ele se espanta ao ver alguém parado na
soleira de seu quarto. Ele o reconhece, é o guia turístico e sem rosto de
momentos atrás.
Ainda olhando para ele, o guia alegremente conclui:
- E esta foi a famosa Alexanderplatz!
[1]
Rosa sangrenta
[2] O
que você disse?
[3]
Fonte da Amizade Internacional
[4]
Estação Ferroviária
[5] Torre
de televisão
[6]
Este é o meu fim

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